Edição 1833 . 17 de dezembro de 2003

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Ministério
Isso, ministro. Relaxa

Como é a vida do ministro da Justiça,
titular de uma pasta que tritura biografias


Maurício Lima


Ana Araujo
Thomaz Bastos, num raro momento de tranqüilidade: massagem uma vez por semana

A fotografia acima retrata um raro momento em que o ministro Márcio Thomaz Bastos, responsável pela Pasta da Justiça, consegue relaxar. A imagem foi feita às 8 e meia da noite da última terça-feira, durante sessão de massagem a que ele se submete semanalmente. Vestindo uma sunga (a da terça-feira passada era verde), o ministro chega a dormir enquanto as mãos experientes de Vanilda Cândida de Oliveira espalham óleo por seu corpo. No resto do tempo, Thomaz Bastos precisa manter os olhos bem abertos para enfrentar a extensa lista de problemas que sua pasta administra. Quando estoura uma rebelião de presos em Bangu, cabe a ele supervisionar os desdobramentos do motim. Se surgem denúncias contra juízes, Thomaz Bastos deve satisfações sobre os rumos da reforma do Judiciário. Quando índios estão prestes a invadir uma cidade e prometem matar os posseiros do lugar, ele precisa entrar em ação. Combate ao tráfico de drogas, relacionamento com o Judiciário, reforço da segurança pública, investigação de assassinatos, conflitos na fronteira, construção de presídios – eis alguns itens do cotidiano do ministério. "O stress relacionado ao cargo só quem passou por aqui conhece", diz Márcio Thomaz Bastos, que, aos 68 anos, chega a trabalhar até catorze horas por dia.

Na Pasta da Agricultura, Roberto Rodrigues pode festejar anualmente safras que se superam. Ainda que não seja o único responsável pelo feito, Cristovam Buarque, da Educação, tem o direito de anunciar quedas nas taxas de analfabetismo. Até o ministro Antonio Palocci pode produzir notícias positivas. No Ministério da Justiça, nada disso acontece. "Eu praticamente só lido com notícias ruins. É da lógica desse cargo", comenta Thomaz Bastos. Por causa dessa dificuldade, o tempo médio de permanência dos titulares é, historicamente, de apenas dez meses e meio. Os dados oficiais informam que o Brasil teve 206 ministros da Justiça desde a criação do cargo, em 1822. Nos oito anos da administração Fernando Henrique, a Justiça foi dirigida por nove ministros. Só para efeito de comparação, a média de permanência na Fazenda, outra cadeira de alto poder ejetável, é um ano e meio. Thomaz Bastos está quebrando essa média no Ministério da Justiça agora em dezembro.


Ana Araujo
Café com Gushiken e Berzoini: acerto de operação para prender fraudadores da Previdência

Se o ministro da Justiça atendesse a todos os pedidos de verbas dos políticos, teria de assinar semanalmente cheques no valor de 1 bilhão de reais. Em geral, autoriza "apenas" 100 milhões de reais. Outro problema comum é de natureza política. Numa audiência recente, recebeu o governador petista Flamarion Portela, de Roraima, cujo nome acabou envolvido num escândalo de corrupção. O governador pediu que a Polícia Federal não fizesse estardalhaço na apuração das denúncias em seu Estado. Com muito jeito, o ministro lhe deu um conselho: desfiliar-se do PT. Na semana passada, lá estava Márcio Thomaz Bastos administrando outro conflito, dessa vez com os militares. A história começou com uma decisão da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, que deu o direito de aposentadoria especial ao ex-tenente do Exército Apolônio de Carvalho, de 92 anos, a título de reparação por ter sido perseguido e torturado durante o regime militar de 1964. Militante do Partido Comunista Brasileiro, Apolônio de Carvalho foi expulso do Exército na ditadura Vargas e deixou o país. Juntando-se a voluntários de 53 nacionalidades, integrou as forças que acabaram derrotadas na tentativa de combater o general Franco durante a Guerra Civil Espanhola. Na II Guerra, incorporou-se à Resistência francesa. Nos anos 1970, envolvido com a guerrilha no Brasil, acabou preso e submetido a sessões de tortura. Deixou a prisão e foi para a Argélia, em troca da libertação do embaixador da Alemanha, que havia sido seqüestrado. Com a anistia, Apolônio retornou ao Brasil em 1979 e no ano seguinte participou da fundação do PT.


Ana Araujo
Thomaz Bastos saindo do helicóptero com Paulo Lacerda, da Polícia Federal: duas viagens por semana

Na cerimônia em que a decisão foi anunciada, o ministro Márcio Thomaz Bastos sugeriu que Apolônio de Carvalho não apenas tivesse direito à recompensa econômica, mas fosse promovido a general. "Apolônio de Carvalho lutou todas as lutas que valeram a pena no século passado. Seu sonho de liberdade nunca obscureceu seu sonho de igualdade", declarou Thomaz Bastos. "Tenho a honra de encaminhar esse pedido ao presidente." A declaração melindrou os generais e provocou a reação do ministro da Defesa, José Viegas. Segundo ele, as promoções do Exército obedecem a um ritual. Os novos generais são escolhidos pelo presidente da República entre as opções entregues pelo Exército em forma de lista tríplice. "Essa foi a razão pela qual essa menção não pareceu oportuna", afirma o ministro Viegas. Ao conceder a aposentadoria a Apolônio de Carvalho, o ministro da Justiça resolveu um problema. Ao tentar fazer um gesto de generosidade e promovê-lo, Thomaz Bastos acabou criando outro. Difícil a vida do ministro da Justiça.


Ana Araujo
Audiência com a senadora Patrícia Gomes: denúncia sobre exploração sexual de crianças será investigada

Thomaz Bastos acorda em torno de 5 e meia da manhã, dá uma olhada nos jornais e caminha durante quarenta minutos. Às 8 horas, costuma tomar café com subordinados ou com outros ministros. Há alguns dias, Bastos esteve com Luiz Gushiken, da Secretaria de Comunicação de Governo, e com Ricardo Berzoini, da Previdência. O encontro serviu para acertar a participação da Polícia Federal numa megaoperação que a Previdência fará contra fraudadores. Às 9 horas, Bastos convoca uma reunião com todas as secretarias de seu ministério e dedica o resto da manhã a assuntos internos de sua pasta. Na parte da tarde, recebe parlamentares e autoridades.


Ana Araujo
Discurso de cacique da tribo xavante: problema dos índios causou discordância entre Thomaz Bastos e José Alencar

Muitos ministros da Justiça chegam ao cargo em decorrência de um mero arranjo político, e mais tarde acabam saindo sem deixar saudade, como aconteceu com o atual senador Renan Calheiros, que ocupou a pasta no governo Fernando Henrique Cardoso. Outros são escolhidos pelo notável saber jurídico, mas a falta de intimidade com os assuntos da política torna a permanência insustentável. Ao contrário de seus antecessores no cargo, Thomaz Bastos reúne credenciais que podem facilitar sua permanência no ministério. A primeira delas é a proximidade com a cúpula petista. Os pais de Thomaz Bastos foram padrinhos de casamento dos pais de José Dirceu. Ele também já advogou para o ministro Antonio Palocci e acompanha Lula desde a primeira campanha à Presidência da República. A intimidade entre presidente e ministro pode ser medida pelo tratamento. Nas conversas reservadas, que acontecem diariamente, em geral no fim do expediente, ele chama o presidente por "você". Reserva o tratamento "presidente" para as ocasiões em que há outras pessoas presentes ao encontro.

 


 
 
 
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