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Ministério
Isso,
ministro. Relaxa
Como
é a vida do ministro da Justiça,
titular de uma pasta que tritura biografias

Maurício
Lima
Ana Araujo
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| Thomaz
Bastos, num raro momento de tranqüilidade: massagem uma vez
por semana |
A fotografia
acima retrata um raro momento em que o ministro Márcio Thomaz
Bastos, responsável pela Pasta da Justiça, consegue
relaxar. A imagem foi feita às 8 e meia da noite da última
terça-feira, durante sessão de massagem a que ele
se submete semanalmente. Vestindo uma sunga (a da terça-feira
passada era verde), o ministro chega a dormir enquanto as mãos
experientes de Vanilda Cândida de Oliveira espalham óleo
por seu corpo. No resto do tempo, Thomaz Bastos precisa manter os
olhos bem abertos para enfrentar a extensa lista de problemas que
sua pasta administra. Quando estoura uma rebelião de presos
em Bangu, cabe a ele supervisionar os desdobramentos do motim. Se
surgem denúncias contra juízes, Thomaz Bastos deve
satisfações sobre os rumos da reforma do Judiciário.
Quando índios estão prestes a invadir uma cidade e
prometem matar os posseiros do lugar, ele precisa entrar em ação.
Combate ao tráfico de drogas, relacionamento com o Judiciário,
reforço da segurança pública, investigação
de assassinatos, conflitos na fronteira, construção
de presídios eis alguns itens do cotidiano do ministério.
"O stress relacionado ao cargo só quem passou por aqui conhece",
diz Márcio Thomaz Bastos, que, aos 68 anos, chega a trabalhar
até catorze horas por dia.
Na
Pasta da Agricultura, Roberto Rodrigues pode festejar anualmente
safras que se superam. Ainda que não seja o único
responsável pelo feito, Cristovam Buarque, da Educação,
tem o direito de anunciar quedas nas taxas de analfabetismo. Até
o ministro Antonio Palocci pode produzir notícias positivas.
No Ministério da Justiça, nada disso acontece. "Eu
praticamente só lido com notícias ruins. É
da lógica desse cargo", comenta Thomaz Bastos. Por causa
dessa dificuldade, o tempo médio de permanência dos
titulares é, historicamente, de apenas dez meses e meio.
Os dados oficiais informam que o Brasil teve 206 ministros da Justiça
desde a criação do cargo, em 1822. Nos oito anos da
administração Fernando Henrique, a Justiça
foi dirigida por nove ministros. Só para efeito de comparação,
a média de permanência na Fazenda, outra cadeira de
alto poder ejetável, é um ano e meio. Thomaz Bastos
está quebrando essa média no Ministério da
Justiça agora em dezembro.
Ana Araujo
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| Café
com Gushiken e Berzoini: acerto de operação para prender fraudadores
da Previdência |
Se
o ministro da Justiça atendesse a todos os pedidos de verbas
dos políticos, teria de assinar semanalmente cheques no valor
de 1 bilhão de reais. Em geral, autoriza "apenas" 100 milhões
de reais. Outro problema comum é de natureza política.
Numa audiência recente, recebeu o governador petista Flamarion
Portela, de Roraima, cujo nome acabou envolvido num escândalo
de corrupção. O governador pediu que a Polícia
Federal não fizesse estardalhaço na apuração
das denúncias em seu Estado. Com muito jeito, o ministro
lhe deu um conselho: desfiliar-se do PT. Na semana passada, lá
estava Márcio Thomaz Bastos administrando outro conflito,
dessa vez com os militares. A história começou com
uma decisão da Comissão de Anistia do Ministério
da Justiça, que deu o direito de aposentadoria especial ao
ex-tenente do Exército Apolônio de Carvalho, de 92
anos, a título de reparação por ter sido perseguido
e torturado durante o regime militar de 1964. Militante do Partido
Comunista Brasileiro, Apolônio de Carvalho foi expulso do
Exército na ditadura Vargas e deixou o país. Juntando-se
a voluntários de 53 nacionalidades, integrou as forças
que acabaram derrotadas na tentativa de combater o general Franco
durante a Guerra Civil Espanhola. Na II Guerra, incorporou-se à
Resistência francesa. Nos anos 1970, envolvido com a guerrilha
no Brasil, acabou preso e submetido a sessões de tortura.
Deixou a prisão e foi para a Argélia, em troca da
libertação do embaixador da Alemanha, que havia sido
seqüestrado. Com a anistia, Apolônio retornou ao Brasil
em 1979 e no ano seguinte participou da fundação do
PT.
Ana Araujo
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| Thomaz
Bastos saindo do helicóptero com Paulo Lacerda, da Polícia Federal:
duas viagens por semana |
Na
cerimônia em que a decisão foi anunciada, o ministro
Márcio Thomaz Bastos sugeriu que Apolônio de Carvalho
não apenas tivesse direito à recompensa econômica,
mas fosse promovido a general. "Apolônio de Carvalho lutou
todas as lutas que valeram a pena no século passado. Seu
sonho de liberdade nunca obscureceu seu sonho de igualdade", declarou
Thomaz Bastos. "Tenho a honra de encaminhar esse pedido ao presidente."
A declaração melindrou os generais e provocou a reação
do ministro da Defesa, José Viegas. Segundo ele, as promoções
do Exército obedecem a um ritual. Os novos generais são
escolhidos pelo presidente da República entre as opções
entregues pelo Exército em forma de lista tríplice.
"Essa foi a razão pela qual essa menção não
pareceu oportuna", afirma o ministro Viegas. Ao conceder a aposentadoria
a Apolônio de Carvalho, o ministro da Justiça resolveu
um problema. Ao tentar fazer um gesto de generosidade e promovê-lo,
Thomaz Bastos acabou criando outro. Difícil a vida do ministro
da Justiça.
Ana Araujo
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| Audiência
com a senadora Patrícia Gomes: denúncia sobre exploração sexual
de crianças será investigada |
Thomaz
Bastos acorda em torno de 5 e meia da manhã, dá uma
olhada nos jornais e caminha durante quarenta minutos. Às
8 horas, costuma tomar café com subordinados ou com outros
ministros. Há alguns dias, Bastos esteve com Luiz Gushiken,
da Secretaria de Comunicação de Governo, e com Ricardo
Berzoini, da Previdência. O encontro serviu para acertar a
participação da Polícia Federal numa megaoperação
que a Previdência fará contra fraudadores. Às
9 horas, Bastos convoca uma reunião com todas as secretarias
de seu ministério e dedica o resto da manhã a assuntos
internos de sua pasta. Na parte da tarde, recebe parlamentares e
autoridades.
Ana Araujo
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| Discurso
de cacique da tribo xavante: problema dos índios causou discordância
entre Thomaz Bastos e José Alencar |
Muitos
ministros da Justiça chegam ao cargo em decorrência
de um mero arranjo político, e mais tarde acabam saindo sem
deixar saudade, como aconteceu com o atual senador Renan Calheiros,
que ocupou a pasta no governo Fernando Henrique Cardoso. Outros
são escolhidos pelo notável saber jurídico,
mas a falta de intimidade com os assuntos da política torna
a permanência insustentável. Ao contrário de
seus antecessores no cargo, Thomaz Bastos reúne credenciais
que podem facilitar sua permanência no ministério.
A primeira delas é a proximidade com a cúpula petista.
Os pais de Thomaz Bastos foram padrinhos de casamento dos pais de
José Dirceu. Ele também já advogou para o ministro
Antonio Palocci e acompanha Lula desde a primeira campanha à
Presidência da República. A intimidade entre presidente
e ministro pode ser medida pelo tratamento. Nas conversas reservadas,
que acontecem diariamente, em geral no fim do expediente, ele chama
o presidente por "você". Reserva o tratamento "presidente"
para as ocasiões em que há outras pessoas presentes
ao encontro.
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