Edição 1833 . 17 de dezembro de 2003

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Presidência
A turnê de Lula
pelas ditaduras

A viagem do presidente não traz ganho
comercial e o prejuízo político só não é maior
pela irrelevância do Brasil nas questões que
realmente importam no mundo árabe


Eurípedes Alcântara


Dida Sampaio/AE
Lula com gorro líbio
Notícias diárias sobre o governo Lula


Duas coisas o governo Lula tem de ruim. A primeira é sua política social, que até hoje não se viu em que consiste. A outra é a diplomacia, que já deu perfeitamente para ver do que é feita. No campo da política externa, o governo brasileiro tem a pretensão grandiloqüente de alterar a "geografia" do poder e do comércio internacional. Na vida real, a ação política de Brasília no setor externo é apenas insignificante, quando não grotesca. A turnê do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelos países árabes na semana passada teve ambas as características. Lula foi às Arábias tentar obter a simpatia dos turbantes para a formação de um clube de países do Terceiro Mundo que possa pressionar as nações ricas nas disputas pelo comércio e pelo poder no mundo. No círculo dos países poderosos, que os assessores diplomáticos de Lula querem enfrentar com seu bloco terceiro-mundista, a repercussão da viagem dos brasileiros foi nula. Nos países árabes, a visita criou oportunidades das mil e uma noites para festas de arromba, com danças ritualísticas, aspergimento de essências aromáticas e até uma conferência realizada dentro de uma tenda beduína. Mas nada disso teve reflexo positivo algum para a economia ou para a imagem brasileira no exterior.

Ao contrário, fica-se sem entender por que razão os sábios da diplomacia brasileira arrastaram o presidente da República a uma excursão exótica por países governados por ditadores. Um deles é o espalhafatoso coronel Muamar Kadafi, ditador perpétuo da Líbia, que durante trinta anos financiou o terrorismo internacional. Num palco que reunia representantes das nações da região, a Liga dos Países Árabes, Lula pareceu esquecer-se de onde estava e falou em democracia, sob o pretexto de criticar os países ricos que seriam, em sua análise, antidemocráticos na distribuição de poder dentro do Conselho de Segurança da ONU. Democracia é um conceito que engatinha nas partes mais arejadas do mundo árabe. Na Líbia e na Síria, democracia é uma reivindicação que dá cadeia. Entre os países visitados por Lula e comitiva, só o Líbano vive sob um regime que pode ser considerado representativo, mesmo que vigiado por tropas sírias atentas em garantir que a democracia não atrapalhe os interesses de Damasco no país.


Dida Sampaio/AE
Celso Lafer com FHC: "visão sindicalista de operário versus patrão" é um erro

Os caminhos atuais da diplomacia brasileira são definidos por um grupo que, no passado, foi batizado de "turma dos barbudinhos". A definição foi obra do embaixador dos Estados Unidos no Brasil Anthony Motley, que serviu em Brasília entre 1981 e 1983. A "turma dos barbudinhos" era composta de diplomatas nacionalistas. A intenção de Motley era pejorativa. O economista Roberto Campos, morto há dois anos, grande adversário dos "barbudinhos", tinha intenção mais aguda ainda ao dizer que eles formavam um grupo de burocratas sem senso crítico, "um caso perdido de incompetência treinada". O grupo teve grande projeção durante o regime militar, particularmente no governo de Ernesto Geisel (1974-1979). Está novamente em ascensão na diplomacia brasileira com o apoio do assessor de política externa de Lula, Marco Aurélio Garcia. Seus integrantes não são petistas nem esquerdistas de origem. "Eles são competentes, mas soam um tanto infantis no discurso antiamericano pois sabem que na prática nada podem fazer", diz Paulo Tarso Flecha de Lima, que foi chanceler e embaixador do Brasil em Londres e Washington. Hoje, os representantes do grupo nacionalista ocupam postos-chave no Itamaraty, a começar pelo próprio chanceler Celso Amorim, cuja carreira diplomática tem quase quatro décadas. No governo do general João Figueiredo, Amorim foi diretor-geral da Embrafilme, uma estatal cujo objetivo era obrigar por lei os brasileiros a pagar a produção de filmes nacionais e, depois, obrigá-los também por lei a assistir a eles. O grupo se define como defensor da PEI – política externa independente. Independente, é claro, dos Estados Unidos – mesmo que, no intervalo, se possam perfeitamente fazer declarações deslumbradas em benefício de ditadores como Kadafi e o sírio Bashar Assad. O último do grupo a ascender na carreira foi o embaixador Roberto Abdenur, escalado para assumir o posto de embaixador do Brasil em Washington no ano que vem. Amigo do chanceler Amorim, Abdenur, além da barba, tem outras afinidades com o chefe. No governo de Itamar Franco (1992-1994), Roberto Abdenur foi secretário-geral de Celso Amorim, que ocupou o posto de chanceler. Quando dava as cartas na política externa no período militar, esse grupo tentou aproximar o Brasil da África e aderiu ao bloco dos países "não-alinhados", cuja ação era sempre muito alinhada quando se tratava de condenar os Estados Unidos e fazer vista grossa aos desmandos da extinta União Soviética.

Milton Michida/AE
Amorim: assessor de Lula é mentor da política externa


Na semana passada, o Brasil sediou um encontro de dois dias com peso diplomático específico muito maior do que a alegre excursão de Lula pelas Arábias. Representantes de dezoito países, que integram o GX, desembarcaram em Brasília para participar de seis reuniões de trabalho e se encontraram com o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Supachai Panitchpakdi, e com o comissário de Comércio da União Européia, Pascal Lamy. Formado por países em desenvolvimento, o grupo foi criado nas vésperas da última reunião da OMC no balneário mexicano de Cancún, há três meses, tendo, na época, dezesseis integrantes. Chegou a ter 22 membros ainda durante o encontro no México e, na semana passada, contava com dezenove países – daí o apelido, GX, que se deve à permanente dança dos números. Seu principal objetivo é arrancar dos Estados Unidos e da União Européia um acordo global de comércio que leve em conta os interesses dos países em desenvolvimento. Como as nações ricas fizeram ouvidos de mercador, a reunião de Cancún redundou num fracasso estrondoso. O encontro em Brasília tentou achar uma solução para o impasse. Sua simples realização atesta que aos países ricos também não interessa um impasse nas discussões sobre o livre-comércio.

Nas últimas três décadas, o mundo mudou substancialmente. No plano econômico, acelerou-se o processo de globalização. No plano político, acabaram-se a Guerra Fria, o Muro de Berlim e a bipolaridade ideológica, que repartia os países entre pró-americanos e pró-soviéticos. Tudo mudou, mas a política externa brasileira continua refletindo o passado. Lula foi a Cuba, à África e agora excursionou pelo paraíso das ditaduras árabes. Os resultados econômicos dessas viagens são diminutos. O prejuízo político só não é maior pela irrelevância das posições brasileiras a respeito do andamento das questões significativas para o mundo naquela região – o combate ao terrorismo e a modernização institucional. Em Genebra, onde estava na semana passada a serviço da ONU, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse simplesmente que a viagem de Lula era "muito mais uma questão de barulho do que de política externa. Celso Lafer, que foi chanceler de FHC, estendeu-se mais sobre o significado da excursão às Arábias. "Se o governo Lula transpuser para a política externa sua visão sindicalista de operário versus patrão, acho que há o risco de complicar a vida", disse. "O cenário internacional é um pouco mais complexo, mais diversificado e mais pluralista que isso." Lafer criticou o excesso de peso internacional que a diplomacia brasileira vem se atribuindo. Conclui: "Em política externa não podemos subestimar mas também não podemos superestimar o que você significa para os outros países. Temos influência e respeitabilidade. Para exercê-las, é preciso ter medida e não pretensão".

Com reportagem de Policarpo Junior
e Alexandre Oltramari

 

Lula está igual a Fernando Henrique Cardoso

Na semana passada foram anunciados os resultados de mais uma pesquisa sobre a popularidade do presidente Lula. Dos entrevistados, 41% aprovam o governo e 13% reprovam. Em pesquisas de opinião pública como essa, aprovar quer dizer classificar a gestão como boa ou ótima. E reprovar significa chamá-la de ruim ou péssima. Não aparecem nessa conta, nem interessa muito aos estudiosos de pesquisa, o contingente dos que acham o governo regular. Com essa rodada já é possível analisar a curva da popularidade de Lula, que surpreendeu muita gente. Vários especialistas apostavam que as dificuldades no campo econômico, os embates difíceis no Congresso Nacional em torno das reformas e o orçamento apertado levariam Lula a fechar o primeiro ano com a imagem arranhada. Não foi o que aconteceu. O presidente se mantém basicamente no mesmo patamar aferido após a posse. Os analistas lembram que aconteceu algo parecido na gestão de Fernando Henrique Cardoso. Em pesquisa realizada em novembro de 1995, Fernando Henrique era aprovado por 43% dos eleitores e reprovado por 15%. Como essas pesquisas contêm certa margem de erro, pode-se dizer que Lula e FHC chegaram ao fim do primeiro ano num patamar de aprovação semelhante. Os dados mostram mais do que isso. Eles indicam que Lula e Fernando Henrique Cardoso trilharam uma curva numérica parecida quando se consideram a primeira e a última pesquisa do primeiro ano de governo.


Em parte, a semelhança nas taxas de aprovação de Lula e de FHC se explica por um comportamento conhecido da opinião pública, que tende a ser menos rigorosa na avaliação dos governantes no começo do mandato. Como é reconhecidamente difícil montar uma equipe ministerial qualificada, os políticos ganham um crédito do eleitor. No começo do governo, as esperanças em relação ao cumprimento das promessas de campanha estão mais vivas na cabeça das pessoas. Os eleitores não julgam o político só pelo que ele está fazendo, mas também pelo que poderá fazer. Para os governantes, o grande desafio é prolongar ao máximo a lua-de-mel com a sociedade. Presidentes sem apoio da população perdem força para negociar com o Congresso e têm mais dificuldades para aprovar os projetos de seu interesse. Foi o que aconteceu com Itamar Franco, cuja taxa de aprovação no fim do primeiro ano era de míseros 13%.

A semelhança entre as curvas de popularidade não autoriza ninguém a comparar Lula a FHC. O primeiro ano de FHC foi extraordinário para o Brasil. Havia o Plano Real, as pessoas tiveram aumento efetivo de renda, a oferta de empregos aumentou e o produto interno bruto registrou crescimento significativo. Já o primeiro ano de Lula tem sido sofrido. A taxa de desemprego é recorde, a economia se estagnou e a queda na renda é brutal. E ainda assim, com panoramas distintos, os dois atingiram a mesma pontuação. Trata-se de um feito do atual presidente. O desafio, no entanto, começa agora. Não há notícia de presidente que consiga manter altas de popularidade sem oferecer melhoras na economia. Pode demorar mais, ou menos, mas se nada for feito a rejeição aparecerá.

 

 
 
 
 
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