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Presidência
A
turnê de Lula
pelas ditaduras
A
viagem do presidente não traz ganho
comercial e o prejuízo político só não
é maior
pela irrelevância do Brasil nas questões que
realmente importam no mundo árabe

Eurípedes Alcântara
Dida Sampaio/AE
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| Lula
com gorro líbio |
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Duas coisas o governo Lula tem de ruim. A primeira é sua
política social, que até hoje não se viu em
que consiste. A outra é a diplomacia, que já deu perfeitamente
para ver do que é feita. No campo da política externa,
o governo brasileiro tem a pretensão grandiloqüente
de alterar a "geografia" do poder e do comércio internacional.
Na vida real, a ação política de Brasília
no setor externo é apenas insignificante, quando não
grotesca. A turnê do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva pelos países árabes na semana passada teve ambas
as características. Lula foi às Arábias tentar
obter a simpatia dos turbantes para a formação de
um clube de países do Terceiro Mundo que possa pressionar
as nações ricas nas disputas pelo comércio
e pelo poder no mundo. No círculo dos países poderosos,
que os assessores diplomáticos de Lula querem enfrentar com
seu bloco terceiro-mundista, a repercussão da viagem dos
brasileiros foi nula. Nos países árabes, a visita
criou oportunidades das mil e uma noites para festas de arromba,
com danças ritualísticas, aspergimento de essências
aromáticas e até uma conferência realizada dentro
de uma tenda beduína. Mas nada disso teve reflexo positivo
algum para a economia ou para a imagem brasileira no exterior.
Ao
contrário, fica-se sem entender por que razão os sábios
da diplomacia brasileira arrastaram o presidente da República
a uma excursão exótica por países governados
por ditadores. Um deles é o espalhafatoso coronel Muamar
Kadafi, ditador perpétuo da Líbia, que durante trinta
anos financiou o terrorismo internacional. Num palco que reunia
representantes das nações da região, a Liga
dos Países Árabes, Lula pareceu esquecer-se de onde
estava e falou em democracia, sob o pretexto de criticar os países
ricos que seriam, em sua análise, antidemocráticos
na distribuição de poder dentro do Conselho de Segurança
da ONU. Democracia é um conceito que engatinha nas partes
mais arejadas do mundo árabe. Na Líbia e na Síria,
democracia é uma reivindicação que dá
cadeia. Entre os países visitados por Lula e comitiva, só
o Líbano vive sob um regime que pode ser considerado representativo,
mesmo que vigiado por tropas sírias atentas em garantir que
a democracia não atrapalhe os interesses de Damasco no país.
Dida Sampaio/AE
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| Celso
Lafer com FHC: "visão sindicalista de operário versus patrão"
é um erro |
Os
caminhos atuais da diplomacia brasileira são definidos por
um grupo que, no passado, foi batizado de "turma dos barbudinhos".
A definição foi obra do embaixador dos Estados Unidos
no Brasil Anthony Motley, que serviu em Brasília entre 1981
e 1983. A "turma dos barbudinhos" era composta de diplomatas nacionalistas.
A intenção de Motley era pejorativa. O economista
Roberto Campos, morto há dois anos, grande adversário
dos "barbudinhos", tinha intenção mais aguda ainda
ao dizer que eles formavam um grupo de burocratas sem senso crítico,
"um caso perdido de incompetência treinada". O grupo teve
grande projeção durante o regime militar, particularmente
no governo de Ernesto Geisel (1974-1979). Está novamente
em ascensão na diplomacia brasileira com o apoio do assessor
de política externa de Lula, Marco Aurélio Garcia.
Seus integrantes não são petistas nem esquerdistas
de origem. "Eles são competentes, mas soam um tanto infantis
no discurso antiamericano pois sabem que na prática nada
podem fazer", diz Paulo Tarso Flecha de Lima, que foi chanceler
e embaixador do Brasil em Londres e Washington. Hoje, os representantes
do grupo nacionalista ocupam postos-chave no Itamaraty, a começar
pelo próprio chanceler Celso Amorim, cuja carreira diplomática
tem quase quatro décadas. No governo do general João
Figueiredo, Amorim foi diretor-geral da Embrafilme, uma estatal
cujo objetivo era obrigar por lei os brasileiros a pagar a produção
de filmes nacionais e, depois, obrigá-los também por
lei a assistir a eles. O grupo se define como defensor da PEI
política externa independente. Independente, é claro,
dos Estados Unidos mesmo que, no intervalo, se possam perfeitamente
fazer declarações deslumbradas em benefício
de ditadores como Kadafi e o sírio Bashar Assad. O último
do grupo a ascender na carreira foi o embaixador Roberto Abdenur,
escalado para assumir o posto de embaixador do Brasil em Washington
no ano que vem. Amigo do chanceler Amorim, Abdenur, além
da barba, tem outras afinidades com o chefe. No governo de Itamar
Franco (1992-1994), Roberto Abdenur foi secretário-geral
de Celso Amorim, que ocupou o posto de chanceler. Quando dava as
cartas na política externa no período militar, esse
grupo tentou aproximar o Brasil da África e aderiu ao bloco
dos países "não-alinhados", cuja ação
era sempre muito alinhada quando se tratava de condenar os Estados
Unidos e fazer vista grossa aos desmandos da extinta União
Soviética.
Milton Michida/AE
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| Amorim:
assessor de Lula é mentor da política externa |
Na semana passada, o Brasil sediou um encontro de dois dias com
peso diplomático específico muito maior do que a alegre
excursão de Lula pelas Arábias. Representantes de
dezoito países, que integram o GX, desembarcaram em Brasília
para participar de seis reuniões de trabalho e se encontraram
com o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio
(OMC), Supachai Panitchpakdi, e com o comissário de Comércio
da União Européia, Pascal Lamy. Formado por países
em desenvolvimento, o grupo foi criado nas vésperas da última
reunião da OMC no balneário mexicano de Cancún,
há três meses, tendo, na época, dezesseis integrantes.
Chegou a ter 22 membros ainda durante o encontro no México
e, na semana passada, contava com dezenove países
daí o apelido, GX, que se deve à permanente dança
dos números. Seu principal objetivo é arrancar dos
Estados Unidos e da União Européia um acordo global
de comércio que leve em conta os interesses dos países
em desenvolvimento. Como as nações ricas fizeram ouvidos
de mercador, a reunião de Cancún redundou num fracasso
estrondoso. O encontro em Brasília tentou achar uma solução
para o impasse. Sua simples realização atesta que
aos países ricos também não interessa um impasse
nas discussões sobre o livre-comércio.
Nas
últimas três décadas, o mundo mudou substancialmente.
No plano econômico, acelerou-se o processo de globalização.
No plano político, acabaram-se a Guerra Fria, o Muro de Berlim
e a bipolaridade ideológica, que repartia os países
entre pró-americanos e pró-soviéticos. Tudo
mudou, mas a política externa brasileira continua refletindo
o passado. Lula foi a Cuba, à África e agora excursionou
pelo paraíso das ditaduras árabes. Os resultados econômicos
dessas viagens são diminutos. O prejuízo político
só não é maior pela irrelevância das
posições brasileiras a respeito do andamento das questões
significativas para o mundo naquela região o combate
ao terrorismo e a modernização institucional. Em Genebra,
onde estava na semana passada a serviço da ONU, o ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso disse simplesmente que a viagem de Lula
era "muito mais uma questão de barulho do que de política
externa. Celso Lafer, que foi chanceler de FHC, estendeu-se mais
sobre o significado da excursão às Arábias.
"Se o governo Lula transpuser para a política externa sua
visão sindicalista de operário versus patrão,
acho que há o risco de complicar a vida", disse. "O cenário
internacional é um pouco mais complexo, mais diversificado
e mais pluralista que isso." Lafer criticou o excesso de peso internacional
que a diplomacia brasileira vem se atribuindo. Conclui: "Em política
externa não podemos subestimar mas também não
podemos superestimar o que você significa para os outros países.
Temos influência e respeitabilidade. Para exercê-las,
é preciso ter medida e não pretensão".
Com
reportagem de Policarpo Junior
e Alexandre Oltramari
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Lula
está igual a Fernando Henrique Cardoso
Na semana passada foram anunciados os resultados de
mais uma pesquisa sobre a popularidade do presidente
Lula. Dos entrevistados, 41% aprovam o governo e 13%
reprovam. Em pesquisas de opinião pública
como essa, aprovar quer dizer classificar a gestão
como boa ou ótima. E reprovar significa chamá-la
de ruim ou péssima. Não aparecem nessa
conta, nem interessa muito aos estudiosos de pesquisa,
o contingente dos que acham o governo regular. Com essa
rodada já é possível analisar a
curva da popularidade de Lula, que surpreendeu muita
gente. Vários especialistas apostavam que as
dificuldades no campo econômico, os embates difíceis
no Congresso Nacional em torno das reformas e o orçamento
apertado levariam Lula a fechar o primeiro ano com a
imagem arranhada. Não foi o que aconteceu. O
presidente se mantém basicamente no mesmo patamar
aferido após a posse. Os analistas lembram que
aconteceu algo parecido na gestão de Fernando
Henrique Cardoso. Em pesquisa realizada em novembro
de 1995, Fernando Henrique era aprovado por 43% dos
eleitores e reprovado por 15%. Como essas pesquisas
contêm certa margem de erro, pode-se dizer que
Lula e FHC chegaram ao fim do primeiro ano num patamar
de aprovação semelhante. Os dados mostram
mais do que isso. Eles indicam que Lula e Fernando Henrique
Cardoso trilharam uma curva numérica parecida
quando se consideram a primeira e a última pesquisa
do primeiro ano de governo.
Em
parte, a semelhança nas taxas de aprovação
de Lula e de FHC se explica por um comportamento conhecido
da opinião pública, que tende a ser menos
rigorosa na avaliação dos governantes
no começo do mandato. Como é reconhecidamente
difícil montar uma equipe ministerial qualificada,
os políticos ganham um crédito do eleitor.
No começo do governo, as esperanças em
relação ao cumprimento das promessas de
campanha estão mais vivas na cabeça das
pessoas. Os eleitores não julgam o político
só pelo que ele está fazendo, mas também
pelo que poderá fazer. Para os governantes, o
grande desafio é prolongar ao máximo a
lua-de-mel com a sociedade. Presidentes sem apoio da
população perdem força para negociar
com o Congresso e têm mais dificuldades para aprovar
os projetos de seu interesse. Foi o que aconteceu com
Itamar Franco, cuja taxa de aprovação
no fim do primeiro ano era de míseros 13%.
A semelhança entre as curvas de popularidade
não autoriza ninguém a comparar Lula a
FHC. O primeiro ano de FHC foi extraordinário
para o Brasil. Havia o Plano Real, as pessoas tiveram
aumento efetivo de renda, a oferta de empregos aumentou
e o produto interno bruto registrou crescimento significativo.
Já o primeiro ano de Lula tem sido sofrido. A
taxa de desemprego é recorde, a economia se estagnou
e a queda na renda é brutal. E ainda assim, com
panoramas distintos, os dois atingiram a mesma pontuação.
Trata-se de um feito do atual presidente. O desafio,
no entanto, começa agora. Não há
notícia de presidente que consiga manter altas
de popularidade sem oferecer melhoras na economia. Pode
demorar mais, ou menos, mas se nada for feito a rejeição
aparecerá.
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