Em
foco: Sergio Abranches
O
consenso chinês
"Quem
aposta na China o faz por sua conta
e risco e talvez não esteja
relatando tudo
para seus acionistas e cotistas"
A próxima
crise global pode ser da China. A China virou moda no mercado global,
em busca de oportunidades mais rentáveis de investimento
do que as lentas economias do mundo maduro. Principalmente depois
do colapso das empresas pontocom. Hoje, absorve mais de 30% do fluxo
global de capitais. As últimas crises Argentina e
Turquia não tiveram contágio. Imaginem o risco
de contágio da erupção numa economia desse
tamanho.
Ilustração Ale Setti
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O que está acontecendo com a China se parece muito com o
que ocorreu com as empresas pontocom e as ações de
alta tecnologia. Elas eram muito mais frágeis e de muito
maior risco do que se dizia, prestes a se desmanchar no ar. É
característica desse mercado globalizado a facilidade com
que aceita certos mitos, quando lhe são convenientes, e se
recusa a ver as verdades mais concretas, quando não lhe interessa.
Pensamos
no "efeito manada" como fuga desabalada, estouro de investidores
assustados, em busca de segurança. Mas sua principal, e mais
inquietante, manifestação é a formação
de "bolhas de consenso", a partir de frágeis premissas sobre
países, empresas ou papéis. Elas alimentam verdadeira
invasão de investidores no(s) mercado(s) emergente(s) da
vez. Pode ser o caso da China agora.
A
China tem muitos atrativos. É um enorme mercado. Não
chega ao mais de 1 bilhão de almas consumidoras dos sonhos
mais exagerados, mas a região das "ilhas de capitalismo"
tem aproximadamente 400 milhões de pessoas. Mercado para
ninguém botar defeito. Um país com enormes carências
de infra-estrutura e recursos suficientes de natureza fiscal
e parafiscal para tocar um megaprograma de obras, atraindo
empreiteiras e investidores.
O
problema é o risco China, subestimado e desprezado pelo consenso
favorável. Qualquer análise superficial da China revela
as fragilidades e contradições que elevam seu risco
para muito além do admitido pelo mercado. Mas a aposta global
hoje é que a China será o primeiro país emergente
a se tornar uma economia desenvolvida. E uma parte aposta que será
a superpotência do futuro, roubando a hegemonia aos Estados
Unidos.
Superpotência
pode ser, mas não antes de resolver suas contradições
profundas. Elas são de tal natureza que é pouco provável
que se resolvam sem rupturas.
O
risco político chinês se desdobra em vários
fatores. Primeiro, a governança ultra-autoritária,
personalista e sem transparência. Um regime que reprime à
força qualquer manifestação pública
de contrariedade e toda demanda por liberdade. A maioria dos investimentos
realizados na China não tem a garantia de um contrato formal,
mas apenas a segurança da palavra oficial. Como a história
informa, todo governo tirânico pode sofrer sucessão
inesperada e radical. É possível que o novo inquilino
do poder tenha preferências distintas das que tinha o anterior
e se recuse a manter os acordos. O sistema financeiro chinês
é muito frágil. Os créditos podres abundam:
20%, nas contas oficiais; 40% a 45%, para analistas independentes.
O governo está salvando, pela terceira vez, seus bancos estatais,
ao custo de 121 bilhões de dólares. Não há
razão para crer que os poucos dados sobre os
fundamentos macroeconômicos chineses sejam confiáveis.
Aliás, a noção de fundamentos macroeconômicos
nem sequer se aplica a um país capaz de sacrificar o que
os capitalistas consideram racionalidade econômica em favor
de outros objetivos políticos.
Este
é o segundo risco: a ideologia da grande China e os interesses
geopolíticos do Partido Comunista se sobrepõem à
racionalidade dos negócios. As atitudes do governo chinês
em relação a Taiwan são um exemplo eloqüente
disso.
O
terceiro risco é sociopolítico. A China da qual Xangai
é um ícone tem 400 milhões de almas, contemporâneas
de Wall Street e da Nasdaq e que até têm a chance de
ficar ricas em poucos anos. Os habitantes de vilarejos como Xanxi
são 900 milhões, porém vivendo em condições
medievais, impedidos de circular livremente por seu país.
A desigualdade aumenta velozmente. O plano é, segundo o Ministério
do Desenvolvimento, "modernizar a economia para lhe dar toda a força
possível no limite da estabilidade social". Mas o próprio
governo reconhece em seus relatórios que o protesto social
tem aumentado exponencialmente. A repressão acompanha essa
elevação da insatisfação. Até
quando essa situação é sustentável ninguém
sabe.
Portanto,
quem aposta na China o faz por sua conta e risco e talvez não
esteja relatando tudo para seus acionistas e cotistas. Há
um verso de D.C. Dave sobre o "efeito manada" que diz assim: "Todos
pensamos igual... o consenso não mente jamais". É
isso, até que a manada mude de direção.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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