Edição 1 624 -17/11/1999

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A saga dos italianos,
do campo ao cemitério

Em evidência por causa da novela
da Globo, a imigração italiana é uma
história de sofrimento e de triunfo

Corria o ano de 1901 e as famílias Lungaretti e Salles ocupavam lados opostos no tabuleiro da contradição social. Os Salles eram ricos fazendeiros no interior paulista. Os Lungaretti, pobres imigrantes italianos, eram seus empregados. Um moço da família Salles, Raul, filho do dono da fazenda, Diogo, foi acusado de importunar as moças da família Lungaretti. Era um caso de assédio sexual, comum nas fazendas, principalmente da parte dos patrões contra as colonas, como outrora contra as escravas. Os Lungaretti se queixaram e foram rechaçados. Os patrões ameaçaram despedi-los. Eles fincaram pé. Só iam embora se lhes fossem pagas as indenizações devidas. Houve greve na fazenda. Tensão. Difíceis negociações. Numa delas, Diogo Salles perdeu a cabeça e agrediu o velho Lungaretti. Angelo, filho do agredido, reagiu e – tragédia – matou Diogo Salles.

A saga da imigração italiana está em evidência, com a novela Terra Nostra da Rede Globo. É um capítulo da história do Brasil caracterizado por duros combates e não poucos episódios de sangue. O caso Lungaretti é apenas um entre muitos, e não se teria tornado rumoroso não fosse por um detalhe – Diogo Salles era irmão do então presidente da República, Manoel Ferraz de Campos Salles. A colônia italiana mobilizou-se em peso em favor do assassino. Argüia a tese da legítima defesa. Não vingou. Angelo Lungaretti cumpriu pena de oito anos de prisão.

Esse e outros episódios do período heróico da imigração italiana estão relacionados num livro publicado na década de 80, Brava Gente!, da historiadora Zuleika Alvim. Em outra fazenda, era o capataz que assediava as mulheres dos colonos. Seus avanços chegaram ao conhecimento dos maridos, que, liderados por Vincenzo Pietrocola, se queixaram ao patrão. Em represália, o capataz mandou espancá-los. Mas isso foi pouco perto do que aconteceu com o colono L.C., que teve a filha de 4 anos atraída pelo neto do patrão, de 17, enquanto brincava em frente de casa, e estuprada. O pai, ao voltar do trabalho, correu a queixar-se ao patrão, mas foi repelido aos tapas. Com a menina no colo, andou então 14 quilômetros, para denunciar o caso à polícia, mas no caminho lembrou que o delegado era parente e amigo do patrão. Acabou retornando para apanhar a mulher e, com ela e a filha, fugir, no meio da noite. Refugiou-se no consulado italiano em São Paulo.

"Para a mentalidade escravocrata que ainda reinava em São Paulo", escreve Zuleika Alvim, "a família era um valor que tinha sentido para a classe dominante, mas que não se estendia aos trabalhadores." Preservar a família, mantê-la unida, zelar pelas mulheres e crianças: eis um ponto de honra da luta dos imigrantes. Das escravas os senhores haviam podido dispor à vontade. As famílias de escravos eram divididas e dispersas sem piedade. Não que os negros não oferecessem resistência. A historiografia mais recente dá conta de que a resistência foi muito maior do que outrora se supôs. Mas os negros eram incomparavelmente mais indefesos. Não tinham o amparo de um consulado, não tinham atrás de si um país como a Itália, para não falar nas condições culturais muito inferiores.

Os italianos podiam, por exemplo, correr para um navio com a bandeira da pátria e fugir. Foi o que ocorreu em 9 de outubro de 1904, dia em que 424 deles embarcaram na terceira classe do navio Cità de Milano, no Porto de Santos, rumo a Buenos Aires. Um inspetor do governo italiano visitou os compatriotas e resumiu o que viu: "Pálidos, anêmicos, com o aspecto da caquexia malárica e outras doenças crônicas (...); na maior parte, estavam sem bagagem e sem dinheiro. Pouquíssimos eram os afortunados que tinham alguma roupa para trocar. Quase todos faziam parte de famílias numerosas, que haviam vivido de oito a catorze anos nas fazendas".

A história dos imigrantes italianos tem sofrimento, como a dos negros, mas no fim, ao contrário da dos negros, é uma história de sucesso. Ostenta vitórias que, em certos casos, foram muito além da conta. Visite-se o Cemitério da Consolação, em São Paulo. Ali, quase no ângulo que corresponde à esquina das ruas Mato Grosso e Coronel José Eusébio, ergue-se o mausoléu da "Família Conde Matarazzo", como anuncia a inscrição principal. Trata-se de uma construção alta como um prédio de três ou quatro andares, ocupando uma área de mais de 100 metros quadrados e decorada com conjuntos estatuários (obra de Luigi Brizzolara, mesmo autor do conjunto em homenagem a Carlos Gomes, no Anhangabaú) de rara exuberância. Pode ser covardia tomar os Matarazzo como símbolos da imigração italiana, mas vá lá, não deixam de ser. A meia dúzia de passos dali, situa-se uma tumba também solene, mas infinitamente mais modesta, de formato circular e enfeitada com o brasão da República. É o túmulo do presidente Campos Salles – o irmão de Diogo Salles. A legenda do italiano, celebrada em granito e bronze, deixa o ilustre representante do patriciato brasileiro, e ainda por cima chefe de Estado, pequenininho e lá embaixo.