|
|
A saga dos italianos,
do campo ao cemitério
Em evidência por
causa da novela
da Globo, a imigração italiana é uma
história de sofrimento e de triunfo
Corria o ano de 1901 e as famílias Lungaretti e Salles
ocupavam lados opostos no tabuleiro da contradição
social. Os Salles eram ricos fazendeiros no interior paulista.
Os Lungaretti, pobres imigrantes italianos, eram seus empregados.
Um moço da família Salles, Raul, filho do dono
da fazenda, Diogo, foi acusado de importunar as moças
da família Lungaretti. Era um caso de assédio
sexual, comum nas fazendas, principalmente da parte dos patrões
contra as colonas, como outrora contra as escravas. Os Lungaretti
se queixaram e foram rechaçados. Os patrões
ameaçaram despedi-los. Eles fincaram pé. Só
iam embora se lhes fossem pagas as indenizações
devidas. Houve greve na fazenda. Tensão. Difíceis
negociações. Numa delas, Diogo Salles perdeu
a cabeça e agrediu o velho Lungaretti. Angelo, filho
do agredido, reagiu e tragédia matou
Diogo Salles.
A saga da imigração italiana está em
evidência, com a novela Terra Nostra da Rede
Globo. É um capítulo da história do Brasil
caracterizado por duros combates e não poucos episódios
de sangue. O caso Lungaretti é apenas um entre muitos,
e não se teria tornado rumoroso não fosse por
um detalhe Diogo Salles era irmão do então
presidente da República, Manoel Ferraz de Campos Salles.
A colônia italiana mobilizou-se em peso em favor do
assassino. Argüia a tese da legítima defesa. Não
vingou. Angelo Lungaretti cumpriu pena de oito anos de prisão.
Esse e outros episódios do período heróico
da imigração italiana estão relacionados
num livro publicado na década de 80, Brava Gente!,
da historiadora Zuleika Alvim. Em outra fazenda, era o capataz
que assediava as mulheres dos colonos. Seus avanços
chegaram ao conhecimento dos maridos, que, liderados por Vincenzo
Pietrocola, se queixaram ao patrão. Em represália,
o capataz mandou espancá-los. Mas isso foi pouco perto
do que aconteceu com o colono L.C., que teve a filha de 4
anos atraída pelo neto do patrão, de 17, enquanto
brincava em frente de casa, e estuprada. O pai, ao voltar
do trabalho, correu a queixar-se ao patrão, mas foi
repelido aos tapas. Com a menina no colo, andou então
14 quilômetros, para denunciar o caso à polícia,
mas no caminho lembrou que o delegado era parente e amigo
do patrão. Acabou retornando para apanhar a mulher
e, com ela e a filha, fugir, no meio da noite. Refugiou-se
no consulado italiano em São Paulo.
"Para a mentalidade escravocrata que ainda reinava em São
Paulo", escreve Zuleika Alvim, "a família era um valor
que tinha sentido para a classe dominante, mas que não
se estendia aos trabalhadores." Preservar a família,
mantê-la unida, zelar pelas mulheres e crianças:
eis um ponto de honra da luta dos imigrantes. Das escravas
os senhores haviam podido dispor à vontade. As famílias
de escravos eram divididas e dispersas sem piedade. Não
que os negros não oferecessem resistência. A
historiografia mais recente dá conta de que a resistência
foi muito maior do que outrora se supôs. Mas os negros
eram incomparavelmente mais indefesos. Não tinham o
amparo de um consulado, não tinham atrás de
si um país como a Itália, para não falar
nas condições culturais muito inferiores.
Os italianos podiam, por exemplo, correr para um navio com
a bandeira da pátria e fugir. Foi o que ocorreu em
9 de outubro de 1904, dia em que 424 deles embarcaram na terceira
classe do navio Cità de Milano, no Porto de
Santos, rumo a Buenos Aires. Um inspetor do governo italiano
visitou os compatriotas e resumiu o que viu: "Pálidos,
anêmicos, com o aspecto da caquexia malárica
e outras doenças crônicas (...); na maior parte,
estavam sem bagagem e sem dinheiro. Pouquíssimos eram
os afortunados que tinham alguma roupa para trocar. Quase
todos faziam parte de famílias numerosas, que haviam
vivido de oito a catorze anos nas fazendas".
A história dos imigrantes italianos tem sofrimento,
como a dos negros, mas no fim, ao contrário da dos
negros, é uma história de sucesso. Ostenta vitórias
que, em certos casos, foram muito além da conta. Visite-se
o Cemitério da Consolação, em São
Paulo. Ali, quase no ângulo que corresponde à
esquina das ruas Mato Grosso e Coronel José Eusébio,
ergue-se o mausoléu da "Família Conde Matarazzo",
como anuncia a inscrição principal. Trata-se
de uma construção alta como um prédio
de três ou quatro andares, ocupando uma área
de mais de 100 metros quadrados e decorada com conjuntos estatuários
(obra de Luigi Brizzolara, mesmo autor do conjunto em homenagem
a Carlos Gomes, no Anhangabaú) de rara exuberância.
Pode ser covardia tomar os Matarazzo como símbolos
da imigração italiana, mas vá lá,
não deixam de ser. A meia dúzia de passos dali,
situa-se uma tumba também solene, mas infinitamente
mais modesta, de formato circular e enfeitada com o brasão
da República. É o túmulo do presidente
Campos Salles o irmão de Diogo Salles. A legenda
do italiano, celebrada em granito e bronze, deixa o ilustre
representante do patriciato brasileiro, e ainda por cima chefe
de Estado, pequenininho e lá embaixo.
|