Edição 1 624 -17/11/1999

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Bebidas

A cerveja esquentou

Parecer do governo embola a fusão de Brahma
e Antarctica ao propor a venda da marca Skol

Paula Pacheco e Sandra Brasil

 
Montagem de Carlos Nery

A megafusão da Brahma e da Antarctica, na recém-criada AmBev, tropeçou na semana passada em um parecer. A Secretaria de Acompanhamento Econômico, Seae, do Ministério da Fazenda, encarregada de avaliar os riscos de concentrar numa única companhia as três principais marcas de cerveja nacionais, aprovou o negócio em teoria, mas, na prática, apertou-lhe o colarinho. O parecer da Seae coloca como condição para a aprovação da aliança que a nova empresa venda a parte mais vistosa de seus negócios: a marca de cerveja Skol e seis de suas unidades industriais. A Skol lidera o mercado, com mais de 27% da preferência dos consumidores. "Nossa preocupação é o risco de aumento de preço, e a venda da Skol impede o monopólio", diz o secretário Cláudio Considera. A preocupação é fundada na obrigação do governo de zelar pelo consumidor. A conclusão do relatório, porém, caso seja adotada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica, Cade, encarregado de dar a última palavra sobre o assunto, torna inviável a bilionária fusão.

O problema que a secretaria colocou no balcão da AmBev fica claro quando se analisam os números do mercado. Com a junção, a AmBev reuniu sob um único guarda-chuva as três principais marcas de cerveja do país – Skol, Brahma e Antarctica – e assenhoreou-se, assim, de 72% desse mercado. Essa foi a razão que levou as duas arquiconcorrentes a resolver juntar suas forças. Ocorre que, sem a Skol, apenas com as marcas Brahma e Antarctica, a AmBev ficaria com uma participação no mercado de 45%, menor portanto do que os 50% que a Brahma tinha sozinha, antes da fusão, apenas com as cervejas Brahma e Skol. Se a orientação da secretaria for seguida ao pé da letra, o mercado vai assistir a um caso único de fusão em que o resultado da soma é menor do que uma de suas partes. "Foi uma grande barbeiragem da secretaria", opina Marcel Telles, co-presidente da AmBev. A empresa esperava que, para levar adiante a fusão, tivesse de entregar alguns anéis – como pequenas marcas regionais de cerveja e até algumas fábricas. Não cogitava vir a sofrer um corte tão profundo.

Muita cerveja ainda vai rolar até que haja uma decisão sobre o assunto. "O parecer da secretaria é apenas uma das peças do processo. O Cade pode rever tudo", lembra a advogada Hebe Romano, relatora do caso AmBev no Cade. Desde já, no entanto, a concorrência começa a se mobilizar. A Kaiser, que controla 14,5% do mercado de cerveja no país, parecia tão segura da decisão da secretaria que montou um equipamento de videoconferência na porta do Ministério da Fazenda, em Brasília, para dar uma entrevista ao vivo, após o anúncio do parecer da Seae. "Somos candidatos a comprar a Skol", disse Humberto Pandolpho Júnior, presidente da Kaiser. Para adquirir a Skol e elevar sua participação a 42% do consumo de cerveja, a Kaiser poderia contar com a ajuda de dois sócios poderosos. Um deles é a Coca-Cola, que é dona de 10% de suas ações. Outro é a holandesa Heineken, a segunda maior cervejaria do mundo, que tem outros 14% e há muito cobiça participação maior no mercado nacional.

A secretaria fixou-se na questão das cervejas por considerar que a concentração de marcas sob o controle da AmBev poderia levar a empresa a manipular preços e prejudicar o consumidor. No caso dos refrigerantes, em que a empresa tem cerca de um quarto do mercado, com os guaranás Antarctica, Brahma e com a Pepsi, não há esse risco. A concorrente Coca-Cola responde sozinha por quase metade do consumo, e o restante está picotado entre marcas diversas, como as tubaínas. Ao mexer com as cervejas, no entanto, atingiu o ponto mais sensível da empresa e recolocou uma questão maior: como o país vai encarar os processos de fusão e concentração de mercado, cada vez mais comuns no processo de globalização da economia. A empresa promete ir à luta. "Não vamos abrir mão de nossa marca líder", diz Telles.