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Bebidas
A cerveja esquentou
Parecer do governo embola
a fusão de Brahma
e Antarctica ao propor a venda da marca Skol
Paula Pacheco e Sandra Brasil
Montagem de Carlos Nery
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A megafusão da Brahma e da Antarctica, na recém-criada
AmBev, tropeçou na semana passada em um parecer. A Secretaria
de Acompanhamento Econômico, Seae, do Ministério da
Fazenda, encarregada de avaliar os riscos de concentrar numa única
companhia as três principais marcas de cerveja nacionais,
aprovou o negócio em teoria, mas, na prática, apertou-lhe
o colarinho. O parecer da Seae coloca como condição
para a aprovação da aliança que a nova empresa
venda a parte mais vistosa de seus negócios: a marca de cerveja
Skol e seis de suas unidades industriais. A Skol lidera o mercado,
com mais de 27% da preferência dos consumidores. "Nossa preocupação
é o risco de aumento de preço, e a venda da Skol impede
o monopólio", diz o secretário Cláudio Considera.
A preocupação é fundada na obrigação
do governo de zelar pelo consumidor. A conclusão do relatório,
porém, caso seja adotada pelo Conselho Administrativo de
Defesa Econômica, Cade, encarregado de dar a última
palavra sobre o assunto, torna inviável a bilionária
fusão.
O problema que a secretaria colocou no balcão da AmBev
fica claro quando se analisam os números do mercado. Com
a junção, a AmBev reuniu sob um único guarda-chuva
as três principais marcas de cerveja do país Skol,
Brahma e Antarctica e assenhoreou-se, assim, de 72% desse mercado.
Essa foi a razão que levou as duas arquiconcorrentes a resolver
juntar suas forças. Ocorre que, sem a Skol, apenas com as
marcas Brahma e Antarctica, a AmBev ficaria com uma participação
no mercado de 45%, menor portanto do que os 50% que a Brahma tinha
sozinha, antes da fusão, apenas com as cervejas Brahma e
Skol. Se a orientação da secretaria for seguida ao
pé da letra, o mercado vai assistir a um caso único
de fusão em que o resultado da soma é menor do que
uma de suas partes. "Foi uma grande barbeiragem da secretaria",
opina Marcel Telles, co-presidente da AmBev. A empresa esperava
que, para levar adiante a fusão, tivesse de entregar alguns
anéis como pequenas marcas regionais de cerveja e até
algumas fábricas. Não cogitava vir a sofrer um corte
tão profundo.
Muita
cerveja ainda vai rolar até que haja uma decisão sobre
o assunto. "O parecer da secretaria é apenas uma das peças
do processo. O Cade pode rever tudo", lembra a advogada Hebe Romano,
relatora do caso AmBev no Cade. Desde já, no entanto, a concorrência
começa a se mobilizar. A Kaiser, que controla 14,5% do mercado
de cerveja no país, parecia tão segura da decisão
da secretaria que montou um equipamento de videoconferência
na porta do Ministério da Fazenda, em Brasília, para
dar uma entrevista ao vivo, após o anúncio do parecer
da Seae. "Somos candidatos a comprar a Skol", disse Humberto Pandolpho
Júnior, presidente da Kaiser. Para adquirir a Skol e elevar
sua participação a 42% do consumo de cerveja, a Kaiser
poderia contar com a ajuda de dois sócios poderosos. Um deles
é a Coca-Cola, que é dona de 10% de suas ações.
Outro é a holandesa Heineken, a segunda maior cervejaria
do mundo, que tem outros 14% e há muito cobiça participação
maior no mercado nacional.
A secretaria fixou-se na questão das cervejas por considerar
que a concentração de marcas sob o controle da AmBev
poderia levar a empresa a manipular preços e prejudicar o
consumidor. No caso dos refrigerantes, em que a empresa tem cerca
de um quarto do mercado, com os guaranás Antarctica, Brahma
e com a Pepsi, não há esse risco. A concorrente Coca-Cola
responde sozinha por quase metade do consumo, e o restante está
picotado entre marcas diversas, como as tubaínas. Ao mexer
com as cervejas, no entanto, atingiu o ponto mais sensível
da empresa e recolocou uma questão maior: como o país
vai encarar os processos de fusão e concentração
de mercado, cada vez mais comuns no processo de globalização
da economia. A empresa promete ir à luta. "Não vamos
abrir mão de nossa marca líder", diz Telles.
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