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Telecomunicações
O lodo vem à tona
Investigação na antiga Telerj
revela
um mar de bandalheiras na estatal
Consuelo Dieguez
Paulo Jares
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Manoel Horácio: policiais, detetives e auditoria
para eliminar os problemas da Telerj
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A Telemar, empresa que assumiu o controle da antiga companhia
telefônica do Rio de Janeiro, a Telerj, deu por encerrada
no início do mês uma de suas mais árduas
tarefas desde a compra da estatal, em julho do ano passado.
Depois de onze meses de investigações sigilosas,
que envolveram detetives particulares, policiais e uma empresa
de auditoria, conseguiu-se desbaratar quadrilhas que atuavam
dentro da empresa cometendo fraudes das mais escabrosas. Mais
de 100 pessoas entre funcionários, prestadores de serviço
e até usuários foram processadas e presas por
causa das gatunagens. É a maior operação
de faxina já empreendida por uma companhia pós-privatizada.
Teve de ser assim porque não se tratava de uma empresa
qualquer. Como em poucas delas, na Telerj grassavam os piores
vícios de uma estatal.
Tudo ali era superlativo: a ineficiência, o empreguismo,
o descaso e a corrupção. Não foi por
acaso que, às vésperas da privatização
do sistema Telebrás, a Telerj ostentava o desonroso
título de pior companhia telefônica do país.
Mas o que a Telemar descobriu ao revolver as entranhas da
Telerj é de estarrecer até o mais encarniçado
estatista. Veio à tona uma rede de podridão
que se espraiava por vários escalões da companhia.
A bandalheira chegou a tal ponto que existiam 250.000
telefones "fantasmas" um total correspondente a cerca de
11% da rede instalada, sobre os quais a Telerj não
tinha controle algum e, portanto, não cobrava as contas
(veja quadro na página ao lado). Na ponta do
lápis, o prejuízo anual apenas com essa fraude
era de 150 milhões de reais.
"Mesmo em se tratando de Telerj, era uma barbaridade o que
acontecia aqui", diz Manoel Horácio da Silva, presidente
da holding Telemar, que atua em dezesseis Estados brasileiros.
Outro golpe muito comum era o das reclamações
feitas pelos usuários sobre ligações
indevidas, que se transformara numa verdadeira indústria.
É aquela queixa que o usuário leva ao guichê
da companhia, dizendo que determinadas ligações
caras que constam da conta não foram feitas por ele.
Uma empresa de auditoria contratada pela Telemar não
teve muito trabalho para perceber que se havia algo errado
não era com o sistema de emissão de contas.
Em 100 contas telefônicas utilizadas como amostragem,
99% das cobranças estavam corretas. "Os auditores só
tinham o trabalho de ligar para os telefones que constavam
das contas e perguntar se conheciam aquele assinante", conta
Manoel Horácio. "A resposta foi afirmativa em todos
os casos." Num deles, o protagonista foi o pai de um conhecido
craque-problema do futebol carioca. Todos os meses, sua conta
de 3.000 reais em média
era corrigida pela Telerj, depois que ele dizia não
ter feito as ligações registradas. Há
alguns meses, ao ser finalmente cobrado com rigor pelas ligações,
ele foi a uma loja da Telemar, como fazia normalmente. Insistiu
para que as ligações fossem abonadas e teimou
que não fizera nenhuma daquelas chamadas. O funcionário,
então, pegou o telefone e discou para um dos números,
chamado 25 vezes naquele mês. Perguntou a quem atendeu
se conhecia o tal senhor. "Claro, é meu cliente", foi
a resposta.
Oscar Cabral
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As arcaicas centrais telefônicas
hoje desativadas: convite ao roubo
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O caos da Telerj aumentou drasticamente no início
desta década, quando, juntamente com a falta de investimentos,
se estabeleceu que os serviços prestados pelas companhias
telefônicas seriam terceirizados. Foi aí que
a empresa perdeu definitivamente o controle sobre o que acontecia
em suas vísceras. Com o sistema terceirizado não
se sabia quem estava entrando em suas centrais. "Descobrimos
que funcionários e terceirizados acessavam o sistema
da Telerj pelo computador de casa, tamanha era a falta de
controle", diz Carlos Vaisman, diretor da Telemar. "De casa,
podiam fazer de tudo."
Compulsão incontrolável Na Telerj,
esse tipo de roubo e vários outros descobertos agora
eram facilitados porque a bagunça chegou a tal ponto
que existiam dezoito tecnologias diferentes de operação
de telefonia. Muitas delas incompatíveis entre si e
outras antigas demais e, por isso, mais difíceis de
controlar. O padrão mundial é de quatro tecnologias
diferentes em operação. Acima disso, aumenta-se
o risco de desarmonia no sistema. Se a Telerj possuía
dezoito tecnologias funcionando paralelamente, pode-se inferir
que era devido, na melhor das hipóteses, à incompetência
de seus antigos gestores ou por alguma compulsão incontrolável
de ir às compras. "Desconheço esse tipo de história",
assegurou na quinta-feira passada a VEJA Danilo Lobo, o último
presidente da Telerj antes da privatização.
"Isso é simplesmente impossível de acontecer
porque nós tínhamos um enorme controle de todas
as nossas centrais."
Não era por falta de assessores bem pagos que as
antigas diretorias da Telerj não conseguiam dar mais
eficiência à empresa. Segundo Márcio Roza,
presidente da Telemar-Rio, só para atender o presidente
existiam nada menos que 160 assessores. Quase todos indicados
por políticos. Os salários de mais da metade
desses assessores variavam de 5.000
a 10.000 reais. Foram todos para
a rua. Os usuários fluminenses da Telemar ainda têm
muitas queixas dos serviços prestados pela empresa.
E não estão errados falta muito para
que o sistema se refaça de tantos anos de incúria.
Mas há alguns números que fazem diferença.
Em seus tempos de estatal, a Telerj investia em média
250 milhões de reais por ano na empresa. Agora, o volume
de dinheiro é quatro vezes maior. O resultado é
que em dezesseis meses de privatização foram
instalados 600.000 terminais e
trocados mais 300.000. Isso representa
45% de tudo o que foi feito em trinta anos de existência
da ex-estatal. São investimentos que obrigatoriamente
diminuem a ineficiência da companhia. A mesma ineficiência
que acobertava e abria espaço para tanta fraude.
Fraudes por todos os lados
Algumas das picaretagens descobertas
por auditores
dentro da Telerj
Os
gatos
Funcionários faziam ligações irregulares
(os chamados "gatos") e vendiam as linhas. Existiam
250 000 usuários que não pagavam contas,
mais de 11% do total de 2,2 milhões de linhas
existentes antes da privatização.
Reclamações
Mensalmente havia cerca de 70 000 reclamações
de ligações que teriam sido cobradas indevidamente.
O usuário pedia ressarcimento das ligações
que alegava não ter feito. A Telerj emitia uma
nova conta sem as ligações. Em quatro
meses a conta era deletada do sistema. Uma auditoria
feita pela nova diretoria descobriu que as reclamações
não eram averiguadas e que 99% delas não
procediam. A Telerj perdia 70 milhões de reais
por ano com essa fraude.
Telefone
grátis
Funcionários ou prestadores de serviço
da Telerj roubavam linhas para vendê-las. O verdadeiro
dono da linha ficava com o telefone mudo e achava que
era defeito. Quem comprava tinha a opção
de ficar com a nova linha com conta de telefone ou sem
conta. O preço para uma linha sem conta telefônica
era mais alto.
Ruído
na linha
Os funcionários entravam nas
caixas telefônicas dos prédios e provocavam
defeito nas linhas. Como a Telerj demorava quatro meses
no mínimo para atender a solicitações
de conserto, os funcionários cobravam para fazer
os serviços com mais presteza.
Falsos
funcionários
Os funcionários vendiam seus
uniformes a terceiros. Assim, qualquer pessoa podia
se passar por técnico da Telerj oferecendo serviços
pagos.
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