Edição 1 624 -17/11/1999

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Telecomunicações

O lodo vem à tona

Investigação na antiga Telerj revela
um mar de bandalheiras na estatal

Consuelo Dieguez

Paulo Jares

Manoel Horácio: policiais, detetives e auditoria para eliminar os problemas da Telerj


A Telemar, empresa que assumiu o controle da antiga companhia telefônica do Rio de Janeiro, a Telerj, deu por encerrada no início do mês uma de suas mais árduas tarefas desde a compra da estatal, em julho do ano passado. Depois de onze meses de investigações sigilosas, que envolveram detetives particulares, policiais e uma empresa de auditoria, conseguiu-se desbaratar quadrilhas que atuavam dentro da empresa cometendo fraudes das mais escabrosas. Mais de 100 pessoas entre funcionários, prestadores de serviço e até usuários foram processadas e presas por causa das gatunagens. É a maior operação de faxina já empreendida por uma companhia pós-privatizada. Teve de ser assim porque não se tratava de uma empresa qualquer. Como em poucas delas, na Telerj grassavam os piores vícios de uma estatal.

Tudo ali era superlativo: a ineficiência, o empreguismo, o descaso e a corrupção. Não foi por acaso que, às vésperas da privatização do sistema Telebrás, a Telerj ostentava o desonroso título de pior companhia telefônica do país. Mas o que a Telemar descobriu ao revolver as entranhas da Telerj é de estarrecer até o mais encarniçado estatista. Veio à tona uma rede de podridão que se espraiava por vários escalões da companhia. A bandalheira chegou a tal ponto que existiam 250.000 telefones "fantasmas" – um total correspondente a cerca de 11% da rede instalada, sobre os quais a Telerj não tinha controle algum e, portanto, não cobrava as contas (veja quadro na página ao lado). Na ponta do lápis, o prejuízo anual apenas com essa fraude era de 150 milhões de reais.

"Mesmo em se tratando de Telerj, era uma barbaridade o que acontecia aqui", diz Manoel Horácio da Silva, presidente da holding Telemar, que atua em dezesseis Estados brasileiros. Outro golpe muito comum era o das reclamações feitas pelos usuários sobre ligações indevidas, que se transformara numa verdadeira indústria. É aquela queixa que o usuário leva ao guichê da companhia, dizendo que determinadas ligações caras que constam da conta não foram feitas por ele. Uma empresa de auditoria contratada pela Telemar não teve muito trabalho para perceber que se havia algo errado não era com o sistema de emissão de contas. Em 100 contas telefônicas utilizadas como amostragem, 99% das cobranças estavam corretas. "Os auditores só tinham o trabalho de ligar para os telefones que constavam das contas e perguntar se conheciam aquele assinante", conta Manoel Horácio. "A resposta foi afirmativa em todos os casos." Num deles, o protagonista foi o pai de um conhecido craque-problema do futebol carioca. Todos os meses, sua conta de 3.000 reais em média era corrigida pela Telerj, depois que ele dizia não ter feito as ligações registradas. Há alguns meses, ao ser finalmente cobrado com rigor pelas ligações, ele foi a uma loja da Telemar, como fazia normalmente. Insistiu para que as ligações fossem abonadas e teimou que não fizera nenhuma daquelas chamadas. O funcionário, então, pegou o telefone e discou para um dos números, chamado 25 vezes naquele mês. Perguntou a quem atendeu se conhecia o tal senhor. "Claro, é meu cliente", foi a resposta.

 
Oscar Cabral

As arcaicas centrais telefônicas hoje desativadas: convite ao roubo

O caos da Telerj aumentou drasticamente no início desta década, quando, juntamente com a falta de investimentos, se estabeleceu que os serviços prestados pelas companhias telefônicas seriam terceirizados. Foi aí que a empresa perdeu definitivamente o controle sobre o que acontecia em suas vísceras. Com o sistema terceirizado não se sabia quem estava entrando em suas centrais. "Descobrimos que funcionários e terceirizados acessavam o sistema da Telerj pelo computador de casa, tamanha era a falta de controle", diz Carlos Vaisman, diretor da Telemar. "De casa, podiam fazer de tudo."

Compulsão incontrolável – Na Telerj, esse tipo de roubo e vários outros descobertos agora eram facilitados porque a bagunça chegou a tal ponto que existiam dezoito tecnologias diferentes de operação de telefonia. Muitas delas incompatíveis entre si e outras antigas demais e, por isso, mais difíceis de controlar. O padrão mundial é de quatro tecnologias diferentes em operação. Acima disso, aumenta-se o risco de desarmonia no sistema. Se a Telerj possuía dezoito tecnologias funcionando paralelamente, pode-se inferir que era devido, na melhor das hipóteses, à incompetência de seus antigos gestores ou por alguma compulsão incontrolável de ir às compras. "Desconheço esse tipo de história", assegurou na quinta-feira passada a VEJA Danilo Lobo, o último presidente da Telerj antes da privatização. "Isso é simplesmente impossível de acontecer porque nós tínhamos um enorme controle de todas as nossas centrais."

Não era por falta de assessores bem pagos que as antigas diretorias da Telerj não conseguiam dar mais eficiência à empresa. Segundo Márcio Roza, presidente da Telemar-Rio, só para atender o presidente existiam nada menos que 160 assessores. Quase todos indicados por políticos. Os salários de mais da metade desses assessores variavam de 5.000 a 10.000 reais. Foram todos para a rua. Os usuários fluminenses da Telemar ainda têm muitas queixas dos serviços prestados pela empresa. E não estão errados – falta muito para que o sistema se refaça de tantos anos de incúria. Mas há alguns números que fazem diferença. Em seus tempos de estatal, a Telerj investia em média 250 milhões de reais por ano na empresa. Agora, o volume de dinheiro é quatro vezes maior. O resultado é que em dezesseis meses de privatização foram instalados 600.000 terminais e trocados mais 300.000. Isso representa 45% de tudo o que foi feito em trinta anos de existência da ex-estatal. São investimentos que obrigatoriamente diminuem a ineficiência da companhia. A mesma ineficiência que acobertava e abria espaço para tanta fraude.

Fraudes por todos os lados

Algumas das picaretagens descobertas por auditores
dentro da Telerj

Os gatos
Funcionários faziam ligações irregulares (os chamados "gatos") e vendiam as linhas. Existiam 250 000 usuários que não pagavam contas, mais de 11% do total de 2,2 milhões de linhas existentes antes da privatização.

Reclamações
Mensalmente havia cerca de 70 000 reclamações de ligações que teriam sido cobradas indevidamente. O usuário pedia ressarcimento das ligações que alegava não ter feito. A Telerj emitia uma nova conta sem as ligações. Em quatro meses a conta era deletada do sistema. Uma auditoria feita pela nova diretoria descobriu que as reclamações não eram averiguadas e que 99% delas não procediam. A Telerj perdia 70 milhões de reais por ano com essa fraude.

Telefone grátis
Funcionários ou
prestadores de serviço da Telerj roubavam linhas para vendê-las. O verdadeiro dono da linha ficava com o telefone mudo e achava que era defeito. Quem comprava tinha a opção de ficar com a nova linha com conta de telefone ou sem conta. O preço para uma linha sem conta telefônica era mais alto.

Ruído na linha
Os funcionários entravam nas caixas telefônicas dos prédios e provocavam defeito nas linhas. Como a Telerj demorava quatro meses no mínimo para atender a solicitações de conserto, os funcionários cobravam para fazer os serviços com mais presteza.

Falsos funcionários
Os funcionários vendiam seus uniformes a terceiros. Assim, qualquer pessoa podia se passar por técnico da Telerj oferecendo serviços pagos.