Edição 1 624 -17/11/1999

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Empresas

Faltam projetos

Empresariado quer mais recursos do BNDES,
mas há excesso de caixa e escassez de idéias

Marcelo Carneiro

Oscar Cabral

Sede do BNDES: apenas 3% do total emprestado vai para as multinacionais


Ultimamente, o empresariado nacional vem se queixando de que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES, não seria muito pródigo em liberar recursos para a indústria brasileira. A boa vontade do bancão estatal seria toda reservada para as empresas estrangeiras. A alegação, além de xenófoba, não encontra amparo nos números. No ano passado, o BNDES emprestou 19 bilhões de reais para empresas. Desse total, apenas 600 milhões de reais foram parar nas mãos de companhias multinacionais. Conclusão: a reclamação nacionalista está se dando por meros 3% do capital disponível no BNDES para financiamento.

Há outro dado que revela o quanto essa polêmica está desfocada. Do jeito que está posta a discussão, fica parecendo que as empresas brasileiras batem à porta do BNDES e ouvem como resposta algo como "o dinheiro acabou". O que tem ocorrido é justamente o contrário: o BNDES tem há anos sobra de caixa. Do orçamento de 1998, 2 bilhões de reais não foram emprestados (veja quadro). E por quê? Simplesmente porque não existiam projetos em número suficiente. Ou seja, não passa de desinformação afirmar que a indústria nacional não está conseguindo financiar seus planos de investimentos porque o BNDES está emprestando para companhias estrangeiras.

"Há muitos projetos malfeitos", diz Gil Bernardo, superintendente da área financeira do banco. O que não falta são pedidos de financiamento sem sustentação financeira alguma. Entre os projetos apresentados neste ano – e, é claro, recusados – há histórias de arrepiar. Uma construtora do interior de São Paulo pediu 9,5 milhões de reais para construir um shopping center. Sua contrapartida no negócio era um investimento de 12 milhões em um ano. Nada de mais, não fosse um detalhe: o melhor desempenho da empresa nos últimos quatro anos tinha sido uma receita de modesto 1 milhão de reais. Tradução: essa empresa queria mamar nas tetas gordas do BNDES sem que o banco pudesse ter nenhuma esperança objetiva de que o tomador do dinheiro um dia pagasse a conta.

Em outros pedidos, o problema não é apenas econômico, mas um caso de polícia. No primeiro semestre, uma indústria de médio porte do setor de transportes pleiteou um empréstimo para aquisição de máquinas. Depois de analisada a papelada, descobriu-se que os donos da tal empresa já tinham passado por duas falências. A cada mau negócio, desfaziam a empresa e montavam outra. No intervalo, tentavam descolar um empréstimo. Emprestar dinheiro do contribuinte brasileiro para uma empresa picareta como essa seria o beijo da morte do BNDES. É óbvio que esses são casos extremos – a maioria das requisições é de empresas sérias que desejam apenas ampliar seus parques industriais.

Há um outro fator poderoso que contribui bastante para que o dinheiro não saia dos cofres do BNDES. São os problemas conjunturais da economia brasileira que levam as empresas a enfiar no fundo das gavetas os planos de novos investimentos. Afinal, são modestas as previsões de crescimento da economia. Isso amedronta os empresários e o resultado é que diminui o número dos que aceitam assumir riscos. Num contexto difícil como esse, fica mais suspeito ainda este deslocado discurso nacionalista.