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Empresas
Faltam projetos
Empresariado quer mais recursos do BNDES,
mas há excesso de caixa e escassez de idéias
Marcelo Carneiro
Oscar Cabral
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Sede do BNDES: apenas 3% do total emprestado
vai para as multinacionais
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Ultimamente, o empresariado nacional vem se queixando de que o Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES, não
seria muito pródigo em liberar recursos para a indústria
brasileira. A boa vontade do bancão estatal seria toda reservada
para as empresas estrangeiras. A alegação, além
de xenófoba, não encontra amparo nos números.
No ano passado, o BNDES emprestou 19 bilhões de reais para
empresas. Desse total, apenas 600 milhões de reais foram
parar nas mãos de companhias multinacionais. Conclusão:
a reclamação nacionalista está se dando por
meros 3% do capital disponível no BNDES para financiamento.
Há
outro dado que revela o quanto essa polêmica está desfocada.
Do jeito que está posta a discussão, fica parecendo
que as empresas brasileiras batem à porta do BNDES e ouvem
como resposta algo como "o dinheiro acabou". O que tem ocorrido
é justamente o contrário: o BNDES tem há anos
sobra de caixa. Do orçamento de 1998, 2 bilhões de
reais não foram emprestados (veja quadro). E por quê?
Simplesmente porque não existiam projetos em número
suficiente. Ou seja, não passa de desinformação
afirmar que a indústria nacional não está conseguindo
financiar seus planos de investimentos porque o BNDES está
emprestando para companhias estrangeiras.
"Há muitos projetos malfeitos", diz Gil Bernardo, superintendente
da área financeira do banco. O que não falta são
pedidos de financiamento sem sustentação financeira
alguma. Entre os projetos apresentados neste ano e, é
claro, recusados há histórias de arrepiar.
Uma construtora do interior de São Paulo pediu 9,5 milhões
de reais para construir um shopping center. Sua contrapartida no
negócio era um investimento de 12 milhões em um ano.
Nada de mais, não fosse um detalhe: o melhor desempenho da
empresa nos últimos quatro anos tinha sido uma receita de
modesto 1 milhão de reais. Tradução: essa empresa
queria mamar nas tetas gordas do BNDES sem que o banco pudesse ter
nenhuma esperança objetiva de que o tomador do dinheiro um
dia pagasse a conta.
Em outros pedidos, o problema não é apenas econômico,
mas um caso de polícia. No primeiro semestre, uma indústria
de médio porte do setor de transportes pleiteou um empréstimo
para aquisição de máquinas. Depois de analisada
a papelada, descobriu-se que os donos da tal empresa já tinham
passado por duas falências. A cada mau negócio, desfaziam
a empresa e montavam outra. No intervalo, tentavam descolar um empréstimo.
Emprestar dinheiro do contribuinte brasileiro para uma empresa picareta
como essa seria o beijo da morte do BNDES. É óbvio
que esses são casos extremos a maioria das requisições
é de empresas sérias que desejam apenas ampliar seus
parques industriais.
Há um outro fator poderoso que contribui bastante para
que o dinheiro não saia dos cofres do BNDES. São os
problemas conjunturais da economia brasileira que levam as empresas
a enfiar no fundo das gavetas os planos de novos investimentos.
Afinal, são modestas as previsões de crescimento da
economia. Isso amedronta os empresários e o resultado é
que diminui o número dos que aceitam assumir riscos. Num
contexto difícil como esse, fica mais suspeito ainda este
deslocado discurso nacionalista.
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