Edição 1 624 -17/11/1999

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Debaixo do tapete

Como o governo se esforçou
para perdoar a dívida bilionária
que a Embratel nunca quis pagar

Policarpo Junior

Sergio Dutti
Ricardo Stuckert

O secretário Everardo Maciel, da Receita, e o ex-ministro Clóvis Carvalho em lados opostos: um cobra e o outro tenta anistiar

O ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, mandou há dias um duro recado aos controladores da Embratel: se não estiverem satisfeitos com a compra da empresa, que a devolvam ao país. A Embratel foi privatizada em julho do ano passado. Desde então, a empresa americana MCI, que comprou a estatal, vem travando uma guerra de bastidores com o governo por causa de uma dívida que está sendo cobrada pela Receita Federal no valor de 1 bilhão de reais, mais de um terço do que a empresa desembolsou para conseguir o controle acionário da Embratel. A MCI não quer pagar o imposto alegando que a cobrança é indevida – e recorreu à Justiça. Se ficar provado que a dívida realmente existe, o que é bem possível, os americanos ainda assim continuarão a sustentar que a conta é de responsabilidade da União, a antiga proprietária. A discussão já esteve em via de se transformar num incidente diplomático. A MCI jura que, às vésperas da privatização, recebeu a garantia de que o imposto não seria cobrado, acreditou e comprou a Embratel com um ágio de quase 50% em relação ao preço mínimo. Um excelente negócio até março deste ano, quando os fiscais da Receita confirmaram o bilionário auto de infração.

 
Ana Araujo

O ex-ministro Mendonça de Barros: empenho para resolver o problema depois da privatização

No governo, é óbvio, ninguém admite ter dado um salvo-conduto fiscal à MCI – pelo menos oficialmente. O ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros, que gerenciou o processo de privatização, garante que a empresa americana foi devidamente informada da dívida com a Receita. "A empresa tinha todas as informações sobre a dívida." Para o ex-ministro, a MCI fez uma aposta de altíssimo risco e perdeu. Os dirigentes da empresa garantem que não foi bem assim. O governo teria informado a existência da dívida e, ao mesmo tempo, garantido que sua cobrança era juridicamente infundada. Um sinal como esse vindo do próprio governo – se verdadeiro, é claro – pode ser interpretado como uma barbada. A Embratel não quer discutir publicamente a questão, mas tem deixado pistas sobre o que está falando. Uma delas foi um parecer jurídico solicitado pelo então ministro das Comunicações dois dias antes do leilão. O documento, assinado pelo advogado Antônio Carlos de Azevedo Sodré, afirma que os impostos cobrados não eram devidos. Cita a legislação brasileira, interpretações de autoridades fazendárias e invoca um tratado internacional assinado pelo Brasil.

Mendonça de Barros diz que pediu o parecer para ter em mãos mais um documento que mostrava a real situação da Embratel estatal, referendando as informações que estavam sendo transmitidas pelo governo, desde o início, aos candidatos a comprador. O escritório que emitiu o parecer admitindo a existência da dívida e, ao mesmo tempo, classificando-a como indevida foi o mesmo contratado pela Telebrás para dar assistência jurídica à privatização. "Isso mostra a transparência de tudo que estava sendo feito", diz o ex-ministro. O problema é o tipo de mensagem subliminar que um parecer como esse pode embutir. Chancelado pelo ministro das Comunicações e sustentado em "interpretações de autoridades fazendárias", embora a maior autoridade fazendária, ao que se saiba, seja a própria Receita Federal, o documento pode ter sido entendido como uma carta de fiança, uma garantia de que a conta estava sendo entregue no endereço errado. Os americanos alegam que foi exatamente isso que captaram – e é esse o epicentro da discussão sobre o bilhão Embratel.

O problema todo começou no ano passado, às vésperas da privatização. Fiscais da Receita Federal foram checar a contabilidade da estatal e descobriram que a empresa deixou de recolher 300 milhões de reais em impostos sobre as tarifas de ligações internacionais originadas no exterior e outros 700 milhões de reais em chamadas iniciadas no Brasil. São, ao todo, 1 bilhão de reais em impostos que a Embratel estatal nunca recolheu e que a Embratel privada não quer saber de pagar. Apresentada a conta, representantes da MCI nos Estados Unidos conversaram duas vezes com o embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa. Tentaram uma solução diplomática para o caso, sempre lembrando que receberam garantias oficiais de que o imposto não era devido. O ministro Pimenta da Veiga reafirma que não houve compromisso algum do governo em não cobrar as dívidas e que a compradora estava devidamente informada do problema. O estranho é que, se não havia compromisso, como garante o ministro, como explicar que o governo, após a privatização, tenha tentado de várias formas resolver o problema do bilhão. Para não ter de pagar uma parte da dívida, a Embratel privada invoca um tratado internacional assinado pelo Brasil em 1988, isentando de tributação ligações internacionais originadas aqui. O problema é que acordos internacionais só valem depois de aprovados pelo Congresso Nacional, o que aconteceu apenas em outubro do ano passado, depois de um esforço dos parlamentares governistas – e de uma forma curiosíssima.

 
Paulo Jares

O leilão de privatização das teles
na bolsa de Valores do Rio de
Janeiro: euforia com o resultado
da venda da Embratel

A mensagem do governo solicitando a ratificação do acordo dormia havia tempo nos escaninhos do Congresso. No dia 14 de outubro do ano passado, com a Embratel já privatizada, as lideranças do governo resolveram votar o projeto em regime de urgência. Foi uma rapidez impressionante. Em menos de 24 horas, o projeto foi aprovado na Câmara e no Senado. Por se tratar de convenção entre países, a mensagem passa primeiro pela Comissão de Relações Exteriores. Depois, segue para a Comissão de Comunicações e, por último, vai à Comissão de Constituição e Justiça. As três comissões analisaram tudo em questão de minutos. Tão rápido que os relatores nem se recordam do tema da discussão. "Lembro-me de que se tratava de alguma coisa sobre telecomunicações que parecia fundamental", diz o deputado Vic Pires Franco, do PFL do Pará, um dos relatores do projeto. "Mas não sei direito o que era", confessa. "Disseram-me ser algo muito importante para o país", diz o deputado Arnaldo Faria de Sá, do PPB de São Paulo, o outro relator. "Se não fosse votado naquele dia, acho, o Brasil perderia o prazo de alguma coisa", recorda o parlamentar. O projeto foi aprovado.

No dia 15 de outubro, um dia depois da celeridade na Câmara, a correria se repetiu no Senado. Lá, também em regime de urgência, foi nomeado o senador José Agripino, do PFL do Rio Grande do Norte, para relatar o projeto. O senador também deu parecer favorável, mas tampouco tinha muita noção do que estava fazendo. "Eu me lembro vagamente desse assunto", disse ele na semana passada. "Alguém me pediu para ser o relator, mas não sei dizer do que se tratava." O parecer assinado e lido pelo senador apareceu prontinho na hora da sessão plenária. Assim, o projeto, que durante anos aguardou análise, foi aprovado no Congresso em questão de horas. Por que tanta pressa? Talvez porque, no dia 16, técnicos da Receita Federal iniciariam uma auditagem nos livros fiscais da Embratel. Com o projeto aprovado, a empresa já podia invocar oficialmente o tratado internacional para tentar proteger-se da mordida do Leão.

Os esforços do governo para dar uma mãozinha à Embratel não pararam aí. Em dezembro, o Ministério das Comunicações redigiu uma medida provisória do tamanho do problema da empresa. Por se tratar de assunto tributário, foi encaminhada para análise do Ministério da Fazenda. Um dos artigos previa a eliminação da isenção de impostos, a partir deste ano, sobre as ligações internacionais originadas no exterior – a fonte da multa de 300 milhões. A primeira impressão dos técnicos foi boa. Acabar com isenção, seja ela qual for, normalmente significa arrecadar mais. Só que o texto, da forma como estava redigido, escondia um ardil. Se virasse lei estaria dizendo que a partir de 1999 a operadora (a única que existia na época era a Embratel) ficaria obrigada a pagar impostos, já que o governo estava colocando um ponto final na isenção. Só que nunca existiu isenção alguma. "O governo, se isso virasse lei, estaria era fazendo uma remissão por uma via torta", explica um técnico da Fazenda.

O Ministério da Fazenda vetou a medida provisória, toda elaborada na Casa Civil da Presidência, onde o então ministro Clóvis Carvalho enxergava no problema da Embratel uma ameaça à credibilidade do processo de privatização. Mendonça de Barros confirma que ele e Clóvis Carvalho tentaram resolver o impasse da dívida após a privatização. Conversaram com a Procuradoria da Fazenda Nacional e com o ministro Pedro Malan, sempre acompanhados com uma pasta de pareceres contrários à cobrança da Receita. Os esforços cessaram quando o ex-ministro das Comunicações foi tragado pelo escândalo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES. Ele e o então presidente do banco, André Lara Resende, outro que era contrário à cobrança, saíram do governo depois que a divulgação de conversas telefônicas grampeadas entre os dois levantou suspeitas sobre as privatizações. Eles se foram, mas deixaram um monumental rolo de 1 bilhão de reais e estranhos rastros que, por alguma razão, o governo queria empurrar para debaixo do tapete.