Edição 1 624 -17/11/1999

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Turbulências na Vasp

Entre as quatro grandes empresas aéreas brasileiras, a Vasp é a que tem o pior índice de incidentes. No ano passado, o Cenipa registrou 69 envolvendo aviões da empresa. Isso equivale a um incidente para cada 2.023 horas voadas. É mais do que o dobro da média da aviação regular brasileira, que registra um a cada 4 200 horas, e dezenove vezes maior que a média da aviação americana. Quanto a acidentes, os números da Vasp são equiparados aos das demais companhias aéreas brasileiras. Nesta década a Vasp teve apenas dois acidentes com feridos ou mortos – enquanto a Varig apresentou um, a TAM teve três e a Transbrasil nenhum. "A Vasp possui o melhor setor de segurança de vôo entre as companhias nacionais e gasta 200 milhões de dólares por ano em manutenção", diz Ruy Nogueira, o porta-voz da empresa.

A Vasp é a companhia aérea mais atingida pela crise financeira que ronda a aviação comercial brasileira. É a campeã de dívidas entre as grandes empresas. Deve ao todo 2,3 bilhões de reais. Embora a empresa seja dona de 75% de seus aviões, a frota da Vasp é a mais antiga em operação no Brasil. O número de multas emitidas pelo DAC com base em reclamações de passageiros coloca mais uma vez a Vasp na liderança: uma multa a cada 665 horas de vôo em 1998. A TAM fica em segundo lugar, com uma a cada 2.155 horas voadas, seguida da Varig, com uma multa por 3.330 horas voadas. A Transbrasil teve uma a cada 10 672 horas voadas, sendo, portanto, a menos problemática das quatro grandes.

 

Queda ainda é um mistério

Um robô subaquático da Marinha americana resgatou na semana passada, no Oceano Atlântico, uma das duas caixas-pretas do Boeing 767-300 da EgyptAir que caiu no mar e matou 217 pessoas no dia 31 de outubro. A peça estava danificada pelo impacto da queda, mas as fitas ainda podem ser lidas pelos técnicos. Ali reside a esperança de descobrir o motivo da queda misteriosa. Na caixa-preta resgatada estão gravadas as informações de altitude e velocidade que podem ajudar a esclarecer o acidente. Até agora o pouco que se sabe é que o piloto automático do avião foi desligado – ou desligou-se sozinho – momentos antes da tragédia. Desconectar o automático é um dos primeiros passos do piloto diante de uma emergência, pois isso permite que ele comande e corrija a altitude do avião mais rapidamente. As informações disponíveis ainda não esclarecem se a desconexão foi feita voluntariamente pelo comandante ou se aconteceu por algum defeito.

A caixa-preta mostra que oito segundos depois da desconexão do piloto automático o avião começou a descer controladamente. Desceu de uma altitude de 10 000 metros para 5 000 metros. Apesar de controlada, a descida não foi totalmente normal, pois o piloto deixou de consultar a torre de controle antes da manobra. Desde o momento da decolagem até a queda do avião os controladores de vôo não receberam pedido de socorro algum. O último contato com a torre do Aeroporto de Nova York, cinco minutos antes do acidente, não revelou problemas com o Boeing.

Os últimos seis segundos da gravação da caixa-preta ainda não foram ouvidos, porque a fita foi muito danificada pela água do mar no pouco tempo em que passou submersa. São seis segundos cruciais. Eles registraram o que ocorreu em outros 1 000 metros de queda do avião. A outra caixa-preta, que continua desaparecida, contém a gravação das conversas do piloto e do co-piloto no interior da cabine.


Voando nas asas do perigo

A aviação de pequeno porte é o reconhecido ponto fraco da aviação brasileira. Enquanto as grandes empresas não registram nenhum acidente com vítimas há dois anos, as pequenas companhias de táxi aéreo e aeronaves particulares responderam, até setembro deste ano, por uma cena nada animadora: 35 acidentes aéreos, com 44 mortos. No ano passado foram 75 acidentes, com oitenta vítimas fatais. No que diz respeito aos incidentes, o desempenho das pequenas é negativo. Elas foram responsáveis por 65% das ocorrências em 1998, um total de 490. Um dos problemas crônicos neste setor é a fiscalização. O DAC admite que não tem um número suficiente de funcionários para fiscalizar essas empresas com a freqüência e a minúcia necessárias. Neste ano, o DAC realizou apenas catorze vistorias em empresas aéreas e onze em aeroportos. É um número insuficiente para uma frota de 10.587 aviões.

As vistorias nas pequenas companhias revelam um quadro desanimador. "Muitos aviões recebem a manutenção de seus motores em oficinas de fundo de quintal", diz o coronel João Luiz de Castro Guimarães, chefe da divisão de investigação e prevenção de acidentes do DAC. A manutenção é apontada pelos especialistas como um problema crônico nessas pequenas empresas. As seguradoras que fazem apólices de aeronaves atestam a mesma situação adversa em suas vistorias. "É comum encontrarmos aviões sem o histórico completo das peças e dos reparos realizados", afirma o engenheiro Carlos Alberto Antunes, da empresa Air Consult, que faz vistorias para a seguradora do banco Itaú. Sem o histórico das peças, não há como saber se os prazos de substituição estão sendo cumpridos: "Somos mais rigorosos. Mesmo passando na vistoria do DAC, muitas aeronaves não conseguem a aprovação do seguro".