Edição 1 624 -17/11/1999

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Mesmo sem acidentes há dois anos,
a aviação brasileira tem muito o que melhorar

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Voando nas asas do perigo

Cristine Prestes e Monica Weinberg

Há um paradoxo no ar. Nos últimos dois anos, não há um único registro de acidentes na aviação de grande porte brasileira. Há três anos, felizmente, não se registra nenhum desastre aéreo de proporções no país. O último foi a queda há três anos de um Fokker 100 da TAM, em São Paulo, que matou 99 pessoas. As estatísticas comparativas conferem ao Brasil um dos mais baixos índices de acidentes aeronáuticos do mundo neste período. No que parece uma contradição, o número de incidentes, as pequenas panes ou erros de manobras dos pilotos e das torres de controle, está em alta. Todos os dias são registrados na aviação brasileira dois casos. No ano passado, as autoridades aeronáuticas apontaram 757 incidentes, mais que o dobro de 1990. O número dessas ocorrências aumentou num ritmo mais veloz do que o crescimento da frota e do tráfego aéreo.

Qual o real significado do aumento dos incidentes aéreos no Brasil? Existem diversas maneiras de responder à questão. A mais imediata é que estamos diante de um processo de degradação visível da segurança de vôo no país. Uma outra hipótese a ser investigada é a de que, simplesmente, as autoridades e companhias aéreas estão mais atentas agora, passando a registrar incidentes que no passado nunca chegariam a engordar as estatísticas. A presente reportagem é uma tentativa de responder a essa questão. Incidentes aéreos são situações anormais que, em última análise, aumentam a taxa de risco de um vôo. Eles podem ser classificados pelo nível de perigo que oferecem para o avião e seus ocupantes. Um dos mais temíveis é aquele em que dois aviões, voando na mesma altitude, passam próximos demais um do outro. São situações apavorantes porque os jatos voam quase na velocidade do som, o que torna as manobras de fuga praticamente impossíveis e um eventual choque devastador. São consideradas incidentes também outras manobras desastradas, igualmente assustadoras, mas potencialmente menos destrutivas como as aterrissagens de barriga – ou aquelas em que o avião só consegue parar além da pista de pouso. Os incidentes ocorrem por falhas mecânicas nas aeronaves ou por erros humanos, de pilotos ou dos controladores de tráfego aéreo. A imensa maioria deles passa despercebida aos passageiros e seu conhecimento fica restrito à tripulação, que os relata nos livros de bordo dos aviões.

Quando uma anomalia dessas é percebida ela torna o vôo bastante desconfortável para os passageiros. Um desses incidentes foi testemunhado por alguns dos setenta passageiros que voavam sobre Santarém, interior do Pará, no dia 21 de janeiro do ano passado, a bordo de um Boeing 737 da Transbrasil. Outro Boeing 767, com 100 passageiros, curiosamente da mesma companhia, fazia a rota Washington–Brasília. Os dois aviões cruzaram-se no céu, em diagonal, passando a cerca de 60 metros um do outro – o comprimento de um Boeing 767. A torre de controle de tráfego havia programado a passagem das duas aeronaves no mesmo local e no mesmo instante, mas em altitudes diferentes. Por engano, ambas foram direcionadas para altitude de 11.000 metros. O alarme de aproximação, uma irritante campainha, soou na cabine dos dois aviões. Voando a 800 quilômetros por hora, a segundos da colisão, os pilotos desviaram suas rotas. As tripulações, apavoradas, conseguiram enxergar a aeronave vizinha. O acidente só foi evitado porque os aviões possuem um radar chamado TCAS (Traffic Alert and Collision Avoidance System), que acusa a presença de outro objeto na mesma rota, em geral a tempo de o piloto fazer a manobra evasiva.

Foi um grande susto. Mas poderia ter sido uma das mais apavorantes tragédias aéreas da história. A tênue fronteira que separa o incidente sem conseqüências do acidente terrível é que torna o estudo dessas ocorrências registradas nos livros de bordo uma questão crucial para a segurança da aviação comercial. No Brasil, considera-se que houve uma quase colisão quando duas aeronaves desviam suas rotas para evitar o choque. Pois bem, só no ano passado foram registrados vinte episódios de quase colisões apenas em jatos sobrevoando a Grande São Paulo. A área responde por metade do volume de tráfego do Brasil e, por essa razão, é de se esperar que aconteçam ali mais incidentes. O que inquieta as autoridades aeronáuticas é o fato de que o número de incidentes é alto mesmo se levando em conta a intensidade do tráfego. Para efeito de comparação: cruzam os céus de Nova York seis vezes mais aviões e o número total de quase colisões registrado na região não passou de dez no ano passado. Portanto, Nova York teve a metade das ocorrências mesmo com um tráfego seis vezes mais volumoso. No total, foram registradas 37 quase colisões nos céus do Brasil em 1998. Nos Estados Unidos, onde a frota é 26 vezes maior do que a brasileira, ocorreram 207 desses incidentes, apenas cinco vezes mais.

Como regra geral, tem-se que quanto mais intenso o tráfego aéreo maior a ocorrência de quase colisões. O tráfego de aviões no Brasil cresceu 55% nesta década. Mas vale a pena lembrar novamente aqui que as estatísticas indicam o número de incidentes aumentando mais rapidamente que o volume de tráfego. Nesse mesmo período registra-se um fenômeno que, certamente, não ajuda a minimizar o risco de acidentes. Ocorreu um déficit de 3% no número de homens encarregados justamente de vigiar a rota das aeronaves. Parece pouco, mas a diferença tem seu peso, especialmente quando se sabe que essas pessoas têm de trabalhar em turnos folgados, de modo que estejam no auge de sua atenção durante todo o tempo que passam no controle de vôo. No Aeroporto de Congonhas, o mais movimentado do Brasil, quando um único controlador deixa de comparecer ao trabalho há perda de qualidade no serviço. "Temos sete homens na torre de controle, quando o necessário são nove", diz o coronel Ricardo Nogueira da Silva, chefe do Serviço Regional de Proteção ao Vôo de São Paulo. "O nosso controlador é mais estressado porque em média trabalha mais. Isso representa um risco em potencial." À falta de mão-de-obra soma-se outra deficiência: em aeroportos internacionais brasileiros alguns controladores de vôo não falam bem inglês. Nesses casos, a boa comunicação com os pilotos estrangeiros fica comprometida em certos momentos.

No dia 24 de março de 1998, uma falha de comunicação entre dois pilotos americanos contratados pelo Banco de Boston e a torre de controle do Aeroporto de Congonhas causou dois incidentes com uma diferença de apenas dez minutos. O comandante americano do Boeing 727 fretado pelo banco não conseguiu entender as instruções da torre antes da decolagem para Brasília. O controlador tentou avisar, num inglês precário, que o piloto deveria seguir a direção oeste, porque ao norte esbarraria com o intenso tráfego aéreo do Aeroporto de Guarulhos. O americano não quis dar o braço a torcer e admitir que não entendeu a torre e seguiu na direção perigosa. Passou a 150 metros de um Boeing 767 da American Airlines, que já se preparava para pousar. O alarme interno da aeronave da American Airlines deu o sinal do perigo com o sintetizador de voz: "Climb, climb" (em português, "suba"). O piloto arremeteu o avião para cima e, por pouco, evitou o choque. Dez minutos depois, outro jato do Banco de Boston também seguiu o rumo norte e quase bateu em um avião particular. A distância entre as aeronaves foi de menos de 100 metros. O radar do avião novamente entrou em ação, instruindo o piloto americano: "Descend, descend" (em português "desça"). O piloto obedeceu e evitou a colisão.

Jair Luxemburgo
Avião rachado da Rio-Sul:
erro do piloto fez a empresa
investir em treinamento


A falha humana faz parte de qualquer ofício, mas na aviação ela é punida com muito mais severidade. Exatamente por isso, as melhores experiências de segurança de vôo do mundo são produzidas com muitos recursos e treinamentos. Pilotos, mecânicos e controladores de vôo têm de trabalhar satisfeitos, bem pagos e sempre descansados. Nos últimos anos, as grandes empresas de aviação do Brasil vêm enfrentando uma crise financeira crônica. Algumas reduziram parte das horas de treinamento dos pilotos como forma de diminuir seus custos. Nenhuma deixou de obedecer à recomendação de número de horas mínimas de treinamento determinado pelos órgãos oficiais. Não deixaram de obedecer à lei, mas rebaixaram, um pouco, o próprio padrão de qualidade nesse campo. Em dezembro do ano passado, a empresa regional Rio-Sul reconheceu oficialmente que uma deficiência no treinamento do piloto de um avião ERJ-145 foi a causa de um incidente de nível grave. Na ocasião, a aeronave praticamente partiu-se ao meio na pista do Aeroporto Afonso Pena, em Curitiba. "O piloto fez a manobra errada", diz Evandro Braga, diretor de engenharia e manutenção da empresa. O avião atingiu o solo a uma velocidade quatro vezes superior à normal em uma aterrissagem. Ao perceber o erro, o piloto arriscou uma manobra tardia. Faltando dois segundos para o toque no solo, tentou corrigir o pouso, mas não deu certo e o avião despencou na pista. Quando o aparelho, de 20 toneladas, despencou sobre a pista, sua razão de descida – ou seja, a velocidade com que perdia altitude – era de 1.600 pés por minuto. A razão máxima de descida que o avião agüenta sem sofrer danos são 600 pés por minuto. A reação da Rio-Sul foi exemplar. A empresa decidiu investir no retreinamento de pilotos daquele tipo de avião. "Depois do caso, enviamos o piloto envolvido no incidente e 100 outros para refazer o treinamento num simulador de vôo no Texas", diz Braga. Nem todas as companhias reagem tão positivamente como a Rio-Sul quando confrontadas com a evidência de que seu pessoal de vôo precisa de mais treinamento.

As falhas mecânicas aparecem como causa de muitos outros incidentes aéreos no Brasil. Elas também variam em gravidade. Pode ser um defeito de fabricação do avião ou podem ser provocadas por brechas na fiscalização das operações de manutenção. Em setembro do ano passado, a Transbrasil admitiu que um incidente envolvendo um Boeing 737 da companhia foi resultado de uma falha na manutenção dos pneus. O Boeing decolou de Brasília e, depois de quarenta minutos no ar, teve de retornar à pista de onde havia partido. O piloto percebeu que o painel de controle apontava problemas no sistema hidráulico que comanda os movimentos do trem de pouso. Em terra, a empresa verificou que parte da camada de borracha de um dos pneus havia descolado e atingido o trem de pouso. Uma investigação interna identificou que o projeto de recauchutagem dos pneus de aeronaves da empresa apresentava defeito. "Reconhecemos que havia falhas no projeto e mudamos o que estava errado", diz o engenheiro Francisco Eustáquio Mendes, diretor de engenharia e manutenção da Transbrasil.

A idéia de que boa manutenção está ligada à prevenção de incidentes, além de pertencer ao senso comum, não é nova na indústria de transporte de passageiros. É uma equação para lá de sabida e comprovada no meio aeronáutico. Os órgãos que regulam a aviação no mundo todo se baseiam nela para tomar decisões. No final de 1996, o órgão fiscalizador da aviação canadense impediu que um MD-11 da Vasp decolasse de Toronto com passageiros porque técnicos locais detectaram uma falha no avião. As autoridades flagraram durante a vistoria técnica defeitos no aileron, uma parte da asa que controla a estabilidade da aeronave. A agravante, nesse caso, é que o problema já tinha sido detectado e registrado pelo próprio setor de manutenção da empresa e ainda não havia sido solucionado. Ou seja, o MD-11 voou do Brasil para o Hemisfério Norte com um defeito que lá foi considerado grave demais para permitir sua operação normal. Resultado: o avião teve de retornar ao Brasil sem passageiros. O caso chegou aos ouvidos do Departamento de Aviação Civil, o DAC. Em dois meses, o defeito na aeronave havia sido corrigido e ela voava normalmente.

A manutenção de um avião é minuciosamente controlada. Cada peça possui um histórico com o número de horas voadas e um código correspondente. Uma peça deve ser substituída imediatamente quando completa o tempo de vida estabelecido pelo fabricante. Por isso chama a atenção a situação do MD-11 prefixo PP-SPE da Vasp, estacionado há oito meses ao ar livre no pátio do Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Como a Vasp passa por dificuldades financeiras e reconhecidamente padece da falta de estoque de peças, o MD-11 está servindo de almoxarifado para outros aviões da empresa. Não se trata de uma situação ilícita. Apesar de causar espanto no meio aeronáutico o fato de um avião novo estar sendo canibalizado ao longo de quase um ano, o intercâmbio de peças está previsto por lei, com a exigência de que a companhia não perca o controle delas. "Temos permissão do DAC para deslocar peças de um avião para outro", afirma Ailton Bredariol, gerente-geral de manutenção da Vasp.

Alexandre Sant'Anna
Empresas reduziram
as horas de
treinamento nos
simuladores
por economia

O crescimento do número de incidentes no Brasil também está ligado ao aumento dos registros por parte das empresas aéreas. No início da década, a área de segurança de vôo no Brasil era relegada a segundo plano. Aos poucos ela está ganhando relevância dentro das empresas. O Cenipa, órgão responsável pela investigação dos incidentes, reconhece que nunca recebeu tantos registros por parte das companhias aéreas. "As empresas estão mais conscientes da importância de relatar seus incidentes para prevenir futuros acidentes", reconhece o coronel Marcus Antônio Araújo da Costa, chefe da seção de treinamento do Cenipa e mestre em segurança de vôo. No ano passado, as quatro maiores empresas aéreas brasileiras – Varig, TAM, Transbrasil e Vasp – responderam por 30% dos 757 incidentes registrados no Cenipa. Os outros 70% acontecem em empresas regionais, companhias de táxi aéreo e aviões particulares. É um capítulo à parte na aviação brasileira.

Os especialistas afirmam que o relatório de um incidente é uma importante medida na prevenção de acidentes. É uma maneira de diagnosticar os problemas antes que eles se agravem e levem a conseqüências mais sérias. No ano passado, a companhia americana Continental comunicou ao FAA, órgão que controla a aviação civil americana, que havia encontrado fios desencapados e sinais de fagulhas em um dos tanques de combustível de um Boeing 737. O FAA determinou a partir daí que todos os aviões desse modelo, com mais de 50.000 horas de vôo, permanecessem no solo até passar por uma inspeção rigorosa. A medida, que deixou parados 372 aviões no mundo inteiro (31 deles no Brasil), foi tomada depois que o FAA constatou que as aeronaves mais antigas corriam risco de explodir em pleno vôo em função do desgaste das peças. Nos programas de manutenção do fabricante não estava previsto nenhum procedimento de substituição dos fios. Nos Estados Unidos, a cultura de tornar públicos os incidentes é muito mais forte do que no Brasil. O FAA recebe das empresas aéreas uma média de 5.000 relatos de incidentes por ano. Ao DAC, versão brasileira do FAA, as companhias enviam uma média de 500 relatos. Muitos incidentes que ocorrem nos céus brasileiros não engrossam as estatísticas oficiais porque não são comunicados ao órgão responsável. Ou seja, do ponto de vista estatístico, o problema dos incidentes aeronáuticos no Brasil é mais grave do que fazem crer os registros oficiais.

Alexandre Tokitaka
Comandante Remo,
ex-piloto da Vasp,
foi um dos 28 demitidos nos últimos dois meses


Entre os pilotos, as pessoas mais diretamente responsáveis pelos vôos, há um rosário de queixas. A Vasp, que nos dois últimos meses demitiu 28 comandantes, está na mira dos sindicatos. Eles acusam a companhia aérea de estar operando no limite da segurança. Os pilotos dizem que estavam sendo pressionados a decolar aeronaves sem todos os pré-requisitos recomendados pelo fabricante. "São casos em que o cinto de segurança do piloto apresentava defeito ou os indicadores do fluxo de combustível não funcionavam", diz o comandante Remo, presidente da Associação dos Pilotos da Vasp. "Estão demitindo pilotos que cumprem rigorosamente as regras da aviação." A empresa desmente as acusações. Parte da insatisfação dos aeronautas e aeroviários se deve ao corte drástico de pessoal efetuado pelas companhias aéreas brasileiras nesta década. De 1990 para cá, o número de funcionários caiu de 44.000 para cerca de 32.000. Remo está entre os recém-demitidos e suas afirmações encontram oposição entre especialistas da área. "Qual é a companhia que ia arriscar colocar seus passageiros e tripulação em perigo a qualquer custo?", pergunta o consultor Ozílio Silva. "Aviação é um negócio muito sério." A aviação brasileira está bem nas estatísticas mundiais, apesar das queixas dos pilotos. Um recente relatório divulgado pela Flight Safety Foundation, organização americana especializada em segurança de vôo, confirma as boas estatísticas de acidentes no Brasil e coloca a aviação do país entre as mais seguras do mundo. Para permanecer assim será preciso baixar também as taxas de incidentes.



Montagem de Alê Setti com fotos de Fernando Vivas e Rogério Carneiro