Edição 1 624 -17/11/1999

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O sucesso de Terra Nostra
consagra Benedito Ruy Barbosa
como o melhor autor
de novelas do Brasil

Ricardo Valladares

 
Antonio Milena

Benedito Ruy Barbosa:
aversão ao sensacionalismo
e preferência pelas sagas


A espera foi quase tão longa quanto as viagens de vapor do fim do século passado, aquelas que traziam imigrantes europeus dispostos a tentar a sorte na América. Nos últimos anos, os espectadores da Rede Globo aguardaram em vão por uma boa novela das 8. O último folhetim a ser exibido no horário, Suave Veneno, amargou baixos índices de audiência do início ao fim. Sua antecessora, Torre de Babel, exigiu uma série de cirurgias de emergência na história, no elenco e até no visual para despertar algum interesse. Antes dela, Por Amor ganhou a justa fama de novela mais enjoada dos últimos tempos. Na verdade, desde O Rei do Gado, que foi ao ar em 1996, a emissora parecia ter perdido a mão na mais tradicional de suas atrações. Agora, finalmente, a Globo parece ter reencontrado a sintonia com o espectador. Terra Nostra, em cartaz há oito semanas, é um enorme sucesso. Na medição feita na Grande São Paulo, que serve como amostragem para todo o país, o público tem mantido o índice de audiência da novela na casa dos 48 pontos, 13 a mais do que alcançou Suave Veneno no mesmo período. Isso significa que, em todo o país, Terra Nostra tem quase 9 milhões de espectadores a mais do que teve sua antecessora. A nova novela já alcançou picos de 58 pontos, uma verdadeira miragem na programação da Globo. Em outro tipo de medição realizado pelo Ibope, a cifra é mais espantosa: 65% dos aparelhos de TV que estão ligados no horário das 8 sintonizam Terra Nostra.

Podem ser alinhados vários motivos para o sucesso de Terra Nostra. O principal deles diz respeito a uma norma básica do mundo dos negócios que pode ser transposta para o dos espetáculos. Ela reza que, para um produto dar certo e se manter no gosto do consumidor, é preciso que tenha qualidade. Uma novela fraca, assim como um grupo de pagode mambembe, até pode atrair o público durante algum tempo, mas logo ele descobre que não vale a pena perder tempo com aquilo. Apesar dessa obviedade, fazia anos que a Globo não apresentava uma novela com a qualidade de Terra Nostra. Foi preciso que as anteriores chegassem a níveis abissais de audiência para que a emissora decidisse investir pesado. Só nos primeiros dois capítulos, que mostravam os imigrantes italianos a bordo de um navio rumo ao Brasil, foi gasto 1,2 milhão de reais. O primeiro mês de gravações consumiu 4 milhões de reais, 40% a mais do que no início de Suave Veneno.

Esse investimento fez diferença e aparece, por exemplo, nas imagens reais dos imigrantes italianos do final do século, recolhidas na Europa durante três meses por uma pesquisadora. Aparece também na caprichada reconstituição de época. Entre outras curiosidades, a novela mostra a Avenida Paulista na época de sua fundação. Outro aspecto notável, que ainda não chegou aos olhos do telespectador, é o trabalho de "envelhecimento" dos personagens. Como a trama se passa em três fases, estendendo-se pelo menos até a década de 40, a Globo recrutou um maquiador americano para simular a aparência dos atores com o passar dos anos. Primeiro, ele usou recursos de computação gráfica para esboçar os rostos envelhecidos. A partir das imagens obtidas eletronicamente, ele confeccionou máscaras de resina especial que servirão de referência para o trabalho diário de maquiagem do elenco. Para fazer a máscara de Thiago Lacerda, que interpreta o personagem Matteo, o profissional americano requisitou até a presença do pai do ator, cujos traços fisionômicos são muito semelhantes aos do filho.

Bobagem – O principal fator de sucesso de Terra Nostra, porém, chama-se Benedito Ruy Barbosa, o autor da novela. Ele tem no currículo alguns dos folhetins de maior audiência da história recente da TV, como Pantanal, Renascer e O Rei do Gado. Avesso a tramas recheadas de sexo, violência e outros artifícios sensacionalistas, tão ao gosto da maioria dos autores, Benedito tem um estilo próprio de falar ao telespectador. Sua preferência é pelas grandes sagas, que se estendem por várias gerações. "Na vida real, as pessoas já convivem com fantasmas como o desemprego e a violência. Quando chegam em casa e vão assistir à novela, elas querem descansar disso tudo", ele justifica. Essa era justamente a sua explicação para o êxito estrondoso de Pantanal, que foi ao ar entre 1990 e 1991, na finada TV Manchete.

Pantanal tornou-se um marco por colocar a pique uma teoria que então vigorava em meio aos autores. Era moeda corrente na segunda metade dos anos 80, em que as novelas tinham o papel de "conscientizar" o povo brasileiro dos problemas que o afligiam. Foi a época de tramas como O Salvador da Pátria, Que Rei Sou Eu? e Brasileiros e Brasileiras, cheias de alegorias e referências ao dia-a-dia do país. Essa idéia surgiu na esteira do processo de redemocratização, quando boa parte dos telespectadores sentia vontade de ver espelhadas no vídeo aquelas mazelas sobre as quais era impossível falar abertamente durante a ditadura. O problema é que os novelistas tomaram como regra absoluta o que era apenas um dado circunstancial, efêmero. Quem vê novelas está em busca de diversão, de escapismo, de fantasia. Pantanal oferecia doses generosas desses ingredientes, ao trazer à tona um mundo rural com paisagens maravilhosas, em que o tempo passava devagar, mulher virava onça e casais banhavam-se nus em cachoeiras. Pantanal não "conscientizava", relaxava. Quando os índices de audiência da novela começaram a subir vertiginosamente, superando os das próprias produções da Globo, percebeu-se, enfim, que misturar ficção e realidade na teledramaturgia não passava de grossa bobagem.

Em Terra Nostra, Benedito segue à risca sua cartilha. É verdade que a trama parte de uma passagem histórica muito dura para seus protagonistas: a imigração italiana para o Brasil na virada do século. Os recém-chegados lutam para se adaptar ao novo lar. Seus patrões, os grandes fazendeiros, encontram-se ainda atônitos com a abolição da escravatura e estranham as exigências de uma mão-de-obra assalariada. Em nenhum momento, porém, o autor usa esse pano de fundo para empreender revisões históricas ou críticas sociais. Benedito usa como matéria-prima apenas os ingredientes universais do folhetim: paixões e desencontros, amizades e traições, cobiça, dinheiro e poder. Cabe aí uma observação: a atual novela das 6 da Globo, Força de um Desejo, usa esses mesmos ingredientes, também se passa no século passado e a reconstituição de época é igualmente caprichada. A história é assinada por Gilberto Braga, um dos autores mais bem-sucedidos da TV. Sua audiência, porém, não consegue decolar.

Empatia – Um dos motivos pelos quais Terra Nostra é um sucesso e Força de um Desejo passa quase em branco está no elenco. Na trama de Benedito Ruy Barbosa, o casamento entre atores e personagens é particularmente eficiente. A começar pela escalação de Raul Cortez como Francesco e Antonio Fagundes como Gumercindo, ambos poderosos. Os telespectadores ainda guardam na memória suas atuações marcantes em O Rei do Gado, como Geremias Berdinazi e Bruno Mezenga, personagens que guardam semelhanças, inclusive físicas, com os da novela atual. Os atores que mais têm contribuído com o sucesso de Terra Nostra, no entanto, são os da ala jovem. Toda novela tem personagens na faixa dos 20 e poucos anos. Em geral, eles são interpretados por rapagões musculosos e moçoilas de curvas derrapantes com a expressividade de um chuchu. A ala jovem de Terra Nostra é diferente. Embora não demonstre talentos dramáticos extraordinários, ela consegue uma formidável empatia com telespectadores de todas as idades. Tanto que é responsável pelas passagens mais emocionantes.
Jorge Baumann /Rede Globo

Adriana e Ana Paula: a ala jovem conduz a história
e convence


A começar por Ana Paula Arosio, a Giuliana. Na novela, ela continua a fazer o papel de rosto mais bonito do Brasil, mas o público adora o seu sofrimento nas mãos da arquivilã Janete (Angela Vieira), que lhe roubou o filho recém-nascido na hora do parto. Além disso, Ana Paula faz par romântico com Thiago Lacerda (Matteo) catapultado pela novela ao posto de galã do momento. Ao lado de Lacerda, Terra Nostra criou outra celebridade instantânea: Maria Fernanda Cândido, que faz o papel da fogosa italianinha Paola e cuja beleza vem sendo comparada à da atriz Sophia Loren nos anos 50 (veja quadro). Ainda entre as jovens atrizes da novela, outras boas surpresas são Adriana Lessa, Carolina Kasting e Paloma Duarte.

Adriana Lessa interpreta a negra Nana. Na adolescência, enquanto vigorava a escravidão, ela concordou em proporcionar uma noite de amor ao fazendeiro Gumercindo, em troca da liberdade de sua família. A personagem engravida e seu filho acabará tendo um papel decisivo na história. Adriana tem experiência em teatro e trabalhou na minissérie Chiquinha Gonzaga, da Globo. Foi convocada para Terra Nostra pelo diretor da novela, Jayme Monjardim, que divide com Benedito Ruy Barbosa o entusiasmo pelo talento de Adriana. "Ela é a melhor atriz que vi na TV nos últimos tempos", entusiasma-se Benedito. Carolina Kasting vem de uma experiência traumática. Ela viveu o personagem-título de Brida, a novela da TV Manchete que acabou subitamente, no meio da história, por falta de dinheiro para gravar novos capítulos. Em Terra Nostra, ela interpreta com muita classe a bela Rosana, filha mais velha de Gumercindo. Paloma Duarte, filha da atriz Débora Duarte, por sua vez, vive a despachada Angélica. É o seu primeiro papel realmente importante na televisão.
Oscar Cabral
Monjardim: briga
e parceria


Ao contrário de outros novelistas, Benedito Ruy Barbosa prefere trabalhar com um elenco pequeno. Em Terra Nostra há 22 personagens que efetivamente influem na história ou, pelo menos, aparecem com freqüência na tela. Na maioria das novelas, esse número é, em média, de quarenta personagens – a maioria deles sem importância nenhuma. Outra característica do estilo Benedito é que ele não gosta de eleger uma única trama para ocupar o papel central na novela, com várias outras, de menor impacto, correndo paralelamente. O autor prefere dar peso semelhante a todas. É por isso que seus enredos têm um ritmo próprio, sem maiores sobressaltos ou viradas, prendendo o espectador pela convivência diária com os pequenos problemas daqueles poucos e bons personagens. "Nas novelas do Benedito, todo mundo brilha e até a empregada doméstica tem sua semana de protagonista", observa Jackson Antunes, que em Terra Nostra faz o papel do capataz Antenor. Os folhetins de Benedito também não requerem grande quantidade de astros de primeira linha, tal como os de Gilberto Braga e Aguinaldo Silva, por exemplo. Em Terra Nostra, os nomões são apenas dois, Raul Cortez e Antonio Fagundes.

 

Raul Cortez: envelhecimento simulado por meio de computação gráfica

Merchandising – No futuro próximo, a remuneração dos atores da novela irá subir consideravelmente. Isso porque Terra Nostra será a primeira novela de época a negociar ações de merchandising, ou seja, a anunciar produtos através de sua exposição nas cenas. Os anunciantes serão empresas que já existiam no Brasil no início do século, interessadas em conquistar a confiança do telespectador mostrando que têm 100 anos de tradição. Uma delas será uma marca de açúcar. Outra será a Light, que pretende mostrar na novela como a luz elétrica substituiu o lampião a gás na iluminação das ruas de São Paulo. Uma marca paulista de cerveja está prestes a fechar negócio para mostrar que já era consumida nas mesas dos barões do café.

Na Globo, o bom resultado de Terra Nostra vem produzindo uma sensação de alívio pela recuperação da faixa das 8 da noite. Além de inchar o preço dos anúncios apresentados nos intervalos da novela, esse sucesso eliminou, ao menos temporariamente, uma dor de cabeça da emissora: a concorrência do Programa do Ratinho. Quando a Globo exibia Suave Veneno, Ratinho e suas baixarias chegavam a alcançar picos de 30 pontos de audiência, superando a trama de Aguinaldo Silva. Insatisfeitos com a novela, muitos telespectadores trocavam de canal em busca de outra atração. Com Terra Nostra no ar, isso deixou de acontecer. A audiência do Programa do Ratinho estabilizou-se na faixa dos 18 pontos, sem registrar picos. Em outras palavras, a novela conquistou a fidelidade do público. Na semana passada, Ratinho chegou a esboçar uma reação anunciando, como uma das atrações de seu programa, uma "aula de sexo explícito". Foi barrado na última hora pela direção do SBT.

A preocupação da Globo, agora, concentra-se na nova novela das 7, Vila Madalena. Ela estreou na semana passada com apenas 33 pontos de audiência, 7 a menos do que sua antecessora, Andando nas Nuvens, registrou em seus últimos capítulos. Já no primeiro dia, Vila Madalena mostrou duas mortes, duas prisões, uma explosão e uma cena de nu com o ator Edson Celulari. Pode ser que o telespectador esteja cansado de ver em seus momentos de lazer cenas semelhantes às mostradas no Jornal Nacional. Ao assistir a Terra Nostra, ele jamais correrá esse risco.