|
|
Outra do Benedito
O sucesso de Terra Nostra
consagra Benedito Ruy Barbosa
como o melhor autor
de novelas do Brasil
Ricardo Valladares
Antonio Milena
 |
|
Benedito
Ruy Barbosa:
aversão ao sensacionalismo
e preferência pelas sagas
|
A espera foi quase tão longa quanto as viagens de vapor
do fim do século passado, aquelas que traziam imigrantes
europeus dispostos a tentar a sorte na América. Nos
últimos anos, os espectadores da Rede Globo aguardaram
em vão por uma boa novela das 8. O último folhetim
a ser exibido no horário, Suave Veneno, amargou
baixos índices de audiência do início
ao fim. Sua antecessora, Torre de Babel, exigiu uma
série de cirurgias de emergência na história,
no elenco e até no visual para despertar algum interesse.
Antes dela, Por Amor ganhou a justa fama de novela
mais enjoada dos últimos tempos. Na verdade, desde
O Rei do Gado, que foi ao ar em 1996, a emissora parecia
ter perdido a mão na mais tradicional de suas atrações.
Agora, finalmente, a Globo parece ter reencontrado a sintonia
com o espectador. Terra Nostra, em cartaz há
oito semanas, é um enorme sucesso. Na medição
feita na Grande São Paulo, que serve como amostragem
para todo o país, o público tem mantido o índice
de audiência da novela na casa dos 48 pontos, 13 a mais
do que alcançou Suave Veneno no mesmo período.
Isso significa que, em todo o país, Terra Nostra
tem quase 9 milhões de espectadores a mais do que
teve sua antecessora. A nova novela já alcançou
picos de 58 pontos, uma verdadeira miragem na programação
da Globo. Em outro tipo de medição realizado
pelo Ibope, a cifra é mais espantosa: 65% dos aparelhos
de TV que estão ligados no horário das 8 sintonizam
Terra Nostra.
Podem ser alinhados vários motivos para o sucesso
de Terra Nostra. O principal deles diz respeito a uma
norma básica do mundo dos negócios que pode
ser transposta para o dos espetáculos. Ela reza que,
para um produto dar certo e se manter no gosto do consumidor,
é preciso que tenha qualidade. Uma novela fraca, assim
como um grupo de pagode mambembe, até pode atrair o
público durante algum tempo, mas logo ele descobre
que não vale a pena perder tempo com aquilo. Apesar
dessa obviedade, fazia anos que a Globo não apresentava
uma novela com a qualidade de Terra Nostra. Foi preciso
que as anteriores chegassem a níveis abissais de audiência
para que a emissora decidisse investir pesado. Só nos
primeiros dois capítulos, que mostravam os imigrantes
italianos a bordo de um navio rumo ao Brasil, foi gasto 1,2
milhão de reais. O primeiro mês de gravações
consumiu 4 milhões de reais, 40% a mais do que no início
de Suave Veneno.
Esse investimento fez diferença e aparece, por exemplo,
nas imagens reais dos imigrantes italianos do final do século,
recolhidas na Europa durante três meses por uma pesquisadora.
Aparece também na caprichada reconstituição
de época. Entre outras curiosidades, a novela mostra
a Avenida Paulista na época de sua fundação.
Outro aspecto notável, que ainda não chegou
aos olhos do telespectador, é o trabalho de "envelhecimento"
dos personagens. Como a trama se passa em três fases,
estendendo-se pelo menos até a década de 40,
a Globo recrutou um maquiador americano para simular a aparência
dos atores com o passar dos anos. Primeiro, ele usou recursos
de computação gráfica para esboçar
os rostos envelhecidos. A partir das imagens obtidas eletronicamente,
ele confeccionou máscaras de resina especial que servirão
de referência para o trabalho diário de maquiagem
do elenco. Para fazer a máscara de Thiago Lacerda,
que interpreta o personagem Matteo, o profissional americano
requisitou até a presença do pai do ator, cujos
traços fisionômicos são muito semelhantes
aos do filho.
Bobagem O principal fator de sucesso de Terra
Nostra, porém, chama-se Benedito Ruy Barbosa, o
autor da novela. Ele tem no currículo alguns dos folhetins
de maior audiência da história recente da TV,
como Pantanal, Renascer e O Rei do Gado. Avesso
a tramas recheadas de sexo, violência e outros artifícios
sensacionalistas, tão ao gosto da maioria dos autores,
Benedito tem um estilo próprio de falar ao telespectador.
Sua preferência é pelas grandes sagas, que se
estendem por várias gerações. "Na vida
real, as pessoas já convivem com fantasmas como o desemprego
e a violência. Quando chegam em casa e vão assistir
à novela, elas querem descansar disso tudo", ele justifica.
Essa era justamente a sua explicação para o
êxito estrondoso de Pantanal, que foi ao ar entre
1990 e 1991, na finada TV Manchete.
Pantanal tornou-se um marco por colocar a pique uma
teoria que então vigorava em meio aos autores. Era
moeda corrente na segunda metade dos anos 80, em que as novelas
tinham o papel de "conscientizar" o povo brasileiro dos problemas
que o afligiam. Foi a época de tramas como O Salvador
da Pátria, Que Rei Sou Eu? e Brasileiros
e Brasileiras, cheias de alegorias e referências
ao dia-a-dia do país. Essa idéia surgiu na esteira
do processo de redemocratização, quando boa
parte dos telespectadores sentia vontade de ver espelhadas
no vídeo aquelas mazelas sobre as quais era impossível
falar abertamente durante a ditadura. O problema é
que os novelistas tomaram como regra absoluta o que era apenas
um dado circunstancial, efêmero. Quem vê novelas
está em busca de diversão, de escapismo, de
fantasia. Pantanal oferecia doses generosas desses
ingredientes, ao trazer à tona um mundo rural com paisagens
maravilhosas, em que o tempo passava devagar, mulher virava
onça e casais banhavam-se nus em cachoeiras. Pantanal
não "conscientizava", relaxava. Quando os índices
de audiência da novela começaram a subir vertiginosamente,
superando os das próprias produções da
Globo, percebeu-se, enfim, que misturar ficção
e realidade na teledramaturgia não passava de grossa
bobagem.
Em Terra Nostra, Benedito segue à risca sua
cartilha. É verdade que a trama parte de uma passagem
histórica muito dura para seus protagonistas: a imigração
italiana para o Brasil na virada do século. Os recém-chegados
lutam para se adaptar ao novo lar. Seus patrões, os
grandes fazendeiros, encontram-se ainda atônitos com
a abolição da escravatura e estranham as exigências
de uma mão-de-obra assalariada. Em nenhum momento,
porém, o autor usa esse pano de fundo para empreender
revisões históricas ou críticas sociais.
Benedito usa como matéria-prima apenas os ingredientes
universais do folhetim: paixões e desencontros, amizades
e traições, cobiça, dinheiro e poder.
Cabe aí uma observação: a atual novela
das 6 da Globo, Força de um Desejo, usa esses
mesmos ingredientes, também se passa no século
passado e a reconstituição de época é
igualmente caprichada. A história é assinada
por Gilberto Braga, um dos autores mais bem-sucedidos da TV.
Sua audiência, porém, não consegue decolar.
Empatia Um dos motivos pelos quais Terra
Nostra é um sucesso e Força de um Desejo
passa quase em branco está no elenco. Na trama de Benedito
Ruy Barbosa, o casamento entre atores e personagens é
particularmente eficiente. A começar pela escalação
de Raul Cortez como Francesco e Antonio Fagundes como Gumercindo,
ambos poderosos. Os telespectadores ainda guardam na memória
suas atuações marcantes em O Rei do Gado,
como Geremias Berdinazi e Bruno Mezenga, personagens que guardam
semelhanças, inclusive físicas, com os da novela
atual. Os atores que mais têm contribuído com
o sucesso de Terra Nostra, no entanto, são os
da ala jovem. Toda novela tem personagens na faixa dos 20
e poucos anos. Em geral, eles são interpretados por
rapagões musculosos e moçoilas de curvas derrapantes
com a expressividade de um chuchu. A ala jovem de Terra
Nostra é diferente. Embora não demonstre
talentos dramáticos extraordinários, ela consegue
uma formidável empatia com telespectadores de todas
as idades. Tanto que é responsável pelas passagens
mais emocionantes.
Jorge Baumann /Rede Globo
 |
|
Adriana e Ana Paula: a ala jovem conduz a história
e convence
|
A começar por Ana Paula Arosio, a Giuliana. Na novela,
ela continua a fazer o papel de rosto mais bonito do Brasil,
mas o público adora o seu sofrimento nas mãos
da arquivilã Janete (Angela Vieira), que lhe roubou
o filho recém-nascido na hora do parto. Além
disso, Ana Paula faz par romântico com Thiago Lacerda
(Matteo) catapultado pela novela ao posto de galã do
momento. Ao lado de Lacerda, Terra Nostra criou outra
celebridade instantânea: Maria Fernanda Cândido,
que faz o papel da fogosa italianinha Paola e cuja beleza
vem sendo comparada à da atriz Sophia Loren nos anos
50 (veja quadro). Ainda entre
as jovens atrizes da novela, outras boas surpresas são
Adriana Lessa, Carolina Kasting e Paloma Duarte.
Adriana Lessa interpreta a negra Nana. Na adolescência,
enquanto vigorava a escravidão, ela concordou em proporcionar
uma noite de amor ao fazendeiro Gumercindo, em troca da liberdade
de sua família. A personagem engravida e seu filho
acabará tendo um papel decisivo na história.
Adriana tem experiência em teatro e trabalhou
na minissérie Chiquinha Gonzaga, da Globo. Foi
convocada para Terra Nostra pelo diretor da novela,
Jayme Monjardim, que divide com Benedito Ruy Barbosa o entusiasmo
pelo talento de Adriana. "Ela é a melhor atriz que
vi na TV nos últimos tempos", entusiasma-se Benedito.
Carolina Kasting vem de uma experiência traumática.
Ela viveu o personagem-título de Brida, a novela
da TV Manchete que acabou subitamente, no meio da história,
por falta de dinheiro para gravar novos capítulos.
Em Terra Nostra, ela interpreta com muita classe a
bela Rosana, filha mais velha de Gumercindo. Paloma Duarte,
filha da atriz Débora Duarte, por sua vez, vive a despachada
Angélica. É o seu primeiro papel realmente importante
na televisão.
Oscar Cabral
 |
Monjardim: briga
e parceria |
Ao contrário de outros novelistas, Benedito Ruy Barbosa
prefere trabalhar com um elenco pequeno. Em Terra Nostra
há 22 personagens que efetivamente influem na história
ou, pelo menos, aparecem com freqüência na tela.
Na maioria das novelas, esse número é, em média,
de quarenta personagens a maioria deles sem importância
nenhuma. Outra característica do estilo Benedito é
que ele não gosta de eleger uma única trama
para ocupar o papel central na novela, com várias outras,
de menor impacto, correndo paralelamente. O autor prefere
dar peso semelhante a todas. É por isso que seus enredos
têm um ritmo próprio, sem maiores sobressaltos
ou viradas, prendendo o espectador pela convivência
diária com os pequenos problemas daqueles poucos e
bons personagens. "Nas novelas do Benedito, todo mundo brilha
e até a empregada doméstica tem sua semana de
protagonista", observa Jackson Antunes, que em Terra Nostra
faz o papel do capataz Antenor. Os folhetins de Benedito
também não requerem grande quantidade de astros
de primeira linha, tal como os de Gilberto Braga e Aguinaldo
Silva, por exemplo. Em Terra Nostra, os nomões
são apenas dois, Raul Cortez e Antonio Fagundes.
 |
|
Raul Cortez: envelhecimento simulado por meio de
computação gráfica
|
Merchandising No futuro próximo, a remuneração
dos atores da novela irá subir consideravelmente. Isso
porque Terra Nostra será a primeira novela de
época a negociar ações de merchandising,
ou seja, a anunciar produtos através de sua exposição
nas cenas. Os anunciantes serão empresas que já
existiam no Brasil no início do século, interessadas
em conquistar a confiança do telespectador mostrando
que têm 100 anos de tradição. Uma delas
será uma marca de açúcar. Outra será
a Light, que pretende mostrar na novela como a luz elétrica
substituiu o lampião a gás na iluminação
das ruas de São Paulo. Uma marca paulista de cerveja
está prestes a fechar negócio para mostrar que
já era consumida nas mesas dos barões do café.
Na Globo, o bom resultado de Terra Nostra vem produzindo
uma sensação de alívio pela recuperação
da faixa das 8 da noite. Além de inchar o preço
dos anúncios apresentados nos intervalos da novela,
esse sucesso eliminou, ao menos temporariamente, uma dor de
cabeça da emissora: a concorrência do Programa
do Ratinho. Quando a Globo exibia Suave Veneno,
Ratinho e suas baixarias chegavam a alcançar picos
de 30 pontos de audiência, superando a trama de Aguinaldo
Silva. Insatisfeitos com a novela, muitos telespectadores
trocavam de canal em busca de outra atração.
Com Terra Nostra no ar, isso deixou de acontecer. A
audiência do Programa do Ratinho estabilizou-se
na faixa dos 18 pontos, sem registrar picos. Em outras palavras,
a novela conquistou a fidelidade do público. Na semana
passada, Ratinho chegou a esboçar uma reação
anunciando, como uma das atrações de seu programa,
uma "aula de sexo explícito". Foi barrado na última
hora pela direção do SBT.
A preocupação da Globo, agora, concentra-se
na nova novela das 7, Vila Madalena. Ela estreou na
semana passada com apenas 33 pontos de audiência, 7
a menos do que sua antecessora, Andando nas Nuvens,
registrou em seus últimos capítulos. Já
no primeiro dia, Vila Madalena mostrou duas mortes,
duas prisões, uma explosão e uma cena de nu
com o ator Edson Celulari. Pode ser que o telespectador esteja
cansado de ver em seus momentos de lazer cenas semelhantes
às mostradas no Jornal Nacional. Ao assistir
a Terra Nostra, ele jamais correrá esse risco.
|