Arquitetura verde
Prédio de 48 andares construído
em Nova York
inaugura a era dos arranha-céus ecológicos
Pablo Nogueira
Em meio ao emaranhado de arranha-céus de Nova York,
alguns edifícios marcaram época e viraram modelos
de arquitetura. Lá estão o venerando Empire
State Building, prédio ícone dos anos 30, e
o World Trade Center, torres gêmeas símbolos
da década de 70, com seus 110 andares. Agora, é
a vez de um novo prédio materializar em concreto, aço
e vidro o espírito desta virada de milênio. É
o 4 Times Square, saudado como o primeiro arranha-céu
ecológico e politicamente correto da história.
O edifício tem 48 andares e cerca de 150 000 metros
quadrados de área útil, um nanico comparado
com os demais colossos nova-iorquinos. Em compensação
tem um recheio tecnológico nunca visto em uma obra
arquitetônica. São equipamentos que não
apenas juntam o que há de mais moderno em controle
computadorizado de elevadores, sistemas de telefonia e segurança,
mas também economizam energia, zelam pela qualidade
do ar e da iluminação e até selecionam
o lixo antes de despachá-lo rua afora. Tudo milimetricamente
planejado com o objetivo de dar o máximo conforto aos
usuários do imóvel e causar o mínimo
dano possível às combalidas condições
ambientais da metrópole.
O 4 Times Square custou meio bilhão de dólares
e enfrentou percalços trágicos durante a construção
(veja quadro) mas o resultado
é daqueles que fazem escola. "Nós estamos criando
um exemplo que, com certeza, vai ser seguido por muita gente",
diz Douglas Durst, o construtor do edifício. Os conceitos
de "arquitetura verde" estão presentes em toda a estrutura.
Num país em que se queima carvão em usinas termelétricas
e dois terços da energia elétrica são
consumidos por grandes edifícios, o 4 Times Square
consegue ser 25% mais econômico que qualquer outro prédio
do mesmo tamanho. O primeiro passo para alcançar essa
proeza foi privilegiar o uso de luz natural, dotando o prédio
de janelas imensas, com quase 2 metros de altura. Sensores
instalados nas salas medem a quantidade de luz solar que passa
pelas janelas e regulam a intensidade das lâmpadas,
de modo a combinar da melhor forma a luz artificial à
solar. Se os sensores captarem que uma sala está vazia,
as luzes se apagam automaticamente. O vidro escolhido, embora
translúcido, bloqueia ao máximo a passagem de
calor. É uma estratégia que funciona também
na redução dos gastos com o sistema de ar condicionado,
um dos orgulhos dos construtores.
O equipamento que ventila o prédio usa gás
natural para resfriar o ar, em vez de gases sintéticos,
como CFC e HCFC, verdadeiros venenos para a camada de ozônio.
O ar que passa pelos dutos de ventilação é
filtrado para eliminar impurezas e a proporção
de gás carbônico dentro do prédio, produzido
pela respiração das pessoas, é monitorada
por uma central eletrônica. O objetivo é manter
dentro do edifício o ar 50% mais limpo do que é
determinado pela lei nova-iorquina. Acredita-se que dessa
forma os empregados possam ter produtividade 10% maior.
Outra novidade é a utilização de fontes
alternativas de energia. Parte das fachadas é recoberta
por 100 painéis de células fotovoltaicas, capazes
de absorver a luz do sol e produzir energia elétrica.
Feitas de silício, com espessura menor que a de um
fio de cabelo, elas geram 15 quilowatts/hora de eletricidade
quantidade simbólica, equivalente a 1% da necessidade
do edifício. Produzir mais do que isso seria economicamente
inviável, devido ao custo da tecnologia. A tentativa
de auto-suficiência energética vai mais longe.
Além das células solares, foram instaladas no
4º andar do prédio duas células de combustível,
imensos geradores de energia movidos a gás natural.
As máquinas, de 1 milhão de dólares cada
uma, são capazes de produzir 100% da eletricidade consumida
no prédio durante a noite.
Obra
azarada
Antes de ser conhecido como o "prédio verde",
o 4 Times Square já tinha outro apelido. Era
o "prédio maldito da Condé Nast". Durante
sua construção, uma sucessão de
acidentes, com duas mortes, maculou sua imagem arrojada.
No pior deles, em julho do ano passado, desabou um pedaço
da enorme estrutura dos andaimes, matando, no
prédio em frente, Thereza Feliconio, brasileira
de 85 anos que vivia em Nova York.
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O 4 Times Square fica num endereço mítico
de Nova York (o nome do prédio é o próprio
endereço, com o número em primeiro lugar, à
moda americana). Está plantado na esquina da Broadway
com a Rua 42. Os construtores apostaram pesado na revitalização
da área, onde fazia sete anos não era construído
nenhum grande edifício comercial. Está dando
certo e, há três meses, a sofisticada editora
Condé Nast, das revistas Vogue, Traveller
e New Yorker, ocupou vinte andares do 4 Times Square
(não sem confusão, pois os jornalistas da New
Yorker estiveram perto do motim para não deixar
a velha redação na Rua 43). O Times Square,
com seus enormes anúncios coloridos, passou anos atolado
na decadência e era considerado uma das áreas
mais feias e perigosas da cidade. A prefeitura fez sua parte,
expulsando o comércio pornográfico da região.
O prédio ecologicamente correto era o que faltava para
completar a mudança.
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