Edição 1 624 -17/11/1999

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Arquitetura verde

Prédio de 48 andares construído em Nova York
inaugura a era dos arranha-céus ecológicos

Pablo Nogueira

Em meio ao emaranhado de arranha-céus de Nova York, alguns edifícios marcaram época e viraram modelos de arquitetura. Lá estão o venerando Empire State Building, prédio ícone dos anos 30, e o World Trade Center, torres gêmeas símbolos da década de 70, com seus 110 andares. Agora, é a vez de um novo prédio materializar em concreto, aço e vidro o espírito desta virada de milênio. É o 4 Times Square, saudado como o primeiro arranha-céu ecológico e politicamente correto da história. O edifício tem 48 andares e cerca de 150 000 metros quadrados de área útil, um nanico comparado com os demais colossos nova-iorquinos. Em compensação tem um recheio tecnológico nunca visto em uma obra arquitetônica. São equipamentos que não apenas juntam o que há de mais moderno em controle computadorizado de elevadores, sistemas de telefonia e segurança, mas também economizam energia, zelam pela qualidade do ar e da iluminação e até selecionam o lixo antes de despachá-lo rua afora. Tudo milimetricamente planejado com o objetivo de dar o máximo conforto aos usuários do imóvel e causar o mínimo dano possível às combalidas condições ambientais da metrópole.

O 4 Times Square custou meio bilhão de dólares e enfrentou percalços trágicos durante a construção (veja quadro) – mas o resultado é daqueles que fazem escola. "Nós estamos criando um exemplo que, com certeza, vai ser seguido por muita gente", diz Douglas Durst, o construtor do edifício. Os conceitos de "arquitetura verde" estão presentes em toda a estrutura. Num país em que se queima carvão em usinas termelétricas e dois terços da energia elétrica são consumidos por grandes edifícios, o 4 Times Square consegue ser 25% mais econômico que qualquer outro prédio do mesmo tamanho. O primeiro passo para alcançar essa proeza foi privilegiar o uso de luz natural, dotando o prédio de janelas imensas, com quase 2 metros de altura. Sensores instalados nas salas medem a quantidade de luz solar que passa pelas janelas e regulam a intensidade das lâmpadas, de modo a combinar da melhor forma a luz artificial à solar. Se os sensores captarem que uma sala está vazia, as luzes se apagam automaticamente. O vidro escolhido, embora translúcido, bloqueia ao máximo a passagem de calor. É uma estratégia que funciona também na redução dos gastos com o sistema de ar condicionado, um dos orgulhos dos construtores.

O equipamento que ventila o prédio usa gás natural para resfriar o ar, em vez de gases sintéticos, como CFC e HCFC, verdadeiros venenos para a camada de ozônio. O ar que passa pelos dutos de ventilação é filtrado para eliminar impurezas e a proporção de gás carbônico dentro do prédio, produzido pela respiração das pessoas, é monitorada por uma central eletrônica. O objetivo é manter dentro do edifício o ar 50% mais limpo do que é determinado pela lei nova-iorquina. Acredita-se que dessa forma os empregados possam ter produtividade 10% maior.

Outra novidade é a utilização de fontes alternativas de energia. Parte das fachadas é recoberta por 100 painéis de células fotovoltaicas, capazes de absorver a luz do sol e produzir energia elétrica. Feitas de silício, com espessura menor que a de um fio de cabelo, elas geram 15 quilowatts/hora de eletricidade – quantidade simbólica, equivalente a 1% da necessidade do edifício. Produzir mais do que isso seria economicamente inviável, devido ao custo da tecnologia. A tentativa de auto-suficiência energética vai mais longe. Além das células solares, foram instaladas no 4º andar do prédio duas células de combustível, imensos geradores de energia movidos a gás natural. As máquinas, de 1 milhão de dólares cada uma, são capazes de produzir 100% da eletricidade consumida no prédio durante a noite.

 

Obra azarada

Antes de ser conhecido como o "prédio verde", o 4 Times Square já tinha outro apelido. Era o "prédio maldito da Condé Nast". Durante sua construção, uma sucessão de acidentes, com duas mortes, maculou sua imagem arrojada. No pior deles, em julho do ano passado, desabou um pedaço da enorme estrutura dos andaimes, matando, no prédio em frente, Thereza Feliconio, brasileira de 85 anos que vivia em Nova York.

O 4 Times Square fica num endereço mítico de Nova York (o nome do prédio é o próprio endereço, com o número em primeiro lugar, à moda americana). Está plantado na esquina da Broadway com a Rua 42. Os construtores apostaram pesado na revitalização da área, onde fazia sete anos não era construído nenhum grande edifício comercial. Está dando certo e, há três meses, a sofisticada editora Condé Nast, das revistas Vogue, Traveller e New Yorker, ocupou vinte andares do 4 Times Square (não sem confusão, pois os jornalistas da New Yorker estiveram perto do motim para não deixar a velha redação na Rua 43). O Times Square, com seus enormes anúncios coloridos, passou anos atolado na decadência e era considerado uma das áreas mais feias e perigosas da cidade. A prefeitura fez sua parte, expulsando o comércio pornográfico da região. O prédio ecologicamente correto era o que faltava para completar a mudança.