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A volta do pecador
Um ano depois do Dossiê Cayman,
o pastor Caio Fábio acha que é hora
de sair do fundo do poço
Roberta Paixão
Paulo Jares

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Caio Fábio na favela de Acari,
no Rio: retorno às origens, trabalho com os pobres
e nova mulher
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Foi um ano de provação para o pastor Caio Fábio
D'Araújo, 44 anos. Em novembro passado, ele foi apontado
como o intermediário de um conjunto de documentos que
ficou conhecido como o "Dossiê Cayman" um calhamaço
que provaria a existência de contas e empresas secretas
do presidente Fernando Henrique Cardoso e de outros tucanos
num paraíso fiscal do Caribe, as Ilhas Cayman. A parte
dos papéis que foi divulgada não deixou dúvida
de que os documentos eram apócrifos, e Caio Fábio,
associado ao calhamaço, caiu em desgraça. Teve
a vida revirada pela Polícia Federal, entrou em depressão,
emagreceu 25 de seus 119 quilos, perdeu amigos e dinheiro.
Acumulou dívidas e está sendo processado por
calúnia pelo Ministério da Justiça. Para
completar o calvário, Caio Fábio teve um caso
extraconjugal que lhe custou a suspensão da Igreja
Presbiteriana. Casado há 23 anos com Alda, com quem
tem quatro filhos, ele foi obrigado pela cúpula presbiteriana
a abrir mão do sacerdócio e pediu o divórcio.
Para escapar dos problemas no Brasil, foi morar na Flórida.
Com menos dinheiro do que gostaria e sem projetos nos Estados
Unidos, retornou agora ao Rio de Janeiro. Tentará refazer
sua vida.
Pastor da Igreja Presbiteriana há 25 anos, Caio Fábio
tombou na subida. A partir do início dos anos 90, ele
passou a ser respeitado por autoridades, intelectuais e artistas.
Uma constelação da qual faziam parte o teólogo
Leonardo Boff, o governador Anthony Garotinho, o humorista
Chico Anysio e o escritor Paulo Coelho. Seus trinta livros
e 76 conferências publicados venderam 5 milhões
de exemplares. No início, ele doava 90% dos direitos
autorais para sua organização não governamental,
a Vinde, voltada para a assistência social. Há
cinco anos, no entanto, passou a embolsar a totalidade do
dinheiro. "Meus filhos estavam crescendo e tinham novas necessidades",
justifica. Quando conquistou prestígio nacional, Caio
Fábio também ganhou mais amigos e aval para
tornar-se empresário de comunicação.
Em 1994, abriu uma editora para imprimir seus livros e de
outros autores e fundou a revista Vinde. Mais tarde,
conseguiu uma concessão de canal a cabo. A TV Vinde
entrou no ar em dezembro de 1996. Para viabilizá-la
financeiramente, ele vendia comerciais e passava a sacolinha
no meio empresarial e religioso.
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Aldridge Neto

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O pastor nos tempos de glória:
com Paulo Coelho
(à esq.) e Chico Anysio (à dir.)
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A Fábrica da Esperança, projeto de assistência
social implantado pelo pastor na favela carioca de Acari,
chegou a atender nos seus bons tempos 15.000
adolescentes por mês mais do que o dobro do número
de hoje. Mas no seu caso a caridade virara pano de fundo para
seu próprio benefício. Caio Fábio conseguia
recursos para realizar qualquer projeto. Empresas do porte
da Brahma e da Xerox contribuíam. Chegou a ter um patrimônio
de 5 milhões de dólares. Com o Dossiê
Cayman e sua imagem manchada, as parcerias e doações
para a Fábrica da Esperança caíram à
metade. Ainda assim, amealha cerca de 70.000
reais por mês. "Quero colocar a fábrica a todo
o vapor de novo", diz o pastor.
No universo evangélico, Caio Fábio era uma
espécie de contraponto progressista ao bispo Edir Macedo,
da Igreja Universal do Reino de Deus, com quem brigou. Fora
dele, vivia na companhia de líderes políticos
de esquerda. Desde Luis Inácio Lula da Silva, presidente
de honra do PT, e Leonel Brizola, chefão do PDT, até
o ex-governador Ciro Gomes. Foi para alguns desses políticos
que o pastor contou sobre a existência do Dossiê
Cayman. Quando a história começou a pipocar
na imprensa, Caio Fábio foi acusado de ter pedido propina
em troca do calhamaço. "Eu nunca vi o documento, só
ouvi falar nele. Um irmão de fé fez o contato
com um inglês e eu fui ao encontro dele em Miami. Chegando
lá, o sujeito pediu 1,5 milhão de dólares
e eu caí fora", relata. Caio Fábio nunca contou
o nome do tal irmão de fé. Nem do inglês.
Ele diz estar arrependido, mas suas justificativas não
ajudam muito a montar o quebra-cabeça. "Eu achava que
poderia começar uma carreira política dando
o dossiê aos políticos", alega ele. "Depois,
eles me ajudariam." Curiosamente, ofereceu os documentos à
oposição e ao próprio governo.
Antes de desembarcar no Brasil, Caio Fábio vendeu
a revista por 500.000 reais para
um grupo evangélico de São Paulo e arrendou
o canal de televisão. Com 3 milhões de reais
em dívidas, a TV Vinde quase faliu. O pastor diz que
se mantém com 12.000 reais
que recebe por mês pelo arrendamento de suas empresas.
Ele está morando com a namorada em um apart-hotel em
Niterói, no Rio de Janeiro. Mas quer mudar-se para
um apartamento de quatro quartos que um amigo lhe emprestou.
Para a ex-mulher, comprou um apartamento menor. Dono de uma
oratória envolvente, ele tem agora pela frente um desafio
quase impossível de superar. As portas que antes se
escancaravam à sua chegada agora estão cerradas.
Até o próprio Caio Fábio acha que sua
situação é difícil: "Eu pequei.
Sou um anjo caído".
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