Edição 1 624 -17/11/1999

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A volta do pecador

Um ano depois do Dossiê Cayman,
o pastor Caio Fábio acha que é hora
de sair do fundo do poço

Roberta Paixão

 
Paulo Jares

Caio Fábio na favela de Acari, no Rio: retorno às origens, trabalho com os pobres e nova mulher


Foi um ano de provação para o pastor Caio Fábio D'Araújo, 44 anos. Em novembro passado, ele foi apontado como o intermediário de um conjunto de documentos que ficou conhecido como o "Dossiê Cayman" – um calhamaço que provaria a existência de contas e empresas secretas do presidente Fernando Henrique Cardoso e de outros tucanos num paraíso fiscal do Caribe, as Ilhas Cayman. A parte dos papéis que foi divulgada não deixou dúvida de que os documentos eram apócrifos, e Caio Fábio, associado ao calhamaço, caiu em desgraça. Teve a vida revirada pela Polícia Federal, entrou em depressão, emagreceu 25 de seus 119 quilos, perdeu amigos e dinheiro. Acumulou dívidas e está sendo processado por calúnia pelo Ministério da Justiça. Para completar o calvário, Caio Fábio teve um caso extraconjugal que lhe custou a suspensão da Igreja Presbiteriana. Casado há 23 anos com Alda, com quem tem quatro filhos, ele foi obrigado pela cúpula presbiteriana a abrir mão do sacerdócio e pediu o divórcio. Para escapar dos problemas no Brasil, foi morar na Flórida. Com menos dinheiro do que gostaria e sem projetos nos Estados Unidos, retornou agora ao Rio de Janeiro. Tentará refazer sua vida.

Pastor da Igreja Presbiteriana há 25 anos, Caio Fábio tombou na subida. A partir do início dos anos 90, ele passou a ser respeitado por autoridades, intelectuais e artistas. Uma constelação da qual faziam parte o teólogo Leonardo Boff, o governador Anthony Garotinho, o humorista Chico Anysio e o escritor Paulo Coelho. Seus trinta livros e 76 conferências publicados venderam 5 milhões de exemplares. No início, ele doava 90% dos direitos autorais para sua organização não governamental, a Vinde, voltada para a assistência social. Há cinco anos, no entanto, passou a embolsar a totalidade do dinheiro. "Meus filhos estavam crescendo e tinham novas necessidades", justifica. Quando conquistou prestígio nacional, Caio Fábio também ganhou mais amigos e aval para tornar-se empresário de comunicação. Em 1994, abriu uma editora para imprimir seus livros e de outros autores e fundou a revista Vinde. Mais tarde, conseguiu uma concessão de canal a cabo. A TV Vinde entrou no ar em dezembro de 1996. Para viabilizá-la financeiramente, ele vendia comerciais e passava a sacolinha no meio empresarial e religioso.

 

Aldridge Neto

O pastor nos tempos de glória: com Paulo Coelho
(à esq.) e Chico Anysio (à dir.)

A Fábrica da Esperança, projeto de assistência social implantado pelo pastor na favela carioca de Acari, chegou a atender nos seus bons tempos 15.000 adolescentes por mês – mais do que o dobro do número de hoje. Mas no seu caso a caridade virara pano de fundo para seu próprio benefício. Caio Fábio conseguia recursos para realizar qualquer projeto. Empresas do porte da Brahma e da Xerox contribuíam. Chegou a ter um patrimônio de 5 milhões de dólares. Com o Dossiê Cayman e sua imagem manchada, as parcerias e doações para a Fábrica da Esperança caíram à metade. Ainda assim, amealha cerca de 70.000 reais por mês. "Quero colocar a fábrica a todo o vapor de novo", diz o pastor.

No universo evangélico, Caio Fábio era uma espécie de contraponto progressista ao bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, com quem brigou. Fora dele, vivia na companhia de líderes políticos de esquerda. Desde Luis Inácio Lula da Silva, presidente de honra do PT, e Leonel Brizola, chefão do PDT, até o ex-governador Ciro Gomes. Foi para alguns desses políticos que o pastor contou sobre a existência do Dossiê Cayman. Quando a história começou a pipocar na imprensa, Caio Fábio foi acusado de ter pedido propina em troca do calhamaço. "Eu nunca vi o documento, só ouvi falar nele. Um irmão de fé fez o contato com um inglês e eu fui ao encontro dele em Miami. Chegando lá, o sujeito pediu 1,5 milhão de dólares e eu caí fora", relata. Caio Fábio nunca contou o nome do tal irmão de fé. Nem do inglês. Ele diz estar arrependido, mas suas justificativas não ajudam muito a montar o quebra-cabeça. "Eu achava que poderia começar uma carreira política dando o dossiê aos políticos", alega ele. "Depois, eles me ajudariam." Curiosamente, ofereceu os documentos à oposição e ao próprio governo.

Antes de desembarcar no Brasil, Caio Fábio vendeu a revista por 500.000 reais para um grupo evangélico de São Paulo e arrendou o canal de televisão. Com 3 milhões de reais em dívidas, a TV Vinde quase faliu. O pastor diz que se mantém com 12.000 reais que recebe por mês pelo arrendamento de suas empresas. Ele está morando com a namorada em um apart-hotel em Niterói, no Rio de Janeiro. Mas quer mudar-se para um apartamento de quatro quartos que um amigo lhe emprestou. Para a ex-mulher, comprou um apartamento menor. Dono de uma oratória envolvente, ele tem agora pela frente um desafio quase impossível de superar. As portas que antes se escancaravam à sua chegada agora estão cerradas. Até o próprio Caio Fábio acha que sua situação é difícil: "Eu pequei. Sou um anjo caído".