Edição 1 624 -17/11/1999

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Palavra de ordem

OAB alega que existem muitas escolas de direito
e quer limitar criação de vagas

 

Tanya Volpe

Faculdade de Direito
da USP: tradição ainda conta muito para quem quer ser advogado


Entrar em uma faculdade de direito não é um problemão no Brasil. A concorrência só é forte nas escolas mais tradicionais, como na Universidade de São Paulo, que tem 29 candidatos disputando cada uma de suas vagas. Mas muitos cursos estão surgindo e abrindo vagas, muito menos concorridas. Nos últimos quatro anos, o Ministério da Educação autorizou a criação de 150 cursos de direito. Agora são 370 unidades, que despejam 43.000 novos profissionais no mercado de trabalho todos os anos. Esse aumento abriu espaço para mais estudantes, mas também criou condições para o surgimento de cursos péssimos, que proporcionam uma formação deficiente. A Ordem dos Advogados do Brasil, OAB, lançou na semana passada a proposta de criar um ranking com as melhores e as piores universidades do Brasil e estabelecer um tipo de selo de qualidade para controlar a implantação desses cursos. A entidade tem um argumento forte: os índices de reprovação dos recém-formados nos exames para tirar a licença de advogado estão cada vez mais altos.

Pela lei, a OAB deve ser consultada antes da criação de cursos, mas não tem poder de veto. Na prática, seus dados mostram que, à medida que se multiplicam os cursos e as vagas, pioram os índices de avaliação dos alunos. No ano passado, a média nacional de reprovação foi de 60%. No Estado de São Paulo, onde está a maioria dos cursos jurídicos do país, 70% dos 28.000 candidatos inscritos foram reprovados. Esse desempenho ocorreu em um exame de duas fases, uma com testes de múltipla escolha e outra com questões discursivas. "O exame da Ordem é elementar: quem não passa é porque não tem capacidade mínima para ser advogado", diz o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Reginaldo de Castro. "Esses resultados mostram como a formação dos alunos está pior." Nos concursos públicos, que englobam vagas para magistratura e Ministério Público, o índice de aprovação é indicador claro da qualidade dos cursos: apenas dois em cada 100 candidatos são aprovados.

Existem atualmente 230.000 estudantes de direito e 450.000 advogados atuando no Brasil. A OAB calcula que a procura pelos cursos de direito cresceu 60% nos últimos cinco anos. A profissão é rentável, com possibilidade de emprego tanto no serviço público como na iniciativa privada. Para os donos de faculdade é um bom negócio: o curso exige basicamente apenas salas de aula, biblioteca e professores. É relativamente barato, em comparação com os laboratórios avançados exigidos pela área de ciências biológicas ou de engenharia. "Os empresários da educação dizem que é o melhor negócio porque exige pouco investimento e atrai muita gente", explica Adílson Gurgel, presidente da comissão de ensino jurídico da OAB.

Nessa situação, ganha quem ficar atento. As melhores universidades continuam sendo as tradicionais, com professores renomados, bibliotecas com pelo menos 3.000 livros, laboratórios de informática e até tribunais de pequenas causas, onde os alunos podem aprender mais na prática. Quem opta pelo caminho fácil pode ser obrigado a repetir várias vezes o exame da Ordem ou gastar mais dinheiro em uma espécie de curso pré-vestibular para conseguir a licença e exercer a profissão.