Edição 1 624 -17/11/1999

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Dormindo em pé

Pressionadas por uma sociedade
que funciona
24 horas,
as pessoas dormem cada vez menos

Cristina Poles

Ricardo Benichio
Hildimar Francisco: sono
espremido entre as viagens
de casa para o trabalho


O paulista Hildimar Francisco, 40 anos, não dorme mais de quatro horas por dia. Às vezes, cinco. Ele sabe que para se sentir descansado precisaria de oito horas diárias de sono – mas não dá. "Não posso me dar ao luxo de dormir tudo isso", afirma. Organizador de eventos da Fundação Bienal de São Paulo, ele mora em Santos, a 70 quilômetros de distância. Sai de casa às 6 horas da manhã e só retorna por volta da meia-noite. O estilo de vida de Hildimar é cada dia mais comum. Em meio ao frenesi do mundo moderno, a maioria das pessoas acaba sacrificando horas de sono. É mau negócio, pois o débito vai se acumulando de forma matemática. Quem dorme toda noite duas horas a menos do que precisa chega à sexta-feira com uma dívida de dez horas. A boa notícia é que, teoricamente, se pode repor esse tempo no sábado e no domingo (desde que se consiga dormir cinco horas a mais por dia), zerando o débito. A má é que os prejuízos à saúde causados por dormir pouco ao longo da semana não são apagados com tanta facilidade.

Além de provocar alterações no humor, como irritabilidade, ansiedade e depressão, a privação de sono causa maior sensibilidade à dor muscular, déficit de memória e dificuldade de aprendizado (veja quadro). Há estudos científicos demonstrando ainda que quem mantém o sono sempre atrasado fica propenso a alterações na liberação de hormônios (principalmente o cortisol e o hormônio do crescimento) e ao enfraquecimento do sistema imunológico. "O mais preocupante é que, mesmo com esses sintomas e dormindo em pé, muita gente continua dirigindo caminhões, automóveis, ônibus; médicos cuidam de pacientes; operários controlam áquinas", alerta o neurologista Ademir Baptista Silva, do Laboratório de Sono da Universidade Federal de São Paulo. Nesse estágio, é comum dormir de olhos abertos, por períodos de até trinta segundos, sem se dar conta. São o que os médicos chamam de episódios de microssono. "Já dormi duas vezes ao volante. Foi sorte nunca ter acontecido nada grave", lembra Hildimar. Anualmente, nos Estados Unidos, os erros e acidentes provocados por pessoas que passam o dia como zumbis causam cerca de 25.000 mortes e 2,5 milhões de ferimentos graves.

Hábito indesejado – Mesmo sabendo do papel crucial do sono na saúde, estamos cada vez mais empenhados em riscá-lo da nossa rotina. Vivemos numa sociedade que funciona durante 24 horas: na televisão, internet, lojas de conveniência, restaurantes e até nas academias de ginástica. O economista Gabriel Scrimini, 28 anos, que trabalha em São Paulo com fundos de investimentos, admite, sem remorsos, dormir menos do que seu corpo pede para passar mais tempo na internet e na academia. "Ficar cansado durante o dia é o preço que pago por dormir no máximo seis horas por noite", conforma-se.

 
Ricardo Benichio

Gabriel Scrimini decidiu dormir
menos do que precisa: tempo
para a internet e malhação


Para quem ainda não sabe, uma maneira de descobrir quantas horas se precisa dormir é fazendo o chamado diário do sono. Deve-se escolher um período tranqüilo, em que não haja pressões psicológicas para levantar. Então, basta dar férias ao despertador e anotar diariamente a hora em que dormiu e em que acordou – sem se esquecer de subtrair os eventuais intervalos à noite ou de adicionar os cochilos. Quando o número de horas estiver estável há quatro dias, é sinal de que se atingiu a quantidade ideal.

Dívida de sono só se paga com uma moeda: sono. Por isso, cochilos diurnos vêm sendo estimulados até no trabalho. Nos Estados Unidos, a siesta é adotada por grandes empresas com o propósito de estimular a produtividade dos funcionários. Aqui, o laboratório farmacêutico Eli Lilly do Brasil aderiu à idéia e mantém uma sala de repouso para quem quiser tirar uma soneca depois do almoço. "Mas, para não acordar se sentindo grogue, é essencial dormir no máximo quarenta minutos", aconselha o neurologista Flávio Alóe, do Centro do Sono do Hospital das Clínicas de São Paulo. Assim, não dá tempo de entrar na fase de sono profundo. "Quem é despertado desse estágio se sente mole e com dor de cabeça."