|
|
Dormindo em pé
Pressionadas por uma sociedade
que funciona 24 horas,
as pessoas dormem cada vez menos
Cristina Poles
Ricardo Benichio
 |
Hildimar Francisco: sono
espremido entre as viagens
de casa para o trabalho |
O paulista Hildimar Francisco, 40 anos, não dorme
mais de quatro horas por dia. Às vezes, cinco.
Ele sabe que para se sentir descansado precisaria de
oito horas diárias de sono mas não
dá. "Não posso me dar ao luxo de dormir
tudo isso", afirma. Organizador de eventos da Fundação
Bienal de São Paulo, ele mora em Santos, a 70
quilômetros de distância. Sai de casa às
6 horas da manhã e só retorna por volta
da meia-noite. O estilo de vida de Hildimar é
cada dia mais comum. Em meio ao frenesi do mundo moderno,
a maioria das pessoas acaba sacrificando horas de sono.
É mau negócio, pois o débito vai
se acumulando de forma matemática.
Quem dorme toda noite duas horas a menos do que precisa
chega à sexta-feira com uma dívida de
dez horas. A boa notícia é que, teoricamente,
se pode repor esse tempo no sábado e no domingo
(desde que se consiga dormir cinco horas a mais por
dia), zerando o débito. A má é
que os prejuízos à saúde causados
por dormir pouco ao longo da semana não são
apagados com tanta facilidade.
Além de provocar alterações no
humor, como irritabilidade, ansiedade e depressão,
a privação de sono causa maior sensibilidade
à dor muscular, déficit de memória
e dificuldade de aprendizado (veja
quadro). Há estudos científicos
demonstrando ainda que quem mantém o sono sempre
atrasado fica propenso a alterações na
liberação de hormônios (principalmente
o cortisol e o hormônio do crescimento) e ao enfraquecimento
do sistema imunológico. "O mais preocupante é
que, mesmo com esses sintomas e dormindo em pé,
muita gente continua dirigindo caminhões, automóveis,
ônibus; médicos cuidam de pacientes; operários
controlam áquinas", alerta o neurologista Ademir
Baptista Silva, do Laboratório de Sono da Universidade
Federal de São Paulo. Nesse estágio, é
comum dormir de olhos abertos, por períodos de
até trinta segundos, sem se dar conta. São
o que os médicos chamam de episódios de
microssono. "Já dormi duas vezes ao volante.
Foi sorte nunca ter acontecido nada grave", lembra Hildimar.
Anualmente, nos Estados Unidos, os erros e acidentes
provocados por pessoas que passam o dia como zumbis
causam cerca de 25.000 mortes
e 2,5 milhões de ferimentos graves.
Hábito
indesejado Mesmo sabendo do papel crucial
do sono na saúde, estamos cada vez mais empenhados
em riscá-lo da nossa rotina. Vivemos numa sociedade
que funciona durante 24 horas: na televisão,
internet, lojas de conveniência, restaurantes
e até nas academias de ginástica. O economista
Gabriel Scrimini, 28 anos, que trabalha em São
Paulo com fundos de investimentos, admite, sem remorsos,
dormir menos do que seu corpo pede para passar mais
tempo na internet e na academia. "Ficar cansado durante
o dia é o preço que pago por dormir no
máximo seis horas por noite", conforma-se.
Ricardo Benichio
 |
|
Gabriel Scrimini decidiu dormir
menos do que precisa: tempo
para a internet e malhação
|
Para quem ainda não sabe, uma maneira de descobrir
quantas horas se precisa dormir é fazendo o chamado
diário do sono. Deve-se escolher um período
tranqüilo, em que não haja pressões
psicológicas para levantar. Então, basta
dar férias ao despertador e anotar diariamente
a hora em que dormiu e em que acordou sem se
esquecer de subtrair os eventuais intervalos à
noite ou de adicionar os cochilos. Quando o número
de horas estiver estável há quatro dias,
é sinal de que se atingiu a quantidade ideal.
Dívida de sono só se paga com uma moeda:
sono. Por isso, cochilos diurnos vêm sendo estimulados
até no trabalho. Nos Estados Unidos, a siesta
é adotada por grandes empresas com o propósito
de estimular a produtividade dos funcionários.
Aqui, o laboratório farmacêutico Eli Lilly
do Brasil aderiu à idéia e mantém
uma sala de repouso para quem quiser tirar uma soneca
depois do almoço. "Mas, para não acordar
se sentindo grogue, é essencial dormir no máximo
quarenta minutos", aconselha o neurologista Flávio
Alóe, do Centro do Sono do Hospital das Clínicas
de São Paulo. Assim, não dá tempo
de entrar na fase de sono profundo. "Quem é despertado
desse estágio se sente mole e com dor de cabeça."
|