Edição 1 624 -17/11/1999

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Os top de linha

Neste final de século está mais animada
do que nunca a mania de ranquear
pessoas, coisas e desempenhos

Eliana Simonetti

Os doze trabalhos de Hércules, as sete maravilhas do mundo, os dez mandamentos do Antigo Testamento, os sete pecados capitais, os círculos do céu e do inferno de Dante Alighieri. Não se sabe exatamente quando essa mania começou. Provavelmente desde que o homem aprendeu a contar, classificar coisas, desempenhos e pessoas tornou-se uma compulsão. A idéia é antiga, mas em fim de século e milênio vira mania. Quem é a mulher mais bonita do século XX? O empresário mais bem-sucedido? Qual o melhor carro? A empresa mais importante? O artista mais bem pago? Os melhores filmes e discos dos últimos 100 anos? Não há quem resista a uma lista. A essa tentação vem sucumbindo com gosto a imprensa do mundo inteiro.

 


Há listas tradicionais, como as feitas pelas revistas americanas Forbes e Fortune, Time e Newsweek, que fazem o ranking dos mais ricos e bem pagos. Le Monde, de Paris, e The Times, de Londres, têm suas listas. Ninguém resiste. O pequeno Dayton Daily News, de Ohio, no interior dos Estados Unidos, fez a sua – e chegou a uma obviedade: Bill Gates, dono da Microsoft, e Bill Clinton, o presidente da República, foram escolhidos os americanos mais importantes da última década. E o que dizer da lista da Newseum, uma publicação de um museu nos Estados Unidos que relaciona as principais reportagens do século XX? "Este é um fenômeno que está se tornando mais agudo porque a massa de informações disponível é cada vez maior e as pessoas buscam indicações seguras sobre o que consumir, o que ler ou o que é importante saber", explica o semiólogo Décio Pignatari.

Listas são confortáveis para o pensamento porque organizam a informação, como explica Pignatari. É divertido para quem as lê aceitar seus pontos de vista ou discordar deles. Há listas que se pretendem totalmente objetivas e, outras, meramente emocionais. O trabalho feito pela revista americana Fortune fica bem no meio dessas tendências. É a lista equilibrada. Durante os seis últimos meses a revista publicou nomes e perfis de candidatos ao título de empresário do século, para que seus leitores pudessem votar. A opção não era tarefa fácil. Um empresário no início do século vivia em um mundo sem bancos centrais, sem investidores institucionais, sem telefones celulares, televisores e aparelhos de microondas. O de hoje opera em todo o planeta em tempo real, com o movimento de um dedo. Compará-los é como confrontar a rainha Vitória, da Inglaterra, com o presidente Bill Clinton, dos Estados Unidos. Ou o chá das 5 com a happy hour. Mas a enquete saiu. O escolhido foi Henry Ford, um homem que não inventou o automóvel. Inventou a fábrica de automóveis. Quando ele fundou a Ford Motors, em 1903, o automóvel era uma máquina complicada, pouco segura e muito cara. Mais especificamente, inventou a linha de montagem e, com ela, o automóvel que seu operário podia comprar. A fábrica de Ford foi a primeira com estacionamento para funcionários. Uma revolução no capitalismo que até então só fabricava produtos de luxo para os muito ricos.

 


Nos quadros desta matéria o leitor poderá verificar alguns dos rankings mais recentes publicados pela imprensa. São uma brecha pela qual podemos observar os campeões. "Este é um dos prazeres humanos mais simples. Quando analisamos uma lista dessas, somos como a criança que xereta a festa dos adultos pela fresta da porta", diz a psicanalista Ana Verônica Mautner, de São Paulo. "Saber quem é o máximo nos dá a sensação de pertencer ao mesmo mundo."

Algumas listas soam acertadas até porque os nomes que as encabeçam são familiares demais. Um ranking das 100 pessoas mais influentes na história do cinema, elaborado por especialistas da área, tem Charles Chaplin, Orson Welles e Alfred Hitchcock nas primeiras colocações. Outras mesclam o sabido com o inusitado. The Times listou os 100 principais discos cult produzidos neste século. Entre eles estão Revolver, dos Beatles (1966), What's Going On, de Marvin Gaye (1971), e In Utero, do grupo Nirvana (1993). Mas imperdível mesmo, segundo os ingleses, é o segundo álbum do grupo Public Enemy, It Takes a Nation of Millions to Hold us Back (1988), "mais punk do que o punk", define o The Times.

No universo dos rankings há trabalhos mais ou menos amplos, mais ou menos sérios, mais ou menos objetivos. As mais divertidas, é claro, são as listas aleatórias. A revista Tatler acaba de publicar seu "pequeno livro negro" dos mais desejados solteiros da Inglaterra. No topo da lista está o príncipe William, filho da princesa Diana e do príncipe Charles, de Gales, e futuro rei da Grã-Bretanha. A mais cobiçada pelos solteirões ingleses é a ex-modelo, e não se sabe bem se ex-senhora Mick Jagger, Jerry Hall (de 43 anos, mãe de quatro filhos, lindíssima e dona de uma fortuna avaliada em 15 milhões de dólares). A revista americana People faz uma enquete via internet para eleger, anualmente, os mais belos do mundo. Michelle Pfeiffer, aos 42 anos de idade, foi a escolhida deste ano – exatamente como há nove anos. "Eu pareço um pato", ela diz. Pelo jeito é vista como um cisne.

O homem mais bonito do planeta seria aquele ex-menudo que se contorce todo ao cantar músicas latinas para o comportado público americano: Ricky Martin. Segundo a revista Lancaster New Era, uma desconhecida publicação americana, entre as principais personalidades da área do entretenimento no século XX, a mais notável é Lucille Ball, a hilariante protagonista do seriado I Love Lucy. Ela vale mais, nas contas da Lancaster, do que Frank Sinatra, terceiro colocado, e Steven Spielberg, que ocupa a quarta posição. Acredite quem puder. Bem, nem é bom perguntar onde estão os atores e cantores não americanos. Ninguém aparece na lista da Lancaster. Nem Alain Delon ou Maurice Chevalier.

"Essas listas são uma espécie de tergiversação sobre o vazio, mas servem como modelo para que as pessoas possam estabelecer metas e desejos", diz o professor Flávio di Giorgio, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e especialista em mitos.

Na modalidade dos rankings objetivos, a campeã é a revista Fortune. A listagem das maiores companhias do mundo, por exemplo, não tem contestação. A revista relaciona, por faturamento, as empresas mais ricas. Das cinco maiores, três são americanas, uma é alemã (a Daimler-Benz, que comprou a Chrysler americana no ano passado) e a outra é a japonesa Mitsui. A Forbes faz uma pesquisa enorme para apurar o valor do patrimônio dos mais ricos do mundo. Bill Gates é o mais-mais. Tem um patrimônio estimado em 90 bilhões de dólares. O executivo mais bem pago do mundo é o presidente do grupo Walt Disney, Michael Eisner, que ganhou 589 milhões de dólares no ano passado – catorze vezes mais do que o quinto colocado no ranking, o presidente da IBM mundial, Louis Gerstner Jr. Muitas listas ainda virão até o fim do ano. Sem contar as listas das listas. Não tem fim.


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