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Os top de linha
Neste final de século está mais animada
do que nunca a mania de ranquear
pessoas, coisas e desempenhos
Eliana Simonetti
Os doze trabalhos de Hércules, as sete maravilhas do mundo,
os dez mandamentos do Antigo Testamento, os sete pecados capitais,
os círculos do céu e do inferno de Dante Alighieri.
Não se sabe exatamente quando essa mania começou.
Provavelmente desde que o homem aprendeu a contar, classificar coisas,
desempenhos e pessoas tornou-se uma compulsão. A idéia
é antiga, mas em fim de século e milênio vira
mania. Quem é a mulher mais bonita do século XX? O
empresário mais bem-sucedido? Qual o melhor carro? A empresa
mais importante? O artista mais bem pago? Os melhores filmes e discos
dos últimos 100 anos? Não há quem resista a
uma lista. A essa tentação vem sucumbindo com gosto
a imprensa do mundo inteiro.
Há listas tradicionais, como as feitas pelas revistas americanas
Forbes e Fortune, Time e Newsweek, que
fazem o ranking dos mais ricos e bem pagos. Le Monde, de
Paris, e The Times, de Londres, têm suas listas. Ninguém
resiste. O pequeno Dayton Daily News, de Ohio, no interior
dos Estados Unidos, fez a sua e chegou a uma obviedade: Bill
Gates, dono da Microsoft, e Bill Clinton, o presidente da República,
foram escolhidos os americanos mais importantes da última
década. E o que dizer da lista da Newseum, uma publicação
de um museu nos Estados Unidos que relaciona as principais reportagens
do século XX? "Este é um fenômeno que está
se tornando mais agudo porque a massa de informações
disponível é cada vez maior e as pessoas buscam indicações
seguras sobre o que consumir, o que ler ou o que é importante
saber", explica o semiólogo Décio Pignatari.
Listas são confortáveis para o pensamento porque
organizam a informação, como explica Pignatari. É
divertido para quem as lê aceitar seus pontos de vista ou
discordar deles. Há listas que se pretendem totalmente objetivas
e, outras, meramente emocionais. O trabalho feito pela revista americana
Fortune fica bem no meio dessas tendências. É
a lista equilibrada. Durante os seis últimos meses a revista
publicou nomes e perfis de candidatos ao título de empresário
do século, para que seus leitores pudessem votar. A opção
não era tarefa fácil. Um empresário no início
do século vivia em um mundo sem bancos centrais, sem investidores
institucionais, sem telefones celulares, televisores e aparelhos
de microondas. O de hoje opera em todo o planeta em tempo real,
com o movimento de um dedo. Compará-los é como confrontar
a rainha Vitória, da Inglaterra, com o presidente Bill Clinton,
dos Estados Unidos. Ou o chá das 5 com a happy hour. Mas
a enquete saiu. O escolhido foi Henry Ford, um homem que não
inventou o automóvel. Inventou a fábrica de automóveis.
Quando ele fundou a Ford Motors, em 1903, o automóvel era
uma máquina complicada, pouco segura e muito cara. Mais especificamente,
inventou a linha de montagem e, com ela, o automóvel que
seu operário podia comprar. A fábrica de Ford foi
a primeira com estacionamento para funcionários. Uma revolução
no capitalismo que até então só fabricava produtos
de luxo para os muito ricos.
Nos quadros desta matéria o leitor poderá verificar
alguns dos rankings mais recentes publicados pela imprensa. São
uma brecha pela qual podemos observar os campeões. "Este
é um dos prazeres humanos mais simples. Quando analisamos
uma lista dessas, somos como a criança que xereta a festa
dos adultos pela fresta da porta", diz a psicanalista Ana Verônica
Mautner, de São Paulo. "Saber quem é o máximo
nos dá a sensação de pertencer ao mesmo mundo."
Algumas listas soam acertadas até porque os nomes que as
encabeçam são familiares demais. Um ranking das 100
pessoas mais influentes na história do cinema, elaborado
por especialistas da área, tem Charles Chaplin, Orson Welles
e Alfred Hitchcock nas primeiras colocações. Outras
mesclam o sabido com o inusitado. The Times listou os 100
principais discos cult produzidos neste século. Entre eles
estão Revolver, dos Beatles (1966), What's Going
On, de Marvin Gaye (1971), e In Utero, do grupo Nirvana
(1993). Mas imperdível mesmo, segundo os ingleses, é
o segundo álbum do grupo Public Enemy, It Takes a Nation
of Millions to Hold us Back (1988), "mais punk do que o punk",
define o The Times.
No universo dos rankings há trabalhos mais ou menos amplos,
mais ou menos sérios, mais ou menos objetivos. As mais divertidas,
é claro, são as listas aleatórias. A revista
Tatler acaba de publicar seu "pequeno livro negro" dos mais
desejados solteiros da Inglaterra. No topo da lista está
o príncipe William, filho da princesa Diana e do príncipe
Charles, de Gales, e futuro rei da Grã-Bretanha. A mais cobiçada
pelos solteirões ingleses é a ex-modelo, e não
se sabe bem se ex-senhora Mick Jagger, Jerry
Hall (de 43 anos, mãe de quatro filhos, lindíssima
e dona de uma fortuna avaliada em 15 milhões de dólares).
A revista americana People faz uma enquete via internet para
eleger, anualmente, os mais belos do mundo. Michelle Pfeiffer, aos
42 anos de idade, foi a escolhida deste ano exatamente como
há nove anos. "Eu pareço um pato", ela diz. Pelo jeito
é vista como um cisne.
O homem mais bonito do planeta seria aquele ex-menudo que se contorce
todo ao cantar músicas latinas para o comportado público
americano: Ricky Martin. Segundo a revista Lancaster New Era,
uma desconhecida publicação americana, entre as principais
personalidades da área do entretenimento no século
XX, a mais notável é Lucille Ball, a hilariante protagonista
do seriado I Love Lucy. Ela vale mais, nas contas da Lancaster,
do que Frank Sinatra, terceiro colocado, e Steven Spielberg, que
ocupa a quarta posição. Acredite quem puder. Bem,
nem é bom perguntar onde estão os atores e cantores
não americanos. Ninguém aparece na lista da Lancaster.
Nem Alain Delon ou Maurice Chevalier.
"Essas listas são uma espécie de tergiversação
sobre o vazio, mas servem como modelo para que as pessoas possam
estabelecer metas e desejos", diz o professor Flávio di Giorgio,
professor da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo e especialista em mitos.
Na modalidade dos rankings objetivos, a campeã é
a revista Fortune. A listagem das maiores companhias do mundo,
por exemplo, não tem contestação. A revista
relaciona, por faturamento, as empresas mais ricas. Das cinco maiores,
três são americanas, uma é alemã (a Daimler-Benz,
que comprou a Chrysler americana no ano passado) e a outra é
a japonesa Mitsui. A Forbes faz uma pesquisa enorme para
apurar o valor do patrimônio dos mais ricos do mundo. Bill
Gates é o mais-mais. Tem um patrimônio estimado em
90 bilhões de dólares. O executivo mais bem pago do
mundo é o presidente do grupo Walt Disney, Michael Eisner,
que ganhou 589 milhões de dólares no ano passado
catorze vezes mais do que o quinto colocado no ranking, o presidente
da IBM mundial, Louis Gerstner Jr. Muitas listas ainda virão
até o fim do ano. Sem contar as listas das listas. Não
tem fim.
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