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Os sons do Carandiru
No presídio mais conhecido
do Brasil,
a música deixa de ser só passatempo
e vira projeto de vida
Celso Masson
A Casa de Detenção de São Paulo, também
conhecida por Carandiru, ganhou fama como um dos maiores presídios
do país em número de presos (7.000),
em acúmulo de problemas, como a superlotação,
e em registros de rebeliões sangrentas. Nos últimos
tempos, um outro fenômeno vem se verificando entre os muros
altos da instituição. Ela se tornou um reduto de cantores,
compositores e conjuntos musicais. Estima-se que pelo menos 150
presos se dediquem ao rap, ao pagode ou à música gospel.
A maioria dos ensaios acontece nos pátios e nas salas das
congregações religiosas. Muitos dão shows para
as famílias e os amigos nos dias de visita, e os mais estruturados
já assinaram contrato com empresários que atuam no
mercado fonográfico. Há conjuntos apadrinhados por
cantores famosos, que também lhes providenciam instrumentos
de primeira. O sambista Tobias, da escola de samba Vai-Vai, por
exemplo, apresenta-se com freqüência ao lado do Vai Vadiar.
Os rappers Dexter e Afro-X, do Linha de Frente, recebem visitas
regulares dos integrantes dos Racionais MC's, que têm entre
os destaques de seu repertório justamente a faixa Diário
de um Detento.
Divulgação
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Banda: Detentos
do Rap
Gênero: Rap
Trecho de letra
"O racismo é maior
Para quem já teve prontuário
Firma nem pensar
A opção é assalto
É a desculpa que o sistema quer
Ex-presidiário não é
santo
Não de pé"
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Na mira dos músicos do Carandiru está o sucesso
do grupo Detentos do Rap, formado por três presos e pioneiro
em gravar CDs no xadrez. Lançado há pouco mais de
um ano, seu disco Apologia ao Crime vendeu 30.000
cópias. Isso significa que o conjunto já embolsou
algo em torno de 15.000 reais em direitos
autorais. Como a circulação de dinheiro no presídio
não é oficialmente permitida, o lucro seguiu direto
para seus familiares. Uma pequena parte foi investida na decoração
de suas celas, recém-pintadas e com cortinas nas janelas.
O Detentos do Rap já foi autorizado a sair do Carandiru para
shows promocionais e programas de TV por mais de vinte vezes. O
segundo CD, batizado de O Pesadelo Continua, chegou às
lojas na semana passada.
"Botar para fora" O dinheiro e as regalias conquistadas
pelo Detentos do Rap explicam em parte, mas não totalmente,
por que tantos presos enveredam pelo caminho da música. Esta
é, acima de tudo, a maneira mais simples de amenizar o tédio.
Na Casa de Detenção o tempo passa em câmara
lenta. Os dias são sempre iguais. Uma tarde de chuva pode
ser desesperadora para quem vive numa cela abafada e vê-se
impossibilitado de sair para o banho de sol. "A música distrai
até mesmo quando falamos da nossa solidão", diz o
sambista Dudu, de 20 anos, preso por assalto a mão armada.
Há seis meses, ele montou com três colegas o Luz do
Novo Amanhecer. "Quando se chega nesse lugar, a primeira coisa que
se pensa é em desistir de tudo. A música ajuda a encontrar
a esperança no fundo da gente", resume o parceiro Valdeci,
26 anos, condenado por tráfico de drogas. O grupo já
registrou em cartório as letras das onze composições
que pretende gravar.
Fotos Claudio Rossi
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Banda: Vai
Vadiar
Gênero: Samba
Trecho de letra
"Eu estou aqui e você aí
Distante de mim
Pois tanto tempo se passou
e o destino nos separou"
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Usar a música para "botar para fora" aquilo que fica engasgado
na garganta é outra grande motivação dos presos
que compõem. "Passei por cada drama nesse lugar que a música
virou uma maneira de manter minha cabeça ativa", diz o rapper
Fernando FF, de 35 anos, líder do Legítima Defesa,
acusado de fazer parte de um bando de criminosos. Ele apresentou
suas músicas pela primeira vez no show organizado pelos presos
no último Dia da Criança. "Subir no palco foi uma
das poucas experiências gratificantes que tive em três
anos de detenção", desabafa. As muralhas que dão
agonia, o cigarro como único companheiro, a sensação
de que para a sociedade a vida do preso não tem nenhum valor
eis alguns dos assuntos das letras feitas na cadeia. "A pior
prisão, ladrão, é a da mente", canta Dexter,
do Linha de Frente, preso por assalto a mão armada.
Acertos de contas Ao contrário dos compositores
da MPB que fazem uma versão edulcorada da injustiça
e da violência, os músicos do Carandiru traçam
um retrato sem meios-tons desses temas. Sua fonte são as
situações que experimentam na própria pele.
Como os violentos acertos de contas que acontecem todas as segundas-feiras.
Nesses rituais macabros, os detentos aplainam as diferenças
entre si, muitas delas surgidas nas visitas dos domingos. Se um
preso lança um olhar para a mulher de outro, por exemplo,
quase certamente será punido com a morte. Os acertos de contas
aparecem até no repertório dos evangélicos.
"Um dia eu estava na cela e lembrei da morte de um amigo que me
marcou bastante. Daí fiz a música A Vida no Cárcere",
diz o cantor do grupo gospel Sal da Terra, Williams Dermon. A composição
está cotada para ser o carro-chefe do CD de estréia
do grupo, que já começou a ser gravado.
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Banda: Sal
da Terra
Gênero: Gospel
Trecho de letra
"No
olhar de muitos correm lágrimas
Ao se lembrar do amigo que se foi
E não podendo fazer nada
Vendo o amigo a sangrar no chão
Talvez numa palavra errada
Teve a sentença sem perdão"
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É claro que, além de ajudar a passar o tempo e de
servir como desabafo, a música acena para os presos com a
perspectiva de garantir um ganha-pão. Principalmente para
quem está com a pena para vencer. Também há
aqueles que já faziam música antes de ir em cana e
ainda hoje sonham em ver suas composições tocando
no rádio e na TV. A banda Blacks in the Hoods Reação
em Cadeia é um exemplo. Foi formada há dez anos. O
líder, Marcelo Careca, está no Carandiru há
dois, por assalto a mão armada. Afastado dos antigos companheiros
de som, recrutou outros na prisão. Na festa do Dia das Mães,
a banda finalmente teve sua chance de subir ao palco. Um dos poucos
detentos que ganharam de fato a vida como cantor antes da condenação
é o italiano Vincenzo Parisi, de 41 anos. Preso em São
Paulo por tráfico de drogas, Parisi vivia em Frankfurt, na
Alemanha, onde desfilava sucessos da jovem canção
italiana em casamentos e aniversários. Garante que chegou
a fazer dueto com o ídolo romântico Lucio Dalla, vinte
anos atrás.
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Banda:
Conexão Carandiru
Gênero: Rap
Trecho de letra
"Paro
na madrugada e fico a pensar
Quanta fita sem-vergonha sempre acaba
no ar
Governo corrupto que engana nosso povo
E na cara-de-pau quer se eleger de
novo
Pensam que me enganam
Se julgam maioral"
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"Contra o sistema" Preso em 1997, Parisi juntou-se
há seis meses ao Conexão Carandiru. Liderado pelo
cantor e compositor Daniel do Rap, o grupo é a maior revelação
da cadeia, desde o surgimento do Detentos do Rap. Daniel é
daqueles presos que conseguem o que parece impossível para
a maioria. Entre outras coisas, ele comanda a programação
da rádio interna. Para deixar o visual do Conexão
Carandiru ajeitado, usou de uma esperteza: montou um time de futebol
com o mesmo nome e convenceu um pequeno empresário a doar
as camisetas. Quatro delas serão desviadas para vestir os
integrantes do conjunto na sua primeira apresentação
para valer. O braço direito de Daniel do Rap é Jeferson
Laurindo, assaltante, que atende pelo pseudônimo de Mister
Status DJ. Ele já fez parte de uma equipe de som conhecida
dos bailes da periferia de São Paulo, a Funk Power. Embora
ainda não tenha passado da fase de ensaios, realizados numa
sala da Pastoral Carcerária, o Conexão possui uma
aparelhagem de som capaz de fazer inveja a músicos que vivem
em liberdade. Doada pelo conjunto Sampa Crew, ela inclui até
um microfone sem fio. Daniel chama a atenção para
o fato de que muitos presos, nutridos pela inveja ou pela maldade,
desprezam e insultam aqueles que procuram alívio na música.
"Um bocado de preso torce para que a gente não consiga nada",
observa. "Mas sempre tem alguém dando uma força."
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Banda: Linha
de Frente
Gênero: Rap
Trecho de letra
"Ontem lá no dez tiraram uma vida
O finado estava de vencida
Já era para ter ido, mas não
foi
Vacilou, errou, não teve boi
É engraçado e eu fico
aqui pensando
Um número a menos para o Estado
E uma mãe a mais chorando"
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O rap é o estilo mais cultivado dentro do
Carandiru, e dá para entender por quê. Em primeiro
lugar, ele predomina no ambiente de origem de boa parte dos detentos,
os bairros pobres das grandes cidades. Em segundo, porque o rap
não exige domínio técnico de nenhum instrumento
musical. Pode-se usar uma base pré-gravada, o que facilita
a vida de quem está na cadeia. Por último, o jeito
de cantar é baseado na fala não é preciso
criar melodias originais, basta encaixar os versos na batida. Além
disso, é o modo mais dequado para veicular as letras de protesto
que caracterizam o discurso dos presos. "Sempre quis usar minha
voz contra o sistema e a favor da comunidade", resume Dexter, do
Linha de Frente. Como se vê, o inferno chamado Carandiru está
cheio das melhores intenções.
O rap do rei do pó
No final deste mês, um dos personagens mais conhecidos
da crônica policial brasileira, o ex-traficante carioca
Escadinha, sai da cadeia depois de cumprir catorze anos de
uma pena de cinqüenta. Para comemorar sua volta à
liberdade, José Carlos dos Reis Encina, ou o "cidadão
José", como Escadinha prefere ser chamado agora, está
lançando um CD de rap, Brasil 1 Fazendo Justiça
com as Próprias Mãos. Ele assina as letras
de todas as faixas, que são interpretadas por dez conjuntos,
um deles o Linha de Frente, do Carandiru. As composições
narram momentos da carreira criminosa de Escadinha, mas sem
exaltá-la. Escadinha quer que o disco registre o seu
arrependimento e demonstre que a vida bandida é coisa
do passado. "Tive essa experiência terrível e
hoje estou totalmente recuperado", garante. A primeira faixa
é um depoimento de Escadinha aconselhando os jovens
a evitar o mundo das drogas. Parte da renda obtida com a venda
do CD será revertida para a comunidade do Morro do
Juramento, onde ele é considerado um herói.
Escadinha pretende fazer shows pelo Brasil para divulgar o
disco, que tem a ambiciosa tiragem inicial de 100
000 cópias.
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