Edição 1 624 -17/11/1999
 

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Os sons do Carandiru

No presídio mais conhecido do Brasil,
a música deixa de ser só passatempo
e vira projeto de vida

Celso Masson

A Casa de Detenção de São Paulo, também conhecida por Carandiru, ganhou fama como um dos maiores presídios do país em número de presos (7.000), em acúmulo de problemas, como a superlotação, e em registros de rebeliões sangrentas. Nos últimos tempos, um outro fenômeno vem se verificando entre os muros altos da instituição. Ela se tornou um reduto de cantores, compositores e conjuntos musicais. Estima-se que pelo menos 150 presos se dediquem ao rap, ao pagode ou à música gospel. A maioria dos ensaios acontece nos pátios e nas salas das congregações religiosas. Muitos dão shows para as famílias e os amigos nos dias de visita, e os mais estruturados já assinaram contrato com empresários que atuam no mercado fonográfico. Há conjuntos apadrinhados por cantores famosos, que também lhes providenciam instrumentos de primeira. O sambista Tobias, da escola de samba Vai-Vai, por exemplo, apresenta-se com freqüência ao lado do Vai Vadiar. Os rappers Dexter e Afro-X, do Linha de Frente, recebem visitas regulares dos integrantes dos Racionais MC's, que têm entre os destaques de seu repertório justamente a faixa Diário de um Detento.

Divulgação

Banda: Detentos do Rap
Gênero: Rap

Trecho de letra
"O racismo é maior
Para quem já teve prontuário
Firma nem pensar
A opção é assalto
É a desculpa que o sistema quer
Ex-presidiário não é santo
Não de pé"

Na mira dos músicos do Carandiru está o sucesso do grupo Detentos do Rap, formado por três presos e pioneiro em gravar CDs no xadrez. Lançado há pouco mais de um ano, seu disco Apologia ao Crime vendeu 30.000 cópias. Isso significa que o conjunto já embolsou algo em torno de 15.000 reais em direitos autorais. Como a circulação de dinheiro no presídio não é oficialmente permitida, o lucro seguiu direto para seus familiares. Uma pequena parte foi investida na decoração de suas celas, recém-pintadas e com cortinas nas janelas. O Detentos do Rap já foi autorizado a sair do Carandiru para shows promocionais e programas de TV por mais de vinte vezes. O segundo CD, batizado de O Pesadelo Continua, chegou às lojas na semana passada.

"Botar para fora" – O dinheiro e as regalias conquistadas pelo Detentos do Rap explicam em parte, mas não totalmente, por que tantos presos enveredam pelo caminho da música. Esta é, acima de tudo, a maneira mais simples de amenizar o tédio. Na Casa de Detenção o tempo passa em câmara lenta. Os dias são sempre iguais. Uma tarde de chuva pode ser desesperadora para quem vive numa cela abafada e vê-se impossibilitado de sair para o banho de sol. "A música distrai até mesmo quando falamos da nossa solidão", diz o sambista Dudu, de 20 anos, preso por assalto a mão armada. Há seis meses, ele montou com três colegas o Luz do Novo Amanhecer. "Quando se chega nesse lugar, a primeira coisa que se pensa é em desistir de tudo. A música ajuda a encontrar a esperança no fundo da gente", resume o parceiro Valdeci, 26 anos, condenado por tráfico de drogas. O grupo já registrou em cartório as letras das onze composições que pretende gravar.

 
Fotos Claudio Rossi

Banda: Vai Vadiar

Gênero: Samba

Trecho de letra
"Eu estou aqui e você aí
Distante de mim

Pois tanto tempo se passou

e o destino nos separou"

Usar a música para "botar para fora" aquilo que fica engasgado na garganta é outra grande motivação dos presos que compõem. "Passei por cada drama nesse lugar que a música virou uma maneira de manter minha cabeça ativa", diz o rapper Fernando FF, de 35 anos, líder do Legítima Defesa, acusado de fazer parte de um bando de criminosos. Ele apresentou suas músicas pela primeira vez no show organizado pelos presos no último Dia da Criança. "Subir no palco foi uma das poucas experiências gratificantes que tive em três anos de detenção", desabafa. As muralhas que dão agonia, o cigarro como único companheiro, a sensação de que para a sociedade a vida do preso não tem nenhum valor – eis alguns dos assuntos das letras feitas na cadeia. "A pior prisão, ladrão, é a da mente", canta Dexter, do Linha de Frente, preso por assalto a mão armada.

Acertos de contas – Ao contrário dos compositores da MPB que fazem uma versão edulcorada da injustiça e da violência, os músicos do Carandiru traçam um retrato sem meios-tons desses temas. Sua fonte são as situações que experimentam na própria pele. Como os violentos acertos de contas que acontecem todas as segundas-feiras. Nesses rituais macabros, os detentos aplainam as diferenças entre si, muitas delas surgidas nas visitas dos domingos. Se um preso lança um olhar para a mulher de outro, por exemplo, quase certamente será punido com a morte. Os acertos de contas aparecem até no repertório dos evangélicos. "Um dia eu estava na cela e lembrei da morte de um amigo que me marcou bastante. Daí fiz a música A Vida no Cárcere", diz o cantor do grupo gospel Sal da Terra, Williams Dermon. A composição está cotada para ser o carro-chefe do CD de estréia do grupo, que já começou a ser gravado.

Banda: Sal da Terra

Gênero: Gospel

Trecho de letra
"No olhar de muitos correm lágrimas
Ao se lembrar do amigo que se foi
E não podendo fazer nada
Vendo o amigo a sangrar no chão
Talvez numa palavra errada
Teve a sentença sem perdão"

É claro que, além de ajudar a passar o tempo e de servir como desabafo, a música acena para os presos com a perspectiva de garantir um ganha-pão. Principalmente para quem está com a pena para vencer. Também há aqueles que já faziam música antes de ir em cana e ainda hoje sonham em ver suas composições tocando no rádio e na TV. A banda Blacks in the Hoods – Reação em Cadeia é um exemplo. Foi formada há dez anos. O líder, Marcelo Careca, está no Carandiru há dois, por assalto a mão armada. Afastado dos antigos companheiros de som, recrutou outros na prisão. Na festa do Dia das Mães, a banda finalmente teve sua chance de subir ao palco. Um dos poucos detentos que ganharam de fato a vida como cantor antes da condenação é o italiano Vincenzo Parisi, de 41 anos. Preso em São Paulo por tráfico de drogas, Parisi vivia em Frankfurt, na Alemanha, onde desfilava sucessos da jovem canção italiana em casamentos e aniversários. Garante que chegou a fazer dueto com o ídolo romântico Lucio Dalla, vinte anos atrás.

 

Banda: Conexão Carandiru

Gênero: Rap

Trecho de letra
"Paro na madrugada e fico a pensar
Quanta fita sem-vergonha sempre acaba no ar
Governo corrupto que engana nosso povo
E na cara-de-pau quer se eleger de novo
Pensam que me enganam
Se julgam maioral"

"Contra o sistema" – Preso em 1997, Parisi juntou-se há seis meses ao Conexão Carandiru. Liderado pelo cantor e compositor Daniel do Rap, o grupo é a maior revelação da cadeia, desde o surgimento do Detentos do Rap. Daniel é daqueles presos que conseguem o que parece impossível para a maioria. Entre outras coisas, ele comanda a programação da rádio interna. Para deixar o visual do Conexão Carandiru ajeitado, usou de uma esperteza: montou um time de futebol com o mesmo nome e convenceu um pequeno empresário a doar as camisetas. Quatro delas serão desviadas para vestir os integrantes do conjunto na sua primeira apresentação para valer. O braço direito de Daniel do Rap é Jeferson Laurindo, assaltante, que atende pelo pseudônimo de Mister Status DJ. Ele já fez parte de uma equipe de som conhecida dos bailes da periferia de São Paulo, a Funk Power. Embora ainda não tenha passado da fase de ensaios, realizados numa sala da Pastoral Carcerária, o Conexão possui uma aparelhagem de som capaz de fazer inveja a músicos que vivem em liberdade. Doada pelo conjunto Sampa Crew, ela inclui até um microfone sem fio. Daniel chama a atenção para o fato de que muitos presos, nutridos pela inveja ou pela maldade, desprezam e insultam aqueles que procuram alívio na música. "Um bocado de preso torce para que a gente não consiga nada", observa. "Mas sempre tem alguém dando uma força."

Banda: Linha de Frente

Gênero: Rap

Trecho de letra
"Ontem lá no dez tiraram uma vida
O finado estava de vencida
Já era para ter ido, mas não foi
Vacilou, errou, não teve boi
É engraçado e eu fico aqui pensando
Um número a menos para o Estado
E uma mãe a mais chorando"

O rap é o estilo mais cultivado dentro do Carandiru, e dá para entender por quê. Em primeiro lugar, ele predomina no ambiente de origem de boa parte dos detentos, os bairros pobres das grandes cidades. Em segundo, porque o rap não exige domínio técnico de nenhum instrumento musical. Pode-se usar uma base pré-gravada, o que facilita a vida de quem está na cadeia. Por último, o jeito de cantar é baseado na fala – não é preciso criar melodias originais, basta encaixar os versos na batida. Além disso, é o modo mais dequado para veicular as letras de protesto que caracterizam o discurso dos presos. "Sempre quis usar minha voz contra o sistema e a favor da comunidade", resume Dexter, do Linha de Frente. Como se vê, o inferno chamado Carandiru está cheio das melhores intenções.

 

O rap do rei do pó

No final deste mês, um dos personagens mais conhecidos da crônica policial brasileira, o ex-traficante carioca Escadinha, sai da cadeia depois de cumprir catorze anos de uma pena de cinqüenta. Para comemorar sua volta à liberdade, José Carlos dos Reis Encina, ou o "cidadão José", como Escadinha prefere ser chamado agora, está lançando um CD de rap, Brasil 1 – Fazendo Justiça com as Próprias Mãos. Ele assina as letras de todas as faixas, que são interpretadas por dez conjuntos, um deles o Linha de Frente, do Carandiru. As composições narram momentos da carreira criminosa de Escadinha, mas sem exaltá-la. Escadinha quer que o disco registre o seu arrependimento e demonstre que a vida bandida é coisa do passado. "Tive essa experiência terrível e hoje estou totalmente recuperado", garante. A primeira faixa é um depoimento de Escadinha aconselhando os jovens a evitar o mundo das drogas. Parte da renda obtida com a venda do CD será revertida para a comunidade do Morro do Juramento, onde ele é considerado um herói. Escadinha pretende fazer shows pelo Brasil para divulgar o disco, que tem a ambiciosa tiragem inicial de 100 000 cópias.