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Que paixão animal!
O que faz com que gente rica e famosa
gaste tanto dinheiro com cavalos de corrida
Paula Pacheco
Os Jockey Club eram conhecidos no mundo inteiro
por seu ambiente rico e glamouroso, que reunia gente empetecada
nas tardes de domingo. Essa aura de boa alfaiataria acabou
há muito tempo, mas a paixão dos apostadores
não arrefeceu. Os Jockey de São Paulo e do Rio
de Janeiro, os mais freqüentados do país, são
pontos de encontro de empresários como Benjamin Steinbruch
e Alexandre Grendene, de banqueiros como Júlio Bozano
e Ibrahim Eris e de artistas como Toquinho e Carlinhos Vergueiro.
Muitos estavam, no domingo passado, assistindo a uma das mais
concorridas competições de cavalo realizadas
no país, o Grande Prêmio Derby Brasil, no Jockey
Club de São Paulo. Para se ter uma idéia do
que ocorre numa prova dessas: o potro vencedor do sétimo
páreo estava avaliado em 30.000
reais antes de entrar na pista. Dois minutos e 26 segundos
depois, além de um prêmio de 98.000
reais para o dono do cavalo, havia quem oferecesse 100.000
reais por "Puerto Madero". "O cavalo não está
à venda. A sensação de ter um campeão
na mão é impagável", diz Ernani Buffolo,
corretor da Bolsa de Mercadorias & Futuros de São
Paulo, dono do potro Puerto Madero em sociedade com o irmão.
Fotos: Ricardo Benichio
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A competição
da semana
passada e os irmãos Buffolo
(abaixo), donos do cavalo
Puerto Madero, campeão:
prêmio de 98 000 reais |
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O encanto do Jockey de hoje em dia, é claro, não
é o mesmo de trinta ou quarenta anos atrás.
Os apostadores estão diminuindo, e, portanto, os prêmios
pagos aos cavalos campeões também estão
em queda. Os Jockey de São Paulo e do Rio enfrentam
uma crise já há alguns anos. Só o que
continua inalterado é o laço afetivo, quase
o vício, que liga os freqüentadores aos cavalos,
mesmo que percam dinheiro nessa atividade. No domingo passado,
Ibrahim Eris, ex-presidente do Banco Central e dono da corretora
Linear, um homem conhecido por seu gosto pelo risco, viu seu
potro "Beggar's Opera" chegar entre os últimos na corrida
de que participou no mesmo Grande Prêmio Derby Brasil.
"Isso faz parte do negócio. Investir em cavalos é
como uma loteria, ou como o jogo no mercado financeiro. Perde-se
muito dinheiro por causa de um detalhe", explica.
Paulo Marcos
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O banqueiro Júlio Bozano
(de óculos), o maior criador
do país, que quer administrar
o Jockey do Rio:
dono de 700 cavalos
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Ibrahim Eris é diretor financeiro do Jockey de São
Paulo. É apaixonado por cavalos desde criança,
quando vivia na Turquia, onde nasceu. Não conta para
ninguém quantos animais possui, mas garante que tem
prejuízo com o investimento. O candidato à presidência
do Jockey do Rio, o banqueiro Júlio Bozano, é
dono de um império que inclui banco, siderúrgicas,
empresas de telecomunicações, mineração,
alimentos e bebidas. É um dos homens de negócios
mais bem-sucedidos do país. No entanto, perde dinheiro
investindo em cavalos puros-sangues ingleses, próprios
para corridas. Tem 700 animais em quatro haras de sua propriedade,
dois no Brasil, um na Argentina e outro nos Estados Unidos.
Meteu-se nisso 22 anos atrás e não conseguiu
mais largar o hobby. Não ganha nada faz tempo, mas
conhece muitos de seus animais pelo nome, conversa com eles,
dedica boa parte de seu tempo (que é curto) a paparicar
os bichos. "Os cavalos são muito sensíveis,
têm uma psicologia parecida com a das pessoas", diz.
"Existem os covardes, os agressivos, os ansiosos." Para uma
pessoa conhecida pela objetividade e frieza nos negócios
do dia-a-dia, o Júlio Bozano criador de animais é
uma personalidade surpreendente. "Sou supersticioso. Não
levo visitas a meu haras para evitar olho gordo em meus animais."
Ricardo Benichio
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O ex-presidente do BC Ibrahim Eris:
"Corrida
de cavalo é como mercado financeiro. Perde-se
muito dinheiro por causa
de um detalhe"
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Há quem goste de criar cachorros, uma atividade que
dá bastante trabalho, muita despesa e retorno nenhum.
Outros preferem pássaros. Donos de grandes viveiros
de animais importados da Indonésia e da Austrália
dedicam horas de seu tempo a ensinar aves supercoloridas a
assobiar ou repetir algumas palavras. Paixão é
coisa que não se explica. Os criadores de cavalo não
são uma espécie diferente de gente. "É
como se os animais fossem parte de nossa família",
diz o ex-ministro da Agricultura e atual presidente da Companhia
Petroquímica do Sul, Copesul, Luiz Fernando Cirne Lima.
Criador, Cirne Lima também perde dinheiro com seus
animais. Mas isso não é de estranhar. Afinal,
ninguém espera que um membro da família cresça
para dar lucro aos parentes.
O empresário Benjamin Steinbruch é aquele
que ficou famoso quando ganhou a Companhia Vale do Rio Doce
em leilão em que competia com Antonio Ermírio
de Moraes, dono de um dos maiores grupos privados do país.
Ele tem participação na Vale, na Companhia Siderúrgica
Nacional, numa empresa de energia elétrica do Rio e
no grupo Vicunha, que fabrica tecidos. No ano passado, Benjamin
deu sorte. Seu cavalo "Quari Bravo" ganhou as principais corridas
realizadas no Brasil. Parecia imbatível. Steinbruch
chegou a receber duas ofertas de 1 milhão de reais
pelo animal. Não vendeu. Agora não quer nem
falar no assunto. Quari Bravo, com um problema no casco, está
afastado das competições desde o início
de 1999. E não há previsão de quando
voltará às pistas.
Antonio Milena
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Frederico Ferrite
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O cavalo campeão do ano passado, Quari Bravo,
e o empresário Benjamin Steinbruch: o animal
não concorre mais porque está com problemas
no casco
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Jogo, no Brasil, é um caso sério. No começo
do século, havia cidades cuja economia girava em torno
de cassinos. Em Minas Gerais, jogava-se em Araxá e
Poços de Caldas. Em São Paulo, em Águas
de São Pedro. E, no Rio, o cassino da Urca fazia o
maior sucesso. O jogo foi proibido em 1946, época em
que Eurico Gaspar Dutra era presidente. Na década de
60, quando o presidente da República era Jânio
Quadros, foram proibidas as rinhas de galo e as corridas de
cavalo ficaram restritas a um dia na semana e feriados. A
instabilidade econômica e o medo do desemprego também
não ajudam as apostas a crescer. Tanto
o Jockey de São Paulo quanto o do Rio vêm registrando
quedas no movimento de apostas desde o Plano Real. No ano
passado, o Jockey paulista arrecadou cerca de 100 milhões
de dólares em apostas em 1994 foram 176 milhões.
Com isso, muitos criadores de animais estão se transferindo
para a Argentina e levando seus potros mais promissores para
competir nos Estados Unidos.
Assistir a uma corrida de cavalos é como presenciar
um grande prêmio de Fórmula 1, sem aquele ronco
de escapamento nem aquela festa de patrocinadores. Outra diferença
é que carro de corrida é mais previsível
que cavalo. Afinal, como saber se o animal está se
sentindo bem, feliz da vida e pronto para ganhar? Corrida
de cavalo é, portanto, coisa para especialista. Para
atrair os leigos, no entanto, os Jockey estão armando
uma estratégia de marketing. Estão transformando
o clube numa área com entretenimentos variados, com
bares, desfiles de moda, shows de música, parques de
diversões para as crianças. Só para constar:
quem quiser experimentar uma visita ao hipódromo não
precisa passar antes pelo cabeleireiro. A entrada é
franca, o traje é esporte e a aposta mínima
é de 1 real.
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