Edição 1 624 -17/11/1999

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Que paixão animal!

O que faz com que gente rica e famosa
gaste tanto dinheiro com cavalos de corrida

Paula Pacheco

Os Jockey Club eram conhecidos no mundo inteiro por seu ambiente rico e glamouroso, que reunia gente empetecada nas tardes de domingo. Essa aura de boa alfaiataria acabou há muito tempo, mas a paixão dos apostadores não arrefeceu. Os Jockey de São Paulo e do Rio de Janeiro, os mais freqüentados do país, são pontos de encontro de empresários como Benjamin Steinbruch e Alexandre Grendene, de banqueiros como Júlio Bozano e Ibrahim Eris e de artistas como Toquinho e Carlinhos Vergueiro. Muitos estavam, no domingo passado, assistindo a uma das mais concorridas competições de cavalo realizadas no país, o Grande Prêmio Derby Brasil, no Jockey Club de São Paulo. Para se ter uma idéia do que ocorre numa prova dessas: o potro vencedor do sétimo páreo estava avaliado em 30.000 reais antes de entrar na pista. Dois minutos e 26 segundos depois, além de um prêmio de 98.000 reais para o dono do cavalo, havia quem oferecesse 100.000 reais por "Puerto Madero". "O cavalo não está à venda. A sensação de ter um campeão na mão é impagável", diz Ernani Buffolo, corretor da Bolsa de Mercadorias & Futuros de São Paulo, dono do potro Puerto Madero em sociedade com o irmão.

 
Fotos: Ricardo Benichio
A competição da semana
passada e os irmãos Buffolo
(abaixo), donos do cavalo
Puerto Madero, campeão:
prêmio de 98 000 reais


O encanto do Jockey de hoje em dia, é claro, não é o mesmo de trinta ou quarenta anos atrás. Os apostadores estão diminuindo, e, portanto, os prêmios pagos aos cavalos campeões também estão em queda. Os Jockey de São Paulo e do Rio enfrentam uma crise já há alguns anos. Só o que continua inalterado é o laço afetivo, quase o vício, que liga os freqüentadores aos cavalos, mesmo que percam dinheiro nessa atividade. No domingo passado, Ibrahim Eris, ex-presidente do Banco Central e dono da corretora Linear, um homem conhecido por seu gosto pelo risco, viu seu potro "Beggar's Opera" chegar entre os últimos na corrida de que participou no mesmo Grande Prêmio Derby Brasil. "Isso faz parte do negócio. Investir em cavalos é como uma loteria, ou como o jogo no mercado financeiro. Perde-se muito dinheiro por causa de um detalhe", explica.
Paulo Marcos

O banqueiro Júlio Bozano
(de óculos),
o maior criador
do país, que quer administrar
o Jockey do Rio:
dono de 700 cavalos


Ibrahim Eris é diretor financeiro do Jockey de São Paulo. É apaixonado por cavalos desde criança, quando vivia na Turquia, onde nasceu. Não conta para ninguém quantos animais possui, mas garante que tem prejuízo com o investimento. O candidato à presidência do Jockey do Rio, o banqueiro Júlio Bozano, é dono de um império que inclui banco, siderúrgicas, empresas de telecomunicações, mineração, alimentos e bebidas. É um dos homens de negócios mais bem-sucedidos do país. No entanto, perde dinheiro investindo em cavalos puros-sangues ingleses, próprios para corridas. Tem 700 animais em quatro haras de sua propriedade, dois no Brasil, um na Argentina e outro nos Estados Unidos. Meteu-se nisso 22 anos atrás e não conseguiu mais largar o hobby. Não ganha nada faz tempo, mas conhece muitos de seus animais pelo nome, conversa com eles, dedica boa parte de seu tempo (que é curto) a paparicar os bichos. "Os cavalos são muito sensíveis, têm uma psicologia parecida com a das pessoas", diz. "Existem os covardes, os agressivos, os ansiosos." Para uma pessoa conhecida pela objetividade e frieza nos negócios do dia-a-dia, o Júlio Bozano criador de animais é uma personalidade surpreendente. "Sou supersticioso. Não levo visitas a meu haras para evitar olho gordo em meus animais."
Ricardo Benichio

O ex-presidente do BC Ibrahim Eris: "Corrida
de cavalo é como mercado financeiro. Perde-se muito dinheiro por causa
de um detalhe"

 


Há quem goste de criar cachorros, uma atividade que dá bastante trabalho, muita despesa e retorno nenhum. Outros preferem pássaros. Donos de grandes viveiros de animais importados da Indonésia e da Austrália dedicam horas de seu tempo a ensinar aves supercoloridas a assobiar ou repetir algumas palavras. Paixão é coisa que não se explica. Os criadores de cavalo não são uma espécie diferente de gente. "É como se os animais fossem parte de nossa família", diz o ex-ministro da Agricultura e atual presidente da Companhia Petroquímica do Sul, Copesul, Luiz Fernando Cirne Lima. Criador, Cirne Lima também perde dinheiro com seus animais. Mas isso não é de estranhar. Afinal, ninguém espera que um membro da família cresça para dar lucro aos parentes.

O empresário Benjamin Steinbruch é aquele que ficou famoso quando ganhou a Companhia Vale do Rio Doce em leilão em que competia com Antonio Ermírio de Moraes, dono de um dos maiores grupos privados do país. Ele tem participação na Vale, na Companhia Siderúrgica Nacional, numa empresa de energia elétrica do Rio e no grupo Vicunha, que fabrica tecidos. No ano passado, Benjamin deu sorte. Seu cavalo "Quari Bravo" ganhou as principais corridas realizadas no Brasil. Parecia imbatível. Steinbruch chegou a receber duas ofertas de 1 milhão de reais pelo animal. Não vendeu. Agora não quer nem falar no assunto. Quari Bravo, com um problema no casco, está afastado das competições desde o início de 1999. E não há previsão de quando voltará às pistas.

 
Antonio Milena
Frederico Ferrite

O cavalo campeão do ano passado, Quari Bravo, e o empresário Benjamin Steinbruch: o animal não concorre mais porque está com problemas no casco

Jogo, no Brasil, é um caso sério. No começo do século, havia cidades cuja economia girava em torno de cassinos. Em Minas Gerais, jogava-se em Araxá e Poços de Caldas. Em São Paulo, em Águas de São Pedro. E, no Rio, o cassino da Urca fazia o maior sucesso. O jogo foi proibido em 1946, época em que Eurico Gaspar Dutra era presidente. Na década de 60, quando o presidente da República era Jânio Quadros, foram proibidas as rinhas de galo e as corridas de cavalo ficaram restritas a um dia na semana e feriados. A instabilidade econômica e o medo do desemprego também não ajudam as apostas a crescer. Tanto o Jockey de São Paulo quanto o do Rio vêm registrando quedas no movimento de apostas desde o Plano Real. No ano passado, o Jockey paulista arrecadou cerca de 100 milhões de dólares em apostas – em 1994 foram 176 milhões. Com isso, muitos criadores de animais estão se transferindo para a Argentina e levando seus potros mais promissores para competir nos Estados Unidos.

Assistir a uma corrida de cavalos é como presenciar um grande prêmio de Fórmula 1, sem aquele ronco de escapamento nem aquela festa de patrocinadores. Outra diferença é que carro de corrida é mais previsível que cavalo. Afinal, como saber se o animal está se sentindo bem, feliz da vida e pronto para ganhar? Corrida de cavalo é, portanto, coisa para especialista. Para atrair os leigos, no entanto, os Jockey estão armando uma estratégia de marketing. Estão transformando o clube numa área com entretenimentos variados, com bares, desfiles de moda, shows de música, parques de diversões para as crianças. Só para constar: quem quiser experimentar uma visita ao hipódromo não precisa passar antes pelo cabeleireiro. A entrada é franca, o traje é esporte e a aposta mínima é de 1 real.