Edição 1 624 -17/11/1999

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Elas é que mandam

Do carro da família à casa própria,
as mulheres já decidem 70% das compras
que são feitas no Brasil

Alexandre Mansur

 
Ricardo Benichio

Sonia (à esquerda) recebe
as chaves de seu Palio
Weekend: o marido só
conheceu o carro no dia

Previa-se que, aumentando sua participação no mercado de trabalho, as mulheres teriam mais dinheiro no bolso e iriam às compras com mais vigor ainda do que antes. O que não se imaginava é que a mulher também tomaria as rédeas daquilo que a família compra com o dinheiro do marido. Há trinta anos, quando entraram para valer no mercado de trabalho, elas respondiam por 45% das decisões de compra. Hoje, resolvem o que será empacotado em 70% de todas as aquisições domésticas, de cuecas e meias ao carro e à própria casa.

Caso típico do domicílio onde o sexo frágil, em se tratando de gastar dinheiro, é todo-poderoso, é o de Lauri e Ivete Lima, de Curitiba. Lauri, 41 anos, é supervisor de vendas de uma das maiores concessionárias de veículos da cidade, mas não entende nada de compras. Nesse departamento, a primeira e a última palavra são sempre de Ivete. Ao longo de uma semana, a pedido de VEJA, cada um se propôs a anotar o que gastasse. O bloquinho de Lauri ficou em branco – ele não comprou absolutamente nada. Já Ivete, armada de talão de cheques e cartão de crédito, providenciou tecido para revestir a cama, mármore para a bancada do quarto, chinelo e canetas para o filho, uma bota para ela mesma e ainda pagou as contas do supermercado, salão de beleza, posto de gasolina, farmácia e padaria. Há dois anos, quando a família se mudou para o novo apartamento de três quartos, Ivete decidiu da localização ao plano de pagamento. Ela não trabalha fora nem tem fonte de renda própria, mas assina todos os cheques, faz o serviço de banco, decide sobre as aplicações financeiras e administra o cartão de crédito. O carro da família, um Monza azul, foi escolhido por ela. "Gosto do porta-malas espaçoso", explica. O casal costuma sair em férias com as duas crianças uma vez por ano, e super-Ivete planeja tudo, do destino ao hotel. Lauri nem sequer compra as próprias roupas.

 
Joel Rocha
Ivete Lima distribui as roupas
que escolheu para a família:
ela não trabalha fora,
mas assina todos os cheques
e decide as aplicações financeiras

A família curitibana é, de acordo com pesquisas feitas por agências de publicidade, o retrato fiel do que acontece na maioria dos lares brasileiros. "As mulheres ditam as regras do consumo em quase todos os setores", afirma Ana Lúcia Fugulin, da agência paulista DPZ. Isso, apesar de continuarem ganhando menos dinheiro que os homens: em média 43% menos, embora de 1970 para cá sua participação no mercado de trabalho tenha subido de 19% para 48%. Ou seja, a maior parte do dinheiro ainda vai para a conta dos homens. Mas quem gasta são as mulheres. Ganharam muita experiência como consumidoras na desordem provocada pelos planos econômicos do passado recente. "No meio das dificuldades, elas assumiram a administração do orçamento da casa, substituindo os itens em falta ou buscando locais alternativos para comprar", explica Celia Belem, da agência Ammirati Puris Lintas. "Os homens abandonaram de vez qualquer esforço para cuidar da economia doméstica. Não por acaso surgiram na mesma época as comentaristas econômicas, como Miriam Leitão e Lillian Witte Fibe", lembra Belem.


Informadas e experientes, as mulheres consolidaram seu domínio no consumo no decorrer desta década. Agora, diante do incontestável poder de decisão feminino, as empresas é que começam a mudar. Até setores tradicionalmente masculinos, como a indústria automobilística, estão se adaptando. Há vinte anos, as mulheres compravam 17% dos carros zero-quilômetro; hoje, arrematam 40%. Metade dos Ford Ka são vendidos para mulheres, que os escolhem sem nenhum palpite masculino. A dona de casa Sonia Pellicci foi sozinha à loja escolher seu Palio Weekend azul – o marido só viu o carro no dia em que foram buscar a chave na concessionária.

Feudos que caem – O mercado imobiliário também está acordando para o fenômeno, não só porque as mulheres influenciam na compra da casa da família, mas principalmente porque, cada vez mais, compram imóveis para si próprias. A proporção de famílias chefiadas por mulheres cresceu de 13% em 1970 para 20% em 1996, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE. São, na maioria, mulheres de baixa renda, cuja situação piora com a ausência de marido. Mas existe também uma parcela de mulheres com renda suficiente para investir no próprio apartamento. Nos últimos sete anos, a proporção de mulheres entre os compradores de imóveis pelo Plano 100, da construtora Rossi Residencial, cresceu de 24% para 50%. O ritual de venda também mudou. Antes, o corretor se esforçava em descrever as vantagens do imóvel para a mulher, mas depois acertava a forma de pagamento com o homem. Agora, além de aprovar o imóvel, a mulher também senta à mesa de negociação e dá palpite no financiamento.

Foi a mineira Míriam Siqueira, de 41 anos, quem escolheu o apartamento onde mora com o marido, Jarbas, dono de um posto de gasolina. Míriam tem uma escola e total independência financeira. O casal divide as despesas da casa, mas, na hora das compras, a palavra final é dela. Há pouco tempo resolveu reformar a sala num período em que Jarbas estava viajando. Comprou e pagou, sozinha, a mesa e as cadeiras, o barzinho, os quadros, a cortina, os tapetes, enfim, toda a decoração. "Ele chegou em casa e tomou um susto. Já estava tudo em seu devido lugar", conta Míriam. Ela faz aplicações financeiras em dois bancos e possui imóveis. Paga empregada, açougue, sacolão e padaria, enquanto Jarbas é responsável por condomínio, plano de saúde, supermercado do mês, luz e telefone. Decidir, mesmo, ele só decide o biscoito e o refrigerante na padaria.

 
Claudio Rossi
Valéria Wilson faz a contabilidade do mês com Alan: desde que casaram,
há três anos, ele deposita todo o salário na conta dela e vive apenas com uma mesada em dinheiro vivo

Diante da nova realidade, os bancos também tiveram de pôr salto e maquiagem na maneira de atrair clientes. Atualmente as mulheres representam mais de 40% dos correntistas. E estão avançando sobre o mercado financeiro, antes um feudo masculino até a ponta do bigode. Em dois anos, a proporção de investidoras no Banco Sul América cresceu de 8% para 21%. Atento ao crescimento do mercado feminino, o Unibanco lançou oito meses atrás o Seguro Mulher, que combina seguro de vida com seguro para qualquer câncer. Hoje, 51% dos cartões de crédito estão em nome de mulheres, e elas consomem tantos produtos do banco quanto os homens. É assim com o administrador de empresas Alan Wilson, que recebe o salário e, ato contínuo, deposita tudo na conta corrente da mulher, Valéria, gerente de marketing. Ela lhe dá uma mesada fixa, em dinheiro vivo, para pequenos gastos. Com o restante, paga as contas e os impostos, faz investimentos financeiros, cuida da manutenção da casa e dos carros – no mês passado, saiu da concessionária com um Mercedes Classe A novinho. "Quando casamos, há três anos, decidimos que eu controlaria o dinheiro porque sou mais rigorosa", justifica a organizadíssima Valéria.

Outra prova da diversificação feminina em matéria de consumo é seu avanço sobre mais um feudo histórico do homem: o dos aparelhos eletroeletrônicos. A tendência começa cedo. Entre a garotada de 10 a 14 anos que tem aparelho de som, as meninas já correspondem a 53%. A mineira Simone Las Casas, 15 anos, escolheu um ano atrás marca e especificação do som novo que queria ganhar dos pais. "Eu estava precisando de um mais potente", explica. Além de consumir fitas e discos em quantidade, ela possui toda a parafernália para gravar CDs com as músicas preferidas, usando o computador de casa.

Caro, mas melhor – Outra novidade: as mulheres mudaram sua filosofia de consumo. Resistem mais à sedução da publicidade. Frufru sem praticidade, por exemplo, não funciona. Para atender às novas compradoras de carro, algumas montadoras fizeram pequenas alterações, como estofar os bancos com tecidos que não desfiam meias. Tudo bastante sutil, porque pesquisas feitas pela Fiat indicam que as mulheres não querem saber de modelos "para mulher". A marca de cigarros Ella, da Philip Morris, não vingou, e o Charm, da Souza Cruz, tem 1% do mercado brasileiro e muitos fumantes homens.
Moreira Mariz

Simone com seu aparelho
de som: 53% do mercado
já é dominado pelas garotas

 

No esforço para atrair compradoras, agências de publicidade e empresas tropeçam em obstáculos inesperados. A agência Lintas descobriu por meio de pesquisa que é um mito achar que eletrodomésticos sofisticados e alimentos práticos, como congelados e enlatados, foram feitos para a mulher que trabalha fora. Esta tem empregada, em sua casa quase não entram semiprontos e ela nem sabe cozinhar no microondas. Quem consome tudo isso é a dona de casa – que, no entanto, detesta a imagem. Para as indústrias, portanto, fica o problema. Devem oferecer um eletrodoméstico à dona de casa, sem no entanto deixar de tratá-la como mulher ativa e moderna. Nada que a publicidade não possa resolver, claro.

 
Antes
Depois

Acompanhando a inversão do mercado, que hoje já é 51% feminino, as empresas operadoras de cartão mudaram as campanhas publicitárias. "Hoje temos a preocupação de fazer peças específicas para as mulheres", conta Gastão Mattos, diretor de marketing do cartão Visa. Até o início da década, as propagandas mostravam homens comprando produtos masculinos. A propaganda ao lado é um exemplo disso. Agora, a idéia é exibir objetos do desejo feminino, como um par de sapatos de salto alto.

Colaboraram Rachel Verano, de Curitiba,
e
Daniella Camargos, de Belo Horizonte