|
|
O grandão do mar
O maior navio de lazer é
lançado no Caribe,
abrindo outra frente na moda dos cruzeiros
Juliana De Mari
Imagine passar as férias
num resort de mais de 20
000 metros quadrados, tamanho equivalente
a três campos de futebol enfileirados.
Junte a essa área gigante um moderno
complexo de ginástica, piscinas, quadras
esportivas oficiais, lojas e restaurantes sofisticados
e até um teatro de ópera.
Pense, agora, como seria usufruir toda essa
estrutura em uma praia diferente a cada dia.
Pois é exatamente essa mordomia que o
navio Voyager of the Seas, da Royal Caribbean,
vai oferecer a seus passageiros. Um detalhe
dá charme especial ao cruzeiro: trata-se
da maior embarcação de lazer já
construída. A viagem inaugural começa
no Porto de Miami, no próximo dia 21,
para um roteiro de sete noites no Caribe. Mistura
de shopping center com hotel de luxo, o navio
é um colosso de vidro e aço de
142 000 toneladas.
Gastou-se na construção do Voyager
mais que o triplo do aço usado no lendário
Titanic. É, ainda, 30% mais que
o empregado no Grand Princess, até
agora o maior navio de lazer dos mares. Além
de mais pesado, esse megatransatlântico
supera seu antecessor, lançado em maio
do ano passado, em todos os outros quesitos.
É 20 metros mais comprido tem
310 metros , 2 metros mais alto, com
63 de altura, e leva 564 passageiros a mais.
Por seus vinte andares circulará uma
multidão de 3 114
pessoas, além dos 1
200 tripulantes. Todo mundo muito bem
acomodado em cabines 50% maiores que as habituais,
com áreas que vão de 16 a 36 metros
quadrados. Metade delas possui simpáticas
varandas. Tem mais. No Voyager, pela
primeira vez, as cabines de um navio desse porte
oferecem vista tanto para o mar quanto para
o lobby interno. Uma novidade e tanto, porque
nas demais embarcações as acomodações
mais baratas costumam ser claustrofóbicas
cabines sem janelas. São 138 cabines,
10% do total das quais o turista pode
ficar de olho em tudo o que acontece na área
central do navio.
As operadoras de cruzeiros estimam que cerca
de 5 milhões de pessoas no mundo escolham
esse tipo de viagem para suas férias.
É um número dez vezes maior que
o registrado há vinte anos. Engana-se,
portanto, quem ainda imagina os cruzeiros como
programa de aposentado americano ou ricaço.
Cada vez mais casais, jovens e crianças
procuram os navios como alternativa a resorts
de praia. Os preços do Voyager, que
variam de 900 a 7.000
dólares por pessoa, sem contar a passagem
aérea até Miami, a base do naviozão,
estão ao alcance da classe média.
Tamanha efervescência marítima
só se iguala à ocorrida na primeira
metade deste século, quando transatlânticos
imensos e mitológicos, como o Titanic,
Mauretania, Queen Mary, Queen Elizabeth
e Normandie, ligavam a Europa e os Estados
Unidos. Os grandes jatos transcontinentais puseram
fim a essa era nos anos 60.
Os navios de cruzeiro de hoje são bem
diferentes dos velhos "liners" do passado. A
primeira diferença, obviamente, é
que não são meios de transporte,
mas uma espécie de lazer flutuante. Ao
contrário da rígida divisão
de classes sociais que se vê no filme
Titanic, atualmente os salões
dourados são para todos. O sucesso dessa
fórmula tem sido avassalador. Só
a Carnival Cruise tem 37 navios fazendo um interminável
pinga-pinga pelas ilhas do Caribe. Até
a Disney, um império dos parques de diversões,
administra dois navios temáticos que
circulam entre as Bahamas e a Flórida.
Pela velocidade com que novos navios estão
sendo lançados ao mar, as empresas acreditam
que não vai faltar passageiro. A Royal
Caribbean já planeja lançar dois
"gêmeos" de seu Voyager até
2002, num projeto de construção
que tem nome de ofensiva militar: Projeto Eagle
(águia).
A estréia do Voyager of the Seas
é mais um disparo na guerra entre as
grandes empresas de cruzeiros turísticos.
Além da Royal Caribbean, companhias como
a Carnival Cruise e a Princess Cruise têm
investido pesadamente nos megatransatlânticos.
Ambas têm em suas rotas pelo Caribe navios
de mais de 100 000
toneladas que já detiveram, mesmo que
por um período fugaz, o título
de maior do mundo. O recém-destronado
Grand Princess reinou por apenas um ano
com suas 109 000
toneladas e capacidade para 2
550 passageiros. Quando foi lançado,
em 1998, tomou o cetro do Destiny, da
Carnival, construído em 1996, com 101.000
toneladas e cabines para acomodar 2
642 pessoas.
O que esses navios têm a oferecer é
muito parecido com o que se encontra nos resorts
e nas grandes cidades: lazer e compras. "O principal
mercado para esses navios são os turistas
que já fizeram pelo menos um cruzeiro
antes", diz Mariz Leiman, diretora da Sun &
Sea, representante da Royal Caribbean no Brasil.
Cacifado com o dinheiro que carrega no bolso,
o turista quer a segurança e o entretenimento
de um ambiente totalmente projetado para isso
e ainda a garantia de que nada vai dar errado
em suas férias. É por isso que
a grande maioria desses navios navega pelo mesmo
lugar, o Caribe, uma região com sol garantido,
no mínimo, dez meses por ano. Por causa
das variações climáticas,
outros litorais turísticos, como o do
Mar Mediterrâneo, o do Mar do Norte, a
costa do Alasca e até a do Brasil, apesar
das atrações deslumbrantes, estão
disponíveis apenas nos meses de verão.
Quem gosta de shopping center vai delirar
com o Voyager of the Seas. No miolo desse
monstro flutuante fica o Royal Promenade, um
templo de consumo inspirado na Burlington Arcade,
a célebre galeria de Londres. Trata-se
de um gigantesco átrio, que atravessa
onze pisos com cassino, joalherias, butiques,
free shops, restaurantes, cafés e casas
de shows. Tem até efeitos de luz que
simularão a passagem das horas e músicos
tocando como se estivessem numa rua de uma capital
européia. O navio, que custou meio bilhão
de dólares, possui até carrinhos
elétricos, iguais aos usados nos campos
de golfe, para que as pessoas não percam
tempo caminhando de um lado para outro. A bordo
estão 12 milhões de dólares
em obras de arte, entre estátuas, quadros
e objetos de decoração. Há,
ainda, atrações como rinque de
patinação no gelo, um muro para
escaladas, com 60 metros de altura, quadras
esportivas de tamanho oficial, minicampo de
golfe e até uma réplica do teatro
de ópera Scala de Milão com 1
350 lugares. Lá serão apresentados
trechos dos últimos sucessos da Broadway.
Vale o aviso: como as ondas não têm
força para balançar um navio tão
grande, ninguém enjoa a bordo.
|