Edição 1 624 -17/11/1999

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O grandão do mar

O maior navio de lazer é lançado no Caribe,
abrindo outra frente na moda dos cruzeiros

Juliana De Mari

Imagine passar as férias num resort de mais de 20 000 metros quadrados, tamanho equivalente a três campos de futebol enfileirados. Junte a essa área gigante um moderno complexo de ginástica, piscinas, quadras esportivas oficiais, lojas e restaurantes sofisticados – e até um teatro de ópera. Pense, agora, como seria usufruir toda essa estrutura em uma praia diferente a cada dia. Pois é exatamente essa mordomia que o navio Voyager of the Seas, da Royal Caribbean, vai oferecer a seus passageiros. Um detalhe dá charme especial ao cruzeiro: trata-se da maior embarcação de lazer já construída. A viagem inaugural começa no Porto de Miami, no próximo dia 21, para um roteiro de sete noites no Caribe. Mistura de shopping center com hotel de luxo, o navio é um colosso de vidro e aço de 142 000 toneladas.

Gastou-se na construção do Voyager mais que o triplo do aço usado no lendário Titanic. É, ainda, 30% mais que o empregado no Grand Princess, até agora o maior navio de lazer dos mares. Além de mais pesado, esse megatransatlântico supera seu antecessor, lançado em maio do ano passado, em todos os outros quesitos. É 20 metros mais comprido – tem 310 metros – , 2 metros mais alto, com 63 de altura, e leva 564 passageiros a mais. Por seus vinte andares circulará uma multidão de 3 114 pessoas, além dos 1 200 tripulantes. Todo mundo muito bem acomodado em cabines 50% maiores que as habituais, com áreas que vão de 16 a 36 metros quadrados. Metade delas possui simpáticas varandas. Tem mais. No Voyager, pela primeira vez, as cabines de um navio desse porte oferecem vista tanto para o mar quanto para o lobby interno. Uma novidade e tanto, porque nas demais embarcações as acomodações mais baratas costumam ser claustrofóbicas cabines sem janelas. São 138 cabines, 10% do total – das quais o turista pode ficar de olho em tudo o que acontece na área central do navio.

As operadoras de cruzeiros estimam que cerca de 5 milhões de pessoas no mundo escolham esse tipo de viagem para suas férias. É um número dez vezes maior que o registrado há vinte anos. Engana-se, portanto, quem ainda imagina os cruzeiros como programa de aposentado americano ou ricaço. Cada vez mais casais, jovens e crianças procuram os navios como alternativa a resorts de praia. Os preços do Voyager, que variam de 900 a 7.000 dólares por pessoa, sem contar a passagem aérea até Miami, a base do naviozão, estão ao alcance da classe média. Tamanha efervescência marítima só se iguala à ocorrida na primeira metade deste século, quando transatlânticos imensos e mitológicos, como o Titanic, Mauretania, Queen Mary, Queen Elizabeth e Normandie, ligavam a Europa e os Estados Unidos. Os grandes jatos transcontinentais puseram fim a essa era nos anos 60.

Os navios de cruzeiro de hoje são bem diferentes dos velhos "liners" do passado. A primeira diferença, obviamente, é que não são meios de transporte, mas uma espécie de lazer flutuante. Ao contrário da rígida divisão de classes sociais que se vê no filme Titanic, atualmente os salões dourados são para todos. O sucesso dessa fórmula tem sido avassalador. Só a Carnival Cruise tem 37 navios fazendo um interminável pinga-pinga pelas ilhas do Caribe. Até a Disney, um império dos parques de diversões, administra dois navios temáticos que circulam entre as Bahamas e a Flórida. Pela velocidade com que novos navios estão sendo lançados ao mar, as empresas acreditam que não vai faltar passageiro. A Royal Caribbean já planeja lançar dois "gêmeos" de seu Voyager até 2002, num projeto de construção que tem nome de ofensiva militar: Projeto Eagle (águia).

A estréia do Voyager of the Seas é mais um disparo na guerra entre as grandes empresas de cruzeiros turísticos. Além da Royal Caribbean, companhias como a Carnival Cruise e a Princess Cruise têm investido pesadamente nos megatransatlânticos. Ambas têm em suas rotas pelo Caribe navios de mais de 100 000 toneladas que já detiveram, mesmo que por um período fugaz, o título de maior do mundo. O recém-destronado Grand Princess reinou por apenas um ano com suas 109 000 toneladas e capacidade para 2 550 passageiros. Quando foi lançado, em 1998, tomou o cetro do Destiny, da Carnival, construído em 1996, com 101.000 toneladas e cabines para acomodar 2 642 pessoas.

O que esses navios têm a oferecer é muito parecido com o que se encontra nos resorts e nas grandes cidades: lazer e compras. "O principal mercado para esses navios são os turistas que já fizeram pelo menos um cruzeiro antes", diz Mariz Leiman, diretora da Sun & Sea, representante da Royal Caribbean no Brasil. Cacifado com o dinheiro que carrega no bolso, o turista quer a segurança e o entretenimento de um ambiente totalmente projetado para isso e ainda a garantia de que nada vai dar errado em suas férias. É por isso que a grande maioria desses navios navega pelo mesmo lugar, o Caribe, uma região com sol garantido, no mínimo, dez meses por ano. Por causa das variações climáticas, outros litorais turísticos, como o do Mar Mediterrâneo, o do Mar do Norte, a costa do Alasca e até a do Brasil, apesar das atrações deslumbrantes, estão disponíveis apenas nos meses de verão.

Quem gosta de shopping center vai delirar com o Voyager of the Seas. No miolo desse monstro flutuante fica o Royal Promenade, um templo de consumo inspirado na Burlington Arcade, a célebre galeria de Londres. Trata-se de um gigantesco átrio, que atravessa onze pisos com cassino, joalherias, butiques, free shops, restaurantes, cafés e casas de shows. Tem até efeitos de luz que simularão a passagem das horas e músicos tocando como se estivessem numa rua de uma capital européia. O navio, que custou meio bilhão de dólares, possui até carrinhos elétricos, iguais aos usados nos campos de golfe, para que as pessoas não percam tempo caminhando de um lado para outro. A bordo estão 12 milhões de dólares em obras de arte, entre estátuas, quadros e objetos de decoração. Há, ainda, atrações como rinque de patinação no gelo, um muro para escaladas, com 60 metros de altura, quadras esportivas de tamanho oficial, minicampo de golfe e até uma réplica do teatro de ópera Scala de Milão com 1 350 lugares. Lá serão apresentados trechos dos últimos sucessos da Broadway. Vale o aviso: como as ondas não têm força para balançar um navio tão grande, ninguém enjoa a bordo.