Edição 1 624 -17/11/1999

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Boçalidade exportada

Sou um telemaníaco. Segundo as estatísticas, vejo mais TV do que um adolescente americano cheio de espinhas na cara. É uma forma de anestesiar a mente depois do trabalho. Leio e escrevo todos os dias até as sete. Depois ligo a TV, a qual, peremptoriamente, desliga a minha cabeça, dando-me um clic. É uma espécie de lobotomia cotidiana. Sem a ajuda da TV, creio que minhas veleidades literárias continuariam a me atormentar a noite inteira. Por isso, sempre fui muito grato à TV italiana. Morando na Itália, posso contar com a pior TV do planeta. Instantes depois de ligá-la, a parte esquerda do meu corpo já começa a formigar. Um milagre.

Duas semanas atrás, porém, tive a péssima idéia de instalar uma antena parabólica. As seis horas que passo em frente à TV melhoraram sensivelmente. Ziguezagueando em ritmo frenético pelos 500 canais via satélite, sempre consigo encontrar um programa interessante, como um velho episódio da série Seinfeld, uma receita culinária indonésia, um documentário de Pasolini sobre a Índia, uma entrevista com Matisse, um noticiário galego, um jogo de futebol do campeonato da Arábia Saudita. O problema é que perdi aquele reconfortante torpor que a TV italiana me provocava. Agora, estendido no sofá, sinto apenas uma enorme angústia por ser incapaz de fazer, eu também, algo interessante como o que vejo na telinha.

A essa altura, minha única esperança é que os canais via satélite, depois de esgotar a reserva de bons programas, comecem a transmitir as novelas brasileiras. O técnico que instalou minha antena parabólica garantiu que isso acontecerá em breve. O fato é que eu confio enormemente no poder destrutivo das nossas novelas. A Itália, aliás, é o melhor exemplo disso. Até o começo dos anos 80, a TV pública, RAI, com a sua inofensiva monotonia e falta de criatividade, monopolizava a audiência. Daí os canais comerciais resolveram exibir duas novelas da Globo, Dancin' Days e Água Viva. Foram um grande sucesso. A Globo nunca mais conseguiu emplacar uma novela na Itália, mas essas duas determinaram o rumo da TV italiana, que foi se tornando cada vez mais boçal, cada vez mais vulgar.

O ponto culminante dessa trajetória foi Silvio Berlusconi, um construtor esperto que abaixou ainda mais o nível e conseguiu conquistar todos os canais comerciais da TV. Depois disso, aliou-se ao antigo partido fascista e virou o político mais popular e influente do país. Poucos sabem, mas o mérito dessa reviravolta foi de Dancin' Days e Água Viva. Graças a elas, conseguimos instilar, indiretamente, os bacilos que destruíram a TV, o cinema, a política e a imprensa da Itália. Repito: a minha única esperança é que, a partir de agora, nossas novelas sejam difundidas via satélite em todos os lugares do mundo. E o resto da TV brasileira também. Em particular, os telejornais e os programas de auditório. Porque o Brasil nunca vai conseguir criar uma cultura. Mas, com um pouco de boa vontade, podemos tentar aniquilar a dos outros.