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Boçalidade exportada
Sou um telemaníaco. Segundo as estatísticas,
vejo mais TV do que um adolescente americano cheio de espinhas
na cara. É uma forma de anestesiar a mente depois do
trabalho. Leio e escrevo todos os dias até as sete.
Depois ligo a TV, a qual, peremptoriamente, desliga a minha
cabeça, dando-me um clic. É uma espécie
de lobotomia cotidiana. Sem a ajuda da TV, creio que minhas
veleidades literárias continuariam a me atormentar
a noite inteira. Por isso, sempre fui muito grato à
TV italiana. Morando na Itália, posso contar com a
pior TV do planeta. Instantes depois de ligá-la, a
parte esquerda do meu corpo já começa a formigar.
Um milagre.
Duas semanas atrás, porém, tive a péssima
idéia de instalar uma antena parabólica. As
seis horas que passo em frente à TV melhoraram sensivelmente.
Ziguezagueando em ritmo frenético pelos 500 canais
via satélite, sempre consigo encontrar um programa
interessante, como um velho episódio da série
Seinfeld, uma receita culinária indonésia,
um documentário de Pasolini sobre a Índia, uma
entrevista com Matisse, um noticiário galego, um jogo
de futebol do campeonato da Arábia Saudita. O problema
é que perdi aquele reconfortante torpor que a TV italiana
me provocava. Agora, estendido no sofá, sinto apenas
uma enorme angústia por ser incapaz de fazer, eu também,
algo interessante como o que vejo na telinha.
A essa altura, minha única esperança é
que os canais via satélite, depois de esgotar a reserva
de bons programas, comecem a transmitir as novelas brasileiras.
O técnico que instalou minha antena parabólica
garantiu que isso acontecerá em breve. O fato é
que eu confio enormemente no poder destrutivo das nossas novelas.
A Itália, aliás, é o melhor exemplo disso.
Até o começo dos anos 80, a TV pública,
RAI, com a sua inofensiva monotonia e falta de criatividade,
monopolizava a audiência. Daí os canais comerciais
resolveram exibir duas novelas da Globo, Dancin' Days
e Água Viva. Foram um grande sucesso. A Globo
nunca mais conseguiu emplacar uma novela na Itália,
mas essas duas determinaram o rumo da TV italiana, que foi
se tornando cada vez mais boçal, cada vez mais vulgar.
O ponto culminante dessa trajetória foi Silvio Berlusconi,
um construtor esperto que abaixou ainda mais o nível
e conseguiu conquistar todos os canais comerciais da TV. Depois
disso, aliou-se ao antigo partido fascista e virou o político
mais popular e influente do país. Poucos sabem, mas
o mérito dessa reviravolta foi de Dancin' Days
e Água Viva. Graças a elas, conseguimos
instilar, indiretamente, os bacilos que destruíram
a TV, o cinema, a política e a imprensa da Itália.
Repito: a minha única esperança é que,
a partir de agora, nossas novelas sejam difundidas via satélite
em todos os lugares do mundo. E o resto da TV brasileira também.
Em particular, os telejornais e os programas de auditório.
Porque o Brasil nunca vai conseguir criar uma cultura. Mas,
com um pouco de boa vontade, podemos tentar aniquilar a dos
outros.
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