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Especial Os
triunfos sobre o câncer de mama  Anna
Paula Buchalla
Roberto
Setton
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Receber
o diagnóstico de câncer de mama é sempre um choque. A notícia
soa como uma inapelável sentença de morte e mutilação.
Mas esse inimigo não é mais tão implacável. O número
de baixas ainda é grande (cerca de 9 500 em 2003, no Brasil), mas as conquistas
obtidas pelos médicos vêm permitindo que um número cada vez
maior de mulheres sobreviva. Nos últimos vinte anos, a taxa de mortalidade
por câncer de mama foi reduzida à metade. "Ter um câncer de
mama não significa uma morte anunciada", disse a VEJA o médico italiano
Umberto Veronesi, do Instituto de Oncologia de Milão, uma das maiores autoridades
mundiais na doença. "Dispomos de conhecimento suficiente para salvar mais
de 90% das pacientes. Tudo depende do diagnóstico precoce, a chave para
a cura do tumor."
Até
o fim deste ano, cerca de 40.000 brasileiras devem receber o diagnóstico
de câncer de mama. Comparadas às taxas de incidência nos anos
70, as de agora chegam a ser dez vezes maiores. Mas há uma diferença
crucial entre os diagnósticos feitos no passado e os de hoje. De cada dez
mulheres que recebem a notícia de que são portadoras do câncer,
sete estão na fase inicial da doença. Há duas décadas,
a situação era cruelmente inversa: 70% chegavam aos médicos
tarde demais, quando as possibilidades de cura eram mínimas e a retirada
total da mama se apresentava como a única opção de tratamento.
O caminho
para esse aumento começou a ser trilhado com a intensificação
das campanhas de prevenção contra o câncer de mama, que alertam
principalmente para a importância do auto-exame mensal, e a difusão
maciça da mamografia. A elas se seguiram o desenvolvimento de métodos
de diagnóstico mais precisos, o aperfeiçoamento de medicamentos
mais potentes e menos tóxicos e o refinamento das técnicas cirúrgicas.
Os progressos não se medem apenas pela frieza das estatísticas.
Para as pacientes há uma conquista de ordem pessoal. Uma mulher que hoje
tenha um câncer de mama detectado em estágio inicial é capaz
de sobreviver ao tumor com traumas menos extensos tanto físicos
quanto psicológicos.
Há vinte anos, não importava o tamanho do tumor, a cirurgia para
a sua retirada implicava a extirpação total da mama. Além
dela, como forma de prevenção à reincidência da doença,
fazia-se a remoção de todos os gânglios linfáticos
e dos músculos peitorais. Era uma cirurgia drástica, de resultados
desfigurantes. Hoje, tumores de até 3 centímetros de diâmetro
são eliminados numa operação chamada quadrantectomia, na
qual se extrai apenas um quarto da mama. A experiência é, sem dúvida,
bem menos traumática. Mesmo nos casos em que é necessária
mastectomia radical, os resultados estéticos estão infinitamente
melhores. As modernas técnicas de cirurgia plástica permitem, em
boa parte dos casos, a reconstrução imediata da mama operada. Já
é possível até mesmo preservar os mamilos e a camada mais
superficial da pele da mama, que é preenchida com uma prótese de
silicone.
Quando o tumor cresce em direção a outros órgãos,
ele tende a invadir primeiro os gânglios localizados na região das
axilas. Se no passado era preciso retirar todos os gânglios linfáticos
para evitar o alastramento da doença, hoje os cirurgiões dispõem
de uma técnica que evita a remoção desnecessária dessas
estruturas. O método foi batizado de linfonodo sentinela. Os médicos
injetam na mama uma substância corante que identifica o primeiro gânglio,
o qual é retirado para análise. Se ele não estiver contaminado,
isso significa que os demais também não estão, e são
preservados. Isso livra a mulher das seqüelas típicas do esvaziamento
total das axilas: um buraco feio no local, inchaço nos braços, perda
da sensibilidade e aumento da propensão a doenças infecciosas.
Outro avanço notável é a radioterapia intra-operatória,
desenvolvida pelo italiano Umberto Veronesi. Por esse método, ainda na
mesa de operação, logo depois de o tumor ser extirpado, aplica-se
uma única dose de radiação no local em que surgiu o câncer,
para evitar o seu reaparecimento ali. O método tradicional prevê
que, após uma cirurgia, a paciente se submeta a sessões de radiação
que duram em média seis semanas. A radioterapia intra-operatória
livra a paciente dessa rotina desgastante de ir ao hospital para fazer o tratamento
radiológico o que é um ganho e tanto do ponto de vista emocional
, e tem uma segunda vantagem: não causa queimaduras na pele delicada
das mamas, um dos efeitos colaterais mais devastadores da radioterapia comum.
Neste
momento, milhões de mulheres em todo o mundo podem se considerar sobreviventes
do câncer de mama. São pacientes que saíram vitoriosas de
um tratamento químico pesado, que causa fortes enjôos, queda de cabelo,
fraqueza e indisposição. Muitas têm ainda de conviver com
dificuldades de ordem sexual. Mas sobreviver a um câncer de mama é
também contar com a possibilidade de sua recorrência. "É comum
as mulheres, mesmo depois de curadas, sofrerem com o medo da recidiva", diz o
mastologista Silvio Bromberg, do Hospital Albert Einstein, de São Paulo.
O medo é fundado. Um dos lados mais perversos do câncer de mama é
que ele é um dos tumores com as mais altas taxas de recidiva. Metade das
pacientes tratadas volta a desenvolver novos nódulos. Por isso, um dos
principais focos dos médicos é o combate à recidiva. Considera-se
que uma paciente está curada se o tumor não volta a se manifestar
num prazo de cinco anos a partir do diagnóstico inicial. Para evitar o
reaparecimento do tumor imediatamente depois da cirurgia, o tratamento-padrão
é a quimioterapia. Nos últimos dois anos, surgiram novas estratégias
para ministrar as doses de quimioterápicos. Uma delas utiliza os mesmos
medicamentos nas mesmas doses convencionais, mas as sessões estão
mais espaçadas. Os intervalos foram reduzidos de três para duas semanas.
Isso diminui o tempo total de tratamento de cerca de 24 semanas para dezesseis,
em média, com os mesmos resultados e sem aumento de efeitos colaterais.
Passados os cinco anos de praxe, período depois do qual a paciente pode
receber alta, alguns médicos aconselham a ingestão de um comprimido
por dia do medicamento Femara. Trata-se de uma das novidades mais promissoras
no sentido de eliminar a possibilidade de uma recidiva tardia. O Femara, segundo
estudos divulgados recentemente, pode cortar em até 45% os riscos de reincidência
da doença depois de cinco anos do diagnóstico inicial (veja
quadro).
Cerca de 85% de todos os cânceres de mama começam nos ductos mamários,
pequenos canais responsáveis por fazer circular o leite materno. Uma progressão
de células defeituosas acaba bloqueando os ductos. Se elas permanecerem
no mesmo lugar de onde se originaram, formam um tipo de câncer não
invasivo. Caso elas extrapolem o canal, o tumor cresce em demasia e se torna mais
difícil de ser tratado. Um dos métodos de diagnóstico mais
recentes mas ainda experimental é a lavagem ductal. A técnica
utiliza uma agulha finíssima para injetar soro fisiológico nos ductos
mamários. Ao ser retirado, o líquido traz consigo células
da região para análise. Assim, é possível identificar
lesões em fase bastante inicial. É uma espécie de papanicolau
da mama. Aliás, foi o próprio George Papanicolau, o inventor do
método que detecta a presença de células cancerosas no colo
do útero, quem deu o pontapé inicial do procedimento. Ele teve a
seguinte idéia: se quase todos os cânceres de mama começam
nos ductos mamários, por que não extraí-los por meio de sucção?
Durante toda a década de 50, ele chegou a utilizar um fluido especial para
retirar células da mama, mas não conseguiu medir a malignidade do
material recolhido, por falta de tecnologia. Foi a médica americana Susan
Love, especialista em câncer de mama, quem ressuscitou o método,
em 2000. Como agora existem formas de analisar o material dos ductos com mais
acurácia, há esperança de que, em breve, seja possível
flagrar o câncer quando ele ainda é uma única célula
doente.
A grande mudança nas diretrizes da prevenção ocorreu no início
deste ano, quando o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos determinou
que mulheres cuja mãe ou irmã foram vítimas da doença
devem iniciar a rotina de exames dez anos antes da idade em que a parente a manifestou.
Ou seja, se o câncer da parente apareceu quando ela tinha 38 anos, a idade
certa para começar os exames preventivos é 28. Recentemente, os
diagnósticos precoces ganharam também o reforço da ressonância
magnética, que permite flagrar um tumor quando ele ainda tem o tamanho
de um grão de areia.
A principal promessa no campo do tratamento vem da Holanda. É um mapeamento
genético dos quatro principais tipos de câncer de mama. Com ele,
será possível determinar a probabilidade de um tumor vir a se espalhar
e suas reais chances de responder a uma terapia. Isso ajudará os médicos
a determinar quais pacientes se beneficiarão de um tratamento e quais poderão,
por exemplo, ser dispensados da quimioterapia (veja quadro).
"Estamos no meio de uma revolução", afirma Umberto Veronesi. O otimismo
tem sua razão de ser não apenas pelos triunfos já obtidos
como pelo empenho dos médicos em abrir novas frentes de pesquisa. Por ser
o terceiro tipo de câncer mais freqüente no mundo, depois do de pulmão
e do de estômago, e por ser a principal causa de morte pela doença
entre as mulheres (a incidência aumenta conforme o avançar dos anos,
como mostra o quadro abaixo), o tumor de mama é um dos cânceres mais
estudados nos principais centros de oncologia. De cada 100 artigos médicos
publicados sobre cânceres em geral, quarenta referem-se a esse tipo de tumor.
É encorajante também que o câncer de mama seja um dos mais
sensíveis aos tratamentos, o que favorece os avanços nessa área.
As conquistas só não são maiores porque o tumor de mama é
traiçoeiro. Além de ter vários tipos, ele pode ser muito
rápido na sua expansão pelo corpo. Há casos em que bastam
dois dias para que células cancerosas recém-formadas saiam dos ductos
mamários. Quando gera metástase, o câncer de mama atinge preferencialmente
ossos, pulmão ou fígado. Nessa hipótese, falar em cura é
praticamente impossível. Mas, mesmo diante desse prognóstico de
pesadelo, os tratamentos podem garantir uma boa sobrevida à paciente.
As companhias farmacêuticas investem por ano dezenas de bilhões de
dólares no desenvolvimento de terapias que impeçam o surgimento
do câncer de mama. É o que chamam de quimioprevenção.
Atualmente, o medicamento-padrão é o tamoxifeno, que impede a ação
do hormônio estrógeno, o principal alimento de um dos tipos mais
comuns de câncer de mama. O tamoxifeno é receitado para mulheres
com alto risco de sofrer da doença, principalmente por histórico
familiar. No campo da quimioprevenção, está em estudo o uso
de aspirina, estatinas e antiinflamatórios. O mecanismo pelo qual esses
remédios impediriam a formação de tumor ainda não
foi desvendado, mas eles mostram ter eficácia nesse sentido.
O crescimento descontrolado das células, causa dos tumores malignos, é
fruto de um erro genético, programado pelo próprio organismo ou
decorrente de fatores externos. No que se refere ao câncer de mama, acredita-se
que 10% deles estejam ligados a mutações nos genes BRCA1 e BRCA2,
fruto de herança genética. É por isso que muitas mulheres
se submetem a um mapeamento para saber se carregam esses genes mutantes. Algumas
delas, diante de um resultado positivo, escolhem fazer uma mastectomia profilática,
a fim de evitar o aparecimento da doença. Apesar de todo o conhecimento
acumulado a respeito do tumor de mama, uma crença ainda sobrevive
a de que ele pode ser resultado da personalidade da mulher. Há até
livros que falam de uma "personalidade de câncer de mama", marcada por baixa
auto-estima e sentimentos reprimidos. Embora não exista nenhuma evidência
para suportar essa idéia estapafúrdia, ela é bastante disseminada.
Por isso, um grupo de pesquisadores australianos se dedicou ao assunto. Eles acompanharam
2.200 mulheres na casa dos 40 anos, que faziam mamografia rotineiramente. Elas
responderam a questões sobre raiva, mágoa, tristeza e stress e sobre
como expressavam suas emoções. Metade delas viria a ter câncer.
Ao examinar os questionários preenchidos por essas pacientes, os pesquisadores
depararam com mulheres que, na maioria dos casos, eram alegres, comunicativas,
de bem com a vida. O câncer de mama é uma doença como qualquer
outra não escolhe suas vítimas porque elas são mais
ou menos tristes ou bem-sucedidas. É ameaçador, mas não invencível.
Resume o médico Antonio Luiz Frasson, do Hospital Albert Einstein e professor
da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul: "Para
quem não se descuida dos exames preventivos e tem acesso aos métodos
mais avançados de diagnóstico e de tratamento, o câncer de
mama não é um problema".
Avanços
decisivos na prevenção, no diagnóstico e no tratamento de
câncer de mama PREVENÇÃO
Histórico familiar As novas diretrizes do Instituto Nacional
do Câncer dos Estados Unidos determinam que as mulheres cuja mãe
ou irmã foram vítimas da doença devem dar início à
rotina de prevenção dez anos antes da idade em que a parente manifestou
os sintomas da doença. Se a mãe descobriu um tumor aos 42 anos,
a filha deve começar a se precaver contra o câncer aos 32 anos, com
exames clínicos e de imagem anualmente
Antiinflamatórios Estudos
mostram que mulheres que tomam dois ou mais comprimidos semanais de ibuprofeno,
num período de cinco a nove anos, têm 21% menos probabilidade de
desenvolver a doença
Estatinas Entre
as mulheres que usam esses medicamentos contra colesterol alto há mais
de cinco anos, o risco de o tumor aparecer é 30% menor
Aspirina Pesquisas
mostram que o consumo de sete comprimidos de Aspirina por semana reduz em cerca
de 30% a propensão ao câncer de mama
DIAGNÓSTICO
Lavagem dos ductos mamários Ainda
em fase experimental, essa nova técnica de biópsia consiste em injetar,
por meio de uma agulha finíssima introduzida no centro do bico da mama,
soro fisiológico nos ductos mamários. Ao ser aspirado de volta,
o líquido traz junto células da região para ser examinadas.
Recomendado para mulheres expostas a alto risco
Ressonância magnética Esse exame é muito mais sensível
do que a mamografia e a ultra-sonografia. Por isso mesmo apresenta um grande número
de resultados falsos positivos. O exame só é indicado para mulheres
de alto risco
Mamotomia estereotáxica Uma agulha do calibre de uma caneta esferográfica,
com uma espécie de bisturi em seu interior, retira amostras do tecido mamário
para análise. É feita com anestesia local e dura menos de uma hora.
Reduz em até 70% a necessidade de procedimentos cirúrgicos para
biópsia
CIRURGIAS
Linfonodo sentinela Até
pouco tempo atrás, durante a operação para extirpar o tumor,
era comum a retirada de todos os gânglios linfáticos, como forma
de prevenção. Agora, os médicos injetam uma substância
corante na mama que identifica o primeiro gânglio. Se ele não estiver
contaminado, os demais também não estão e são preservados.
Com isso, diminuem muito os riscos de inchaços, infecções
locais e de perda de sensibilidade dos braços Liane
Neves
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Radioterapia
intra-operatória Ainda na mesa de cirurgia, a paciente recebe uma
dose única de radiação, durante cerca de vinte minutos. Assim,
é possível dispensar as seis semanas de sessões diárias
de radioterapia depois da operação
Cirurgia
radioguiada Antes da cirurgia, injeta-se uma substância radioativa
para localizar com exatidão o tumor. Possibilita a extração
de nódulos minúsculos, invisíveis a olho nu
REMÉDIO
Femara Acaba
de ser aprovado nos Estados Unidos e na Europa o uso do letrozol, vendido sob
o nome de Femara, para dar continuidade à prevenção iniciada
com o tamoxifeno, que depois de cinco anos deixa de surtir efeito
Fontes:
Artur Katz e Sergio Simon, oncologistas do Hospital
Albert Einstein, de São Paulo | |
DUAS VEZES
VITORIOSA
Roberto
Setton
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"Tinha
40 anos quando, durante um auto-exame, notei um caroço em meu seio direito.
A mamografia indicou um nódulo suspeito. Bateu um medo terrível.
Era inevitável pensar que meu marido poderia ter de cuidar sozinho de nossos
três filhos, então adolescentes. Queria continuar viva, ver meus
filhos crescerem, casarem e terem filhos. Na época, vinte anos atrás,
aquela biópsia exigia cirurgia. Se o resultado fosse positivo, faziam mastectomia
na mesma hora. Pedi ao médico para que, se eu estivesse com câncer,
deixasse a mastectomia para depois. Não estava preparada para acordar sem
meu seio. Naquele tempo, o câncer de mama não tinha bom prognóstico.
As pessoas evitavam falar sobre a doença e até as mulheres que haviam
passado pelo problema faziam segredo. Tirei a mama e fiquei em acompanhamento
por cinco anos. Quando recebi alta, chorei muito um choro de felicidade.
Por opção, não reconstruí a mama. Eu estava saudável
e minha vaidade não justificava uma outra cirurgia de grande porte. Tinha,
óbvio, momentos de tristeza, mas eles passavam. Três anos atrás,
apareceu um caroço na mama esquerda. Por que eu tinha de viver tudo aquilo
de novo? Dessa vez, só precisei retirar um quarto do seio. Continuo o acompanhamento
e o prognóstico é dos melhores. Não sinto raiva nem revolta.
Ao contrário. Agradeço a sorte grande de ter descoberto os tumores
no início e de continuar viva para ver o casamento dos meus netos."
VITORIA RACA,
61 anos, dona-de-casa, de São Paulo | |
A OPÇÃO PELA
MASTECTOMIA RADICAL
Cláudio
Rossi
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De todos os esforços para tentar prevenir o aparecimento de um tumor de
mama, a mastectomia profilática é o mais radical. Nela, a paciente
extirpa as mamas antes mesmo de apresentar um nódulo suspeito. A versão
mais recente dessa cirurgia esvazia os seios, mas preserva a camada mais superficial
da pele e os mamilos. Cerca de 20% das pacientes operadas, porém, precisam
voltar à mesa de cirurgia para trocar as próteses ou por causa de
necroses na pele. A cirurgia reduz em cerca de 90% os riscos de câncer de
mama. Mas essa é uma operação a ser considerada apenas por
pacientes de altíssimo risco, com predisposição genética
à doença e histórico familiar muito evidente, como é
o caso da terapeuta de família Deborah Tambelini, de 36 anos:
"O câncer marcou profundamente
minha família. Quando tinha 9 anos, perdi minha mãe para a doença.
Lembro-me claramente do sofrimento dela e de toda a família. A operação,
os efeitos da rádio e da quimioterapia... Cinco anos depois, minha tia,
irmã de minha mãe, recebeu o mesmo diagnóstico. Anos antes,
minha avó materna também havia morrido vítima de câncer.
Cresci jurando para mim mesma que eu não passaria por todo aquele terror.
Em 1985, foi a vez de uma de minhas irmãs. Ela fez uma mastectomia radical.
Curou-se do câncer de mama, mas, em setembro do ano passado, morreu por
causa de um câncer de ovário. Outras duas irmãs minhas também
tiveram câncer. Uma de mama, outra de ovário. Elas estavam com os
exames preventivos em dia, mas os tumores eram muito agressivos e, por isso, tiveram
de se submeter a tratamentos igualmente agressivos. O que sempre me assustou no
câncer é que ele se desenvolve silenciosamente, sem dar nenhum sinal.
É aterrador.
Desde os 25 anos, faço exames anualmente. Soube pelo meu ginecologista
que havia um teste para identificar mutações genéticas ligadas
ao câncer de mama. Fiz o exame e o resultado foi positivo. Ou seja, eu tinha
80% de probabilidade de vir a ter a mesma doença de minha avó, tia,
mãe e irmãs. O médico me falou sobre a mastectomia preventiva.
A princípio, achei a idéia absurda, uma mutilação
imagine extirpar as duas mamas se eu era sadia... No final, depois de pesar
os prós e os contras, optei pela operação. Eu não
queria ter de lutar contra um câncer. Eu não enfrentaria jamais um
câncer.
Fiz vários exames pré-operatórios. E qual não foi
minha surpresa quando um deles, na véspera da operação, indicou
um nódulo suspeito no seio direito. Era câncer. Minúsculo,
mas era. Recebi a notícia com tranqüilidade e dei continuidade ao
plano inicial da mastectomia radical. A diferença é que depois tive
de fazer quimioterapia. Voltei para o quarto já com o implante de silicone.
Meus seios hoje são até mais bonitos do que antes. Ninguém
percebe que tirei as duas mamas. Tenho convicção de que, mesmo se
o câncer não tivesse aparecido, não teria me arrependido da
operação. A certeza de que queria ver meu filho, de 4 anos, crescer
era muito mais forte". | |
O FUTURO ESTA
PRÓXIMO A genética
promete ser o campo de batalha em que o câncer de mama encontrará
sua derrota completa. Os médicos avançam a passos largos nesse sentido.
Em 2000, foi desenvolvido na Holanda um mapeamento genético dos tumores
chamado MammaPrint, baseado no exame das características dos cânceres
de 15 000 pacientes européias e americanas. O MamaPrint ajuda a determinar
com bastante precisão o grau de agressividade de um câncer, o risco
de ele se alastrar por outros órgãos e como responderá aos
tratamentos disponíveis. Se os estudos finais, ainda em andamento, confirmarem
o sucesso verificado até o momento, esse mapeamento deverá entrar
para o cardápio da prevenção e do tratamento da doença.
Isso representará a concretização de um sonho: o de individualizar
o combate contra o câncer de mama, abrindo caminho para o surgimento de
remédios que ataquem diretamente os genes de um tumor.
Para chegar ao MammaPrint, os médicos
isolaram os setenta genes comuns aos quatro principais tipos de câncer de
mama. Criou-se, então, um banco de dados com informações
sobre o comportamento desses genes no desenvolvimento de cada forma de tumor.
Comparando as células extraídas numa biópsia com as informações
contidas no MammaPrint, é possível saber, por exemplo, se a probabilidade
de um tumor se transformar em metástase é de 10% ou de 50%. Isso
pode livrar muitas mulheres da quimioterapia preventiva. Hoje, com base no estudo
da anatomia e da fisiologia de um tumor, os médicos são capazes
de montar um prognóstico, mas nunca com a exatidão de um exame genético.
"É o começo do futuro da oncologia", diz o médico Antonio
Carlos Buzaid, diretor executivo do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês,
em São Paulo. É
bom que se estabeleça a diferença entre a genética de um
tumor e a genética de uma paciente. Os genes encontrados no DNA de uma
célula cancerosa determinam como ela se comporta. A genética de
uma mulher indica a probabilidade de ela desenvolver a doença. Mulheres
que carregam mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2 têm até
80% de probabilidade de desenvolver um tumor. Durante muito tempo, apostou-se
exclusivamente numa maneira de reverter essas mutações genéticas
e evitar, assim, o aparecimento de lesões malignas. Os investimentos nesse
campo, porém, mostraram-se frustrantes. | |
Com
reportagem de Paula Neiva |