Edição 1880 . 17 de novembro de 2004

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Brasil
"Matamos os outros dois

Deputado acusado de extorsão
agora se enrola em uma fita em
que confessa assassinatos


Policarpo Junior

Dida Sampaio/AE
O deputado André Luiz, investigado por tentativa de extorsão: agora ele fala em tiroteios

O deputado federal André Luiz foi aconselhado por colegas do seu partido, o PMDB, a renunciar ao mandato. Flagrado tentando extorquir 4 milhões de reais do empresário de jogos Carlos Cachoeira, ele corre o risco de ser cassado por falta de decoro parlamentar. Se não bastasse isso, a comissão de sindicância da Câmara, que apura a conduta do deputado, poderá contar com um novo e assustador ingrediente da biografia do parlamentar: André Luiz se gaba de matar pessoas.

Por bazófia, para assustar o interlocutor ou por ter matado mesmo – coisa que não se pode confirmar –, o deputado aparece em gravações afirmando que ele e seus seguranças assassinaram oito pessoas no Rio de Janeiro. A narração do que seriam crimes de morte praticados pelo deputado foi feita por ele mesmo durante um dos encontros que manteve em Brasília com os emissários de Carlos Cachoeira, no dia 29 de setembro, uma quarta-feira. São três minutos e 43 segundos de uma gravação espantosa, em que o nobre parlamentar fala com desenvoltura de seu envolvimento em operações que resultam em mortes. Ele narra tiroteios, perseguições, emboscadas, vingança e assassinatos. André Luiz fala de si mesmo como um sujeito violento que liquida seus desafetos. Tudo isso para justificar sua ausência em uma reunião marcada com deputados estaduais do Rio de Janeiro para discutir a melhor maneira de mudar o relatório da CPI da Loterj. A certa altura, ele conta que no dia 19 de setembro, um domingo, um de seus seguranças, um sargento da PM, havia sido morto, o que alterou um pouco sua rotina. Diz ele na gravação: "Tive que dar um montão de tiro lá naquela p.! Botei a minha segurança toda na rua. Prendemos os dois caras que mataram meu segurança e matamos os outros dois".

 

"Tive que dar um montão de tiro lá naquela p.! Botei a minha segurança toda na rua. Prendemos os dois caras que mataram meu segurança e matamos os outros dois."
Trecho da gravação em que o deputado narra como teria praticado os crimes

O caso narrado pelo deputado gira em torno de um crime que realmente aconteceu. Trata-se do assassinato do sargento José Carlos de Abreu Silva, da Polícia Militar do Rio de Janeiro, encontrado morto em Bangu. Oficialmente, o policial foi assassinado ao tentar ajudar um amigo a recuperar uma moto roubada. Na fita, o deputado repete a versão oficial e descrita em reportagens de jornal. Em seguida acrescenta seus floreios: "Ele mandou um recado para a vagabundagem e mandou descer com a moto. Os caras desceram sem moto, tomaram a pistola dele, ele não esperava. Deram três tiros, um na cabeça e três (...) morreu na hora". Em outro trecho o deputado diz que mandou retirar o corpo do sargento e passou a coordenar pessoalmente a operação para pegar os assassinos. "Eu disse ao coronel: 'Vamos fazer uma ocupação nesses lugares. Eu ligo pro secretário, ligo pro comandante-geral, vamos pegar reforço, vamos ocupar essa p. toda e vamos prender todo mundo'.." Na vida real, a tal operação não ocorreu. Na fita, o deputado desabafa: "Vagabundo tem que ir pra vala, tem que morrer, tem que ser preso".

Também está relatado nos jornais cariocas que o deputado convocou a imprensa para denunciar a omissão do governo do Rio na morte de seu capanga. Depois disso, ele conseguiu o apoio esperado. "Eu com meu pessoal pulamos lá pra cima e pegamos todo mundo." O saldo da operação, segundo relata o deputado André Luiz, foi o seguinte: duas pessoas presas e dois mortos. A polícia do Rio confirma que, de fato, dois suspeitos da morte do sargento foram presos no dia seguinte ao crime. Outros dois são dados como foragidos. Na fita, André Luiz sugere que esses dois "foragidos" foram mortos pelo seu "pessoal".

Flavio Ciro
O bicheiro Castor de Andrade, ex-patrão de André Luiz


A vida pública do deputado André Luiz parece estar de acordo com as peripécias que ele narra na fita. Sabe-se que, dois dias depois da vingança pela morte do segurança, o carro do parlamentar foi emboscado em uma avenida na periferia do Rio de Janeiro. André Luiz estava armado e acompanhado de seguranças. Houve tiroteio. Ele narra o episódio com riqueza de detalhes: "Na quarta-feira, eu estava cruzando com o meu pessoal. Pensaram que estava no meu carro sozinho. Que tiroteio, rapaz! Ficamos trocando (tiros) até a polícia chegar. Aí foi embora mais seis pro c.!" No final do diálogo, ele se vangloria: "Eu não dou mole não!". Segundo o deputado André Luiz, depois desse último tiroteio os traficantes mandaram recado para ele, acenando com uma trégua.

Ex-segurança de um dos mais famosos criminosos do Rio de Janeiro, o bicheiro Castor de Andrade, o deputado André Luiz é uma pessoa popular no bairro de Bangu. O parlamentar arregimenta policiais militares do Rio para sua segurança pessoal. Cinco deles já apareceram mortos em circunstâncias misteriosas. No sábado que antecedeu o assassinato do sargento José Carlos, André Luiz conta que sofreu um atentado em Bangu. Estava participando de uma carreata, quando tiros foram disparados contra ele. "Nos deram três tiros, mas conseguimos escapar." O deputado culpou o narcotráfico pela ação. Termina nesta semana o prazo para que André Luiz apresente sua defesa no caso em que é acusado de extorsão a Carlos Cachoeira. As gravações mostram o parlamentar pedindo dinheiro para subornar os membros da CPI da Loterj. Agora, André Luiz terá de explicar suas narrações tão vívidas de tiroteios e assassinatos.

 
 
 
 
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