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Carta
ao leitor Além das
palavras Celso
Junior/AE
 | | Lula,
Viegas e Alencar |
O Brasil não escapou das energias tectônicas da Guerra Fria, que
durante cinco décadas dividiu o mundo entre comunismo e capitalismo. Essas
forças se manifestaram aqui com a deposição pelos militares
de um presidente esquerdista em 1964. Durante os 21 anos seguintes, até
a redemocratização, em 1985, os militares no poder neutralizaram
seus opositores. A repressão foi mais violenta contra os insurgentes que
se organizaram em grupos armados. Em alguns momentos os militares se igualaram
aos terroristas nos métodos subterrâneos de luta, produzindo pouco
mais de três centenas de assassinatos e desaparecimentos. A inequívoca
derrota planetária do lado comunista, a reparação financeira
dada à família das vítimas e a vigência de uma Lei
da Anistia não impedem que, vez por outra, episódios desse passado
voltem a assombrar as Forças Armadas brasileiras.
Um deles a reação desastrosa do Exército à
divulgação de fotos de um preso que se acreditava ser o jornalista
Vladimir Herzog, morto no cárcere de um quartel em 1975 resultou
na substituição do ministro da Defesa, José Viegas. Ele cedeu
seu posto ao vice-presidente, José Alencar. O presidente Lula e Alencar
aproveitaram a cerimônia de posse, na semana passada, para exorcizar o passado.
"Ninguém deve ser obrigado a pagar o resto da vida por coisas das quais
muitas vezes nem participou", disse Lula. "Minha visão é daqui para
a frente", comentou Alencar.
Vem do Chile uma linha de ação para lidar eficientemente com esses
eventos e fazer do conhecimento do passado não mais uma fonte de tensões,
mas um meio de evitar sua repetição no futuro. No país do
general Augusto Pinochet a repressão foi mais dura e produziu 3.000 vítimas
fatais. O processo de reconciliação entre os chilenos, no entanto,
está muito mais avançado. Deu um passo definitivo para a cura completa
das feridas com a admissão recente do general Juan Emilio Cheyre, comandante
do Exército. Ele reconheceu que os crimes políticos cometidos durante
a ditadura são de responsabilidade da instituição militar
e não fruto do excesso de força empregado individualmente
por um ou outro homem de farda. Com essa atitude, Cheyre logrou dois êxitos.
O primeiro foi reparar um erro histórico. O segundo foi diminuir as possibilidades
de aproveitamento político e achincalhe dos militares no caso de novas
revelações de abusos. Fica o exemplo. |