Edição 1880 . 17 de novembro de 2004

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Carta ao leitor
Além das palavras

 
Celso Junior/AE
Lula, Viegas e Alencar

O Brasil não escapou das energias tectônicas da Guerra Fria, que durante cinco décadas dividiu o mundo entre comunismo e capitalismo. Essas forças se manifestaram aqui com a deposição pelos militares de um presidente esquerdista em 1964. Durante os 21 anos seguintes, até a redemocratização, em 1985, os militares no poder neutralizaram seus opositores. A repressão foi mais violenta contra os insurgentes que se organizaram em grupos armados. Em alguns momentos os militares se igualaram aos terroristas nos métodos subterrâneos de luta, produzindo pouco mais de três centenas de assassinatos e desaparecimentos. A inequívoca derrota planetária do lado comunista, a reparação financeira dada à família das vítimas e a vigência de uma Lei da Anistia não impedem que, vez por outra, episódios desse passado voltem a assombrar as Forças Armadas brasileiras.

Um deles – a reação desastrosa do Exército à divulgação de fotos de um preso que se acreditava ser o jornalista Vladimir Herzog, morto no cárcere de um quartel em 1975 – resultou na substituição do ministro da Defesa, José Viegas. Ele cedeu seu posto ao vice-presidente, José Alencar. O presidente Lula e Alencar aproveitaram a cerimônia de posse, na semana passada, para exorcizar o passado. "Ninguém deve ser obrigado a pagar o resto da vida por coisas das quais muitas vezes nem participou", disse Lula. "Minha visão é daqui para a frente", comentou Alencar.

Vem do Chile uma linha de ação para lidar eficientemente com esses eventos e fazer do conhecimento do passado não mais uma fonte de tensões, mas um meio de evitar sua repetição no futuro. No país do general Augusto Pinochet a repressão foi mais dura e produziu 3.000 vítimas fatais. O processo de reconciliação entre os chilenos, no entanto, está muito mais avançado. Deu um passo definitivo para a cura completa das feridas com a admissão recente do general Juan Emilio Cheyre, comandante do Exército. Ele reconheceu que os crimes políticos cometidos durante a ditadura são de responsabilidade da instituição militar – e não fruto do excesso de força empregado individualmente por um ou outro homem de farda. Com essa atitude, Cheyre logrou dois êxitos. O primeiro foi reparar um erro histórico. O segundo foi diminuir as possibilidades de aproveitamento político e achincalhe dos militares no caso de novas revelações de abusos. Fica o exemplo.

 
 
 
 
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