Edição 1880 . 17 de novembro de 2004

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Auto-retrato
Junior Lima


Claudio Rossi


Junior cansou de ser Junior. Aos 20 anos, não quer mais ser visto apenas como o irmão de Sandy, como a eterna segunda voz de uma dupla que faz sucesso há quase quinze anos. Para diferenciar-se, acrescentou o sobrenome Lima a Junior e montou a banda Soul Funk, que toca em bares de São Paulo. Mas, como o trabalho que paga as contas ainda é a parceria com Sandy, ele só é Junior Lima nos intervalos que sobram na agenda do Junior sem Lima. Nesta entrevista à repórter Anna Paula Buchalla, o cantor fala de sua tentativa de ganhar autonomia.

POR QUE VOCÊ ACRESCENTOU O SOBRENOME LIMA AO SEU NOME ARTÍSTICO?
Quando comecei a dar canja nos shows de outros músicos, como os do Davi Moares, as pessoas sempre demoravam a entender: "Que Junior?... Ah, o Junior da Sandy". Ficava incomodado por depender da Sandy para ser identificado. Por isso acrescentei o Lima. O Junior Lima não é o "Junior da Sandy".

VOCÊ SE SENTE SUFOCADO POR SUA IRMÃ?
O que posso dizer é que, apesar de ter uma função importante na dupla, a segunda voz é quase sempre desvalorizada. Só nos últimos anos é que comecei a desenvolver e mostrar mais o meu lado de músico. Se foi também para sair da sombra da Sandy? Sim.

E VOCÊ ACHA QUE ESTA CONSEGUINDO?
Acho que sim. Algumas pessoas têm preconceito em relação à dupla. Mas, quando nos apresentamos separadamente, essas mesmas pessoas nos elogiam.

NAS ENTREVISTAS, VOCÊ É FREQÜENTEMENTE INTERROMPIDO POR SANDY. ISSO NÃO O IRRITA?
Eu me acostumei. No início da carreira, era ela que sempre falava. Eu era bem ruim. Nesse sentido, continuo um pouco mais devagar do que ela. Só comecei a falar com quase 3 anos de idade. Teve uma médica que disse que eu era hipotônico, que teria um desenvolvimento mais lento do que o normal. Mas não é só a Sandy que me interrompe. O Faustão (apresentador da Rede Globo) também faz isso quando me entrevista.

VOCÊ PENSA EM TER UMA CARREIRA PARALELA?
Por enquanto não, mas tenho alguns projetos paralelos. A banda Soul Funk é um deles. Lá, sou um baterista, sempre posicionado no fundo do palco. É assim que os músicos iniciam. Estou fazendo o inverso: comecei famoso e agora parto para projetos menores, que me dão muito prazer.

VOCÊ E SANDY SÃO DIFERENTES NO QUÊ?
A Sandy é perfeccionista. Não faz nada sem ensaiar. Eu sou impulsivo, atirado. Temos personalidades completamente diferentes. A Sandy, por exemplo, não gosta de sair à noite. Ela reclama da música alta, do cheiro de cigarro e de gente bêbada que vem falar com ela. A Sandy não relaxa. Se você olhar para os dedos dos pés dela, perceberá que estão sempre contraídos. Eu não me lembro da última vez em que vi a Sandy sem rímel – nem em casa ela tira a maquiagem. Já eu saio até de moletom furado.

VOCÊS BRIGAM MUITO?
Apesar de nossas diferenças, temos pontos em comum. Somos carinhosos um com o outro e nos respeitamos. Não existe grito nem palavrões nas nossas brigas. Temos ainda o nosso som, a nossa carreira, a nossa paixão pela música.

NUM SHOW DO SEPULTURA, VOCÊ FOI VAIADO E CHAMADO DE GAY. ISSO O CHATEOU MUITO?
Quando entrei no palco, começaram a me xingar. Aí o Andreas (do Sepultura) disse: "Ouçam primeiro". Rolou, então, um Jimi Hendrix pesado. No fim, até me aplaudiram. Eu entendo por que algumas pessoas acham que eu sou gay desde pequeno. Imagine um garoto de 13 anos que canta "Vai ter de rebolar" e rebola no palco...

O QUE MUDOU QUANDO VOCÊ ASSUMIU A DIREÇÃO MUSICAL DOS SHOWS DA DUPLA?
Tirei, por exemplo, o balé de cena. Com o balé, o público perdia o foco da música. Eu fazia um solo de guitarra superbacana e ninguém notava. Mas, quando largava a guitarra e dava uma dançadinha, a galera vinha abaixo. Hoje não largo a guitarra nem um minuto. Quero que me vejam como um músico. Não estou aqui a passeio, para brincar de ser artista.

 
 
 
 
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