De
todas as platéias de Tropa de Elite, a mais sensível é
formada pelos próprios policiais do Batalhão de Operações
Policiais Especiais (Bope), do Rio de Janeiro. Eles se dividem. Têm orgulho
por haver sido retratados como salvadores da pátria no caótico cenário
da violência urbana. Por outro lado, dizem que há muito exagero em
algumas cenas que mostram como a tropa atua. Olhado sem paixão, o filme
é um retrato bastante fiel para o bem e para o mal da conduta
do batalhão, mesmo com a ação se passando dez anos atrás.
Na semana passada, VEJA ouviu ex-integrantes da unidade e pessoas que acompanham
de perto sua rotina, para avaliar a verossimilhança das cenas. "É
tudo verdade. E ainda tem mais", afirmou um ex-oficial, sob a condição
de não ser identificado. O treinamento pode incluir sessões de choques
elétricos e afogamentos, noites inteiras de imersão na água
gelada de um rio e o golpe conhecido como "telefone", que em duas ocasiões
causou perfuração de tímpano. Cenas como a da comida jogada
no chão e a dos tapas na aula inaugural retratam quase à perfeição
o cotidiano do batalhão.
O treinamento, rigorosíssimo, é também o que diferencia o
Bope do restante da polícia (veja quadro abaixo). Existem dois cursos
preparatórios para ingressar na unidade. Para inscrever-se, o voluntário
tem de ter pelo menos dois anos de Polícia Militar. O mais longo, no qual
o filme se baseia, dura três meses e é o mais truculento. Nele, o
soldado ganha experiência em operações de alto risco em favelas,
na selva ou em regiões montanhosas. "Nesse curso, a rotina do aluno é
quebrada. Ele dorme muito pouco, se é que dorme, alimenta-se muito pouco,
quando se alimenta, e é submetido a tarefas extenuantes", diz o comandante
do Bope, o coronel Pinheiro Neto. A tese é que, ao passar por situações
de extrema privação e humilhação, o aluno aprende
a controlar melhor sua agressividade. Como boa parte do curso acontece no meio
da mata, durante o inverno, próximo a uma represa no interior do Rio, o
aluno fica conhecendo ali uma das máximas do Bope: "O inferno não
é feito de fogo. Ele é verde, frio e molhado". Apenas 20% dos que
entram nesse curso vão até o fim. Houve o caso de um aluno que não
voltou para casa: morreu afogado, depois de um treinamento que o obrigou a ficar
um bom tempo nas águas geladas de uma represa.
Quem consegue superar esse inferno passa a integrar uma tropa considerada hoje
uma das melhores em operações de conflito armado em áreas
urbanas. "Existe um reconhecimento mundial do padrão de excelência
do Bope", diz Leonardo Barreto, ex-tenente do Exército que já fez
cursos com polícias especializadas nos Estados Unidos, Israel, Itália
e Espanha. Quando está de serviço, o policial fica 24 horas de prontidão
a média é de uma operação por dia. Quando não
há missão, treina-se o tempo todo. Com sua expertise, o grupo já
formou mais de 2.000 homens, entre policiais de outros estados, agentes federais
e militares. Na semana que vem, 160 homens da Força de Paz do Exército
passarão por um período de aperfeiçoamento no Bope, antes
de seguir para missões no Haiti e no Sudão.
O batalhão foi criado em 1978, quando a polícia fluminense decidiu
montar uma unidade de elite para operações de resgate de reféns.
Com a explosão da criminalidade nos anos 80 e 90, o grupo se especializou
em enfrentar bandidos em favelas. A tropa atual, com 400 homens, fica baseada
em um prédio no alto de um morro em Laranjeiras, na Zona Sul. Ali a vizinhança
é heterogênea. De um lado fica a favela Tavares Bastos, onde o Bope
realizou um trabalho que os policiais batizaram de "assepsia" ou seja,
a expulsão dos traficantes. Do outro lado do morro ficam as mansões
do Parque Guinle, área nobre que inclui o Palácio das Laranjeiras,
residência oficial do governador do Rio, Sérgio Cabral.
Depois do filme, o Bope virou um sucesso de público. A média de
e-mails enviados à unidade, que até então era de 400 por
semana, passou a 400 por dia. São mensagens de felicitações
pelo combate ao crime e pedidos de visita ao batalhão. Houve até
universitários interessados em desenvolver teses acadêmicas sobre
os homens de preto do Bope. Outra amostra de popularidade se deu no desfile de
7 de Setembro, no Centro do Rio, quando a tropa foi ovacionada pelo público,
enquanto algumas autoridades foram vaiadas. No embalo da lua-de-mel vivida com
a população, um tabu está prestes a ser quebrado: no ano
que vem, pela primeira vez na história do Bope será ministrado um
curso só para mulheres. Mas a reputação nem sempre foi essa.
O batalhão ficou nacionalmente conhecido em 2000, por causa de uma operação
desastrosa. Ao tentar libertar a professora Geisa Gonçalves, refém
do assaltante Sandro do Nascimento no ônibus 174, um policial errou o alvo,
permitindo que Sandra fosse morta pelo bandido. Para piorar, o assaltante, depois
de dominado, chegou ao hospital morto por asfixia. Os envolvidos foram absolvidos,
mas o episódio manchou a reputação da unidade.
O padrão de excelência ostentado hoje também é fruto
de uma atitude mais rigorosa em relação aos maus policiais. No batalhão,
o policial é excluído ao menor sinal de irregularidade. "Uma simples
suspeita é o suficiente para que o policial seja afastado, mesmo que ela
não fique totalmente comprovada. Não pode pairar nenhuma desconfiança
sobre um homem do Bope", diz o coronel Mário Sérgio Duarte, ex-comandante
da unidade. Nos últimos quatro anos, pelo menos 43 policiais foram afastados,
seja por baixa qualidade técnica, seja por desvios de conduta. Entre as
supostas irregularidades havia suspeita de ligação com o jogo do
bicho e de desvio de material da polícia. Quanto à conduta informal
de asfixiar bandidos com sacos plásticos, como método de arrancar
confissões, ninguém foi afastado do Bope por empregá-la.