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17 de outubro de 2007
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Especial
Máquina letal contra o crime

Treinamento exaustivo e código de conduta rigoroso
fazem do Bope uma das melhores tropas do mundo


Ronaldo Soares

 
Marcos Tristão/Ag. O Globo

BANDIDOS NA MIRA
A popularidade do batalhão está em alta depois do filme: mais de 400 e-mails diários com elogios e pedidos de informação


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De todas as platéias de Tropa de Elite, a mais sensível é formada pelos próprios policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), do Rio de Janeiro. Eles se dividem. Têm orgulho por haver sido retratados como salvadores da pátria no caótico cenário da violência urbana. Por outro lado, dizem que há muito exagero em algumas cenas que mostram como a tropa atua. Olhado sem paixão, o filme é um retrato bastante fiel – para o bem e para o mal – da conduta do batalhão, mesmo com a ação se passando dez anos atrás. Na semana passada, VEJA ouviu ex-integrantes da unidade e pessoas que acompanham de perto sua rotina, para avaliar a verossimilhança das cenas. "É tudo verdade. E ainda tem mais", afirmou um ex-oficial, sob a condição de não ser identificado. O treinamento pode incluir sessões de choques elétricos e afogamentos, noites inteiras de imersão na água gelada de um rio e o golpe conhecido como "telefone", que em duas ocasiões causou perfuração de tímpano. Cenas como a da comida jogada no chão e a dos tapas na aula inaugural retratam quase à perfeição o cotidiano do batalhão.

O treinamento, rigorosíssimo, é também o que diferencia o Bope do restante da polícia (veja quadro abaixo). Existem dois cursos preparatórios para ingressar na unidade. Para inscrever-se, o voluntário tem de ter pelo menos dois anos de Polícia Militar. O mais longo, no qual o filme se baseia, dura três meses e é o mais truculento. Nele, o soldado ganha experiência em operações de alto risco em favelas, na selva ou em regiões montanhosas. "Nesse curso, a rotina do aluno é quebrada. Ele dorme muito pouco, se é que dorme, alimenta-se muito pouco, quando se alimenta, e é submetido a tarefas extenuantes", diz o comandante do Bope, o coronel Pinheiro Neto. A tese é que, ao passar por situações de extrema privação e humilhação, o aluno aprende a controlar melhor sua agressividade. Como boa parte do curso acontece no meio da mata, durante o inverno, próximo a uma represa no interior do Rio, o aluno fica conhecendo ali uma das máximas do Bope: "O inferno não é feito de fogo. Ele é verde, frio e molhado". Apenas 20% dos que entram nesse curso vão até o fim. Houve o caso de um aluno que não voltou para casa: morreu afogado, depois de um treinamento que o obrigou a ficar um bom tempo nas águas geladas de uma represa.

Quem consegue superar esse inferno passa a integrar uma tropa considerada hoje uma das melhores em operações de conflito armado em áreas urbanas. "Existe um reconhecimento mundial do padrão de excelência do Bope", diz Leonardo Barreto, ex-tenente do Exército que já fez cursos com polícias especializadas nos Estados Unidos, Israel, Itália e Espanha. Quando está de serviço, o policial fica 24 horas de prontidão – a média é de uma operação por dia. Quando não há missão, treina-se o tempo todo. Com sua expertise, o grupo já formou mais de 2.000 homens, entre policiais de outros estados, agentes federais e militares. Na semana que vem, 160 homens da Força de Paz do Exército passarão por um período de aperfeiçoamento no Bope, antes de seguir para missões no Haiti e no Sudão.

O batalhão foi criado em 1978, quando a polícia fluminense decidiu montar uma unidade de elite para operações de resgate de reféns. Com a explosão da criminalidade nos anos 80 e 90, o grupo se especializou em enfrentar bandidos em favelas. A tropa atual, com 400 homens, fica baseada em um prédio no alto de um morro em Laranjeiras, na Zona Sul. Ali a vizinhança é heterogênea. De um lado fica a favela Tavares Bastos, onde o Bope realizou um trabalho que os policiais batizaram de "assepsia" – ou seja, a expulsão dos traficantes. Do outro lado do morro ficam as mansões do Parque Guinle, área nobre que inclui o Palácio das Laranjeiras, residência oficial do governador do Rio, Sérgio Cabral.

Depois do filme, o Bope virou um sucesso de público. A média de e-mails enviados à unidade, que até então era de 400 por semana, passou a 400 por dia. São mensagens de felicitações pelo combate ao crime e pedidos de visita ao batalhão. Houve até universitários interessados em desenvolver teses acadêmicas sobre os homens de preto do Bope. Outra amostra de popularidade se deu no desfile de 7 de Setembro, no Centro do Rio, quando a tropa foi ovacionada pelo público, enquanto algumas autoridades foram vaiadas. No embalo da lua-de-mel vivida com a população, um tabu está prestes a ser quebrado: no ano que vem, pela primeira vez na história do Bope será ministrado um curso só para mulheres. Mas a reputação nem sempre foi essa. O batalhão ficou nacionalmente conhecido em 2000, por causa de uma operação desastrosa. Ao tentar libertar a professora Geisa Gonçalves, refém do assaltante Sandro do Nascimento no ônibus 174, um policial errou o alvo, permitindo que Sandra fosse morta pelo bandido. Para piorar, o assaltante, depois de dominado, chegou ao hospital morto por asfixia. Os envolvidos foram absolvidos, mas o episódio manchou a reputação da unidade.

O padrão de excelência ostentado hoje também é fruto de uma atitude mais rigorosa em relação aos maus policiais. No batalhão, o policial é excluído ao menor sinal de irregularidade. "Uma simples suspeita é o suficiente para que o policial seja afastado, mesmo que ela não fique totalmente comprovada. Não pode pairar nenhuma desconfiança sobre um homem do Bope", diz o coronel Mário Sérgio Duarte, ex-comandante da unidade. Nos últimos quatro anos, pelo menos 43 policiais foram afastados, seja por baixa qualidade técnica, seja por desvios de conduta. Entre as supostas irregularidades havia suspeita de ligação com o jogo do bicho e de desvio de material da polícia. Quanto à conduta informal de asfixiar bandidos com sacos plásticos, como método de arrancar confissões, ninguém foi afastado do Bope por empregá-la.

 

 




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