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17 de outubro de 2007
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Especial
Abaixo a mitologia
da bandidagem

Tropa de Elite não rompe só com a tradição nacional
de narrar uma história do ponto de vista do bandido:
rompe com a visão pia e romantizada do criminoso


Isabela Boscov

Fotos divulgação e Embrafilme
DE REBELDES A MAUS ELEMENTOS
Paulo Villaça em O Bandido da Luz Vermelha, de 1968, e Reginaldo Faria em Lúcio Flávio, de 1977: criminosos sem dúvida, mas também inconformistas, uma visão que Cidade de Deus (acima) começou a desmistificar

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Cenas chocantes não faltam em Tropa de Elite. Uma delas é abissal – não pela violência, mas pela inversão moral que representa. Baiano, chefe do tráfico em um morro, descobre que Matias, o namorado de uma estudante que trabalha numa ONG na favela (e que consome sua mercadoria), é policial. Baiano encurrala a moça e os amigos dela, exigindo uma resposta: com quem, afinal, eles "fecham"? Com ele ou com a polícia? Com ele, é claro, responde o contingente zona-sul. Que fala com sinceridade, não apenas por medo, mas porque a esses garotos e garotas de fato parece impensável alinhar-se com a autoridade e seu suposto fascismo.

Também o cinema brasileiro "fechou" com os bandidos. Ele os prefere por razões que vão de hábitos criativos à ideologia e às circunstâncias históricas do Brasil – remotas e presentes. A romantização do crime teve seu primeiro momento forte nas décadas de 60 e 70, quando a ditadura militar deu à autoridade policial contorno arbitrário. O Bandido da Luz Vermelha, O Assalto ao Trem Pagador e Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia marcaram época nas salas de exibição. Hoje, de Cidade de Deus e Carandiru a Cidade dos Homens, a vida do ponto de vista do crime, ou de quem existe na sua proximidade, permanece talvez o maior tema do cinema nacional. Tropa de Elite é uma exceção no empenho em observar o caos brasileiro por um prisma diverso.

A missão que Tropa de Elite cumpre agora foi iniciada por Cidade de Deus, que desmantelou os estereótipos do criminoso coitado e do bandido camarada (figuras que, logo a seguir, Carandiru reinstauraria com veemência). No cinema da "retomada", o filme de Fernando Meirelles foi pioneiro em demonstrar que o crime tem, sim, mil maneiras de seduzir jovens e pobres – mas, salvo uma minoria, a quem as circunstâncias acuam de modo inescapável, pode-se não aceitar esse convite. Esse raciocínio domina também Tropa de Elite. Meirelles e Padilha, assim, estão solitários no seu rompimento com a visão praticada pela maioria dos cineastas brasileiros. A qual, em última análise, mitiga sempre a opção pelo crime em face da pobreza e "alivia" o bandido mesmo quando não haveria o que "aliviar".

Resumir toda a atitude de uma cinematografia perante a lei, a autoridade e a Justiça obriga a generalizações. Mas o que se obtém de um balanço entre o cinema nacional e o cinema americano são concepções opostas do lugar que a lei ocupa na sociedade. Desde os velhos faroestes, a produção americana é dominada pela idéia de contrato social: o país só nasce e subsiste na medida em que os homens abdicam de fazer justiça pelas próprias mãos e transferem esse poder aos "homens da lei". Esse pacto pode ser traído, subvertido, posto em questão – por facínoras, xerifes corruptos ou justiceiros. No entanto, o importante é reafirmá-lo e, assim, preservar a sociedade.

Isso não é sinônimo de maniqueísmo. O cinema americano comporta uma miríade de retratos de criminosos e de policiais, dos mais esquemáticos aos mais matizados. O que o distingue do brasileiro é que ele provavelmente retrata mais policiais do que criminosos – e não só em filmes do gênero. Com grande freqüência, o policial conduz dramas, porque é possível enxergar nele, honesto ou corrupto que seja, um personagem rico em dilemas – não apenas a figura do bufão, do seboso ou do fascista, tão comuns na produção nacional. Muitos viraram mitos, do inflexível xerife Wyatt Earp, que já pipocou em filmes diversos, ao personagem-título de Serpico, baseado no caso real de um detetive que delatou toda uma vasta rede de corrupção na polícia de Nova York. Ao contrário destes, o Dirty Harry interpretado por Clint Eastwood em Perseguidor Implacável – que, no início dos anos 70, foi tão controverso quanto Tropa de Elite – e numa série de outros filmes não foi uma figura verídica. Mas, até hoje, seu nome serve para definir um certo tipo de agente da polícia, que não tem paciência para com as regras judiciais e da corporação e usa de métodos próprios (leia-se, truculência) para fazer justiça às vítimas do crime.

Em outro filme de Eastwood, Os Imperdoáveis, Gene Hackman eternizou uma estirpe bem diversa de homem da lei – aquele que acha que a lei não se aplica, por exemplo, ao sujeito que mutilou uma prostituta. Quando todo o bordel se cotiza para contratar um pistoleiro que corrija a situação, tem-se um exemplo cristalino da importância da idéia do contrato social. Prostitutas também votam em xerifes, e portanto exigem a justiça que lhes é devida, ainda que por meios anômalos. A sociedade, enfim, está longe de ser perfeita – mas o cancelamento de seus acordos básicos seria ainda pior. No cinema brasileiro, prevalece a idéia oposta: a de que a sociedade é essencialmente má. Em parte, essa visão decorre de o Brasil ser de fato injusto; mas é sobretudo um resquício encarquilhado de esquerdismo: se a sociedade é ruim, jogue-se a sociedade fora.

No cinema brasileiro, o bandido foi, antes de tudo, um romântico, um inconformista. Isso, até agora. O impacto de Tropa de Elite mostra com clareza que o cinema nacional precisa de uma nova sociologia. A platéia sabe que escolher entre uma polícia corrupta e uma polícia violenta não é escolha. Mas dá sinais de que não quer mais ver a bandidagem mitificada.



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