A
boa notícia vinda da América Central é a seguinte: é
possível, sim, a países pequenos, com passado de violência,
pobreza e despotismo, ingressar na economia moderna e melhorar as condições
de vida de seu povo. A porta de entrada para esse mundo de prosperidade passa
longe de revoluções armadas, expropriações e líderes
messiânicos, receita em voga no passado. Nas últimas duas décadas,
com a previsível exceção de Cuba, os estados da região
adotaram regimes democráticos. Seus governantes deixaram de lado a retórica
nacionalista e foram buscar fórmulas para participar de modo mais lucrativo
do comércio internacional. Embora pequena diante dos grandes blocos econômicos
(a soma da população dos vinte países da América Central
e do Caribe é menos da metade da brasileira e o PIB total não chega
ao de Portugal), a região já colhe bons frutos da mudança
de postura. Nos últimos quinze anos, a renda per capita dos sete países
centro-americanos (o que não inclui as ilhas do Caribe) aumentou 37%.
No domingo 7, os costa-riquenhos aprovaram em referendo a assinatura de um tratado
de livre-comércio com os Estados Unidos. Dessa forma, a Costa Rica, junto
com as outras cinco nações que integram o Cafta, a área de
livre-comércio da América Central e do Caribe, poderá vender
aos americanos produtos e serviços com impostos reduzidos ou nulos. Honduras,
Nicarágua, Guatemala, El Salvador e República Dominicana ratificaram
o documento nos últimos dois anos. O benefício econômico é
evidente. O tratado amarra algumas das menores economias à maior de todas,
os Estados Unidos.
Fotos
Mayela Lopez/AFP
LUCRO
NA NATUREZA Na Fazenda Pozo Azul, no
interior da Costa Rica, estrangeiros fazem rafting e dormem na mata. "Há cinco
anos, éramos visitados apenas por biólogos", diz o proprietário Alberto Quintana,
que já foi diretor da Coca-Cola
Ao abrirem suas economias, os países da região foram obrigados a
reinventá-las. Avessos ao populismo estatista de Hugo Chávez, que
constrói na Venezuela uma economia dependente unicamente do petróleo,
seus empresários e governantes passaram a olhar para dentro de suas fronteiras
na tentativa de encontrar recursos naturais ou humanos que pudessem ser mais bem
aproveitados no comércio internacional. No momento, o recurso mais valorizado
não é o clima tropical, que assegurou as monoculturas de exportação
do passado, mas uma população bem educada que fala inglês
é o caso de Jamaica, Costa Rica e República Dominicana ,
a recém-criada infra-estrutura de telecomunicações que permite
fácil ligação com o mundo, a proximidade geográfica
com os Estados Unidos e parques naturais preservados. Salários, aluguéis
e custo de vida mais baixos também entram na conta. No Panamá, há
pelo menos 170 prédios planejados ou sendo construídos, cujos valores,
somados, chegam a 3,2 bilhões de dólares. O principal público
é composto de americanos aposentados, interessados no custo de vida mais
baixo e no clima quente do país.
Na Guatemala, existem mais de 160 empresas de análises laboratoriais que
prestam serviços ao exterior. Arquivos de exames de raio X feitos nos Estados
Unidos e na Europa são enviados pela internet aos laboratórios guatemaltecos,
onde são analisados durante a noite e devolvidos na manhã seguinte
para os médicos. Amostras de biópsia ou de cultura são transportadas
por avião para ser analisadas a um custo 90% menor do que se teria se o
procedimento fosse feito em países desenvolvidos. Em um edifício
de San José, capital da Costa Rica, 650 técnicos dentários
observam moldes de bocas de americanos e europeus em três dimensões
na tela de computador. No enorme galpão de ar refrigerado e mobília
moderna da empresa americana Align Technology, que produz aparelhos ortodônticos,
todos têm ao menos dois anos de curso superior. Eles atendem por telefone
dentistas de outros países e respondem a suas dúvidas em inglês.
A empresa mudou-se do Paquistão para a Costa Rica, em 2001, para ter maior
segurança e ficar mais perto dos Estados Unidos.
Mayela
Lopez/AFP
CUIDADOS
DENTÁRIOS Em San José,
650 costa-riquenhos fazem aparelhos para dentistas do exterior. "Aqui, todo mundo
cursa faculdade", diz a supervisora de produção Karina Oporta (em
pé, ao lado)
Outro recurso importante da Costa Rica é sua natureza. Graças à
iniciativa de um grupo de biólogos na década de 70, que criou reservas
nacionais, o país preserva 25% do território nacional. O turismo
representa hoje 7,5% do PIB. Metade desse valor é obtida com o ecoturismo.
Estrangeiros vêm principalmente dos Estados Unidos e da Europa interessados
em visitar os parques ecológicos e ficar mais próximos da natureza.
A reportagem de VEJA visitou alguns dos novos empreendimentos turísticos
na Costa Rica. Impressionam a qualidade e a estrutura de borboletários,
serpentários e expedições ecológicas administrados
por pequenos e médios empresários. O turismo é mais relevante
que a exportação de chips da Intel, que instalou uma fábrica
no país e tem seus produtos no topo da lista de exportações
costa-riquenhas. A entrada dessas divisas permite importar os produtos que esses
pequenos países não têm condições de produzir,
como remédios, máquinas industriais e automóveis. "Para poderem
fazer essas compras, essas nações não têm outra opção
senão exportar bens e serviços", diz Jorge Mario Piva, economista
da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), na Cidade
do México. "Para elas, o comércio é a única saída."
A assinatura de tratados de
livre-comércio com os Estados Unidos foi um passo importante na atração
de investimentos. Ao mesmo tempo em que abriu um mercado consumidor gigantesco
para esses pequenos países, também favoreceu a modernização
interna. Ficou mais fácil, por exemplo, importar equipamentos de telecomunicações
e informática. Além disso, criaram-se zonas francas que operam com
isenção de impostos. Só na República Dominicana existem
59 dessas zonas, que ao todo comportam 650 companhias internacionais. O setor
de call center representa 3,4% do PIB nacional e emprega 18.000 pessoas, o maior
contingente de operadores na região. Quanto menor o país, mais visíveis
são os efeitos dos investimentos estrangeiros. O salário de um operador
de call center é, em média, dez vezes maior que o da média
nacional. Para cada emprego direto de atendente de telefone, outros três
são criados. "É muito comum ouvir governantes afirmando que os call
centers são uma arma poderosa contra a pobreza", diz o economista americano
Frank Pendle, do instituto de pesquisas de mercado Zagada Markets, em Chicago.
Na Jamaica, que conta com 10.000 operadores de call center, o aumento de salários
repercutiu no mercado imobiliário. Nas poucas regiões que possuem
infra-estrutura de telecomunicações satisfatória, os preços
dos aluguéis sobem 20% ao ano desde 2004. Na Guatemala, a expansão
das empresas de análises laboratoriais, de contabilidade, dos call centers
e a produção de produtos agrícolas não tradicionais,
como brócolis, couve-flor e cenoura em miniatura, fizeram com que, em quinze
anos, a classe média passasse de 23% para 36% da população
total.
Daniel
Leclair/Reuters
GRIFES
FAMOSAS Confecção em Honduras: as peças
chegam cortadas para ser costuradas
Países sem recursos naturais e humanos tão preciosos investem em
uma fórmula parecida. A Nicarágua, o mais pobre da região,
tem a oferecer principalmente uma mão-de-obra barata. Em abril do ano passado,
seis meses após ratificar o tratado de livre-comércio com os Estados
Unidos, o grupo americano ITG anunciou a construção de uma fábrica
de denim, o tecido usado na produção de jeans, de 100 milhões
de dólares. O investimento representa 2% do PIB nacional. Será uma
unidade fabril pioneira, já que até então os nicaragüenses
apenas costuravam os tecidos. "Essa fábrica exigirá a contratação
de engenheiros e outros profissionais diplomados, coisa que nunca houve por aqui",
diz o nicaragüense Niels Ketelhöhn, do Incae, escola de administração
vinculada a Harvard e com unidade em Manágua, capital da Nicarágua.
O país é o único do grupo cujo destino permanece incerto.
A postura de Daniel Ortega, que assumiu a Presidência no início do
ano, oscila entre seguir abrindo a economia e renunciar a tudo em troca de uma
mesada venezuelana. Durante sua campanha e depois dela, ele tem recebido ajuda
de Hugo Chávez. O fato é que Ortega, que teve uma passagem ruinosa
pela Presidência do país nos anos 80, depois da revolução
sandinista, até agora não se arriscou a renunciar ao tratado com
os americanos. Ele ainda precisa se decidir se segue o exemplo da Costa Rica ou
o da Venezuela. Seus vizinhos já optaram pelo primeiro.