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17 de outubro de 2007
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Internacional
O sim da América Central

Como uma nova visão de desenvolvimento
e interesse nacional está ajudando a região
a conquistar espaço dentro da economia global


Duda Teixeira, de San José

 

Yuri Cortez/AFP
VIVAN LOS YANQUIS
A festa do "sim" na Costa Rica: a região aproveita o vizinho rico


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Quadro: A escolha livre
Exclusivo on-line
Vídeo: Ecoturismo na Costa Rica

A boa notícia vinda da América Central é a seguinte: é possível, sim, a países pequenos, com passado de violência, pobreza e despotismo, ingressar na economia moderna e melhorar as condições de vida de seu povo. A porta de entrada para esse mundo de prosperidade passa longe de revoluções armadas, expropriações e líderes messiânicos, receita em voga no passado. Nas últimas duas décadas, com a previsível exceção de Cuba, os estados da região adotaram regimes democráticos. Seus governantes deixaram de lado a retórica nacionalista e foram buscar fórmulas para participar de modo mais lucrativo do comércio internacional. Embora pequena diante dos grandes blocos econômicos (a soma da população dos vinte países da América Central e do Caribe é menos da metade da brasileira e o PIB total não chega ao de Portugal), a região já colhe bons frutos da mudança de postura. Nos últimos quinze anos, a renda per capita dos sete países centro-americanos (o que não inclui as ilhas do Caribe) aumentou 37%.

No domingo 7, os costa-riquenhos aprovaram em referendo a assinatura de um tratado de livre-comércio com os Estados Unidos. Dessa forma, a Costa Rica, junto com as outras cinco nações que integram o Cafta, a área de livre-comércio da América Central e do Caribe, poderá vender aos americanos produtos e serviços com impostos reduzidos ou nulos. Honduras, Nicarágua, Guatemala, El Salvador e República Dominicana ratificaram o documento nos últimos dois anos. O benefício econômico é evidente. O tratado amarra algumas das menores economias à maior de todas, os Estados Unidos.

 

Fotos Mayela Lopez/AFP
LUCRO NA NATUREZA
Na Fazenda Pozo Azul, no interior da Costa Rica, estrangeiros fazem rafting e dormem na mata. "Há cinco anos, éramos visitados apenas por biólogos", diz o proprietário Alberto Quintana, que já foi diretor da Coca-Cola

Ao abrirem suas economias, os países da região foram obrigados a reinventá-las. Avessos ao populismo estatista de Hugo Chávez, que constrói na Venezuela uma economia dependente unicamente do petróleo, seus empresários e governantes passaram a olhar para dentro de suas fronteiras na tentativa de encontrar recursos naturais ou humanos que pudessem ser mais bem aproveitados no comércio internacional. No momento, o recurso mais valorizado não é o clima tropical, que assegurou as monoculturas de exportação do passado, mas uma população bem educada que fala inglês – é o caso de Jamaica, Costa Rica e República Dominicana –, a recém-criada infra-estrutura de telecomunicações que permite fácil ligação com o mundo, a proximidade geográfica com os Estados Unidos e parques naturais preservados. Salários, aluguéis e custo de vida mais baixos também entram na conta. No Panamá, há pelo menos 170 prédios planejados ou sendo construídos, cujos valores, somados, chegam a 3,2 bilhões de dólares. O principal público é composto de americanos aposentados, interessados no custo de vida mais baixo e no clima quente do país.

Na Guatemala, existem mais de 160 empresas de análises laboratoriais que prestam serviços ao exterior. Arquivos de exames de raio X feitos nos Estados Unidos e na Europa são enviados pela internet aos laboratórios guatemaltecos, onde são analisados durante a noite e devolvidos na manhã seguinte para os médicos. Amostras de biópsia ou de cultura são transportadas por avião para ser analisadas a um custo 90% menor do que se teria se o procedimento fosse feito em países desenvolvidos. Em um edifício de San José, capital da Costa Rica, 650 técnicos dentários observam moldes de bocas de americanos e europeus em três dimensões na tela de computador. No enorme galpão de ar refrigerado e mobília moderna da empresa americana Align Technology, que produz aparelhos ortodônticos, todos têm ao menos dois anos de curso superior. Eles atendem por telefone dentistas de outros países e respondem a suas dúvidas em inglês. A empresa mudou-se do Paquistão para a Costa Rica, em 2001, para ter maior segurança e ficar mais perto dos Estados Unidos.

 

Mayela Lopez/AFP

CUIDADOS DENTÁRIOS
Em San José, 650 costa-riquenhos fazem aparelhos para dentistas do exterior. "Aqui, todo mundo cursa faculdade", diz a supervisora de produção Karina Oporta (em pé, ao lado)

Outro recurso importante da Costa Rica é sua natureza. Graças à iniciativa de um grupo de biólogos na década de 70, que criou reservas nacionais, o país preserva 25% do território nacional. O turismo representa hoje 7,5% do PIB. Metade desse valor é obtida com o ecoturismo. Estrangeiros vêm principalmente dos Estados Unidos e da Europa interessados em visitar os parques ecológicos e ficar mais próximos da natureza. A reportagem de VEJA visitou alguns dos novos empreendimentos turísticos na Costa Rica. Impressionam a qualidade e a estrutura de borboletários, serpentários e expedições ecológicas administrados por pequenos e médios empresários. O turismo é mais relevante que a exportação de chips da Intel, que instalou uma fábrica no país e tem seus produtos no topo da lista de exportações costa-riquenhas. A entrada dessas divisas permite importar os produtos que esses pequenos países não têm condições de produzir, como remédios, máquinas industriais e automóveis. "Para poderem fazer essas compras, essas nações não têm outra opção senão exportar bens e serviços", diz Jorge Mario Piva, economista da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), na Cidade do México. "Para elas, o comércio é a única saída."

A assinatura de tratados de livre-comércio com os Estados Unidos foi um passo importante na atração de investimentos. Ao mesmo tempo em que abriu um mercado consumidor gigantesco para esses pequenos países, também favoreceu a modernização interna. Ficou mais fácil, por exemplo, importar equipamentos de telecomunicações e informática. Além disso, criaram-se zonas francas que operam com isenção de impostos. Só na República Dominicana existem 59 dessas zonas, que ao todo comportam 650 companhias internacionais. O setor de call center representa 3,4% do PIB nacional e emprega 18.000 pessoas, o maior contingente de operadores na região. Quanto menor o país, mais visíveis são os efeitos dos investimentos estrangeiros. O salário de um operador de call center é, em média, dez vezes maior que o da média nacional. Para cada emprego direto de atendente de telefone, outros três são criados. "É muito comum ouvir governantes afirmando que os call centers são uma arma poderosa contra a pobreza", diz o economista americano Frank Pendle, do instituto de pesquisas de mercado Zagada Markets, em Chicago. Na Jamaica, que conta com 10.000 operadores de call center, o aumento de salários repercutiu no mercado imobiliário. Nas poucas regiões que possuem infra-estrutura de telecomunicações satisfatória, os preços dos aluguéis sobem 20% ao ano desde 2004. Na Guatemala, a expansão das empresas de análises laboratoriais, de contabilidade, dos call centers e a produção de produtos agrícolas não tradicionais, como brócolis, couve-flor e cenoura em miniatura, fizeram com que, em quinze anos, a classe média passasse de 23% para 36% da população total.

 

Daniel Leclair/Reuters

GRIFES FAMOSAS
Confecção em Honduras: as peças chegam cortadas para ser costuradas

Países sem recursos naturais e humanos tão preciosos investem em uma fórmula parecida. A Nicarágua, o mais pobre da região, tem a oferecer principalmente uma mão-de-obra barata. Em abril do ano passado, seis meses após ratificar o tratado de livre-comércio com os Estados Unidos, o grupo americano ITG anunciou a construção de uma fábrica de denim, o tecido usado na produção de jeans, de 100 milhões de dólares. O investimento representa 2% do PIB nacional. Será uma unidade fabril pioneira, já que até então os nicaragüenses apenas costuravam os tecidos. "Essa fábrica exigirá a contratação de engenheiros e outros profissionais diplomados, coisa que nunca houve por aqui", diz o nicaragüense Niels Ketelhöhn, do Incae, escola de administração vinculada a Harvard e com unidade em Manágua, capital da Nicarágua. O país é o único do grupo cujo destino permanece incerto. A postura de Daniel Ortega, que assumiu a Presidência no início do ano, oscila entre seguir abrindo a economia e renunciar a tudo em troca de uma mesada venezuelana. Durante sua campanha e depois dela, ele tem recebido ajuda de Hugo Chávez. O fato é que Ortega, que teve uma passagem ruinosa pela Presidência do país nos anos 80, depois da revolução sandinista, até agora não se arriscou a renunciar ao tratado com os americanos. Ele ainda precisa se decidir se segue o exemplo da Costa Rica ou o da Venezuela. Seus vizinhos já optaram pelo primeiro.

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