O ministro da Educação
diz que o Brasil precisa de mais
pragmatismo e menos ideologia para melhorar o ensino
Monica Weinberg
Ricardo B Labastier
"Em uma igreja
ou em um partido político as pessoas podem divulgar
a ideologia que bem entenderem. Nas escolas, não.
Elas devem sempre se basear na diversidade"
Do gabinete do
ministro da Educação, Fernando Haddad, 44 anos,
saiu um projeto para o Brasil que, de saída, conseguiu
o feito raro de agradar a especialistas de diversos matizes
ideológicos. O mérito do plano foi criar um
indicador que permite comparar o desempenho das escolas brasileiras
de modo que as piores possam ser cobradas com base em metas
e as melhores sejam premiadas. O princípio, portanto,
é o da meritocracia, o mesmo que em outros países
ajudou o sistema educacional a atingir altos níveis
de qualidade. Diz Haddad: "A obrigação de toda
pessoa de bom senso é se inspirar no que funciona bem
em outros lugares". Por essas e outras, o ministro, que é
filiado ao PT desde 1983, mereceu críticas de militantes.
Formado em direito e com mestrado em economia, ambos pela
Universidade de São Paulo (USP), Haddad chegou a Brasília
em 2003, como assessor no Ministério do Planejamento,
e há dois anos comanda a Pasta da Educação.
Casado e pai de dois filhos, ele diz que os grandes problemas
da educação brasileira podem ser definitivamente
erradicados no prazo de duas décadas.
Veja
O senhor concorda com os educadores
segundo os quais as escolas no Brasil estão passando
uma visão retrógrada do mundo a seus alunos?
Haddad Isso
acontece, sim. Um problema evidente é o dogmatismo
que chega a algumas salas de aula do país. Ele exclui
da escola a diversidade de idéias na qual ela deveria
estar apoiada, por princípio, e ainda restringe a visão
de mundo à de uma velha esquerda. Não é
para esse lado, afinal, que o mundo caminha. Sempre digo que
em uma igreja ou em um partido político as pessoas
têm o direito de promover a ideologia que bem entenderem,
mas nunca em uma sala de aula. A obrigação da
escola é formar pessoas autônomas capazes,
enfim, de compreender de modo abrangente o mundo em que vivem.
Todo procedimento que mutila isso é incompatível
com um bom processo de aprendizado. Em suma, educação
não combina com preconceito.
Veja
Por que, então, o MEC
aprova livros didáticos com esse viés? Haddad
Temos um sistema de escolha dos livros didáticos
com o qual, em tese, especialistas de diferentes matizes ideológicos
concordam. É simples. Mandamos os livros para as melhores
universidades públicas do país, e são
os professores escolhidos por elas que opinam. Depois, as
escolas escolhem os livros da lista que consideram mais apropriados.
Nesse sistema, portanto, o MEC não atua como um censor
com superpoderes, mas, sim, delega a tarefa a um conjunto
de pessoas qualificadas para executá-la. Não
inventamos essa fórmula. A avaliação
de trabalhos acadêmicos feita por pares funciona em
vários países desenvolvidos e aliás
muito bem.
Veja
O fato de livros de conteúdo
dogmático passarem por essa peneira não é
um sinal, então, de que o sistema não funciona? Haddad Todo
sistema dessa natureza tem falhas, e o do MEC não é
exceção. A meu ver, no entanto, o problema não
é propriamente com o modelo que implantamos, mas justamente
com a visão dogmática que ainda circula em parte
do meio acadêmico. O tipo de material didático
que chega à sala de aula é, afinal, reflexo
de um modo de pensar próprio de uma parcela da intelectualidade
brasileira, em todos os níveis. Reafirmo minha opinião
sobre o assunto. Eu acho que cada um deve ter suas convicções
e crenças, mas, de novo, quando se fala de educação
é preciso ser mais pluralista, ir de A a Z no espectro
ideológico senão, simplesmente não
dá certo.
Veja O
Brasil historicamente se sai mal em relação
aos outros países nos rankings que medem a qualidade
de ensino. Qual a explicação para isso? Haddad Tenho visitado escolas públicas
no país inteiro nesses últimos meses. Observo,
por exemplo, que assuntos capitais do século XX, como
as duas grandes guerras mundiais ou a queda do Muro de Berlim,
passam ao largo de uma discussão mais atual
não só nos livros mas também nas aulas.
Parece-me que ninguém até este momento parou
para estudar alguns dos capítulos cruciais da história
recente da humanidade sob uma perspectiva contemporânea.
É claro que isso faz cair o nível das aulas.
É preciso ressaltar, no entanto, que a educação
no Brasil pena com algo ainda mais básico, que é
o preparo dos professores. Temos um claro déficit de
pessoal realmente capacitado para ensinar as crianças.
Veja Qual
a real dimensão desse problema? Haddad Fizemos um
levantamento cuja conclusão é desastrosa para
o país. Ele mostra, por exemplo, que o número
de físicos formados no Brasil nas últimas três
décadas não é suficiente para atender
a um terço da demanda atual das escolas. É isso
mesmo: sete de cada dez pessoas que entram em sala de aula
no Brasil para ensinar a matéria não fizeram
o curso de física na universidade. Essa é a
realidade de muitas das crianças brasileiras, sobretudo
nas escolas públicas. Em outras matérias na
área de ciências, como química e matemática,
o mesmo e desanimador cenário se repete.
Veja O
que fazer para mudar isso? Haddad Acho
que é necessário criar incentivos para que as
pessoas se interessem por essas carreiras. A primeira das
medidas nas quais aposto nesse sentido é a distribuição
de novas bolsas de iniciação científica.
A outra é mais do que dobrar o número de escolas
técnicas de nível superior do país, o
que já está previsto. Com cursos de duração
mais curta e direcionados para o mercado de trabalho, essas
escolas conseguiram em outros países massificar o número
de pessoas com nível superior em todas as áreas.
Tudo isso é urgente para nós. No mês passado,
a OCDE (organização que reúne países
da Europa e os Estados Unidos) divulgou um trabalho que
revela que os países do Primeiro Mundo formam todo
ano duas vezes mais jovens em áreas de ciências
do que o Brasil. Isso mostra que nos distanciamos ainda mais
do Primeiro Mundo. Mesmo assim, é preciso que se faça
a ressalva, o Brasil tem excelência na produção
científica. Digo isso com base nos melhores indicadores
internacionais disponíveis.
Veja Por
que, então, o Brasil ainda está tão atrás
dos outros nos rankings de inovação tecnológica? Haddad Temos um problema sério aí.
A universidade brasileira produz tradicionalmente conhecimento
que não interessa ao mundo real. Por isso, muitas idéias
ficam confinadas ao universo acadêmico, sem que de fato
impulsionem o país na competição global,
como deveriam. Sempre tive a convicção de que
para mudar o cenário o governo precisava dar um empurrão
e é esse resultado que espero com a nova lei
que vai aliviar a carga tributária das empresas que
investirem em pesquisa, nos moldes do que faz a Lei Rouanet
na cultura. Dessas empresas, evidentemente, há mais
chances de vir a pesquisa aplicada de que o Brasil tanto precisa.
De novo, não estou inventando nada. Basta observar
o que funciona lá fora. Há um século
é assim nos Estados Unidos. Na Coréia do Sul,
80% da pesquisa do país é financiada por empresas
privadas, não pelo governo e os coreanos estão
no topo do ranking da inovação tecnológica.
Veja É
por essas e outras idéias que o criticam por ser "petista
de menos" nas ações? Haddad Embora
nunca tenham me dito nada parecido, sei de ouvir dos outros
que esse é um de meus rótulos. Provavelmente
é porque cultivo interlocutores de todos os matizes
ideológicos. No governo, muitas vezes os debates se
dão na base do "nós, governo" e "eles, oposição".
Eu fujo dessa visão sectária. Acho que com isso
as políticas públicas melhoram. O que ainda
pesa em meu favor é o fato de estar em uma raríssima
área em que há basicamente consenso sobre o
diagnóstico dos problemas e as estratégias para
superá-los.
Veja O
senhor tem críticas ao PT? Haddad O
PT não é monolítico. Acho que a cultura
assembleísta que ainda é cultivada por gente
do partido atrapalha, especialmente quando serve de pretexto
para que não se tomem decisões. Isso é
contraproducente, paralisante. No governo não se tem
o tempo dos anjos para definir rumos. Se esperasse por um
consenso geral, talvez fosse mais popular, mas certamente
não sairia do lugar. Outra lição que
depreendi desses tempos em Brasília é que às
vezes a melhor estratégia de sobrevivência é
manter o silêncio e a discrição. Foi assim
que permaneci no ministério. Numa analogia com o mundo
da moda, meu esforço é para ser mais prêtporter
e não tão alta-costura, como alguns de
meus colegas.
Veja O senhor não acha que o abuso de greves
nas universidades atrapalha? Haddad
Acho que houve uma vulgarização da greve, e
isso evidentemente não nos ajuda. Precisamos de mais
pragmatismo para vencer nossas evidentes fraquezas na educação
e alcançar os países de que ainda estamos distantes.
Começamos a corrida estabelecendo uma meta de médio
prazo.
Veja É
realista esperar que o Brasil ofereça ensino comparável
ao do Primeiro Mundo em quinze anos, como prevê o MEC,
tendo saído de um patamar tão baixo? Haddad Sei que estamos diante de uma meta
ousada. O projeto do governo prevê dar um salto na qualidade
de ensino de modo a alcançar os melhores países
do mundo em educação num tempo muito menor do
que o que eles próprios levaram para chegar lá.
Irlanda e Coréia, por exemplo, precisaram cada qual
de três décadas para executar uma revolução
em sala de aula. É isso mesmo: nós estamos tentando
obter resultados semelhantes com a metade do tempo. Esses
cálculos ajudam a dimensionar o tamanho de nossa ambição
e das dificuldades à vista. Tendo feito a ponderação,
ainda acho que estamos no terreno do possível, porque,
com as várias avaliações do ensino disponíveis
no Brasil, o país está conseguindo jogar luz
sobre as boas escolas e chamar atenção para
aquelas nas quais se pratica o péssimo ensino. De um
lado, os pais ganham um termômetro para saber se seus
filhos estão num bom colégio. De outro, o governo
tem na mão uma ferramenta para identificar as práticas
que levam ao sucesso acadêmico, que devem ser reproduzidas
em todas as escolas e para cobrar resultados.
Veja O que afinal tem dado mais certo nas escolas brasileiras? Haddad A radiografia por escola reafirma
com dados contundentes aquilo que já é senso
comum: as melhores da lista são aquelas que têm
no comando um diretor que está lá pelo mérito
e não por razões políticas. É
básico, mas ainda raro no Brasil. Uma pesquisa do MEC
aponta para um sistema de escolha de diretores que tem dado
certo. De acordo com esse sistema, os candidatos ao posto
de diretor fazem uma prova e só os que têm bom
desempenho no teste podem pleitear a vaga. O corte é,
portanto, baseado no mérito. O segundo ponto que considero
relevante sobre os colégios nota 10 é que eles
têm variadas formas de incentivar as famílias
a participar mais da rotina escolar dos filhos. Esse é
mais um dos fatores que têm contribuído para
a excelência em outros países, mas, em geral,
não no Brasil. Também está bastante claro
que as boas escolas, de algum modo, conseguem dar aos professores
certos horizontes na carreira e é interessante
notar que nem sempre eles são financeiros.
Veja O
governo estabeleceu um piso salarial para os professores,
mas pesquisas internacionais mostram que o aumento de salário
tem muitas vezes efeito zero sobre a qualidade de ensino...
Haddad
Reunimos evidências para afirmar que em alguns dos lugares
mais pobres do Brasil a falta de recursos, entre outras coisas,
para pagar melhor aos professores ajuda a explicar, sim, a
baixa qualidade do ensino. Por isso voltamos à questão
financeira. No entanto, estou ciente de que só é
possível avançar se, de algum modo, conseguirmos
premiar quem for capaz de formar os melhores estudantes. No
novo sistema do MEC, as escolas que aparecerem no topo do
ranking nacional ganharão em autonomia financeira.
Hoje as escolas mal têm dinheiro em caixa para comprar
uma borracha. Com um bom resultado, elas conquistarão
o direito de gerenciar suas finanças. Ficarão,
enfim, mais independentes do estado e acredito que
assim podem funcionar melhor. Mas precisam fazer por merecer
o prêmio.
Veja O senhor vê obstáculos à execução
desse plano? Haddad Algumas
pragas brasileiras sempre podem atrapalhar. O corporativismo
é certamente uma delas, embora, até então,
não tenha recebido nenhuma moção de protesto
contra essas medidas. A outra praga da qual precisamos fugir
é a tradicional descontinuidade das políticas
públicas no país. A cada novo governante, tudo
muda de rumo e lá se vão anos de trabalho pelo
ralo. Com tanto que o país ainda precisa avançar,
não dá mais para recomeçar do zero. Por
fim, não resta dúvida de que o Brasil terá
mais chance de sucesso não só quando as aulas
tiverem um nível mais elevado, mas também quando
o dogmatismo deixar de vez as salas de aula. Em Cuba, os estudantes
vão bem nas provas, mas em compensação
saem da escola despreparados para atuar como indivíduos
autônomos no mundo moderno. O Brasil deve ambicionar
muito mais do que isso.