Claudio
de Moura Castro
Tecnologia
em
escolas de ofício?
"O
Senai vira algo muito diferente das
tradicionais escolas vocacionais para formar
mecânicos e eletricistas e entra no território
sagrado da Pesquisa e Desenvolvimento"
Ilustração
Ale Setti
 |
Em meados dos anos 70, visitando a Escola do Senai de Mecânica de
Precisão (SP), encontrei instrutores trabalhando em projetos de
pesquisa, atendendo a contratos com empresas. Lembro-me de um grupo fabricando
uma impressora matricial e tentando dar têmpera em agulhas para
a cabeça. O diretor, Walter Viccioni, por iniciativa própria,
transformava sua escola em um centro de desenvolvimento tecnológico.
O Senai-SP não dava bênção nem atrapalhava.
Anos mais tarde, visitei outros projetos do gênero, pipocando aqui
e acolá. Uma impressora para pôr o nome do cliente nos cheques
e um kit para transformar em controle numérico um torno de manivela
convencional estavam sendo produzidos na Escola Roberto Simonsen. No Centro
de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil (Cetiqt)
havia uma profusão de projetos, incluindo a otimização
de mistura de corantes e a padronização de uniformes de
lixeiro e das cores da bandeira nacional. Comecei a me dar conta de que
o Senai estava tomando novos rumos. Virava algo muito diferente das tradicionais
escolas vocacionais para formar mecânicos e eletricistas. Entrava
no território sagrado da Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).
Isso tudo acontecia diante da mais olímpica omissão da maioria
de nossas escolas de engenharia, mais dedicadas a preparar generalistas
com respingos de tecnologia. Nossos mestrados e doutorados não
fazem feio na pesquisa, mas até recentemente não eram muito
chegados a fazer coisas simples, encomendadas pelas indústrias.
Na órbita da Capes, CNPq e Finep se produzem todos os decibéis
exaltando ciência e tecnologia brasileiras ou denunciando sua ausência.
Escreve-se muito e se fala mais ainda sobre P&D. Mas, em meio à
falação, há um ator que nem fala nem é falado:
o Senai. Após ver tantos exemplos de P&D sendo feitos silenciosamente
em suas oficinas, perguntei-me se, discretamente, essa instituição
não se teria tornado um fabricante de P&D de certo porte? Como
as velhas gerações do Senai resistiam a tal evolução,
tudo ocorria discretamente, sem que alguém sequer desse um balanço
que pudesse responder a uma pergunta simples: o que o Senai faz em matéria
de pesquisa tecnológica aplicada?
Sugeri ao diretor-geral do Senai que fizesse um levantamento, enumerando
o que estava acontecendo dentro de seus muros em matéria de P&D.
A idéia teve boa acolhida, e Luiz Antonio Caruso conduziu um estudo
cuidadoso, mostrando o que poderíamos até suspeitar mas
não sabíamos com segurança: o Senai se tornou um
enorme produtor de P&D para as indústrias brasileiras. Com
317 projetos substanciais em curso distribuídos entre 46 centros
, é provavelmente um dos maiores produtores de tecnologia no
Brasil, operando sob a mesma bandeira. Esses projetos mobilizam mais de
300 técnicos e engenheiros. De seu bojo saíram também
quinze patentes (número modestíssimo para país rico,
mas alto para a realidade brasileira).
De uma amostra de cinqüenta projetos, cujos clientes foram consultados,
46 haviam dado bons resultados. Em marcado contraste com a tradição
universitária de criar tecnologia "de prateleira" ou "pesquisa
aplicada que ninguém aplica", o Senai atende predominantemente
a indústria, com projetos em que em 81% dos casos há engenheiros
ou técnicos da empresa interessada compartilhando o trabalho
além de professores universitários. Ou seja, o Senai virou
gente grande na P&D brasileira. Obviamente, isso tem implicações
tanto para o Senai como para o cenário nacional.
Para o Senai, essa maioridade significa que não pode, ou melhor,
não deve ser tão vago e tão pouco agressivo em suas
políticas para a área. Afinal, é um dos grandes atores
nacionais. Note-se que o Senai somente consegue atender a 40% da demanda
que chega das empresas. Que inveja para as instituições
cujo principal problema é a incapacidade de vender projetos às
empresas! Segundo a pesquisa, as indústrias confiam no Senai. Mais
ainda, este encontra uma grande facilidade de mobilizar fundos públicos
para financiar seus projetos.
E se com uma política de "negligência benigna" já
produz tanto, imagine-se uma outra que agressivamente impulsione o Senai
para a pesquisa. Falta uma atitude mais deliberada no apoio às
pesquisas e faltam regras concretas que facilitem e empurrem as escolas
para produzir mais. De fato, as travas presentes são fáceis
de eliminar, e um volume maior de operações não oneraria
seus cofres. Pelo contrário, pode suplementá-los. Parece
pecado mortal não aproveitar tantas oportunidades em um país
onde parte do que falta para P&D industrial é exatamente o
que o Senai tem. E por que não avançar mais nos vácuos
de ensino deixados pelas escolas de engenharia?
As implicações externas não são menos importantes.
Temos um novo ator, competente e produtivo no cenário de nossa
pesquisa tecnológica aplicada. Mas o Senai não é
ouvido nem representado nos fóruns onde se discute política
tecnológica. O Ministério da Ciência e Tecnologia
pouco nota sua existência. Claramente isso é equivocado e
ineficiente para o país. Quem faz deve poder falar e palpitar onde
se discutem tais assuntos.
Claudio
de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)
|