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Roberto
Pompeu de Toledo
Em torno do xador
A mulher
eis a causa da
gigantesca discórdia que
barbariza e assusta o mundo
A jornalista
australiana Geraldine Brooks, então trabalhando no Irã,
cobriu-se com um xador e disparou para a casa do grande morto. O xador,
o leitor sabe, é o traje que esconde as mulheres muçulmanas
da cabeça aos pés. Ficam de fora apenas o rosto, entre as
sobrancelhas e a boca, e as mãos, e nesse ponto o xador é
mais liberal do que a burqa em voga no Afeganistão um traje
que nem o rosto deixa a descoberto, comportando apenas uma pequena tela,
à altura dos olhos e do nariz, para permitir que a criatura embrulhada
lá dentro enxergue por onde anda e não venha a sufocar.
Nem por ser esse tanto menos estrito, o xador é menos indicativo
de uma certa forma de encarar a mulher, e naquela época, a época
do grande morto, estava no auge. Era um dos símbolos do tempo,
no Irã.
O grande
morto era ele mesmo o aiatolá Ruhollah Khomeini, líder
supremo da revolução. Geraldine Brooks se tinha enfiado
no xador para apresentar as condolências à viúva,
Khadija. Até aquele momento, poucos sabiam da existência
de Khadija. Khomeini nada deixava entrever de sua vida pessoal. Agora
lá estava aquela viúva, ela também, claro, enrolada
num xador, do qual emergia, descreve a jornalista, "o rosto enrugado e
amável de uma vovó". Quando Khadija estendeu a mão
a Geraldine, o movimento deslocou-lhe ligeiramente o véu
e então Geraldine viu... Viu uma réstia de cabelos encaracolados
brancos na raiz e cor de cenoura mais acima. Espanto. A senhora
Khomeini pintava os cabelos!
Geraldine
Brooks aproveitou o tempo em que trabalhou como correspondente do The
Wall Street Journal no Oriente Médio para pesquisar o que haveria
para mais além do xador. Qual seja, o mundo das mulheres islâmicas.
O resultado foi o livro Nove Partes do Desejo, que ganhou uma edição
brasileira em 1996 (Editora Gryphus). Qual o sentido do xador? O clérigo
iraniano Ibrahim Amini dizia que era o de deixar as esposas tranqüilas.
Como todas as mulheres o usavam, oferecia a garantia de que os maridos,
ao sair de casa, não seriam atraídos pela lascívia
de alguma assanhada. Uma visão alternativa, também citada
no livro, e de autoria do erudito Shabbir Akhtar, era a de que o xador
contribuía para "uma verdadeira cultura erótica, em que
se prescinde da excitação artificial da pornografia". Já
entre os jacobinos da revolução iraniana o sentido era claramente
anticapitalista. O traje ocidental transformaria a mulher num produto
de comércio, e as mulheres do Terceiro Mundo em consumidoras dependentes
de modas que rapidamente ficam obsoletas.
Põe
o xador, tira o xador, põe o xador, tira o xador. Essa tem sido
a sina das mulheres iranianas, e muçulmanas em geral. Os ventos
que sopram na política acabam por cobri-las ou descobri-las. No
tempo do xá Reza Pahlevi, que tinha por meta a ocidentalização
do país, o xador foi proibido. As mulheres que ousavam desobedecer
à ordem se arriscavam a ter as roupas arrancadas e rasgadas por
policiais, além de ser impedidas de subir nos ônibus e entrar
nas lojas. Algumas, inconformadas, nunca mais saíram de casa. A
mulher de Khomeini foi uma delas.
Uma vez,
Geraldine Brooks foi convidada a tomar chá, num hotel, com duas
mulheres do Hezbollah, o grupo fundamentalista do Líbano. Quando
chegou, foi recebida por uma mulher com os cabelos oxigenados até
a cintura, vestindo um négligé de seda. Pensou que tivesse
batido na porta errada. Não reconheceu a militante que, dias antes,
encontrara na paz de seu xador. Outra mulher, deitada na cama, vestia
uma camisola escarlate com grandes fendas laterais. Quando a jornalista
confessou sua surpresa em encontrá-las daquele jeito, elas riram.
"É assim que ficamos em casa", explicaram, enquanto encenavam poses
sedutoras. "O Islã nos encoraja a ficar lindas para nossos maridos."
Geraldine Brooks deu neste momento um passo a mais na compreensão
dos cabelos pintados da senhora Khomeini.
Cherchez
la femme... Procure-se a mulher, diz a sabedoria francesa, e se encontrará
a razão que leva os homens a agir, a brigar, a perder a cabeça.
No atual momento de barbárie e de guerra, concentremo-nos no xador.
Ou melhor, no que existe dentro dele. Procuremos a mulher. Eureca! Eis
a chave de tudo! Está ali, no modo de encará-las e conceber
o papel que lhes cabe, um dos pontos centrais não, o
ponto central da divergência entre as duas concepções
de mundo que se chocaram, primeiro nos céus de Nova York e, agora,
nos do Afeganistão.
 
E por falar
em mulher... eis a piada que circula na internet. Matar Laden só
trará aborrecimentos aos Estados Unidos. Equivale a canonizar um
santo para multidões de islamitas. Prendê-lo também
tem inconvenientes. É incentivar os seqüestros para obter
sua libertação. A solução seria capturá-lo
e levá-lo a um hospital, para uma rápida mudança
de sexo. Em seguida, ele ou melhor, ela seria solto em Kandahar,
para viver como mulher entre os talibãs.
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