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Edição 1 722 - 17 de outubro de 2001
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O blablablá da ratatuia

Em Ô, Copacabana!, uma amostra
do talento de João Antônio, o
estilista da linguagem popular

Sérgio Sant'Anna*

Antonio Andrade
João Antônio: ele ficou famoso com um conto sobre jogadores de sinuca

Já em seu primeiro livro, o premiado Malagueta, Perus e Bacanaço (1963), cujo conto-título tratava da vida de jogadores de sinuca em São Paulo, o escritor João Antônio definiu o norte de sua obra inteira: a opção por personagens recolhidos da parcela marginalizada da população brasileira. Tudo o que João Antônio (1937-1996) escreveu tinha em vista as divisões sociais. Pode-se até dizer que ele cultivou ressentimento contra sua classe de origem, a média: um de seus livros, relançado há pouco pela editora Cosac & Naify, recebeu o título significativo de Abraçado ao Meu Rancor. A mesma editora lança agora Ô, Copacabana! (143 páginas; 22 reais). Publicado originalmente em 1978 e acrescido de duas crônicas inéditas, esse livro enfoca aquele que, por seus contrastes, talvez seja o mais interessante dos bairros cariocas. Um bairro habitado durante décadas pelo próprio escritor, paulista que adquiriu sua cidadania carioca e copacabanense por meio da literatura.

Desfilam e adquirem vida, na Copacabana literária de João Antônio, personagens como camelôs, domésticas, travestis, guarda-vidas, prostitutas, leões-de-chácara, pederastas e lésbicas (assim os nomeou o autor). Gente que pode atender pelo nome de Elzinha Prejudicada ou Mariazinha Tiro-a-Esmo, esta uma marginal de 14 anos. Quando o autor chega à classe média, trata-se da "civilização do quarto-e-sala", a que se refere logo no princípio do volume, abordando a urbanização caótica do bairro. Verdadeiros personagens são também lugares como as praças do Lido e Serzedelo Correia, apelidada de Praça dos Paraíbas, que João Antônio podia vigiar da própria janela. Mas é principalmente a Galeria Alaska, com seus bares, restaurantes e inferninhos gays, que vai merecer o tratamento mais comovente, antológico, do autor, que sobre ela focaliza seu olhar, do anoitecer ao amanhecer, quando a variada fauna local cede lugar a moradores até "normais". João Antônio tratou a Galeria Alaska com carinho de conhecedor e poesia. Mas também não dá para esquecer, nunca, que, à margem da selva urbana, há o mar, como que redimindo tudo (e foi do samba-canção Copacabana, aquele que fala da "princesinha do mar", que João Antônio retirou a epígrafe do livro).

Ao descrever os shows da boate Katakombe, o jantar no Rio Jerez, ou a faina na 13ª Delegacia Policial, João Antônio fez o trabalho do excelente repórter que foi – de modo que sua obra inteira pode ser definida como "conto-crônica-reportagem". Mas, se o autor trouxe para a literatura muitas gravações do real, pode-se dizer também que seu jornalismo, exercido em várias publicações, foi impregnado de literatura e cuidado com a linguagem. Aqui, um ponto importante, que vem sendo apontado inclusive em teses universitárias: a linguagem de João Antônio. Nela ocorre uma extensa recuperação da gíria. Veja-se este trecho sobre a decadência de Copacabana, no encerramento do volume: "Copa injuriada, mal lambida, prejudicada, velha antes do tempo, marafona fanada, pasto de energúmenos, muquira, lambona, estuprada, matas cachorro a grito e jacaré a beliscão, caxinguenta outrora linda..." João Antônio se comprazia até mesmo em enumerar sinônimos de gírias, como nesta outra passagem: "RATATUIA (patuléia, igrejinha, canalha, patota, curriola, súcia, cambada, bando, gangue...)".

Se o autor usava e abusava da linguagem popular, poderia um desavisado pensar que João Antônio fazia uma literatura fácil, descuidada. É o contrário. Ele fez da linguagem das ruas (o blablablá da ratatuia) a matriz da qual lapidou literatura e, paradoxalmente, isso permitiu com que saísse do âmbito meramente realista. Através da estilização, ele joga os seus retratos para muito além do meramente documental, dos lugares-comuns. Esta talvez seja uma das principais razões para que sua obra, apenas cinco anos depois de sua morte, esteja sendo toda reeditada, retirando o autor do limbo em que costumam cair os mortos recentes. Quanto aos textos inéditos incluídos no volume, não são, conforme anunciado pelos editores, dois contos, e sim crônicas. Uma delas, Viva o Bicho, é bastante curiosa – narra a origem do jogo do bicho no Brasil, numa aliança impagável do Barão de Drumond, fundador do zoológico no Rio, com um mexicano esperto chamado Manuel Ismael Zevada.

* Sérgio Sant'Anna é escritor, autor de
Um Crime Delicado, entre outros livros


   
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