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O blablablá
da ratatuia
Em
Ô, Copacabana!, uma amostra
do talento de João Antônio, o
estilista da linguagem popular
Sérgio Sant'Anna*
Antonio Andrade
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| João
Antônio: ele ficou famoso com um
conto sobre jogadores de sinuca |
Já
em seu primeiro livro, o premiado Malagueta, Perus e Bacanaço
(1963), cujo conto-título tratava da vida de jogadores de sinuca
em São Paulo, o escritor João Antônio definiu o norte
de sua obra inteira: a opção por personagens recolhidos
da parcela marginalizada da população brasileira. Tudo o
que João Antônio (1937-1996) escreveu tinha em vista as divisões
sociais. Pode-se até dizer que ele cultivou ressentimento contra
sua classe de origem, a média: um de seus livros, relançado
há pouco pela editora Cosac & Naify, recebeu o título
significativo de Abraçado ao Meu Rancor. A mesma editora
lança agora Ô, Copacabana! (143 páginas;
22 reais). Publicado originalmente em 1978 e acrescido de duas crônicas
inéditas, esse livro enfoca aquele que, por seus contrastes, talvez
seja o mais interessante dos bairros cariocas. Um bairro habitado durante
décadas pelo próprio escritor, paulista que adquiriu sua
cidadania carioca e copacabanense por meio da literatura.
Desfilam e adquirem vida, na Copacabana literária de João
Antônio, personagens como camelôs, domésticas, travestis,
guarda-vidas, prostitutas, leões-de-chácara, pederastas
e lésbicas (assim os nomeou o autor). Gente que pode atender pelo
nome de Elzinha Prejudicada ou Mariazinha Tiro-a-Esmo, esta uma marginal
de 14 anos. Quando o autor chega à classe média, trata-se
da "civilização do quarto-e-sala", a que se refere logo
no princípio do volume, abordando a urbanização caótica
do bairro. Verdadeiros personagens são também lugares como
as praças do Lido e Serzedelo Correia, apelidada de Praça
dos Paraíbas, que João Antônio podia vigiar da própria
janela. Mas é principalmente a Galeria Alaska, com seus bares,
restaurantes e inferninhos gays, que vai merecer o tratamento mais comovente,
antológico, do autor, que sobre ela focaliza seu olhar, do anoitecer
ao amanhecer, quando a variada fauna local cede lugar a moradores até
"normais". João Antônio tratou a Galeria Alaska com carinho
de conhecedor e poesia. Mas também não dá para esquecer,
nunca, que, à margem da selva urbana, há o mar, como que
redimindo tudo (e foi do samba-canção Copacabana, aquele
que fala da "princesinha do mar", que João Antônio retirou
a epígrafe do livro).
Ao
descrever os shows da boate Katakombe, o jantar no Rio Jerez, ou a faina
na 13ª Delegacia Policial, João Antônio fez o trabalho
do excelente repórter que foi de modo que sua obra inteira pode
ser definida como "conto-crônica-reportagem". Mas, se o autor trouxe
para a literatura muitas gravações do real, pode-se dizer
também que seu jornalismo, exercido em várias publicações,
foi impregnado de literatura e cuidado com a linguagem. Aqui, um ponto
importante, que vem sendo apontado inclusive em teses universitárias:
a linguagem de João Antônio. Nela ocorre uma extensa recuperação
da gíria. Veja-se este trecho sobre a decadência de Copacabana,
no encerramento do volume: "Copa injuriada, mal lambida, prejudicada,
velha antes do tempo, marafona fanada, pasto de energúmenos, muquira,
lambona, estuprada, matas cachorro a grito e jacaré a beliscão,
caxinguenta outrora linda..." João Antônio se comprazia até
mesmo em enumerar sinônimos de gírias, como nesta outra passagem:
"RATATUIA (patuléia, igrejinha, canalha, patota, curriola, súcia,
cambada, bando, gangue...)".
Se o autor usava e abusava da linguagem popular, poderia um desavisado
pensar que João Antônio fazia uma literatura fácil,
descuidada. É o contrário. Ele fez da linguagem das ruas
(o blablablá da ratatuia) a matriz da qual lapidou literatura e,
paradoxalmente, isso permitiu com que saísse do âmbito meramente
realista. Através da estilização, ele joga os seus
retratos para muito além do meramente documental, dos lugares-comuns.
Esta talvez seja uma das principais razões para que sua obra, apenas
cinco anos depois de sua morte, esteja sendo toda reeditada, retirando
o autor do limbo em que costumam cair os mortos recentes. Quanto aos textos
inéditos incluídos no volume, não são, conforme
anunciado pelos editores, dois contos, e sim crônicas. Uma delas,
Viva o Bicho, é bastante curiosa narra a origem do jogo
do bicho no Brasil, numa aliança impagável do Barão
de Drumond, fundador do zoológico no Rio, com um mexicano esperto
chamado Manuel Ismael Zevada.
*
Sérgio Sant'Anna é escritor, autor de
Um Crime Delicado, entre outros livros
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