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Edição 1 722 - 17 de outubro de 2001
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O eterno número 1

Cidadão Kane, que causou
uma revolução no cinema,
ganha versão restaurada

Isabela Boscov

Na época em que decidiu fazer Cidadão Kane, Orson Welles era o prodígio em pessoa. Tinha 24 anos e nunca havia usado uma câmara. Mas chegou a Hollywood cercado de rapapés que, até hoje, causariam inveja. Ganhava um salário régio, podia formar a equipe que quisesse e tinha um privilégio que ainda é o maior (e mais raro) de todos para um cineasta: o direito de "corte final", ou seja, de montar seu filme como bem entendesse, sem interferência do estúdio que o financiou. Welles, porém, não era um novato qualquer em 1939, quando o estúdio RKO mandou buscá-lo em Nova York. Era uma celebridade, devido a suas estripulias no teatro e no rádio – em especial seu falso noticiário sobre uma invasão marciana, que provocara pânico no país. O que a RKO queria de Welles era justamente isso: uma demonstração de originalidade que revitalizasse suas finanças. Ganhou Cidadão Kane, que invariavelmente encabeça as listas dos melhores filmes da história – e é também uma das batatas mais quentes que um estúdio já teve nas mãos.

Para a platéia de hoje, talvez não seja fácil medir a importância de Cidadão Kane. Para o público da época, não havia dúvida: o filme significava uma revolução. O DVD que está sendo lançado agora, em cópia restaurada e acompanhada de um documentário, ajuda a entender essa reverência. A começar pelo tema, o filme é de uma audácia suprema. O Kane do título é Charles Foster Kane (interpretado por Welles), o mais influente barão da imprensa americana. Trata-se de uma caricatura óbvia de William Randolph Hearst, que ocupava essa posição nos Estados Unidos e de quem o roteirista de Cidadão Kane, Herman J. Mankiewicz, fora muito amigo. A fita começa com um cinenoticiário sobre a morte de Kane e logo se transforma numa investigação jornalística sobre o verdadeiro significado da palavra "Rosebud" (ou "botão de rosa"), a última que o moribundo teria dito. Para entendê-la, os repórteres têm de reconstituir a trajetória do protagonista. A história que se segue é contada sob vários pontos de vista, conforme o personagem entrevistado. Na época, não era comum que o espectador fosse assim convidado a tirar suas próprias conclusões sobre o que era dito ou mostrado. Com a ajuda do diretor de fotografia Gregg Toland, Welles radicalizou essa sensação: em boa parte das cenas, toda a ação está em foco, do primeiro plano até o fundo. A platéia é que decide onde fixar seu olhar. O diretor também deu a Kane as dimensões de uma figura mítica, mostrando-o quase sempre de baixo para cima, como se fosse muito maior que os outros personagens. Welles, é preciso dizer, não foi o inventor desses artifícios. Mas teve o arrojo de tornar a forma e o conteúdo de uma história indissociáveis – ora aliando-se, ora contradizendo-se. Em 1941, quando o filme foi lançado, essa era uma experiência capaz de causar trepidação.

O magnata Hearst também sentiu o chão tremer. Graças ao tagarela Mankiewicz, ele soube que Cidadão Kane traria a público detalhes íntimos de sua vida – por exemplo, sobre sua sede de poder e seu longo caso com a atriz Marion Davies. Era o tipo de coisa que todo mundo sabia, mas ninguém se atrevia a comentar. Sua campanha para boicotar o filme e virar os estúdios contra Welles foi implacável. O cineasta terminou a vida, em 1985, mendigando financiamento e não raro atuando em fitas de segunda linha para ganhar dinheiro. Hearst, de fato, ganhou a batalha. Mas perdeu a guerra. Suas investidas só fizeram cimentar a aura mítica adquirida pelo filme e incentivar as novas gerações a conferi-lo de perto. Vale a pena. Nas palavras da crítica Pauline Kael, Cidadão Kane é talvez o único filme que, quanto mais velho fica, mais novo parece.

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