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O eterno número
1
Cidadão
Kane, que causou
uma revolução no cinema,
ganha versão restaurada
Isabela Boscov
Na
época em que decidiu fazer Cidadão Kane, Orson Welles
era o prodígio em pessoa. Tinha 24 anos e nunca havia usado uma
câmara. Mas chegou a Hollywood cercado de rapapés que, até
hoje, causariam inveja. Ganhava um salário régio, podia
formar a equipe que quisesse e tinha um privilégio que ainda é
o maior (e mais raro) de todos para um cineasta: o direito de "corte final",
ou seja, de montar seu filme como bem entendesse, sem interferência
do estúdio que o financiou. Welles, porém, não era
um novato qualquer em 1939, quando o estúdio RKO mandou buscá-lo
em Nova York. Era uma celebridade, devido a suas estripulias no teatro
e no rádio em especial seu falso noticiário sobre
uma invasão marciana, que provocara pânico no país.
O que a RKO queria de Welles era justamente isso: uma demonstração
de originalidade que revitalizasse suas finanças. Ganhou Cidadão
Kane, que invariavelmente encabeça as listas dos melhores filmes
da história e é também uma das batatas mais
quentes que um estúdio já teve nas mãos.
Para a platéia de hoje, talvez não seja fácil medir
a importância de Cidadão Kane. Para o público
da época, não havia dúvida: o filme significava uma
revolução. O DVD que está sendo lançado agora,
em cópia restaurada e acompanhada de um documentário, ajuda
a entender essa reverência. A começar pelo tema, o filme
é de uma audácia suprema. O Kane do título é
Charles Foster Kane (interpretado por Welles), o mais influente barão
da imprensa americana. Trata-se de uma caricatura óbvia de William
Randolph Hearst, que ocupava essa posição nos Estados Unidos
e de quem o roteirista de Cidadão Kane, Herman J. Mankiewicz,
fora muito amigo. A fita começa com um cinenoticiário sobre
a morte de Kane e logo se transforma numa investigação jornalística
sobre o verdadeiro significado da palavra "Rosebud" (ou "botão
de rosa"), a última que o moribundo teria dito. Para entendê-la,
os repórteres têm de reconstituir a trajetória do
protagonista. A história que se segue é contada sob vários
pontos de vista, conforme o personagem entrevistado. Na época,
não era comum que o espectador fosse assim convidado a tirar suas
próprias conclusões sobre o que era dito ou mostrado. Com
a ajuda do diretor de fotografia Gregg Toland, Welles radicalizou essa
sensação: em boa parte das cenas, toda a ação
está em foco, do primeiro plano até o fundo. A platéia
é que decide onde fixar seu olhar. O diretor também deu
a Kane as dimensões de uma figura mítica, mostrando-o quase
sempre de baixo para cima, como se fosse muito maior que os outros personagens.
Welles, é preciso dizer, não foi o inventor desses artifícios.
Mas teve o arrojo de tornar a forma e o conteúdo de uma história
indissociáveis ora aliando-se, ora contradizendo-se. Em
1941, quando o filme foi lançado, essa era uma experiência
capaz de causar trepidação.
O magnata Hearst também sentiu o chão tremer. Graças
ao tagarela Mankiewicz, ele soube que Cidadão Kane traria
a público detalhes íntimos de sua vida por exemplo,
sobre sua sede de poder e seu longo caso com a atriz Marion Davies. Era
o tipo de coisa que todo mundo sabia, mas ninguém se atrevia a
comentar. Sua campanha para boicotar o filme e virar os estúdios
contra Welles foi implacável. O cineasta terminou a vida, em 1985,
mendigando financiamento e não raro atuando em fitas de segunda
linha para ganhar dinheiro. Hearst, de fato, ganhou a batalha. Mas perdeu
a guerra. Suas investidas só fizeram cimentar a aura mítica
adquirida pelo filme e incentivar as novas gerações a conferi-lo
de perto. Vale a pena. Nas palavras da crítica Pauline Kael, Cidadão
Kane é talvez o único filme que, quanto mais velho fica,
mais novo parece.

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