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Os novos amigos
dos EUA
Fotos AFP

RÚSSIA
E TURCOMENISTÃO
Ninguém segura o entusiasmo de Vladimir Putin. Seu colega Niazov cede
espaço aéreo e espera pôr os críticos no congelador |
Osama
bin Laden já foi amigo dos Estados Unidos, na época em que
aos americanos interessava atrapalhar a ofensiva dos russos no Afeganistão.
Duas décadas depois, para enfrentar o novo inimigo, o governo dos
EUA continua a fazer amizades de ocasião. Como um dos grandes problemas
da guerra na Ásia Central é estacionar tropas perto ou na
própria fronteira do país dominado pelo Talibã, a
diplomacia americana costurou acordos de cooperação com
uma turma de governantes que tem antiga incompatibilidade com a democracia.
Piores que a folha corrida de parte desses novos aliados só mesmo
os interesses que levaram alguns deles a cooperar com os EUA na ofensiva
contra os terroristas do país vizinho. O caso do Paquistão
cujo presidente, Pervez Musharraf, liderou um golpe militar em
1999 e era até outro dia um amigão dos talibãs
é apenas o incômodo mais evidente. Deste, os EUA se esquivam
com o argumento de que estão reconvertendo para a causa da liberdade
um ditador que dava apoio aos fanáticos religiosos afegãos.
No que diz respeito a outros cinco países recém-admitidos
no círculo de amizades dos americanos, a questão é
mais sutil e complexa.
O Uzbequistão e as outras quatro ex-repúblicas soviéticas
ao norte do Afeganistão tiveram como mudança principal desde
os tempos do comunismo o acréscimo desse "ex" quando se fala delas
ou de seus chefes supremos. Todas são governadas por ex-integrantes
do Partido Comunista, continuam mais bem definidas como ditaduras que
como democracias e se debatem com os mesmos problemas que tinham quando
Moscou dava as cartas. Aliás, para boa parte delas Moscou ainda
dá as cartas. O presidente dos uzbeques, Islam Karimov, é
um desses parceiros que só o pragmatismo de guerra pode explicar.
No poder desde 1990, à custa daquele tipo de eleição
em que se conquistam 99% dos votos, Karimov governa mantendo milhares
de adversários em prisões políticas, sufocando a
imprensa e submetendo à brutalidade policial quem ousa reclamar
de um regime que oferece 40% de inflação e alto desemprego.
Às voltas com o fanatismo muçulmano no próprio território,
ele viu uma oportunidade na crise. O Movimento Islâmico do Uzbequistão
foi um dos grupos cuja atividade econômica foi declarada passível
de bloqueios pelo presidente George W. Bush. Antes disso, na administração
Clinton, o país já tinha conseguido mandar soldados para
treinamento nos EUA. Agora, começou oferecendo as bases aéreas
locais para ações humanitárias e de operações
de resgate e, na semana passada, era o endereço mais recente de
acantonamento de uma divisão americana de infantaria que deveria
agir nas montanhas do território inimigo.

UZBEQUISTÃO,
GEÓRGIA E AZERBAIJÃO
Karimov, Eduard Shevardnadze e Heydar Aliyev discutiram um acordo
de livre comércio em junho. Agora, oferecem vaga para um novo parceiro
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"Estamos
muito satisfeitos com as ofertas de apoio recebidas dos países
daquela região", disse o general Colin Powell, secretário
de Estado dos EUA. No Tadjiquistão, que funciona como rota da heroína
e do ópio produzidos no Afeganistão, a população
de 6 milhões de habitantes viu três mudanças de governo
e se engalfinhou em cinco anos de guerra civil na última década.
Não há certeza a respeito de quanto pesou a opinião
do presidente Emomali Rahmonov na decisão sobre o uso de bases
militares pelos americanos dentro do país. As bases pertencem à
Rússia e, nesse caso, vale muito a inclinação do
presidente Vladimir Putin, outro que está na maior animação
como aliado dos americanos. Para os russos, assim como para os tadjiques,
o pós-guerra pode trazer boa vontade das potências ocidentais
para com os projetos econômicos e até uma ajuda para eliminar
as incrustações do radicalismo muçulmano nos dois
países. A Rússia acha que agora todo o mundo está
compreendendo contra o quê ela andou brigando na região da
Chechênia. O Tadjiquistão, por seu lado, se preocupa com
a possibilidade de uma invasão de refugiados afegãos. Dando
o apoio militar, pode talvez negociar para que os famélicos da
guerra sejam levados noutra direção.
A outra ex-república soviética que faz fronteira com o Afeganistão,
o Turcomenistão, também tem grande esperança de vir
a realizar bons negócios. Sentado sobre fartas reservas de petróleo
e a quinta maior jazida de gás natural do mundo, o presidente Saparmurat
Niazov cedeu seu espaço aéreo aos aviões de ajuda
humanitária talvez também deixe passar outros aviões
nada humanitários e ganha um período de congelamento
nas críticas a sua política de repressão impiedosa
a adversários políticos internos. Cazaquistão e Quirguistão
completam o pacote dos novos amigos dos EUA na Ásia Central. Ambos
dispõem de poucas moedas políticas para negociar. Não
fazem fronteira com o Afeganistão. O primeiro cedeu bases militares.
É o maior e o menos densamente povoado da área. É
também um modelo de problemas do Terceiro Mundo, desde poluição
ambiental a retração econômica e escassez de investimentos.
O Quirguistão tem um lindo cenário a oferecer, com uma enorme
dependência da Rússia e um quintal cheio de terroristas.
Uma suposição de quem analisa o comportamento dos EUA no
cenário internacional é que os novos amigos que o país
vem fazendo na Ásia Central e também no Cáucaso,
onde a Geórgia ofereceu suas bases às forças militares
acabarão tomando o espaço econômico de países
como México, Brasil ou Argentina, que vinham se esforçando
há tempos para atrair investimentos americanos. Segundo esse raciocínio,
a derrocada do comunismo tinha deixado vários dos ex-Estados soviéticos
à deriva, sem magnetismo para entrar na órbita de potências
econômicas. De repente, ter um inimigo para dividir com os EUA virou
um grande negócio.
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