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Edição 1 722 - 17 de outubro de 2001
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Os novos amigos dos EUA

Fotos AFP

RÚSSIA E TURCOMENISTÃO
Ninguém segura o entusiasmo de Vladimir Putin. Seu colega Niazov cede espaço aéreo e espera pôr os críticos no congelador

Osama bin Laden já foi amigo dos Estados Unidos, na época em que aos americanos interessava atrapalhar a ofensiva dos russos no Afeganistão. Duas décadas depois, para enfrentar o novo inimigo, o governo dos EUA continua a fazer amizades de ocasião. Como um dos grandes problemas da guerra na Ásia Central é estacionar tropas perto ou na própria fronteira do país dominado pelo Talibã, a diplomacia americana costurou acordos de cooperação com uma turma de governantes que tem antiga incompatibilidade com a democracia. Piores que a folha corrida de parte desses novos aliados só mesmo os interesses que levaram alguns deles a cooperar com os EUA na ofensiva contra os terroristas do país vizinho. O caso do Paquistão – cujo presidente, Pervez Musharraf, liderou um golpe militar em 1999 e era até outro dia um amigão dos talibãs – é apenas o incômodo mais evidente. Deste, os EUA se esquivam com o argumento de que estão reconvertendo para a causa da liberdade um ditador que dava apoio aos fanáticos religiosos afegãos. No que diz respeito a outros cinco países recém-admitidos no círculo de amizades dos americanos, a questão é mais sutil e complexa.

O Uzbequistão e as outras quatro ex-repúblicas soviéticas ao norte do Afeganistão tiveram como mudança principal desde os tempos do comunismo o acréscimo desse "ex" quando se fala delas ou de seus chefes supremos. Todas são governadas por ex-integrantes do Partido Comunista, continuam mais bem definidas como ditaduras que como democracias e se debatem com os mesmos problemas que tinham quando Moscou dava as cartas. Aliás, para boa parte delas Moscou ainda dá as cartas. O presidente dos uzbeques, Islam Karimov, é um desses parceiros que só o pragmatismo de guerra pode explicar. No poder desde 1990, à custa daquele tipo de eleição em que se conquistam 99% dos votos, Karimov governa mantendo milhares de adversários em prisões políticas, sufocando a imprensa e submetendo à brutalidade policial quem ousa reclamar de um regime que oferece 40% de inflação e alto desemprego. Às voltas com o fanatismo muçulmano no próprio território, ele viu uma oportunidade na crise. O Movimento Islâmico do Uzbequistão foi um dos grupos cuja atividade econômica foi declarada passível de bloqueios pelo presidente George W. Bush. Antes disso, na administração Clinton, o país já tinha conseguido mandar soldados para treinamento nos EUA. Agora, começou oferecendo as bases aéreas locais para ações humanitárias e de operações de resgate e, na semana passada, era o endereço mais recente de acantonamento de uma divisão americana de infantaria que deveria agir nas montanhas do território inimigo.

 

UZBEQUISTÃO, GEÓRGIA E AZERBAIJÃO
Karimov, Eduard Shevardnadze e Heydar Aliyev discutiram um acordo de livre comércio em junho. Agora, oferecem vaga para um novo parceiro

"Estamos muito satisfeitos com as ofertas de apoio recebidas dos países daquela região", disse o general Colin Powell, secretário de Estado dos EUA. No Tadjiquistão, que funciona como rota da heroína e do ópio produzidos no Afeganistão, a população de 6 milhões de habitantes viu três mudanças de governo e se engalfinhou em cinco anos de guerra civil na última década. Não há certeza a respeito de quanto pesou a opinião do presidente Emomali Rahmonov na decisão sobre o uso de bases militares pelos americanos dentro do país. As bases pertencem à Rússia e, nesse caso, vale muito a inclinação do presidente Vladimir Putin, outro que está na maior animação como aliado dos americanos. Para os russos, assim como para os tadjiques, o pós-guerra pode trazer boa vontade das potências ocidentais para com os projetos econômicos e até uma ajuda para eliminar as incrustações do radicalismo muçulmano nos dois países. A Rússia acha que agora todo o mundo está compreendendo contra o quê ela andou brigando na região da Chechênia. O Tadjiquistão, por seu lado, se preocupa com a possibilidade de uma invasão de refugiados afegãos. Dando o apoio militar, pode talvez negociar para que os famélicos da guerra sejam levados noutra direção.

A outra ex-república soviética que faz fronteira com o Afeganistão, o Turcomenistão, também tem grande esperança de vir a realizar bons negócios. Sentado sobre fartas reservas de petróleo e a quinta maior jazida de gás natural do mundo, o presidente Saparmurat Niazov cedeu seu espaço aéreo aos aviões de ajuda humanitária – talvez também deixe passar outros aviões nada humanitários – e ganha um período de congelamento nas críticas a sua política de repressão impiedosa a adversários políticos internos. Cazaquistão e Quirguistão completam o pacote dos novos amigos dos EUA na Ásia Central. Ambos dispõem de poucas moedas políticas para negociar. Não fazem fronteira com o Afeganistão. O primeiro cedeu bases militares. É o maior e o menos densamente povoado da área. É também um modelo de problemas do Terceiro Mundo, desde poluição ambiental a retração econômica e escassez de investimentos. O Quirguistão tem um lindo cenário a oferecer, com uma enorme dependência da Rússia e um quintal cheio de terroristas.

Uma suposição de quem analisa o comportamento dos EUA no cenário internacional é que os novos amigos que o país vem fazendo na Ásia Central – e também no Cáucaso, onde a Geórgia ofereceu suas bases às forças militares – acabarão tomando o espaço econômico de países como México, Brasil ou Argentina, que vinham se esforçando há tempos para atrair investimentos americanos. Segundo esse raciocínio, a derrocada do comunismo tinha deixado vários dos ex-Estados soviéticos à deriva, sem magnetismo para entrar na órbita de potências econômicas. De repente, ter um inimigo para dividir com os EUA virou um grande negócio.

 

 
 
   
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