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Os espiões
voltam à lama
John Stanmeyer

CAPITAL
DA ESPIONAGEM
Cidade de Peshawar, a Casablanca do Paquistão: refugiados afegãos
e agentes secretos de várias nacionalidades |
Os
espiões americanos estão de volta ao serviço sujo.
Desde 1995, a CIA está proibida por lei de se meter em espionagem
por meios ilegais, contratando criminosos, contrabandistas e mafiosos
como informantes. Essas barreiras éticas foram suspensas em nome
da necessidade de derrotar o terrorismo. A cidade de Peshawar, na região
noroeste do Paquistão, na fronteira com o Afeganistão, é
o primeiro alvo do novo modelo de espionagem. Entre seus mercados de rua
circulam milhares de refugiados afegãos, de simpatizantes a inimigos
do Talibã. São tipos que se oferecem em hotéis como
guias, motoristas, tradutores. Eles se misturam a russos veteranos da
guerra do Afeganistão, metidos com a máfia moscovita e o
tráfico de ópio. É desse contingente de renegados
que a espionagem americana espera obter informações que
levem a Osama bin Laden e seus comparsas.
Peshawar
está imersa naquele clima de desconfiança característico
de ambientes que misturam pretensa neutralidade oficial com militância
e espionagem. Istambul, na Turquia, e Casablanca, no Marrocos, foram assim
durante a II
Guerra Mundial. Viena também, antes da anexação da
Áustria pelos nazistas. Os serviços de inteligência
e espionagem, especialmente os ocidentais, que se tinham tornado estruturas
burocráticas desde o fim da Guerra Fria, estão tendo de
voltar à velha forma. Não é fácil. Os espiões
tradicionais penduraram as chuteiras há um bom tempo. Seus substitutos
são chamados de "analistas" e se fiam mais em fotos de satélite
e vigilância eletrônica que no aliciamento de informantes
ou na infiltração nas linhas inimigas no estilo 007. "Operações
que incluem diarréia como modo de vida não ocorrem mais",
diz Reuel Marc Gerecht, que trabalhou para a CIA, a agência de serviço
secreto americana, durante nove anos.
O prestígio da CIA anda em baixa. O Paquistão fez testes
nucleares em 1998 e seus agentes souberam pelos jornais. A CIA não
antecipou e, obviamente, não evitou os dois atentados a embaixadas
americanas em países africanos nem o ataque ao navio de guerra
USS Cole, no Iêmen, atribuídos a Osama bin Laden.
Tampouco soou o alarme antes dos vôos suicidas do dia 11 de setembro.
O desafio agora é fazer com que os agentes voltem a pisar na lama
e a produzir resultados. Mesmo que seja à moda antiga. A moda antiga
é a dos golpes de Estado, dos assassinatos e chantagens. Em 1954,
no auge da Guerra Fria, os agentes americanos duvidaram da lealdade do
então presidente da Guatemala, Jacobo Arbenz, um democrata de méritos
intelectuais reconhecidos. Desconfiada de Arbenz, a CIA montou uma farsa.
Recrutou mercenários que se fizeram passar por guerrilheiros marxistas
agindo no interior do país. Enquanto isso, na capital, uma emissora
de rádio dominada pela CIA transmitia boletins falsos sobre o formidável
poder bélico dos rebeldes e anunciava o assalto iminente ao palácio
presidencial. O Exército leal a Arbenz se acovardou. Em meio à
confusão, um oficial aventureiro semi-analfabeto chamado Carlos
Castillo Armas, fantoche da CIA, derrubou Arbenz e se nomeou presidente.
Obviamente, os tempos são outros, e, mesmo com o sinal verde para
atropelar a ética, dificilmente um caso como o de Arbenz se repetiria
na América Latina. Na Ásia Central, talvez.
A história da espionagem é cheia de figuras míticas,
operações engenhosas e assombrosas traições
de lado a lado. O agente da CIA Aldrich Ames talvez seja o maior caso
de traição do serviço secreto americano. Encarregado
de detectar contra-espionagem soviética, Ames se vendeu à
KGB, passando-lhe por 2,7 milhões de dólares o nome de 36
espiões russos, alemães-orientais e poloneses que trabalhavam
para os americanos dentro do bloco soviético. Dez deles foram executados
pelos russos. Descoberto em 1994, Aldrich Ames foi condenado à
prisão perpétua nos Estados Unidos. A Inglaterra também
teve seus casos famosos na era clássica da espionagem. Talvez o
mais bem-sucedido agente duplo da história, o inglês Kim
Philby começou a carreira espionando para o MI6, serviço
secreto inglês, nos anos 40. Comunista convicto, forneceu durante
anos valiosas informações aos soviéticos. Em 1963,
já sob forte suspeita, fugiu para Moscou, onde viveu como herói
até a morte, em 1988.
O grande nome da espionagem moderna, porém, é o amigo de
Philby, Markus Wolf, o "homem sem rosto". Chefe da Stasi, o serviço
secreto da antiga Alemanha Oriental, Wolf infiltrou quase 1.000 agentes
no Ocidente. Alguns deles em altos postos. Seu maior feito foi ter plantado
o espião Günter Guillaume como secretário de Willy
Brandt, primeiro-ministro da Alemanha Ocidental. Guillaume foi desmascarado
em abril de 1974, e Brandt foi obrigado a renunciar semanas mais tarde.
Nunca como agora a CIA desejou tanto dispor de gente com a inclinação
e o talento de Philby e Wolf só que para trabalhar de seu
lado no submundo islâmico. Sabe-se que não será fácil.
"Não se recrutam pessoas assim numa reunião de escoteiros",
diz Donald Hamilton, veterano do escritório de contraterrorismo
do Departamento de Estado americano.
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Ajuda
externa
Os
serviços secretos que poderão trocar informações
com os espiões americanos e ingleses no combate ao terrorismo
FSB, DA RÚSSIA - É herdeira do serviço
secreto da antiga União Soviética. Embora muitos de
seus agentes sejam suspeitos de envolvimento com a máfia
e a corrupção, seus arquivos guardam informações
sobre o Afeganistão, onde os soviéticos guerrearam
por dez anos.
RAW, DA ÍNDIA - Os conflitos com o Paquistão
pela região da Caxemira levaram o serviço secreto
indiano a manter-se bem informado sobre os movimentos na área.
No entanto, desde que o Talibã assumiu o controle do Afeganistão,
nenhum agente da RAW pisou no país.
SSI, DO EGITO - É o serviço de inteligência
que chegou mais perto da organização Al Qaeda, de
Laden, e conseguiu espantar muitos terroristas islâmicos de
seu território. Em compensação, a turma de
Laden infiltrou-se no governo. O Estado egípcio financiava
duas das supostas instituições de caridade que desviavam
recursos para os terroristas.
ISI, DO PAQUISTÃO - É a agência que tem
maior número de espiões no Afeganistão. Apoiou
o Talibã na luta contra os russos e até pouco tempo
atrás treinava o pessoal de Laden. Prometeu colaborar com
os americanos, mas há dúvidas sobre a confiabilidade
das informações que fornece.
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