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Ele quer ser rei dos afegãos

AFP
O PATRIARCA NO EXÍLIO
O antigo rei Zahir Shah, que faz 87 anos nesta semana, busca unidade para uma futura transição democrática

Para quem se acostumou a associar o Afeganistão aos barbudos de turbante que pertencem às milícias do Talibã, causa surpresa o rosto barbeado e as roupas ocidentais de um de seus compatriotas, o príncipe Mirwais Shah, 44 anos, filho caçula do antigo rei Mohamed Zahir Shah, o imperador destronado em 1973 e exilado na Itália. Desde que a queda do regime dos fundamentalistas muçulmanos entrou na ordem do dia, com a iminência do ataque militar americano, Mirwais sonha com a hipótese de vir a ter algum papel na reorganização do Afeganistão. Se possível, com uma coroa na cabeça. "Os afegãos precisam de um símbolo, que pode muito bem ser a monarquia, capaz de evocar boas recordações depois de tudo o que vem acontecendo ao país", diz ele. Mirwais estudou em boas escolas de Londres, pratica equitação e mora em Roma. Nas últimas semanas, a casa do rei Mohamed Zahir Shah, nos arredores da capital italiana, virou um centro de peregrinação obrigatória para oposicionistas afegãos de todos os matizes. Políticos americanos e europeus também têm aparecido por lá. Estão todos interessados em encontrar uma alternativa de governo para o vácuo político que se espera diante de uma derrota do Talibã.

Ninguém leva a sério a idéia da restauração da monarquia, mas imagina-se que o rei ou um de seus descendentes possa funcionar como figura aglutinadora, à frente de um conselho nacional que reúna as diversas etnias e forças em choque no Afeganistão. Mirwais participa dessas articulações com interesse. O velho rei destronado completa 87 anos nesta segunda-feira e parece não exibir a energia necessária para comandar um processo prolongado de conciliação de interesses políticos e étnicos tão díspares como os que existem em sua pátria. De seus seis filhos vivos, cinco não se entusiasmam com política. A mais velha, Bilqis, 69 anos, está casada com o ex-general Abdul Wali, até hoje um conselheiro do rei. A iniciativa privada atraiu Ahmad – que vive nos Estados Unidos e gosta de escrever poesia – bem como Nader e Mahmud, residentes na Itália. A outra filha, Maryam, mora em Londres. Só restou por perto Mirwais, além de um dos netos do rei, Mustafá Shah, 37 anos, que vive na casa do avô.

A história dessa curta dinastia remonta a 1929, quando uma assembléia formada pelas tribos afegãs escolheu Mohamed Nader Shah para substituir um rei que havia sido executado. Um dos quatro filhos de Mohamed Nader era Zahir, que herdou o trono, depois que o pai também foi assassinado, em 1933. Originário da etnia patane, Zahir tinha então pouco mais de 19 anos, havia estudado na França e ocupado um cargo honorífico no Afeganistão, algo como vice-ministro da Defesa do próprio pai. Embora inexperiente, conseguiu manter-se no trono por quatro décadas. Foi o mais longo reinado da história moderna do país. Zahir na verdade não mandava nada. Era uma espécie de rei banana. O poder era exercido de fato por alguns de seus parentes. Um deles, o primo e cunhado Mohamed Daud Khan, primeiro-ministro, foi o responsável pelo golpe que derrubou a monarquia e instaurou uma república no Afeganistão, em 1973, aproveitando-se do fato de Zahir estar fora do país, numa estação de termas na ilha de Ischia, próximo a Nápoles. Para substituir o rei deposto, Daud Khan nomeou-se a si próprio presidente da república.

Embora não tivesse efetivo poder de mando, Zahir pode apresentar seu reinado à opinião internacional de hoje como um período de conquistas para o Afeganistão, com a consolidação do território nacional, expansão das relações com o resto do mundo, projetos de irrigação e construção de estradas. A partir dos anos 50, introduziram-se algumas mudanças liberalizantes nos costumes, chegando-se a permitir a remoção do véu feminino em público. Em 1963, adotou-se a monarquia constitucional como forma de governo e inaugurou-se um período em que Zahir deixou de ter mero papel decorativo. Foi uma década de agitação política e instabilidade, com sucessiva troca de primeiros-ministros, marcada pela aproximação com os soviéticos. A aventura terminaria com sua deposição, em 1973.

Nesses 28 anos, Zahir tem levado uma vida confortável na Itália, mas sem o fausto de alguém que já foi majestade. Sua residência atual na localidade de Olgiata tem quatro quartos e destoa de algumas mansões milionárias dessa região. Ali, longe de dominar a língua italiana, ele curte a terceira idade e se dedica à jardinagem e ao paisagismo, duas de suas paixões, além de se distrair em partidas de xadrez com o neto Mustafá. Passou a ter rigores com sua segurança pessoal quando foi atacado por um visitante. Um português, José Paulo Santos de Almeida, apresentou-se como jornalista e, a certa altura, ofereceu-lhe de presente uma adaga de prata. Ao inclinar-se para apanhar o mimo, Zahir recebeu três punhaladas e só escapou graças à perícia dos cirurgiões. Na esteira da declaração de guerra dos EUA ao terrorismo internacional, no mês passado, o governo americano cuidou de encontrar alguém que pudesse ajudar a liderar a transição. "Posso servir como chefe de Estado ou mediador no processo rumo à democracia", disse Zahir, que recebeu visitas de diplomatas e deputados americanos, além de uma delegação de membros do Parlamento Europeu. Ao filho caçula, também deu alento. "Prepare-se. Em breve você vai ter um peso muito grande sobre seus ombros", disse-lhe Zahir. Apesar da paisagem inóspita do Afeganistão e da aparência nada amigável dos fundamentalistas que por lá estão dando as cartas, o jovem príncipe parece bastante animado com a idéia.

 
 
   
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