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Do lado
errado, de novo
Fotos AFP
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MASSA
DE MANOBRA
Hordas de pobres proclamam fé em Laden, e não estão sozinhos: ricos
e instruídos do mundo islâmico também apóiam |
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Adivinhe
de onde partiram as frases abaixo, ditas nos últimos dias por pessoas
consultadas por jornalistas estrangeiros:
"Osama bin Laden já foi chamado de consciência do Islã.
Ele diz e faz o que muitos muçulmanos gostariam de dizer e fazer,
mas não podem. Nós gostamos disso, concordamos com ele".
"Tem gente que acha que ele é um herói, o muçulmano
ideal, o epítome do que um árabe deve ser".
"Ele se tornou um símbolo de desafio em face da arrogância
americana".
Pelos
termos empregados, é evidente que não se trata das massas
que têm protestado diariamente nas ruas empoeiradas das cidades
paquistanesas, pisoteando bandeiras americanas com suas sandálias
gastas. Esses pobres pés-sujos, gente ignorante e fanatizada por
seus líderes religiosos, identificados pela proximidade territorial
e pela etnia com os vizinhos afegãos do Talibã, não
usam esse tipo de vocabulário. As declarações acima
foram feitas por cidadãos
instruídos da Arábia Saudita respectivamente, um
advogado de multinacional com dez anos de estudos nos Estados Unidos,
um professor universitário e um jornalista, homens que provavelmente
se dariam muito mal se Osama bin Laden implantasse a versão de
autoritarismo teocrático que prega para seu país natal,
mais fundamentalista ainda do que o sistema em vigor. São opiniões
de apenas três pessoas mas elas refletem o pensamento de
milhões e milhões de muçulmanos. "A esmagadora maioria
da sociedade saudita apóia Laden", disse a VEJA Saad al-Fagih,
dirigente do Movimento por uma Reforma Islâmica na Arábia,
um grupo de oposição à família real saudita
com sede em Londres. Osama bin Laden nasceu na Arábia Saudita e
está rompido com as autoridades locais porque se opõe à
presença de americanos numa base militar que os EUA instalaram
no país desde os tempos da Guerra do Golfo.
Os sauditas são apenas parte da platéia do terrorista. Do
Oriente Médio ou da Ásia Central até a periferia
do mundo muçulmano, como a distante Indonésia, chovem as
manifestações de apoio a Laden. Essa adesão ao terror
é muitas vezes justificada com a ajuda de teorias conspiracionistas
ensandecidas. Ora os atentados contra Nova York e Washington foram praticados
pelo Mossad, o serviço secreto de Israel, para lançar os
Estados Unidos contra o Islã. Ora tudo foi feito com a conivência
dos americanos, de maneira a criar um pretexto que lhes permita se apossar
do petróleo e do gás natural da Ásia Central. Os
ricos sauditas teriam perdido suas fortunas, seu estilo de vida e até
seu país caso os Estados Unidos não os salvassem da gula
territorial do iraquiano Saddam Hussein. No entanto, eles se esqueceram
disso. Vêem Osama bin Laden como defensor da causa árabe
contra os americanos maus, que se instalaram na Arábia Saudita,
profanando com sua simples presença o santo solo onde nasceu o
Islã. Mas não foi Saddam quem começou tudo há
dez anos, quando invadiu o Kuwait e acabou provocando a vinda dos militares
"infiéis"? Que nada, respondem, a sério, os sauditas. Foi
tudo um plano maligno: os americanos incentivaram o ditador do Iraque
a praticar suas perfídias para se infiltrar na Arábia Saudita
e, claro, passar a mão no petróleo, sempre o petróleo.
AP
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Reuters
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TERRENO
FÉRTIL
Rodeados de símbolos americanos, policiais e manifestante paquistanês:
ódio aos EUA dita escolhas irracionais |
Não
é de estranhar que, com uma opinião pública assim,
mesmo num regime autocrático como o saudita, os poderosos tenham
receio de apoiar muito abertamente os Estados Unidos. "Numa democracia
ocidental, quem perde o contato com o povo perde a eleição.
Numa monarquia, perde a cabeça", filosofou o príncipe Bandar
bin Sultan, o eterno embaixador saudita nos EUA. Na Palestina, o semblante
lívido de Yasser Arafat é um retrato da aposta arriscadíssima
que fez: mesmo ao preço de atrair a antipatia das massas palestinas,
ele tem procurado distanciar-se ao máximo de Laden. Arafat, um
ex-chefe terrorista que durante algum tempo não pôde pisar
em solo americano, chegou a mandar a polícia palestina baixar o
cassetete nos manifestantes que saíram às ruas de Gaza para
dar apoio a Laden. Arafat, mesmo com seu passado ultra-radical, é
um homem experiente e flexível. Tem bom trânsito entre as
autoridades do Ocidente e parece entender perfeitamente o que significaria
para a causa palestina ter suas aspirações confundidas com
as do grupo terrorista de Osama bin Laden. Por isso, quer distância
do saudita.
No Egito, onde o governo controla tudo e a posição oficial
é de cautelosíssimo apoio aos Estados Unidos, as manifestações
a favor de Laden são confinadas. Já ocorreu, porém,
uma mudança perceptível nos ventos da opinião pública.
Laden não era nada popular no país até recentemente,
pois seu número 2, o fundamentalista egípcio Aiman al-Zawahiri,
comandou a onda de atentados contra turistas estrangeiros que fez encolher
uma fonte de renda vital para o Egito. "Agora, as pessoas começam
a dizer que ele não é tão ruim assim, é até
simpático, tem cara boa", descreve a jornalista Randa Achmawi.
Na avaliação dela, a repercussão do vídeo
divulgado pela Al Jazira foi simplesmente arrasadora e o que pesou
mais foi a referência à causa palestina, um tema que mobiliza
maciçamente os egípcios.
AP
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AFP
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BATALHA
DA PROPAGANDA
A agitação na Indonésia e o protesto, bem controlado, no Egito: "Laden
não é tão ruim, tem cara boa" |
Entra
aí outro golpe de astúcia de Laden. Após enviar seus
seqüestradores suicidas aos massacres em território americano,
ele próprio seqüestrou a causa palestina. Depois de sair vitorioso
em sua causa inicial a luta contra os soviéticos que haviam
invadido o Afeganistão , Laden passou a se dedicar, de maneira
cada vez mais radical, a outra bandeira: expulsar os americanos instalados
em território saudita desde a guerra contra Saddam Hussein. Os
documentos, as declarações de guerra santa e os próprios
ataques terroristas praticados pela Al Qaeda tinham todos, basicamente,
esse objetivo. A questão palestina era mencionada de passagem,
no meio de uma lista de queixas abrangente. De repente, no vídeo
divulgado há uma semana, logo depois de iniciados os bombardeios
no Afeganistão, lá estava Laden, transformado em paladino
dos palestinos e das criancinhas iraquianas vitimadas pelo embargo americano,
outra causa para a qual nunca deu importância.
Trata-se de oportunismo evidente, mas há terreno favorável
para isso no mundo muçulmano. Nesse universo de turbantes, instalou-se
uma síndrome depressiva, provocada pelo atrito entre um passado
de glórias e um presente de fracassos. Os regimes laicos, que prometiam
a modernização, terminaram em ditaduras cruéis ou,
no mínimo, ineficientes. Os regimes tradicionais, mesmo quando
abençoados pelas benesses do petróleo, não conseguiram
promover a guinada que traria progresso de verdade. A criação
de Israel abriu uma chaga permanente e dolorosa. A esperança de
cicatrizá-la com um acordo de paz que dê aos palestinos uma
saída pelo menos parcialmente justa sofre um revés atrás
do outro e nenhum regime árabe jamais abriu mão de
manipular a causa palestina para desviar as frustrações
da massa. O apoio americano a Israel alimenta há décadas
a fornalha onde crepita o ódio aos Estados Unidos, um sentimento
que comanda escolhas irracionais, em que o inimigo do nosso inimigo é
sempre nosso amigo não importam os horrores que faça. A
onda pró-Laden que varre os países islâmicos é
novidade apenas quanto ao personagem. Há dez anos, quando Saddam
Hussein invadiu o Kuwait, houve manifestações similares
a favor do tirano do Iraque. Essa simpatia não mudou o rumo dos
acontecimentos. Saddam foi derrotado pelos americanos. Agora, de novo,
muita gente nos países muçulmanos está ficando do
lado errado. Do lado, inevitavelmente, do perdedor.
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