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Edição 1 722 - 17 de outubro de 2001
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Do lado errado, de novo

Fotos AFP
MASSA DE MANOBRA
Hordas de pobres proclamam fé em Laden, e não estão sozinhos: ricos e instruídos do mundo islâmico também apóiam

Adivinhe de onde partiram as frases abaixo, ditas nos últimos dias por pessoas consultadas por jornalistas estrangeiros:

"Osama bin Laden já foi chamado de consciência do Islã. Ele diz e faz o que muitos muçulmanos gostariam de dizer e fazer, mas não podem. Nós gostamos disso, concordamos com ele".

"Tem gente que acha que ele é um herói, o muçulmano ideal, o epítome do que um árabe deve ser".

"Ele se tornou um símbolo de desafio em face da arrogância americana".

Pelos termos empregados, é evidente que não se trata das massas que têm protestado diariamente nas ruas empoeiradas das cidades paquistanesas, pisoteando bandeiras americanas com suas sandálias gastas. Esses pobres pés-sujos, gente ignorante e fanatizada por seus líderes religiosos, identificados pela proximidade territorial e pela etnia com os vizinhos afegãos do Talibã, não usam esse tipo de vocabulário. As declarações acima foram feitas por cidadãos instruídos da Arábia Saudita – respectivamente, um advogado de multinacional com dez anos de estudos nos Estados Unidos, um professor universitário e um jornalista, homens que provavelmente se dariam muito mal se Osama bin Laden implantasse a versão de autoritarismo teocrático que prega para seu país natal, mais fundamentalista ainda do que o sistema em vigor. São opiniões de apenas três pessoas – mas elas refletem o pensamento de milhões e milhões de muçulmanos. "A esmagadora maioria da sociedade saudita apóia Laden", disse a VEJA Saad al-Fagih, dirigente do Movimento por uma Reforma Islâmica na Arábia, um grupo de oposição à família real saudita com sede em Londres. Osama bin Laden nasceu na Arábia Saudita e está rompido com as autoridades locais porque se opõe à presença de americanos numa base militar que os EUA instalaram no país desde os tempos da Guerra do Golfo.

Os sauditas são apenas parte da platéia do terrorista. Do Oriente Médio ou da Ásia Central até a periferia do mundo muçulmano, como a distante Indonésia, chovem as manifestações de apoio a Laden. Essa adesão ao terror é muitas vezes justificada com a ajuda de teorias conspiracionistas ensandecidas. Ora os atentados contra Nova York e Washington foram praticados pelo Mossad, o serviço secreto de Israel, para lançar os Estados Unidos contra o Islã. Ora tudo foi feito com a conivência dos americanos, de maneira a criar um pretexto que lhes permita se apossar do petróleo e do gás natural da Ásia Central. Os ricos sauditas teriam perdido suas fortunas, seu estilo de vida e até seu país caso os Estados Unidos não os salvassem da gula territorial do iraquiano Saddam Hussein. No entanto, eles se esqueceram disso. Vêem Osama bin Laden como defensor da causa árabe contra os americanos maus, que se instalaram na Arábia Saudita, profanando com sua simples presença o santo solo onde nasceu o Islã. Mas não foi Saddam quem começou tudo há dez anos, quando invadiu o Kuwait e acabou provocando a vinda dos militares "infiéis"? Que nada, respondem, a sério, os sauditas. Foi tudo um plano maligno: os americanos incentivaram o ditador do Iraque a praticar suas perfídias para se infiltrar na Arábia Saudita e, claro, passar a mão no petróleo, sempre o petróleo.

 
AP
Reuters
TERRENO FÉRTIL
Rodeados de símbolos americanos, policiais e manifestante paquistanês: ódio aos EUA dita escolhas irracionais

Não é de estranhar que, com uma opinião pública assim, mesmo num regime autocrático como o saudita, os poderosos tenham receio de apoiar muito abertamente os Estados Unidos. "Numa democracia ocidental, quem perde o contato com o povo perde a eleição. Numa monarquia, perde a cabeça", filosofou o príncipe Bandar bin Sultan, o eterno embaixador saudita nos EUA. Na Palestina, o semblante lívido de Yasser Arafat é um retrato da aposta arriscadíssima que fez: mesmo ao preço de atrair a antipatia das massas palestinas, ele tem procurado distanciar-se ao máximo de Laden. Arafat, um ex-chefe terrorista que durante algum tempo não pôde pisar em solo americano, chegou a mandar a polícia palestina baixar o cassetete nos manifestantes que saíram às ruas de Gaza para dar apoio a Laden. Arafat, mesmo com seu passado ultra-radical, é um homem experiente e flexível. Tem bom trânsito entre as autoridades do Ocidente e parece entender perfeitamente o que significaria para a causa palestina ter suas aspirações confundidas com as do grupo terrorista de Osama bin Laden. Por isso, quer distância do saudita.

No Egito, onde o governo controla tudo e a posição oficial é de cautelosíssimo apoio aos Estados Unidos, as manifestações a favor de Laden são confinadas. Já ocorreu, porém, uma mudança perceptível nos ventos da opinião pública. Laden não era nada popular no país até recentemente, pois seu número 2, o fundamentalista egípcio Aiman al-Zawahiri, comandou a onda de atentados contra turistas estrangeiros que fez encolher uma fonte de renda vital para o Egito. "Agora, as pessoas começam a dizer que ele não é tão ruim assim, é até simpático, tem cara boa", descreve a jornalista Randa Achmawi. Na avaliação dela, a repercussão do vídeo divulgado pela Al Jazira foi simplesmente arrasadora – e o que pesou mais foi a referência à causa palestina, um tema que mobiliza maciçamente os egípcios.

 
AP
AFP
BATALHA DA PROPAGANDA
A agitação na Indonésia e o protesto, bem controlado, no Egito: "Laden não é tão ruim, tem cara boa"

Entra aí outro golpe de astúcia de Laden. Após enviar seus seqüestradores suicidas aos massacres em território americano, ele próprio seqüestrou a causa palestina. Depois de sair vitorioso em sua causa inicial – a luta contra os soviéticos que haviam invadido o Afeganistão –, Laden passou a se dedicar, de maneira cada vez mais radical, a outra bandeira: expulsar os americanos instalados em território saudita desde a guerra contra Saddam Hussein. Os documentos, as declarações de guerra santa e os próprios ataques terroristas praticados pela Al Qaeda tinham todos, basicamente, esse objetivo. A questão palestina era mencionada de passagem, no meio de uma lista de queixas abrangente. De repente, no vídeo divulgado há uma semana, logo depois de iniciados os bombardeios no Afeganistão, lá estava Laden, transformado em paladino dos palestinos e das criancinhas iraquianas vitimadas pelo embargo americano, outra causa para a qual nunca deu importância.

Trata-se de oportunismo evidente, mas há terreno favorável para isso no mundo muçulmano. Nesse universo de turbantes, instalou-se uma síndrome depressiva, provocada pelo atrito entre um passado de glórias e um presente de fracassos. Os regimes laicos, que prometiam a modernização, terminaram em ditaduras cruéis ou, no mínimo, ineficientes. Os regimes tradicionais, mesmo quando abençoados pelas benesses do petróleo, não conseguiram promover a guinada que traria progresso de verdade. A criação de Israel abriu uma chaga permanente e dolorosa. A esperança de cicatrizá-la com um acordo de paz que dê aos palestinos uma saída pelo menos parcialmente justa sofre um revés atrás do outro – e nenhum regime árabe jamais abriu mão de manipular a causa palestina para desviar as frustrações da massa. O apoio americano a Israel alimenta há décadas a fornalha onde crepita o ódio aos Estados Unidos, um sentimento que comanda escolhas irracionais, em que o inimigo do nosso inimigo é sempre nosso amigo não importam os horrores que faça. A onda pró-Laden que varre os países islâmicos é novidade apenas quanto ao personagem. Há dez anos, quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait, houve manifestações similares a favor do tirano do Iraque. Essa simpatia não mudou o rumo dos acontecimentos. Saddam foi derrotado pelos americanos. Agora, de novo, muita gente nos países muçulmanos está ficando do lado errado. Do lado, inevitavelmente, do perdedor.

 
 
   
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