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Edição 1 722 - 17 de outubro de 2001
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Vivendo como animais

AFP

A FILA POR UMA RAÇÃO
Num campo ao noroeste do Afeganistão, refugiados esperam por sua cota de trigo, chá, óleo e açúcar


Há quase duas décadas o Afeganistão é o país que mais produz refugiados no mundo. Segundo o último relatório da ONU sobre o assunto, existem 3,5 milhões de afegãos vivendo fora de seu território, para uma população total de 23 milhões de habitantes. Os afegãos, que já respondem por quase um terço de todos os refugiados existentes no mundo, vão ficar em situação cada vez pior enquanto perdurar a guerra em seu território. Nas últimas semanas, com a roupa do corpo e os poucos pertences amarrados no lombo de mulas, milhares e milhares de pessoas assustadas começaram a deixar o país em direção aos campos de refugiados espalhados por países vizinhos – principalmente o Paquistão. Segundo as estimativas mais modestas, o movimento pode tirar do país nos próximos dias nada menos que 1 milhão de afegãos.

Diante do novo movimento de fuga, toda a ajuda humanitária oferecida na forma de distribuição de barracas, comida e medicamentos tem se revelado incapaz de evitar as cenas trágicas que fazem parte do cotidiano dos acampamentos. A vida nesses lugares é tão ruim que só mesmo os horrores da guerra justificariam a longa jornada em direção às barracas de lona e à comida mandada pelos estrangeiros. Os refugiados estão espalhados por cerca de 150 acampamentos, localizados no próprio Afeganistão e em outros cinco países vizinhos: Paquistão, Irã, Turcomenistão, Uzbequistão e Tadjiquistão. A maioria dos acampamentos concentra-se na vizinhança das cidades paquistanesas de Peshawar e Islamabad, onde vivem hoje cerca de 2 milhões de afegãos. O martírio começa pelos locais escolhidos para a instalação dos acampamentos. Na tentativa de evitar que os refugiados fiquem vagando pelas áreas urbanas, destinaram-se a eles áreas inóspitas que, por si só, representam um desafio à sobrevivência humana. No verão, os termômetros batem na marca dos 50 graus. Em meio à zona desértica, não há sombra. Por isso, são freqüentes as mortes por insolação. O inverno é igualmente rigoroso – são comuns temperaturas negativas na casa dos dois dígitos. No ano passado, durante essa estação, dezenas de crianças morreram de frio. No panorama do horizonte, só há montanhas. No caso dos campos localizados no Afeganistão, as barracas não ficam muito longe de locais recheados de minas explosivas, herança dos tempos da ocupação soviética.

A vida dos refugiados é horrível. Mais de vinte pessoas moram amontoadas em cada uma das tendas, que na maior parte das vezes não passam de uma armação de madeira coberta por plástico ou roupas velhas. Falta água, a comida é cada vez mais escassa, 60% das crianças são subnutridas e morrem de diarréia. Doenças de pele, parasitas e febre tifóide também são comuns entre a população de refugiados. Se não bastasse, as pessoas ainda dividem o espaço com cobras e escorpiões, abundantes na região desértica. A vida por ali se resume a passar o tempo esperando uma ração diária de farinha de trigo, chá, óleo e açúcar, distribuída por entidades como a ONG francesa Acted e a britânica Medical Emergency Relief International.

O governo paquistanês reforçou a vigilância e instalou cercas de arame farpado em vários pontos da fronteira. Nada disso, porém, parece capaz de conter o desespero dos afegãos. Algumas estimativas dão conta de que mais de 10.000 deles conseguiram atravessar a barreira nas últimas semanas. A ajuda humanitária de 320 milhões de dólares anunciada há duas semanas pelo presidente George Bush e os milhares de caixas de rações atirados no território afegão nos intervalos dos bombardeios fazem parte de uma tentativa de conter o êxodo, porque se ele aumentar ficará mais complicado ainda o quadro de horrores dos campos de refugiados. Na outra ponta, as organizações internacionais têm realizado esforços monumentais em busca de mais dinheiro para amenizar o drama das pessoas alojadas nos países fronteiriços. A ONU lançou nas últimas semanas um apelo de emergência para receber 584 milhões de dólares, verba destinada a construir novos campos e conseguir mais comida. As principais ONGs envolvidas na questão realizavam nos últimos dias esforços quase desesperados para fazer chegar remédios e mantimentos aos refugiados, mas isso está cada vez mais difícil. Por causa da guerra, os aviões a serviço das entidades humanitárias esbarram nas restrições aos vôos, impostas pelos americanos com a anuência das autoridades do Paquistão. É uma corrida contra o tempo. Dentro de algumas semanas, vai começar o inverno.

Os afegãos fugiram pela primeira vez na época da ocupação do país pela ex-União Soviética. Entre 1985 e 1990, o exército de refugiados bateu na marca de 6 milhões de pessoas – um recorde absoluto na história. Com o fim do conflito, 4 milhões voltaram para o Afeganistão. Com a ascensão ao poder dos ultra-radicais do Talibã, uma nova debandada começou. Agora, a cena se repete sob os bombardeios americanos. O Afeganistão já era um inferno sem guerras. Agora, ficou pior.

 

 
 
   
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