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Vivendo
como animais
AFP

A
FILA POR UMA RAÇÃO
Num campo ao noroeste do Afeganistão, refugiados esperam por sua cota
de trigo, chá, óleo e açúcar |
Há quase duas décadas o Afeganistão é o país
que mais produz refugiados no mundo. Segundo o último relatório
da ONU sobre o assunto, existem 3,5 milhões de afegãos vivendo
fora de seu território, para uma população total de
23 milhões de habitantes. Os afegãos, que já respondem
por quase um terço de todos os refugiados existentes no mundo, vão
ficar em situação cada vez pior enquanto perdurar a guerra
em seu território. Nas últimas semanas, com a roupa do corpo
e os poucos pertences amarrados no lombo de mulas, milhares e milhares de
pessoas assustadas começaram a deixar o país em direção
aos campos de refugiados espalhados por países vizinhos principalmente
o Paquistão. Segundo as estimativas mais modestas, o movimento pode
tirar do país nos próximos dias nada menos que 1 milhão
de afegãos.
Diante do novo movimento de fuga, toda a ajuda humanitária oferecida
na forma de distribuição de barracas, comida e medicamentos
tem se revelado incapaz de evitar as cenas trágicas que fazem parte
do cotidiano dos acampamentos. A vida nesses lugares é tão
ruim que só mesmo os horrores da guerra justificariam a longa jornada
em direção às barracas de lona e à comida
mandada pelos estrangeiros. Os refugiados estão espalhados por
cerca de 150 acampamentos, localizados no próprio Afeganistão
e em outros cinco países vizinhos: Paquistão, Irã,
Turcomenistão, Uzbequistão e Tadjiquistão. A maioria
dos acampamentos concentra-se na vizinhança das cidades paquistanesas
de Peshawar e Islamabad, onde vivem hoje cerca de 2 milhões de
afegãos. O martírio começa pelos locais escolhidos
para a instalação dos acampamentos. Na tentativa de evitar
que os refugiados fiquem vagando pelas áreas urbanas, destinaram-se
a eles áreas inóspitas que, por si só, representam
um desafio à sobrevivência humana. No verão, os termômetros
batem na marca dos 50 graus. Em meio à zona desértica, não
há sombra. Por isso, são freqüentes as mortes por insolação.
O inverno é igualmente rigoroso são comuns temperaturas
negativas na casa dos dois dígitos. No ano passado, durante essa
estação, dezenas de crianças morreram de frio. No
panorama do horizonte, só há montanhas. No caso dos campos
localizados no Afeganistão, as barracas não ficam muito
longe de locais recheados de minas explosivas, herança dos tempos
da ocupação soviética.
A vida dos refugiados é horrível. Mais de vinte pessoas
moram amontoadas em cada uma das tendas, que na maior parte das vezes
não passam de uma armação de madeira coberta por
plástico ou roupas velhas. Falta água, a comida é
cada vez mais escassa, 60% das crianças são subnutridas
e morrem de diarréia. Doenças de pele, parasitas e febre
tifóide também são comuns entre a população
de refugiados. Se não bastasse, as pessoas ainda dividem o espaço
com cobras e escorpiões, abundantes na região desértica.
A vida por ali se resume a passar o tempo esperando uma ração
diária de farinha de trigo, chá, óleo e açúcar,
distribuída por entidades como a ONG francesa Acted e a britânica
Medical Emergency Relief International.
O governo paquistanês reforçou a vigilância e instalou
cercas de arame farpado em vários pontos da fronteira. Nada disso,
porém, parece capaz de conter o desespero dos afegãos. Algumas
estimativas dão conta de que mais de 10.000 deles conseguiram atravessar
a barreira nas últimas semanas. A ajuda humanitária de 320
milhões de dólares anunciada há duas semanas pelo
presidente George Bush e os milhares de caixas de rações
atirados no território afegão nos intervalos dos bombardeios
fazem parte de uma tentativa de conter o êxodo, porque se ele aumentar
ficará mais complicado ainda o quadro de horrores dos campos de
refugiados. Na outra ponta, as organizações internacionais
têm realizado esforços monumentais em busca de mais dinheiro
para amenizar o drama das pessoas alojadas nos países fronteiriços.
A ONU lançou nas últimas semanas um apelo de emergência
para receber 584 milhões de dólares, verba destinada a construir
novos campos e conseguir mais comida. As principais ONGs envolvidas na
questão realizavam nos últimos dias esforços quase
desesperados para fazer chegar remédios e mantimentos aos refugiados,
mas isso está cada vez mais difícil. Por causa da guerra,
os aviões a serviço das entidades humanitárias esbarram
nas restrições aos vôos, impostas pelos americanos
com a anuência das autoridades do Paquistão. É uma
corrida contra o tempo. Dentro de algumas semanas, vai começar
o inverno.
Os afegãos fugiram pela primeira vez na época da ocupação
do país pela ex-União Soviética. Entre 1985 e 1990,
o exército de refugiados bateu na marca de 6 milhões de
pessoas um recorde absoluto na história. Com o fim do conflito,
4 milhões voltaram para o Afeganistão. Com a ascensão
ao poder dos ultra-radicais do Talibã, uma nova debandada começou.
Agora, a cena se repete sob os bombardeios americanos. O Afeganistão
já era um inferno sem guerras. Agora, ficou pior.
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