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Os pobres de Alá

AP

A PERGUNTA
Cabul, antes dos bombardeios: seria o Islã uma barreira intransponível para o surgimento de uma sociedade rica, moderna e democrática?


A fotografia acima mostra uma cena da capital do Afeganistão, Cabul, antes do início da ofensiva militar americana. É uma imagem edulcorada, quase alegórica, da falta de perspectiva da população afegã. A pobreza, obviamente, não é uma exclusividade daquele país. E muito menos se trata de uma criação muçulmana. Mas, neste hiato politicamente incorreto que o mundo vive, há uma pergunta que finalmente pode ser feita: seria o Islã uma barreira intransponível para o surgimento de uma sociedade rica, moderna e democrática? As estatísticas, se não respondem a tal questão, oferecem ao menos uma constatação: não há nenhuma nação com maioria muçulmana que se situe entre as mais avançadas do mundo.

Ao contrário, a esmagadora maioria delas ocupa posições vexaminosas nas categorias que aferem o desenvolvimento humano e os graus de instrução e de liberdade da população (veja quadro). Nem mesmo os países do Golfo Pérsico, que embolsaram centenas de bilhões de dólares nos últimos 25 anos, por meio da exportação de petróleo, conseguiram (ou souberam, ou quiseram) melhorar o estado geral das coisas de maneira a incluir-se no clube dos desenvolvidos. Os petrodólares, na verdade, só serviram para aumentar a concentração de renda e criar simulacros de modernidade em meio às areias escaldantes do deserto. Para se ter uma idéia, a família real saudita detém 40% de toda a renda nacional.

Poder-se-ia culpar o catolicismo pelo atraso brasileiro, se o papa João Paulo II – ou Frei Betto, tanto faz – legislasse sobre assuntos econômicos. Afinal de contas, padres de direita e de esquerda são, em linhas gerais, contra o capitalismo e o anatematizam como se fosse o demo. Mas as batinas por aqui não têm muita voz, graças a Deus. O Brasil, assim como tantos outros integrantes do Terceiro Mundo, ainda está longe de ser um modelo de sociedade harmoniosa por motivos estritamente laicos, que vão da rapacidade da classe política a uma crônica falta de bom senso. No que se refere às nações islâmicas, no entanto, a religião espraia-se pelos campos econômico, social e moral de maneira sufocante. E não se está falando apenas dos regimes teocráticos, como o do Irã e o do Afeganistão. Mesmo nos países com um governo descolado formalmente da hierarquia religiosa, essa distância não é suficiente para neutralizar a crescente ingerência de imãs, aiatolás e ulemás em assuntos que se encontram fora do âmbito teológico. A exceção é a Turquia, que passou por um violento processo de ocidentalização forçada na década de 20.

 
AFP

MIRAGEM
O hotel Burj Al Arab, nos Emirados Árabes: a arquitetura pode ser arrojada, mas a paisagem verdadeira é de atraso

O problema é exatamente esse: entre os muçulmanos, a religião não é parte, mas cada vez mais o todo. Engana-se quem acha ser esse um pecado original. O totalitarismo islâmico – uma outra designação para o fundamentalismo que hoje Osama bin Laden encarna de forma tão assustadora – é produto recente, tem menos de meio século, como notou o jornalista Fareed Zakaria, da revista Newsweek. Ele foi adubado em terreno secular e árabe. Nasceu no Egito, na década de 50, como resistência ao processo de modernização que o então presidente Gamal Abdel Nasser procurou implementar a ferro e fogo. Nasser causou a reação fundamentalista ao tentar, por meio de uma repressão feroz, divorciar completamente o Estado da religião muçulmana. Falhou, como está claro, principalmente porque suas reformas nunca foram além do aspecto cosmético. E, ao falhar, abriu caminho para que o fundamentalismo ganhasse corpo dentro e fora das fronteiras egípcias.

No Ocidente, a reforma protestante do século XVI engendrou uma ética que, como demonstrou o sociólogo alemão Max Weber, acabaria por libertar o espírito empreendedor das amarras católicas e impulsionar o capitalismo. O fundamentalismo islâmico do século XX, e que adentra o XXI, é uma mentalidade que, do ponto de vista econômico e social, se originou da oposição cega a avanços de qualquer tipo. Alimenta-se da pobreza e, por isso mesmo, não pode ser apartado dela, sob pena de desaparecer como uma miragem. Daí a razão de seu discurso ser irracional – está sempre atrelado a causas genéricas e vagas, como o "pan-islamismo" e a "destruição do Grande Satã". Nunca se detém sobre as questões que realmente interessam. Em seu grande momento, a revolução iraniana de 1979, o fundamentalismo encontrou sua tradução mais fiel numa frase do aiatolá Khomeini: "A revolução refere-se ao Islã, e não ao preço dos melões".

 
AP

É SÓ PARA SAUDITA VER
A Fundação Rei Faisal, em Riad: não existe nação muçulmana entre as mais avançadas do mundo

O humorista Millôr Fernandes é autor de uma máxima preciosa: "Xadrez é um jogo chinês que aumenta a capacidade de jogar xadrez". Parafraseando Millôr, o fundamentalismo é um jogo árabe que aumenta a capacidade de ser fundamentalista. Ele não encerra projeto que vise, pelo menos em tese, ao desenvolvimento de um povo. No máximo, oferece migalhas assistencialistas – um modo eficiente, aliás, de arregimentar os jovens sem futuro que perambulam nas superpovoadas e caóticas metrópoles do Oriente Médio. A um fundamentalista cabe tão-somente vagar no inferno, com a esperança de alcançar um paraíso que não existe. Está respondida a pergunta do primeiro parágrafo.

 
 



Fontes: População: ONU (2001)/Índice de liberdade: Freedom House (2000-01)/Ranking de desenvolvimento humano: ONU (2000)/Liberdade de imprensa: Freedom House (2001)/Acesso à internet: Freedom House (2001)/Porcentual da população analfabeta: ONU (2000)

   
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