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A
CNN do Catar e seus furos
AFP
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À
MODA ÁRABE
Na redação de Doha: só não vale
mostrar o lado feio do Catar |
Ao
divulgar as imagens de Osama bin Laden conclamando seus seguidores à
guerra santa, logo após os primeiros bombardeios no Afeganistão,
uma rede de notícias até então desconhecida no Ocidente
ganhou as páginas dos jornais. Trata-se da Al Jazira, um canal
transmitido por satélite, com sede no emirado árabe do Catar
país com metade da área de Sergipe, 770 000 habitantes
e dono da terceira maior reserva de petróleo do mundo. Só
a Al Jazira tem acesso autorizado ao território afegão sob
controle do Talibã. Por isso, seus cinegrafistas em Cabul e Kandahar
foram os únicos a registrar de perto os ataques americanos. A rede
também é a escolhida sempre que Laden quer divulgar suas
mensagens como as ameaças de retaliação vociferadas
pelo porta-voz da Al Qaeda, o grupo comandado pelo terrorista, que foram
ao ar na última terça-feira.
A
Al Jazira nasceu de um capricho do emir Hamad bin Khalifa al-Thani, de
43 anos e fortuna pessoal de 5 bilhões de dólares. Em 1996,
um ano depois de apear seu pai do poder no Catar, ele pôs em prática
as idéias liberais que assimilara em seus estudos na Inglaterra.
"Sua Alteza quer mostrar aos estrangeiros um Catar moderno", disse a VEJA
o jordaniano Sami Haddad, editor-chefe na sucursal de Londres da Al Jazira.
Quando assumiu o controle do país, regido há séculos
pela lei islâmica e por costumes tribais, Khalifa al-Thani deu direito
de voto às mulheres, aboliu a censura total à imprensa e
promoveu eleições restritas. Para arrematar, criou a
Al Jazira ("A Ilha", em árabe). Em cinco anos de funcionamento,
a emissora consumiu 145 milhões de dólares. O emir contratou
a peso de ouro jornalistas que trabalhavam no extinto canal árabe
da BBC, em Londres, e instituiu uma comissão de notáveis
para definir a linha editorial da emissora. Isso dá alguma autonomia
à Al Jazira, sediada na capital do Catar, Doha, e lhe permite vender
a imagem de independência o que é ótimo para Khalifa
al-Thani. Na semana passada, o emir posou de imparcial depois que o secretário
de Estado americano, Colin Powell, lhe pediu para amaciar o que julgava
ser o antiamericanismo da cobertura. "Nessas coisas, não interfiro",
afirmou.
AP
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O
OUTRO LADO
Sami Haddad entrevista Tony Blair: Osama bin Laden não deve
ter gostado |
A
imparcialidade da Al Jazira, contudo, não é tão imparcial
assim. A emissora jamais abordou a vida duríssima que os imigrantes
indianos e paquistaneses levam no Catar. Ao se referir aos homens-bomba
palestinos, chama-os de "mártires". Também não são
claras as relações entre a Al Jazira e a organização
terrorista Al Qaeda. Muitos de seus jornalistas apoiariam correntes fundamentalistas,
acusa o jornal inglês The Times. "Há quem critique
nossa relação com o Talibã e a Al Qaeda. Mas qualquer
televisão do mundo cultivaria uma certa proximidade com esse pessoal,
para dar as notícias em primeira mão", justifica o editor-chefe
Haddad. De fato, muitas TVs correram para veicular as imagens geradas
pela emissora do Catar às vezes sem autorização,
já que desde o início da guerra a Al Jazira mantém
um acordo de exclusividade com a CNN. Na semana passada, o governo americano
pediu que as redes americanas tenham cautela ao divulgar entrevistas dos
terroristas à Al Jazira, por acreditar que elas possam conter mensagens
cifradas para seus companheiros.
Apesar das ressalvas que se possam fazer, a Al Jazira representa um avanço
e tanto no mundo muçulmano. A rede abre espaço para declarações
de líderes israelenses e, na semana passada, pôs no ar uma
entrevista com o primeiro-ministro britânico Tony Blair, em que
este bateu duro em Osama bin Laden. Além disso, veicula opiniões
de dissidentes políticos de outros países árabes,
motivo pelo qual os governos da região vivem ameaçando romper
relações com o Catar. A Arábia Saudita já
provocou apagões dentro de suas fronteiras para impedir a recepção
da Al Jazira. A Jordânia e a Autoridade Palestina de Yasser Arafat,
por sua vez, chegaram a interromper o trabalho das sucursais da rede em
seus territórios. A Al Jazira pode não ser perfeita, mas
é mesmo uma ilha.
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Al
Jazira
Ano de criação: 1996
Quem criou: o governo do Catar
Custo da implantação da emissora: 145
milhões de dólares
Número de funcionários: 450
Custo da implantação da emissora: 145
milhões de dólares
Número de funcionários: 450
Sucursais no exterior: 26
Público estimado: 35 milhões
de espectadores
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