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Edição 1 722 - 17 de outubro de 2001
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A CNN do Catar e seus furos

AFP
À MODA ÁRABE
Na redação de Doha: só não vale mostrar o lado feio do Catar

Ao divulgar as imagens de Osama bin Laden conclamando seus seguidores à guerra santa, logo após os primeiros bombardeios no Afeganistão, uma rede de notícias até então desconhecida no Ocidente ganhou as páginas dos jornais. Trata-se da Al Jazira, um canal transmitido por satélite, com sede no emirado árabe do Catar – país com metade da área de Sergipe, 770 000 habitantes e dono da terceira maior reserva de petróleo do mundo. Só a Al Jazira tem acesso autorizado ao território afegão sob controle do Talibã. Por isso, seus cinegrafistas em Cabul e Kandahar foram os únicos a registrar de perto os ataques americanos. A rede também é a escolhida sempre que Laden quer divulgar suas mensagens – como as ameaças de retaliação vociferadas pelo porta-voz da Al Qaeda, o grupo comandado pelo terrorista, que foram ao ar na última terça-feira.

A Al Jazira nasceu de um capricho do emir Hamad bin Khalifa al-Thani, de 43 anos e fortuna pessoal de 5 bilhões de dólares. Em 1996, um ano depois de apear seu pai do poder no Catar, ele pôs em prática as idéias liberais que assimilara em seus estudos na Inglaterra. "Sua Alteza quer mostrar aos estrangeiros um Catar moderno", disse a VEJA o jordaniano Sami Haddad, editor-chefe na sucursal de Londres da Al Jazira. Quando assumiu o controle do país, regido há séculos pela lei islâmica e por costumes tribais, Khalifa al-Thani deu direito de voto às mulheres, aboliu a censura total à imprensa e promoveu eleições – restritas. Para arrematar, criou a Al Jazira ("A Ilha", em árabe). Em cinco anos de funcionamento, a emissora consumiu 145 milhões de dólares. O emir contratou a peso de ouro jornalistas que trabalhavam no extinto canal árabe da BBC, em Londres, e instituiu uma comissão de notáveis para definir a linha editorial da emissora. Isso dá alguma autonomia à Al Jazira, sediada na capital do Catar, Doha, e lhe permite vender a imagem de independência – o que é ótimo para Khalifa al-Thani. Na semana passada, o emir posou de imparcial depois que o secretário de Estado americano, Colin Powell, lhe pediu para amaciar o que julgava ser o antiamericanismo da cobertura. "Nessas coisas, não interfiro", afirmou.

AP
O OUTRO LADO
Sami Haddad entrevista Tony Blair: Osama bin Laden não deve ter gostado

A imparcialidade da Al Jazira, contudo, não é tão imparcial assim. A emissora jamais abordou a vida duríssima que os imigrantes indianos e paquistaneses levam no Catar. Ao se referir aos homens-bomba palestinos, chama-os de "mártires". Também não são claras as relações entre a Al Jazira e a organização terrorista Al Qaeda. Muitos de seus jornalistas apoiariam correntes fundamentalistas, acusa o jornal inglês The Times. "Há quem critique nossa relação com o Talibã e a Al Qaeda. Mas qualquer televisão do mundo cultivaria uma certa proximidade com esse pessoal, para dar as notícias em primeira mão", justifica o editor-chefe Haddad. De fato, muitas TVs correram para veicular as imagens geradas pela emissora do Catar – às vezes sem autorização, já que desde o início da guerra a Al Jazira mantém um acordo de exclusividade com a CNN. Na semana passada, o governo americano pediu que as redes americanas tenham cautela ao divulgar entrevistas dos terroristas à Al Jazira, por acreditar que elas possam conter mensagens cifradas para seus companheiros.

Apesar das ressalvas que se possam fazer, a Al Jazira representa um avanço e tanto no mundo muçulmano. A rede abre espaço para declarações de líderes israelenses e, na semana passada, pôs no ar uma entrevista com o primeiro-ministro britânico Tony Blair, em que este bateu duro em Osama bin Laden. Além disso, veicula opiniões de dissidentes políticos de outros países árabes, motivo pelo qual os governos da região vivem ameaçando romper relações com o Catar. A Arábia Saudita já provocou apagões dentro de suas fronteiras para impedir a recepção da Al Jazira. A Jordânia e a Autoridade Palestina de Yasser Arafat, por sua vez, chegaram a interromper o trabalho das sucursais da rede em seus territórios. A Al Jazira pode não ser perfeita, mas é mesmo uma ilha.

 

Al Jazira

Ano de criação: 1996

Quem criou: o governo do Catar

Custo da implantação da emissora: 145 milhões de dólares

Número de funcionários: 450

Custo da implantação da emissora: 145 milhões de dólares

Número de funcionários: 450

Sucursais no exterior: 26

Público estimado: 35 milhões de espectadores



 
 
   
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