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Edição 1 722 - 17 de outubro de 2001
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O mulá Bibi Fonfom

AP
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PRÍNCIPE DAS TREVAS
O mulá Mohamed Omar (à esq.) tem visões que o mandam proibir coisas como música e pipas. Sob suas ordens, o Afeganistão adotou a lei do olho por olho. À direita, um assassino é morto pelo tio da vítima

O mulá Mohamed Omar, Comandante dos Fiéis e chefão incontestável do Talibã, gosta de sentar ao volante de um carro parado e brincar de motorista. Com a boca, simula o ronco do motor e o som da buzina, do jeito que fazem crianças de 6 anos: roam, bibi fonfom. O estranhíssimo comportamento foi relatado na semana passada ao jornal inglês Sunday Telegraph por um dos poucos homens que conhecem bem Omar – seu médico particular, agora refugiado no Paquistão, cujo nome não foi divulgado porque isso ajudaria a identificar seus familiares no Afeganistão. A intimidade do relacionamento entre médico e paciente abriu uma janela sobre um dos mais intrigantes personagens do momento. O que o médico diz é que o fanático religioso que conduziu um país miserável a um confronto militar com os Estados Unidos é doido varrido.

Aos 43 anos, Omar alterna crises de depressão com outras de euforia. Durante os surtos, ele fica confinado por dois ou três dias e tem visões de como deve ser um Estado islâmico puro. Foi assim que soube que Alá queria proibir as pipas, a música e os sapatos femininos que produzem ruído ao tocar o solo. O médico suspeita que a instabilidade mental decorra do fato de Omar ainda ter encravado no cérebro fragmentos do míssil soviético que arrancou seu olho direito, em 1989. Sobre isso só se pode especular, pois o mulá jamais permitiu que os médicos fizessem uma tomografia de seu cérebro. Um pedaço de metal embutido no cérebro é uma explicação razoável para a estranheza da vida que Omar levava com suas três mulheres e os cinco filhos na cidade de Kandahar, até os bombardeios americanos da semana passada. Não se sabe para onde o mulá fugiu, se foi ferido ou está morto – o Talibã diz que ele partiu quinze minutos antes de a primeira bomba atingir sua casa-fortaleza. Em tempos normais, ele pouco sai de casa. Só visitou duas vezes a capital, Cabul, depois que o Talibã a conquistou, em 1996. Não usa o telefone, raramente faz pronunciamentos públicos e se recusa a encontrar estrangeiros. Como não se deixa fotografar (só há duas fotos de seu rosto, uma delas publicada acima), a população afegã desconhece sua aparência. A esse respeito abriu-se outra janela. O jovem Hafiz Sadiqulla Hassani, que foi seu guarda-costas antes de fugir para o Paquistão, o descreveu da seguinte forma: "Ele tem altura média, é um pouco gordo, com um olho artificial verde, que não se mexe".

Filho mais velho de uma família de agricultores sem terra de uma aldeia perto de Kandahar, Omar não tem o pedigree dos chefes tribais que tradicionalmente mandam no Afeganistão. Sua formação religiosa é igualmente precária e só sabe escrever o próprio nome. Mas se tornou conhecido durante a guerra contra os soviéticos por seu fervor religioso e pela integridade moral. Sua sorte começou a mudar em 1994, quase por acidente. O Afeganistão estava esfacelado por facções rivais numa eterna guerra civil. Vizinhos pediram sua ajuda para socorrer duas moças raptadas e estupradas por um comandante guerrilheiro. À frente de algumas dezenas de estudantes religiosos, Omar libertou as moças e enforcou o estuprador no canhão de um tanque. Dessa ação surgiu o Talibã, cujo nome significa estudante. O momento decisivo da carreira de Omar foi o encontro com Osama bin Laden. A riqueza, o carisma e o fanatismo do saudita conquistaram a alma do aldeão Omar. Tornaram-se amigos e aliados. O guarda-costas Hassani lembra que gostavam de sair juntos para pescar com granadas. A aliança foi selada quando Laden se casou com uma das filhas do mulá. Laden obteve autorização e guarnições para instalar campos de treinamentos da Al Qaeda no Afeganistão. Em troca, construiu um bunker para que Omar pudesse viver em segurança na cidade de Kandahar. Também recrutou milhares de árabes para combater pelo Talibã e financiou negócios que incluíram o controle das exportações de heroína, a principal riqueza do Afeganistão. Hassani assegura que o Talibã virou refém do terrorista saudita. "Foi engraçado quando os americanos pediram a Omar que entregasse Laden", diz o ex-guarda-costas. "Na verdade, é Laden quem pode entregar Omar."

 
 
   
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