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O mulá Bibi
Fonfom
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PRÍNCIPE
DAS TREVAS
O mulá Mohamed Omar (à esq.) tem visões
que o mandam proibir coisas como música e pipas. Sob suas ordens,
o Afeganistão adotou a lei do olho por olho. À direita,
um assassino é morto pelo tio da vítima |
O
mulá Mohamed Omar, Comandante dos Fiéis e chefão
incontestável do Talibã, gosta de sentar ao volante de um
carro parado e brincar de motorista. Com a boca, simula o ronco do motor
e o som da buzina, do jeito que fazem crianças de 6 anos: roam,
bibi fonfom. O estranhíssimo comportamento foi relatado na semana
passada ao jornal inglês Sunday Telegraph por um dos poucos
homens que conhecem bem Omar seu médico particular, agora
refugiado no Paquistão, cujo nome não foi divulgado porque
isso ajudaria a identificar seus familiares no Afeganistão. A intimidade
do relacionamento entre médico e paciente abriu uma janela sobre
um dos mais intrigantes personagens do momento. O que o médico
diz é que o fanático religioso que conduziu um país
miserável a um confronto militar com os Estados Unidos é
doido varrido.
Aos 43 anos,
Omar alterna crises de depressão com outras de euforia. Durante
os surtos, ele fica confinado por dois ou três dias e tem visões
de como deve ser um Estado islâmico puro. Foi assim que soube que
Alá queria proibir as pipas, a música e os sapatos femininos
que produzem ruído ao tocar o solo. O médico suspeita que
a instabilidade mental decorra do fato de Omar ainda ter encravado no
cérebro fragmentos do míssil soviético que arrancou
seu olho direito, em 1989. Sobre isso só se pode especular, pois
o mulá jamais permitiu que os médicos fizessem uma tomografia
de seu cérebro. Um pedaço de metal embutido no cérebro
é uma explicação razoável para a estranheza
da vida que Omar levava com suas três mulheres e os cinco filhos
na cidade de Kandahar, até os bombardeios americanos da semana
passada. Não se sabe para onde o mulá fugiu, se foi ferido
ou está morto o Talibã diz que ele partiu quinze
minutos antes de a primeira bomba atingir sua casa-fortaleza. Em tempos
normais, ele pouco sai de casa. Só visitou duas vezes a capital,
Cabul, depois que o Talibã a conquistou, em 1996. Não usa
o telefone, raramente faz pronunciamentos públicos e se recusa
a encontrar estrangeiros. Como não se deixa fotografar (só
há duas fotos de seu rosto, uma delas publicada acima), a população
afegã desconhece sua aparência. A esse respeito abriu-se
outra janela. O jovem Hafiz Sadiqulla Hassani, que foi seu guarda-costas
antes de fugir para o Paquistão, o descreveu da seguinte forma:
"Ele tem altura média, é um pouco gordo, com um olho artificial
verde, que não se mexe".
Filho mais
velho de uma família de agricultores sem terra de uma aldeia perto
de Kandahar, Omar não tem o pedigree dos chefes tribais que tradicionalmente
mandam no Afeganistão. Sua formação religiosa é
igualmente precária e só sabe escrever o próprio
nome. Mas se tornou conhecido durante a guerra contra os soviéticos
por seu fervor religioso e pela integridade moral. Sua sorte começou
a mudar em 1994, quase por acidente. O Afeganistão estava esfacelado
por facções rivais numa eterna guerra civil. Vizinhos pediram
sua ajuda para socorrer duas moças raptadas e estupradas por um
comandante guerrilheiro. À frente de algumas dezenas de estudantes
religiosos, Omar libertou as moças e enforcou o estuprador no canhão
de um tanque. Dessa ação surgiu o Talibã, cujo nome
significa estudante. O momento decisivo da carreira de Omar foi o encontro
com Osama bin Laden. A riqueza, o carisma e o fanatismo do saudita conquistaram
a alma do aldeão Omar. Tornaram-se amigos e aliados. O guarda-costas
Hassani lembra que gostavam de sair juntos para pescar com granadas. A
aliança foi selada quando Laden se casou com uma das filhas do
mulá. Laden obteve autorização e guarnições
para instalar campos de treinamentos da Al Qaeda no Afeganistão.
Em troca, construiu um bunker para que Omar pudesse viver em segurança
na cidade de Kandahar. Também recrutou milhares de árabes
para combater pelo Talibã e financiou negócios que incluíram
o controle das exportações de heroína, a principal
riqueza do Afeganistão. Hassani assegura que o Talibã virou
refém do terrorista saudita. "Foi engraçado quando os americanos
pediram a Omar que entregasse Laden", diz o ex-guarda-costas. "Na verdade,
é Laden quem pode entregar Omar."
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