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Edição 1 722 - 17 de outubro de 2001
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O medo aumenta

Fotos AP
UM ATAQUE?
Policiais com roupas especiais examinam o prédio da American Media, na Flórida, no que pode ser o primeiro atentado terrorista com armas biológicas

O bacilo anthrax, a mais temida entre as armas biológicas, nunca havia sido utilizado em atentados terroristas. Há, no entanto, fortes indícios de que isso tenha ocorrido pela primeira vez – e a notícia provocou um arrepio de pavor nos Estados Unidos. Três funcionários da editora American Media, sediada em Boca Raton, na Flórida, foram contaminados pelo bacilo. Um deles, o fotógrafo Robert Stevens, morreu. Os outros dois, o distribuidor de correspondência Ernesto Blanco, de 73 anos, e uma mulher de 35 anos que não teve seu nome divulgado, estavam sendo tratados com antibióticos até a quinta-feira passada. As primeiras investigações encontraram anthrax em pó no teclado do computador usado por Robert Stevens, que exercia o cargo de editor de fotografia num tablóide. Os três foram contaminados por via respiratória. O FBI, a polícia federal americana, lacrou o prédio por trinta dias. Durante esse período, agentes protegidos com roupas e máscaras especiais verificarão se há outros ambientes infectados. Cerca de 800 pessoas, entre funcionários da American Media e seus familiares, foram chamados a fazer exames na semana passada. Até quinta-feira não se sabia ainda da totalidade dos resultados.


A PRIMEIRA VÍTIMA
O chefe de fotografia Stevens: anthrax no teclado do computador

Desde 1976 não se registrava um caso de contaminação por anthrax nos Estados Unidos. O bacilo é muito traiçoeiro. Se inalado ou ingerido, provoca a princípio mal-estares parecidos com os de uma gripe ou os de um distúrbio intestinal simples. Somente uma semana depois da contaminação é que surgem os sinais mais claros da doença, na forma de infecções no pulmão ou no aparelho digestivo. Elas podem levar à morte em 24 horas. Quando esses sintomas mais graves aparecem costuma ser tarde demais para o tratamento. É preciso atacar o bacilo antes disso, com antibióticos potentes (veja quadro). Por causa das ocorrências na Flórida, o medo de um ataque terrorista com anthrax passou a assombrar ainda mais a população americana. Só na semana passada, a polícia recebeu mais de trinta denúncias de possíveis atentados com a temida arma biológica. Nenhuma se confirmou. Um dos episódios mais assustadores se deu em Washington: Kenneth Ranger, um jovem de 23 anos aparentando desequilíbrio mental, invadiu um vagão do metrô. Com um spray, ele borrifou um líquido em vários dos passageiros, o que provocou pânico generalizado. Uma brigada de soldados vestidos com trajes especiais contra ataques biológicos foi chamada para prender Ranger. Muitos passageiros se sentiram mal, mas as primeiras investigações revelaram que o spray de Ranger continha apenas uma mistura de água com detergente.

Fotos AP
À PROCURA DE PROTEÇÃO
Logo depois do dia 11, aumentou a venda de máscaras contra gases. Agora, cresce também o consumo de antibióticos

Os americanos, que logo após os atentados do dia 11 de setembro haviam acorrido às lojas em busca de máscaras, começaram a comprar também grandes quantidades de antibióticos. A procura é tanta que o laboratório Bayer anunciou que iria aumentar em 25% a fabricação da ciprofloxacina, considerada um dos medicamentos mais eficientes no combate ao anthrax. Pelo menos 1.000 pessoas bateram à porta também do laboratório BioPort, o único autorizado a produzir a vacina contra anthrax. Todas receberam a mesma resposta: a de que o medicamento era fornecido exclusivamente para as Forças Armadas. Antes que o pavor tomasse conta da população dos Estados Unidos, o anthrax já era uma das grandes preocupações dos militares americanos. O alarme vermelho soou em 1990, pouco antes da eclosão da Guerra do Golfo. Como se sabia que o Iraque de Saddam Hussein era um notório produtor do bacilo, os Estados Unidos desenvolveram um programa de emergência para vacinar as tropas que iam lutar no Oriente Médio.

ALARME FALSO
Um homem causou pânico no metrô de Washington, ao borrifar um líquido em vários passageiros. Era água com detergente

A dor de cabeça aumentou quando se descobriu que a antiga União Soviética armazenara uma quantidade de anthrax suficiente para matar toda a população dos Estados Unidos. Boa parte desse arsenal biológico teve destino incerto depois do esfacelamento do império comunista. Outro prum líquido em vários passageiros. Era água com detergente

A dor de cabeça aumentou quando se descobriu que a antiga União Soviética armazenara uma quantidade de anthrax suficiente para matar toda a população dos Estados Unidos. Boa parte desse arsenal biológico teve destino incerto depois do esfacelamento do império comunista. Outro problema é que na antiga União Soviética havia pelo menos 30.000 profissionais envolvidos com a produção de armas químicas, entre eles vários cientistas. Com a pauperização do país, muitos perderam o emprego – e há suspeitas de que alguns tenham alugado seus cérebros para países que sustentam o terrorismo. Diante desse panorama, foi criado em 1997 um programa de vacinação em massa das Forças Armadas americanas. A idéia era que a iniciativa se estendesse aos 2,4 milhões de soldados dos Estados Unidos, mas apenas 520.000 foram imunizados até agora. A única fábrica que produz a vacina – cuja eficácia ainda não foi suficientemente testada – não está dando conta da demanda. O medo de ataques terroristas com anthrax está longe de ser uma paranóia. Basta que um grupo disponha de um pequeno avião pulverizador, desses usados em plantações, para contaminar milhares de pessoas. Não seria tão espetacular quanto colocar abaixo as torres gêmeas, mas poderia matar ainda mais gente.

 


 
 
   
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