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Edição 1 722 - 17 de outubro de 2001
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O míssil e o barbudo

Fotos Reuters

RESPOSTA FEROZ
Bombardeios com mísseis Tomahawk arrasaram posições do Talibã e puseram em fuga os terroristas no Afeganistão. A reação veio com a ameaça de uma campanha terrorista sem fronteira: porta-voz de Laden (no detalhe) promete que "tempestade de aviões não vai parar"


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Os alvos bombardeados nesta primeira semana

O que se deve esperar do futuro depois de os bombardeios americanos terem esfarelado o aparato militar do Talibã? Na semana passada, com o poderio bélico da superpotência rugindo sobre o Afeganistão, o que se ouvia das hostes do terrorismo era o desafio de uma guerra prolongada e sem fronteiras. Poucas horas depois de caírem as primeiras bombas, no domingo 7, Osama bin Laden conclamou todos os muçulmanos à Jihad, uma guerra santa. O cenário dessa batalha foi antecipado pelas palavras de Suleiman Abu Ghaith, o kuwaitiano barbudo que é o porta-voz da Al Qaeda, a organização de Laden. Depois de elogiar como "boa façanha" os atentados de 11 de setembro, Abu Ghaith profetizou: "A chuva de aviões não vai parar. Há milhares de jovens nas nações islâmicas ansiosos por morrer, enquanto os americanos estão ansiosos por viver".

O risco de um contra-ataque terrorista é real e os americanos encaram com seriedade quase paranóica a possibilidade de represálias dentro de casa. A intensidade da resposta do fundamentalismo depende, contudo, de quem, no núcleo central da Al Qaeda, sobreviverá à ofensiva militar dos Estados Unidos e seus aliados. Na primeira semana do confronto entre o míssil Tomahawk e o fundamentalismo islâmico, os barbudos estavam tomando uma tremenda surra. A aviação americana e inglesa só precisou de três dias de bombardeios para assumir total controle do espaço aéreo do Afeganistão. A partir daí, pôde começar a atacar à luz do dia.

Para os milicianos afegãos, a única estratégia que fazia sentido era abandonar quartéis e cidades e correr para esconderijos nas montanhas – ou fugir para países vizinhos. Osama bin Laden e seus auxiliares correram para as montanhas. As casas de dois andares cercadas de muros altos em que viviam os terroristas árabes da Al Qaeda, no afluente subúrbio de Wazir Akbar Khan, em Kandahar, estão agora trancadas e vazias. Na mesma cidade, os bombardeios puseram abaixo a casa-fortaleza do mulá Mohamed Omar, líder espiritual do Talibã. As notícias oficiais são de que ele escapou ileso, mas alguns chefes do Talibã e parentes de Omar morreram no bombardeio. No quarto dia de investida, pela primeira vez os Estados Unidos atacaram as cavernas e casamatas subterrâneas da Al Qaeda com bombas de 2.500 quilos. Guiadas por raio laser, elas penetram até 30 metros na terra ou 6 metros no concreto para só então explodir.

Não é exagero dizer que a sobrevivência de tantos chefes terroristas decorre do fato de, até a quinta-feira passada, o comando aliado não ter começado a lidar com o mais formidável desafio dessa guerra. Depois dos ataques aéreos, eles terão de desenvolver o ataque terrestre a Laden e ao Talibã nas fortalezas encravadas nas montanhas. Agora, chegou o momento de entrar com os cardumes de helicópteros que descem para bombardear bem de perto fortalezas, covas e artilharia antiaérea. Os helicópteros também podem levar soldados para o avanço mais dramático: a luta no chão entre comandos e milicianos afegãos. Há tropas americanas em duas bases militares paquistanesas próximas à fronteira afegã. Mais soldados aliados, com seus helicópteros e aviões, esperam no Uzbequistão, uma ex-república soviética que faz divisa com a região afegã disputada pela Aliança do Norte, o inimigo do Talibã na guerra interna. Soldados ingleses, alemães, franceses e, dizem os jornais de Moscou, até russos devem participar dessas batalhas. Por enquanto, apesar de ter suas maiores instalações trituradas pelo bombardeio, a Al Qaeda está longe de ter sido derrotada. Com uma estrutura frouxa e armas leves, tanto os terroristas de Laden quanto os milicianos do Talibã podem refugiar-se em lugares ermos e cair na guerrilha, atividade na qual os afegãos são mestres. Podem também procurar refúgio em países vizinhos e organizar incursões militares ocasionais. Na semana passada, o Exército paquistanês trocou tiros com tropas do Talibã que tentavam deixar o Afeganistão. Também capturaram um esquadrão de cinco helicópteros que cruzou a fronteira para se proteger do bombardeio americano.

 
AP

DOMÍNIO DO CÉU
Militares americanos carregam avião com uma bomba: defesa antiaérea eliminada em três dias

A

AP

DOMÍNIO DO CÉU
Militares americanos carregam avião com uma bomba: defesa antiaérea eliminada em três dias

A operação da semana passada seguiu o padrão clássico militar, quase sem risco para o atacante. A receita era usar primeiro bombardeios pesados para enfraquecer o inimigo e preparar a ofensiva por terra. Voando a grandes altitudes, fora do alcance dos mísseis antiaéreos do Talibã, a aviação americana cuidou de destruir aeroportos, guarnições militares e aviões do inimigo. Também aniquilou torres e centros de comunicações, para impedir que as unidades do Talibã falem umas com as outras ou com o quartel-general na cidade de Kandahar. A partir do momento em que controlou o espaço aéreo, a aviação americana pôde voar mais próxima do solo e disparar contra objetivos menores, como blindados e tropas. Diante da pobreza material do inimigo, os pilotos não demoraram a chegar ao fim da lista original de objetivos e foi necessário autorizar a busca de "alvos emergentes". Significa, no jargão do Pentágono, disparar contra qualquer movimento militar no solo. O acelerado colapso do sistema de defesa antiaérea não chega a ser vergonhoso para a milícia Talibã. Nenhum país, com exceção da Rússia, tem condições de fazer frente à tecnologia aérea mobilizada pelos Estados Unidos para essa guerra.

Os aviões americanos voam alto demais para ser atingidos por canhões convencionais e têm recursos eletrônicos para despistar os mais sofisticados mísseis terra-ar. Só nos dois primeiros dias, os navios ancorados no Oceano Índico enviaram 65 Tomahawk, com efeitos devastadores para as posições afegãs. Esses mísseis computadorizados, com 5,5 metros de comprimento, 1.600 quilos e custo de quase 1 milhão de dólares a peça, atingem seus objetivos em Cabul, a mais de 1.000 quilômetros de distância, com margem de erro de 10 metros. A saraivada foi modesta se comparada aos oitenta mísseis lançados pelos Estados Unidos nos campos de treinamento de Laden depois dos atentados contra as embaixadas na Tanzânia e no Quênia, em 1998, atos terroristas atribuídos ao saudita. Com um arsenal que brilha mais por suas peças de museu que pelas de artilharia, o Talibã é especialmente indefeso diante de ataques aéreos. Até o início dos ataques, a milícia dispunha de algumas baterias de mísseis terra-ar fabricados na União Soviética, três dezenas de aviões de combate e umas 300 peças de artilharia antiaérea. É possível que a maior parte desse equipamento tenha sido fulminada na semana passada.


Reuters

MENTIRA PARA FUGIR
O afegão Assadullah, de 16 anos, entrou no Paquistão dizendo ser vítima de ataque americano. Descobriu-se depois que só queria deixar o país: ferimentos foram causados por uma dos 10 milhões de minas enterradas no Afeganistão


Mesmo em terra, numa batalha com armas pessoais, o soldado americano leva vantagem contra um inimigo do Terceiro Mundo. Não apenas por causa do maior poder de fogo de seu armamento, mas porque conta com melhor transporte e inigualável capacidade de comunicação. Pela primeira vez, os Estados Unidos pretendem fornecer a seus soldados no campo de batalha informações instantâneas sobre a movimentação do inimigo, que será monitorado por satélites e aviões. Um mistério é o número de homens armados à disposição da milícia fundamentalista que controla 90% do território afegão. Sabe-se que ela pode dispor de 5.000 ou 7.000 árabes e paquistaneses, terroristas graduados dos campos de treinamento de Osama bin Laden. Quanto ao restante, é preciso esperar o início dos combates cara a cara para saber quem fica, quem cai fora. "O Talibã tem entre 40.000 e 60.000 homens em armas", disse um oficial do Pentágono. "Esses 40.000 podem tornar-se 20.000 da noite para o dia e 10.000 numa semana." O fato é que incentivar deserções e mudança de lado é um recurso eficiente nas guerras afegãs. A fama de bom combatente desse povo tem mais a ver com conceitos de honra, prestígio e lucro pessoal que com perícia militar no sentido tradicional. Richard Kidd, um militar inglês que treinou guerrilheiros na guerra contra os russos, nos anos 80, diz que uma batalha considerada "boa" pelos afegãos era aquela com muito barulho e boa iluminação, quando todos podiam demonstrar sua bravura e contribuição na luta.

"A habilidade apresentada pelos afegãos na condução de operações militares de grande envergadura é limitada por fatores culturais", diz Kidd. "A ordem de batalha é feudal, com os combatentes empenhando lealdade a um comandante e, por intermédio desse, a uma tribo, clã, partido político ou associação religiosa." Forças afegãs envolvidas na luta podem virar-se uma contra a outra por vingança ou perspectiva de lucro. Durante a guerra com os russos, a resistência nem sequer chegou a formar uma frente única. Eram sete grupos principais, cada um representando uma diferente coligação tribal ou associação religiosa. Chegaram a combater entre si para ver quem ficava com os mísseis Stinger fornecidos pelos americanos para ajudar os afegãos na expulsão dos soviéticos. Esses canhões leves, colocados sobre o ombro, são capazes de abater aviões e helicópteros a 5 quilômetros de distância. Muitos desses mísseis continuam em mãos de afegãos. Serão um dos pesadelos para as forças aliadas nesta guerra. Apesar de serem os fabricantes dos Stinger, os americanos não desenvolveram uma defesa efetiva contra eles. Alguns exemplares recuperados na Ásia Central e testados nos Estados Unidos continuavam a funcionar, apesar de duas décadas sem manutenção. Os talibãs mudaram um tanto as regras do jogo. Muitos de seus milicianos são órfãos criados em escolas religiosas no Paquistão, indiferentes à identidade tribal e fiéis apenas ao fundamentalismo fanático do mulá Omar.

Num país como o Afeganistão é prudente esperar que as coisas ocorram de acordo com a tradição. Na semana passada, um comandante importante do Talibã, chamado Nuridin Ahmady, bandeou-se para as forças inimigas da Aliança do Norte, levando consigo outros 35 comandantes e 1.000 homens. Foi um desastre para a milícia fundamentalista, pois a força que trocou de lado controla a principal rota de suprimento das tropas do Talibã no norte do país. Numa entrevista à imprensa ocidental, Ahmady contou que fez o primeiro contato com a Aliança do Norte há dois meses, 21 dias depois de o Talibã ter matado seu irmão. Esse episódio contém um ensinamento para qualquer estrangeiro que lutar no Afeganistão: a morte de civis não é apenas um dano colateral de péssima repercussão, mas pode ser o início de uma incansável rixa com a família do morto. Antes de se tornar obrigatória sob o regime do Talibã, a lei do olho por olho já era usual entre os afegãos. Na semana passada, a Aliança do Norte fez pequenos avanços. Uma das primeiras cidades que pode tentar capturar é Mazar-e-Sharif, conquistada pelo Talibã em 1998. Habitada em sua maioria pela etnia uzbeque, fica a menos de 200 quilômetros de Cabul, e a ligação entre ambas é uma das únicas estradas asfaltadas do país. Ou seja, se for tomada pela Aliança do Norte, o caminho está aberto para Cabul.

A aviação americana castigou as tropas do Talibã diante de Mazar-e-Sharif. Para irritação da Aliança do Norte, contudo, pouco fez para debilitar as forças em torno de Cabul. Isso ocorre porque os Estados Unidos temem conceder a vitória a uma única facção afegã e provocar uma repetição da guerra civil que se seguiu à derrota da União Soviética, na década passada. Isso seria inevitável, pois a Aliança representa etnias minoritárias, enquanto o Talibã é patane, o grupo majoritário. Antes disso, Washington está tentando ganhar a simpatia da população local – e também esfriar ressentimentos em outras nações muçulmanas – com a distribuição de comida e remédios. Também não está fora de cogitação comprar, com dinheiro e postos políticos, a adesão de comandantes talibãs e chefes tribais. Essa é uma guerra que não pode ser vencida simplesmente com força bruta – sobretudo porque não termina com a aniquilação do fundamentalismo terrorista no Afeganistão. Al Qaeda promete travar uma guerra sem fronteiras. Os americanos e seus aliados se arriscarão a bombardear outros países? No mercado de palpites, os ninhos de terroristas no Sudão e na Somália são os primeiros da lista para futuros bombardeios. O Iraque do eterno encrenqueiro Saddam Hussein é outro que, por mérito próprio, se coloca como alvo. Decidir o que fazer depois é tão crucial como estabelecer limites para a atual campanha. "Nós podemos descobrir que nossa autodefesa requer ações contra outras organizações e outros Estados", disse o embaixador americano nas Nações Unidas, John Negroponte. Talvez, como a chuva de aviões prometida por Laden, a chuva de bombas sobre os redutos terroristas deva continuar por muito tempo.

 
 
   
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