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O
Brasil é um terror
"Como
no Maine, o máximo
que nossas cidades oferecem
ao turista é retirar dinheiro do
caixa eletrônico. Mas aqui ele tem
grande chance de ser assaltado"
Na noite anterior aos atentados nos Estados Unidos, dois terroristas foram
visitar o Estado do Maine. Ninguém sabe o motivo da visita. Talvez
tenham sido atraídos por um cartaz colocado na estrada: "Maine:
Merece uma visita. Merece a vida toda". No Maine, os terroristas fizeram
compras num supermercado, encheram o tanque de gasolina, comeram por quinze
minutos num restaurante da Pizza Hut e retiraram dinheiro de dois caixas
eletrônicos. Os agentes do FBI que reconstruíram seus últimos
passos evitaram fornecer maiores detalhes, impedindo, inclusive, os funcionários
da Pizza Hut de comunicar à imprensa se os terroristas pediram
um Cheese Lover's Plus (com queijo e mais dois ingredientes) ou um Hawaiian
(com abacaxi, mas sem presunto, por favor). O porta-voz da Secretaria
de Segurança do Maine comentou que os terroristas fizeram exatamente
o mesmo que os outros turistas que costumam visitar o Estado. Se retirar
dinheiro de um caixa eletrônico é o melhor que o Maine pode
oferecer em matéria de turismo, é bastante provável
que a visita tenha reforçado o propósito suicida dos terroristas,
convencendo-os de que a vida é bem pouca coisa.
Enquanto os terroristas do Terceiro Mundo se aborreciam no Maine, milhares
de americanos viajavam pelas zonas mais desastradas do Terceiro Mundo,
praticando aquilo que foi chamado de "turismo-realidade". Trata-se de
uma mistura de turismo com trabalho voluntário. Pela módica
quantia de 1.595 dólares, o turista pode passar nove dias na Costa
Rica, colhendo café para uma cooperativa. Pagando 2.095 dólares,
ele tem a oportunidade de trabalhar por duas semanas numa creche em Tutova,
Romênia. Por 1.895 dólares, é levado a um centro de
crianças deficientes na periferia de Quito, Equador. Por 1.945
dólares, passa três semanas no vilarejo de Ho, Gana. Por
1.400 dólares, passeia pelas ruínas da Guerra do Vietnã.
A agência americana Global Exchange também promove um sightseeing
politicamente correto pela miséria do Brasil. Em vez de mostrar
ao turista o Corcovado ou as Cataratas de Foz do Iguaçu, leva-o
a favelas para "verificar o estado dos meninos de rua" e informar-se "sobre
a corrupção da polícia carioca", organiza encontros
com membros do Movimento dos Sem-Terra e coloca-o em debates com personalidades
como José Bové, no Fórum Social de 2002, em Porto
Alegre. Tudo por 1.800 dólares. Como no caso das outras viagens,
as taxas incluem hospedagem, guias e refeições com pratos
típicos. Ficam de fora apenas as passagens aéreas. Todas
as despesas podem ser deduzidas do imposto de renda. Aceitam-se Visa e
MasterCard.
Muita gente se perguntou como o mundo mudaria depois dos atentados terroristas
contra os Estados Unidos. Neste cenário de guerra, em que os verdadeiros
voluntários correm alto risco de vida, uma das mudanças
mais previsíveis é o encolhimento do "turismo-realidade".
Mais uma chance perdida para o Brasil. De certa forma, combinamos o melhor
dos dois mundos. Como no Maine, o máximo de divertimento que nossas
cidades oferecem ao turista é retirar dinheiro do caixa eletrônico,
mas é grande a probabilidade de que isso também lhe propicie
o excitante contato com um pouco de realidade, sendo assaltado na saída.
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