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Edição 1 722 - 17 de outubro de 2001
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O Brasil é um terror

"Como no Maine, o máximo
que nossas cidades oferecem
ao turista é retirar dinheiro do
caixa eletrônico. Mas aqui ele tem
grande chance de ser assaltado"

Na noite anterior aos atentados nos Estados Unidos, dois terroristas foram visitar o Estado do Maine. Ninguém sabe o motivo da visita. Talvez tenham sido atraídos por um cartaz colocado na estrada: "Maine: Merece uma visita. Merece a vida toda". No Maine, os terroristas fizeram compras num supermercado, encheram o tanque de gasolina, comeram por quinze minutos num restaurante da Pizza Hut e retiraram dinheiro de dois caixas eletrônicos. Os agentes do FBI que reconstruíram seus últimos passos evitaram fornecer maiores detalhes, impedindo, inclusive, os funcionários da Pizza Hut de comunicar à imprensa se os terroristas pediram um Cheese Lover's Plus (com queijo e mais dois ingredientes) ou um Hawaiian (com abacaxi, mas sem presunto, por favor). O porta-voz da Secretaria de Segurança do Maine comentou que os terroristas fizeram exatamente o mesmo que os outros turistas que costumam visitar o Estado. Se retirar dinheiro de um caixa eletrônico é o melhor que o Maine pode oferecer em matéria de turismo, é bastante provável que a visita tenha reforçado o propósito suicida dos terroristas, convencendo-os de que a vida é bem pouca coisa.

Enquanto os terroristas do Terceiro Mundo se aborreciam no Maine, milhares de americanos viajavam pelas zonas mais desastradas do Terceiro Mundo, praticando aquilo que foi chamado de "turismo-realidade". Trata-se de uma mistura de turismo com trabalho voluntário. Pela módica quantia de 1.595 dólares, o turista pode passar nove dias na Costa Rica, colhendo café para uma cooperativa. Pagando 2.095 dólares, ele tem a oportunidade de trabalhar por duas semanas numa creche em Tutova, Romênia. Por 1.895 dólares, é levado a um centro de crianças deficientes na periferia de Quito, Equador. Por 1.945 dólares, passa três semanas no vilarejo de Ho, Gana. Por 1.400 dólares, passeia pelas ruínas da Guerra do Vietnã. A agência americana Global Exchange também promove um sightseeing politicamente correto pela miséria do Brasil. Em vez de mostrar ao turista o Corcovado ou as Cataratas de Foz do Iguaçu, leva-o a favelas para "verificar o estado dos meninos de rua" e informar-se "sobre a corrupção da polícia carioca", organiza encontros com membros do Movimento dos Sem-Terra e coloca-o em debates com personalidades como José Bové, no Fórum Social de 2002, em Porto Alegre. Tudo por 1.800 dólares. Como no caso das outras viagens, as taxas incluem hospedagem, guias e refeições com pratos típicos. Ficam de fora apenas as passagens aéreas. Todas as despesas podem ser deduzidas do imposto de renda. Aceitam-se Visa e MasterCard.

Muita gente se perguntou como o mundo mudaria depois dos atentados terroristas contra os Estados Unidos. Neste cenário de guerra, em que os verdadeiros voluntários correm alto risco de vida, uma das mudanças mais previsíveis é o encolhimento do "turismo-realidade". Mais uma chance perdida para o Brasil. De certa forma, combinamos o melhor dos dois mundos. Como no Maine, o máximo de divertimento que nossas cidades oferecem ao turista é retirar dinheiro do caixa eletrônico, mas é grande a probabilidade de que isso também lhe propicie o excitante contato com um pouco de realidade, sendo assaltado na saída.

 
 
   
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