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"Assim não
dá"
Reitor
da UFRJ admite falhas da
universidade e diz que a culpa é
do corporativismo de professores
e funcionários

Lucila Soares
SelmyYassuda
 |
"Existe
hoje uma espécie de greve permanente. Todas as propostas de
mudança são barradas" |
O professor
José Henrique Vilhena, de 57 anos, passou a maior parte de sua
vida acadêmica longe dos holofotes. Há três anos, quando
foi alçado ao posto de reitor da maior e uma das mais antigas universidades
federais do país, entrou no olho do furacão e não
saiu mais. Primeiro foi o polêmico processo eleitoral, em que acabou
escolhido para o cargo máximo da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ) pelo ministro Paulo Renato Souza sem o apoio da maior parte
da comunidade universitária foi o terceiro mais votado de
uma lista tríplice. Vilhena enfrentou protestos de todos os lados
e, de lá para cá, administra um gigante que tem mais de
25.000 alunos, 3.000
professores e um batalhão de 9.000 funcionários.
Agora, em meio a uma ruidosa greve das universidades federais, paradas
há quase dois meses, o reitor volta à cena para denunciar
que o ensino superior não está cumprindo sua missão
de educar a população. Currículos antiquados e estrutura
burocrática emperrada estão entre os problemas apontados
por Vilhena. "Existe uma doença que ataca a graduação
das universidades, o corporativismo", diz ele. "Vivemos em estado de greve
permanente, em que todas as propostas de mudança são barradas."
Na semana passada, Vilhena falou a VEJA durante três horas.
Veja
O Brasil tem hoje 2,5 milhões de jovens matriculados no ensino
superior, sendo 440.000 nas universidades
públicas federais. Qual sua avaliação sobre a formação
que eles estão recebendo? O sistema público de ensino universitário
está cumprindo seu papel?
Vilhena Apenas parcialmente. A rede de pós-graduação
funciona muito bem. Nos últimos trinta anos ela vem crescendo,
melhorando em qualidade, formando bons quadros e tem uma produtividade
excelente. Mas a graduação está muito longe de qualquer
padrão aceitável. Como os cursos de graduação
são ruins, não educam bem as pessoas.
Veja
Quais são os problemas?
Vilhena Os cursos, em sua maioria, são longos demais
e antiquados. Na área tecnológica, por exemplo, não
incorporam todos os avanços proporcionados pelas descobertas da
pesquisa com a rapidez que deveriam. Em conseqüência, a produtividade
é baixíssima. Nas universidades federais, formamos um aluno
por professor a cada ano. Temos 50 000 professores e formamos 50.000
alunos, na média do país. A média internacional das
grandes universidades é de quatro alunos por professor. Isso significa
que, nos países desenvolvidos, as instituições universitárias
geram quatro vezes mais qualificação. Um país como
o nosso, que tem essa imensa necessidade de qualificar sua população,
deveria estar acima dessa média, não abaixo. Hoje, a universidade
brasileira atende apenas 7,7% dos jovens entre 20 e 24 anos. Se ampliarmos
essa faixa para 20 a 30 anos, o porcentual sobe para 13%, contra 40% na
Argentina, 60% na França, 80% nos Estados Unidos. Precisamos pensar
nisso, se quisermos ter condições de competir internacionalmente.
Veja
Por que isso acontece?
Vilhena Existe uma doença que ataca várias áreas
do país e, na universidade, está concentrada na graduação.
É o corporativismo. Seu efeito é devastador. Cria um estado
de greve permanente. Todas as propostas são barradas. Na Universidade
Federal do Rio de Janeiro, temos projetos de dez cursos novos de graduação,
em áreas que hoje têm grande demanda por profissionais, como
turismo, biotecnologia e saúde pública. Estamos trabalhando
para implantar cursos noturnos e atender os alunos que trabalham durante
o dia. No entanto, nenhuma dessas ações consegue aprovação
dos conselhos universitários, formados pelos professores. É
um problema grave e ocorre em várias outras universidades país
afora.
Veja
Quais são os argumentos contra essas mudanças?
Vilhena O principal é que a quantidade prejudica a qualidade,
o que não é verdade. O papel da graduação
é formar em larga escala. Aqui mesmo, no Brasil, temos um exemplo
maravilhoso do que estou defendendo. No início dos anos 60, durante
o governo João Goulart, o professor Darcy Ribeiro era ministro
da Educação e propôs a duplicação do
número de vagas nas universidades federais. Enfrentou uma oposição
ferrenha, sob pretexto de que se iria baixar a qualidade. E o que aconteceu
quando finalmente se dobrou o número de vagas? Eu me lembro bem
porque vivi essa época e tive vários colegas nessa situação.
Os alunos que conseguiram entrar para dividir espaço com a pequena
elite que dominava o acesso à universidade chegaram a fazer mestrado
ou doutorado no exterior. Foi uma revolução. Não
baixou a qualidade, não. Ao contrário.
Veja
O senhor não acha que a qualidade já é um problema
hoje? O resultado das avaliações promovidas pelo Ministério
da Educação tem sido um desastre.
Vilhena O melhor mecanismo de avaliação é
o Provão. O problema é que ele não tem tido conseqüência.
Os cursos mal avaliados não vêm sendo fechados. Nós
precisamos que os jovens estejam cursando universidade, sim, mas para
ser verdadeiramente qualificados. É um erro dizer que fechar um
curso universitário é péssimo. Não é.
É ótimo fechar cursos ruins.
Veja
O senhor diz que os cursos são muito longos. Por que isso acontece?
Vilhena Porque eles foram formatados na década de 60,
numa época em que o aluno terminava o curso de graduação
e só voltava se quisesse seguir carreira acadêmica. Hoje,
não. Um ano é o período máximo para a pessoa
voltar e se requalificar numa área específica. Antigamente
só continuava estudando aquele professor que ficava na universidade.
Agora, a população inteira precisa estudar, e a universidade
deve suprir essa necessidade. Para isso, ela tem de ser mais ágil.
Precisa ter pesquisa, pós-graduação e graduação
de qualidade. Isso significa, entre outras coisas, ter cursos mais curtos
e mais básicos. É o que se faz em todo lugar do mundo. Em
Cambridge, por exemplo, uma das melhores universidades da Inglaterra e
do mundo, o curso de engenharia tem três anos e meio de duração
e ninguém pode dizer que seja um mau curso, que os ingleses
não sabem construir pontes ou fabricar aviões.
Veja
Para quem não puder continuar a estudar, essa mudança
não vai significar formação deficiente?
Vilhena O problema não é a duração
em si. A questão central é que hoje o corporativismo não
respeita nem a Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional,
que determina um ano letivo de 200 dias úteis. A não ser
nos cursos de medicina, o sistema atual funciona em 150 dias úteis
por ano. Se a lei for respeitada, ganha-se tempo e pode-se encurtar a
duração do curso sem perder nada. Com 200 dias úteis,
é possível dividir o ano letivo em quatro blocos, ou até
mais, e ganhar em dinamismo. No caso de jovens que vêm do ensino
médio com pouca qualificação, você pode usar
parte desse tempo adicional para recuperá-los.
Veja
Com isso a universidade não estaria incorporando funções
que, na verdade, não são dela?
Vilhena O ensino médio não é uma coisa
inteiramente desvinculada da universidade. Quem forma os professores do
ensino médio e do ensino básico hoje no Brasil? São
as universidades. E estamos formando muito menos professores que o necessário.
Segundo o IBGE, seria preciso diplomar 230 000 professores por ano. Hoje,
todo o sistema universitário forma 86 000 professores, e boa parte
não vai trabalhar em sala de aula. É um déficit enorme.
Veja
Esse déficit não seria resultado da desvalorização
do magistério? Quem ainda quer ser professor no ensino básico
e no médio?
Vilhena É claro que existe um problema salarial, e isso
tem de ser resolvido com os governadores e os prefeitos. Ainda assim,
muita gente quer ser professor. O problema principal é a falta
de uma política de formação de docentes. Sobre isso,
é importante lembrar que a sociedade nos pagou graduação,
mestrado e doutorado a esmagadora maioria dos professores das universidades
públicas estudou, como eu, em escola pública. No Brasil,
a massa de pessoas qualificadas está nas universidades públicas
e num pequeno grupo das particulares. Então, nós é
que temos de dar solução aos grandes problemas do país.
Alguém tem de ligar o motor de arranque, e esse alguém é
quem recebeu mais benefícios da sociedade. Somos nós.
Veja
A estrutura universitária hoje é capaz de absorver essa
proposta de mudança?
Vilhena Sim. Temos professores da melhor qualidade. Além
disso, na graduação a relação entre o número
de professores e o de alunos não está balanceada. Cada professor
tem espaço para mais três alunos. Mas é claro que
precisamos de instrumentos para estimular a produtividade. Na pós-graduação,
a bolsa está ligada à produção e à
qualidade dessa produção. Quem está fora do padrão
de qualidade tem a bolsa cortada. Na graduação não
existem mecanismos para punir quem é incompetente nem para incentivar
a eficiência. E deveriam existir. É perfeitamente possível
estabelecer metas e uma remuneração variável de acordo
com o cumprimento dessas metas.
Veja
Que outras medidas seriam necessárias?
Vilhena Na área administrativa, há estruturas
que podem ser modificadas. Por exemplo, é preciso remanejar professores,
coordenadores de cursos e funcionários administrativos. Para isso,
é importante que tenhamos também um reposicionamento no
plano de cargos, que na prática significa colocar pessoal que está
inoperante em outras áreas para trabalhar. Vou dar um exemplo próximo
a mim, mas que é ilustrativo. Nós temos hoje na Universidade
Federal do Rio de Janeiro 108 funções gratificadas sem nenhuma
função acadêmica. São as decanias. Cada um
dos seis decanos tem lá um grupo de assessores. Eles não
fazem nada. Todas as funções que tinham deixaram de existir,
porque elas nunca funcionaram. No entanto, elas continuam lá. Deveriam
assumir novas atribuições, mas o corporativismo não
deixa.
Veja
Sim, mas se eles continuam comparecendo ao expediente de trabalho devem
ter ainda alguma função.
Vilhena Não têm, fazem futrica o dia inteiro.
Veja
Quando o senhor fala de qualificação em massa, isso inclui
também alguma proposta de ampliação do acesso à
universidade?
Vilhena Inclui, claro. Mas não pelo puro e simples
sistema de cotas para negros, porque isso já se mostrou um erro
nos Estados Unidos. O caminho é melhorar o ensino médio.
É importante apoiar as escolas sobretudo as públicas
que têm dificuldade de aprovar seus alunos nas universidades.
Não adianta selecionar alunos pela cor da pele e pronto. Eles têm
de entrar por qualificação, mas para isso precisam ser apoiados.
A universidade pode e deve partir para um projeto de adoção
de escolas. Alunos e professores podem participar disso. A lei 10.172,
de janeiro deste ano, determina que 10% do tempo do aluno do ensino superior
seja usado em cursos extracurriculares. Criou-se, portanto, o espaço
para que a universidade ajude as escolas médias a melhorar. Basta
que os alunos dediquem um pouco de seu tempo a aulas particulares gratuitas
ou a atividades de reforço. Essa proposta já está
sendo analisada pelo governo e tem um alcance social incrível.
Permite que a gente vá buscar talentos em todas as classes sociais
e contribui para a melhoria da qualidade. Ao contrário do sistema
de cotas, isso aprimoraria a qualidade. O aluno carente chegaria lá
por ele mesmo e não porque guardaram vagas para determinados segmentos
da sociedade.
Veja
Se tudo isso der certo, não vai faltar vaga?
Vilhena Sim, o sistema acabará tendo de ser ampliado.
Mas uma coisa precisa ficar clara: isso só acontecerá se
o desempenho for bom. Aí a sociedade vai cobrar mais vagas, e será
possível debater em bases corretas o financiamento da universidade,
incluída aí a questão salarial. Também por
isso o incentivo à produtividade através de metas e remuneração
variável é importante. É um sistema mais transparente.
Quem atingir a meta de formar quatro alunos por ano vai ter uma gratificação,
e se num determinado momento a qualidade não for recompensada isso
vai ficar claro para os professores, os alunos, a sociedade, o governo.
Veja
A greve nas universidades federais já dura quase dois
meses. Além da questão salarial, o movimento tem como bandeira
a denúncia do sucateamento da universidade pública. O senhor
acha que o governo Fernando Henrique tem dado a devida importância
ao ensino superior?
Vilhena Existe um esforço. O orçamento vem
sendo corrigido e há novidades como os fundos setoriais, que destinam
um porcentual do faturamento das empresas privatizadas de telecomunicações,
petróleo etc. para a educação. Só na Universidade
Federal do Rio de Janeiro, estamos recebendo 12 milhões de reais
dessa verba, coisa que não recebíamos há trinta anos.
Vai haver um novo edital ainda neste ano para nos candidatarmos a mais
um aporte desse mesmo fundo, que é repassado pelo governo.
Veja
É suficiente?
Vilhena As universidades têm problema de recursos não
só aqui, mas em todo lugar do mundo. Por quê? Porque a demanda
por qualificaçotilde;es de reais
dessa verba, coisa que não recebíamos há trinta anos.
Vai haver um novo edital ainda neste ano para nos candidatarmos a mais
um aporte desse mesmo fundo, que é repassado pelo governo.
Veja
É suficiente?
Vilhena As universidades têm problema de recursos não
só aqui, mas em todo lugar do mundo. Por quê? Porque a demanda
por qualificação é enorme, a demanda por pesquisa
é enorme, então sempre estaremos discutindo com a sociedade
a necessidade de destinar mais dinheiro para o ensino superior. Mas para
que isso se traduza em mais recursos a gente tem de responder a questões
essenciais: como qualificar mais. E é a graduação
que tem de responder a isso. O fundamental é que a sociedade fiscalize
melhor os recursos. É ela que paga para a universidade funcionar.
Sai do meu, do seu, do bolso de todos nós. E, se é assim,
é melhor que funcione direito.
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