Sérgio
Abranches
A guerra
sem fim
"A
única via possível de
contenção
do ultra-radicalismo islâmico não é
a força das armas, mas a de governos
legítimos, muçulmanos"
Ilustração Ale Setti
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As operações militares estão sendo executadas sem
o tempo necessário de planejamento e sem inteligência suficiente.
Mas os estrategistas americanos decidiram que era preciso agir antes da
chegada do Ramadã e do inverno. Não quiseram esperar a primavera.
Esta é uma guerra inédita sob muitos aspectos e abriga uma
contradição insanável: os Estados Unidos terão
de usar a mais avançada tecnologia, mas para derrotar os afegãos
e a Al Qaeda suas tropas em terra podem ter de chegar à mais rudimentar
forma de combate: o corpo-a-corpo. A natureza do inimigo o terrorismo
de fundamento político-religioso praticamente elimina a
hipótese de uma vitória exclusivamente militar.
Esta guerra
se dá em um novo paradigma tecnológico, muito distinto da
distante Guerra do Golfo. A tecnologia de informação e comunicação
e a capacidade de rastreamento digital dos satélites superam de
longe o que havia naquela época. Os ataques aéreos podem
ser mais focados e mais precisos. Mas o alvo é móvel, mutante,
camuflado e combina tecnologias de ponta, como a organização
da Al Qaeda, contemporânea da nova economia, e os mais primitivos
recursos de defesa nem por isso destituídos de alta eficácia
, como uma rede de túneis, em uma das mais adversas geografias
do mundo. Não por acaso, os afegãos nunca foram derrotados,
embora confrontados por alguns dos mais mortais exércitos do mundo.
É
praticamente impossível imaginar que os Estados Unidos abandonem
a alternativa militar como parte significativa de sua resposta ao ataque
terrorista de 11 de setembro. Foi a primeira vez que sofreu uma agressão
em seu próprio território. O inimigo é difuso e politicamente
esquivo: ampara-se em um conjunto de organizações terroristas
a Al Qaeda de Osama bin Laden é a que tem mais recursos
e melhor organização , mas tem apoio e bases físicas
em território controlado por governos hostis aos EUA.
Ao contrário
do que aconteceu na Guerra do Golfo, o governo americano tem agora o apoio
da mais ampla coalizão de países já vista. Prova
surpreendente de capacidade política e diplomática do governo
Bush. Porém, lideranças do tipo de Laden podem ver essa
grande coalizão como favorável a seu objetivo de polarizar
radicalmente o mundo entre os fiéis à causa islâmica
e os infiéis.
Mesmo os
planos mais imediatos dos EUA são de difícil realização.
Para erradicar a estrutura da Al Qaeda no Afeganistão terão
de derrotar suas seções militares e destruir suas principais
instalações no país. Missão quase impossível,
que exigirá o engajamento de tropas em combate direto contra os
terroristas, que estarão em posição vantajosa: conhecem
melhor o terreno, têm o instinto de sobrevivência bloqueado
pelo fanatismo religioso, a cumplicidade e o apoio da maioria da população
local, e estão naturalmente bem protegidos pelas montanhas e pela
rede de túneis.
A ação
americana fortaleceu a Aliança do Norte, a heterogênea coalizão
de oposição ao Talibã. Há sinais de que os
talibãs estão sendo abandonados por vários grupos
e é crescente a desordem. Podem ser indicações da
queda iminente do governo. O problema é que não há
uma força legítima para instalar um governo alternativo,
estável, pluralista e que busque o bem-estar dos afegãos.
Os Estados Unidos podem ter entrado numa guerra sem fim e terminar dando
razão ao porta-voz dos terroristas, Suleiman Abu Ghaith: podem
ter aberto uma porta que não poderão fechar quando quiserem.
Esse terrorismo
fundamentalista não pode ser derrotado ou vencido militarmente.
A Jihad de Laden é contra todos os incrédulos todo
o mundo ocidental. A ação militar pode ter sido necessária,
para desencorajar ataques de outros grupos aos Estados Unidos, mas não
é solução. A única via possível de
contenção do ultra-radicalismo islâmico não
é a força das armas, mas a de governos legítimos,
muçulmanos um conceito importante no nacionalismo islâmico
é "ocidentoxicação", a contaminação
da cultura muçulmana por valores ocidentais , moderados e
capazes de implementar projetos efetivos de desenvolvimento, sem romper
com os padrões islâmicos.
A maioria
moderada, com predomínio na classe média local, tem esses
atributos. O embasamento islâmico intelectual e exegético,
baseado no Corão, já existe. A questão é
como instalar governos, por via legítima, que promovam o pluralismo,
com essa base que mantém a cultura islâmica. A ampla coalizão
antiterrorista teria de apoiar diplomática, política e financeiramente
essas forças islâmicas moderadas.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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