O bem-amado

Duas mostras celebram a grandeza popular de Di Cavalcanti

Marcelo Camacho e Angela Pimenta

Di Cavalcanti e Moças de Guaratinguetá: sensualidade, lirismo e folclore
  Foto: Vicente de Mello  

Pertence ao escritor Rubem Braga, na forma de um epitáfio de brincadeira, a melhor definição do carioca Di Cavalcanti: "Este aí pintou e bordou". Em ambos os terrenos, o baixinho (1,62 metro) e gorducho (90 quilos) Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo foi um romântico desabusado. "Sou um sentimental. Acordo neurastênico e durmo contente", dizia. Entre o fim da manhã, quando acordava, e as madrugadas, sempre na boemia, Di Cavalcanti viveu intensamente. Podia pintar e namorar suas musas ou até mesmo bater papo com presidentes da República, mas não deixava as bebedeiras e conversas intermináveis com personalidades como o próprio Rubem Braga, o poeta Vinicius de Moraes, o cronista Antonio Maria e ainda o poeta Augusto Frederico Schmidt. É muito provável que não exista na cultura brasileira personagem mais simpático do que ele. Ao longo de seus 79 anos de vida, produziu uma obra tão caudalosa quanto irregular. Para comemorar seu centenário de nascimento, duas mostras no Rio de Janeiro se dispõem a resgatar as duas facetas principais do pintor. O Museu de Arte Moderna expõe cerca de oitenta pinturas e desenhos do artista, enfocando a brasilidade de sua obra. A mostra permanece em cartaz até o dia 15 de outubro. Já o Centro Cultural Banco do Brasil exibe o Di Cavalcanti das mulatas, musas e namoradas, numa seleção de 44 obras, até o dia 14 de dezembro. É uma excelente oportunidade para se avaliar o trabalho de um dos mais populares pintores brasileiros deste século (veja quadro na pág. 138).

Boêmio desde criancinha, quando acompanhava as serestas de modinhas e valsas no bairro carioca de São Cristóvão, onde cresceu, Di Cavalcanti levou a vida na flauta. Só se apertava realmente quando as contas começavam a vencer. Então, colocava uma tela em branco no cavalete e avançava com os pincéis. "Ele era um mão-aberta, não media quanto gastava com bebida, comida ou mulheres", recorda-se José Coimbra, 64 anos, vizinho e amigo. Di passou grande parte da vida se dividindo entre seu apartamento e o ateliê, dois imóveis conjugados no célebre número 222 da Rua do Catete. Era lá que reunia amigos e musas.

O jornalista Joel Silveira lembra a grandiloqüência dos convites do pintor. De vez em quando, Di Cavalcanti ligava dizendo: "Vem aqui comer a maior feijoada do século". E tudo só acabava às 7 da noite, quando o pintor mandava afastar os móveis para dançar um tango com Antônio Nássara. No Carnaval, Di Cavalcanti era freqüentador assíduo do Baile das Bonecas, evento clássico de travestis no Teatro da República. Esse mesmo sujeito irreverente e bonachão era um homem culto, leitor voraz de Victor Hugo, Balzac e outros grandes da literatura francesa, que lia no original. Era fã de música clássica, apreciador de Grieg e Debussy. Di Cavalcanti amava também um bom vinho. Sentado nas mesas do bar Antonio's, mandava vir as melhores safras de um Saint-Émilion ou um bom champanhe isso quando o dinheiro dava. Nas vacas magras, ia de cerveja e cachaça. "Nunca ficava bêbado. Tinha um poder enorme sobre o copo. Bebia, depois deitava, lia, relaxava. Nunca passava mal", atesta Marina Montini, a modelo que ele converteu em musa oficial nos anos 60.

Foi em cabarés e mesas de bar que Di Cavalcanti fez amigos, conquistou mulheres e foi apresentado a medalhões das artes e da política. Nos anos 20 trocou o Rio por longas temporadas em São Paulo e em seguida foi para Paris. Acabou conhecendo Picasso, Matisse e Braque nos cafés de Saint-Germain e Montparnasse, num contato que chegou perto da amizade. Di Cavalcanti era irreverente demais e calculista de menos em relação aos famosos e poderosos. Quando se irritava com alguém, não media palavras. Teve um inimigo na vida. O também pintor e também comunista Candido Portinari. A briga entre ambos começou nos anos 40. Jamais se reconciliaram. Portinari não tocava publicamente no nome Di. Este o chamava de "invenção da ditadura Vargas". Outra briga famosa foi nos anos 60, envolvendo personalidades mais poderosas, o empresário Adolpho Bloch, dono da revista Manchete, e Juscelino Kubitschek, o presidente JK. Ambos eram seus amigos. Bloch franqueava-lhe a revista para os seus vernissages, e JK havia encomendado especialmente a ele a estampa de uma tapeçaria para o Palácio do Planalto. Um dia, os dois resolveram visitá-lo sem avisar com antecedência. Foi um vexame. Di nem sequer se dignou recebê-los. "Manda avisar a esses dois que, na minha casa, eu só recebo quem convido", rosnou para a cozinheira, ordenando que dispensasse a dupla tão ilustre.

Adido cultural Militante do Partido Comunista nos anos 20 e 30, Di conseguiu manter-se à margem do poder na maior parte da vida. Só experimentou, por pouco tempo, as benesses de um cargo oficial em 1964, às vésperas do golpe militar, quando aceitou, a convite do presidente João Goulart, ser adido cultural brasileiro em Paris. A sinecura acabou logo. "Viajamos no dia 30 de março, levando 4.000 dólares cada um. No dia 31 jantamos com Vinicius de Moraes e no dia seguinte ele ligou cedo falando do golpe militar. O Di achou que era um trote do dia 1º de abril. Quando viu que era verdade, teve um ataque histérico", conta Ivette Bahia Rocha, que viveu com ele nos anos 60.

A desorganização de Di Cavalcanti era tamanha que ele era capaz de esquecer de um lote inteiro de quadros. Em 1960, a embaixada brasileira em Paris descobriu em seus porões cinco ou seis caixotes repletos de telas de sua autoria. Avisado, ele contatou o amigo e colecionador Gilberto Chateaubriand, que o ajudou a desembaraçar as obras na alfândega. Fugindo da II Guerra Mundial, Di simplesmente havia esquecido o que pintara no período em que viveu em Paris, para onde seguiu quando Vargas instalou a ditadura do Estado Novo. "Como agradecimento, ele me deu dois quadros pequenos. Era muito generoso. Sua filosofia era de que da vida nada se leva", lembra Gilberto.

Com suas mulheres, o romântico Di Cavalcanti era um fauno um tanto gauche. Mal vestido, barrigudo e nem sempre chegado a um banho, era um dom-juan com nota 10 em aplicação. Conquistava mulheres da sociedade com sua lábia e prostitutas com presentes caros. Casou-se oficialmente apenas uma vez, com a prima Maria Cavalcanti. Suas uniões mais estáveis foram com a pintora modernista Noêmia Mourão e com a inglesa Beryl Tucker Gilman, mãe de sua única filha, adotiva, Elizabeth Di Cavalcanti. Foi amante de uma vasta legião de beldades, a quem sustentou com luxo e riqueza, na medida do possível. "Ele era muito envolvente. Dava presentes, tudo o que as mulheres pedissem: mandava flores, dava quadros, levava a restaurantes, escrevia poesias", lembra Marina Montini. Ela mesma reconhece que os presentes dados por Di lhe garantiram o sustento durante pelo menos vinte anos. Mas talvez a amante mais bem aquinhoada pelo pintor seja Ivette Bahia Rocha, hoje com 61 anos. Apreciador de mulheres muito mais jovens que ele, Di enamorou-se de Ivette quando ela tinha 23 anos e ele 62. Viveram um tórrido e tumultuado caso que se arrastou até o início dos anos 70. "Em quinze anos com o Di, acho que meu patrimônio chegou a 1 milhão de dólares em jóias, presentes e quadros. Cheguei a ter mais de 100 quadros dele", admite. No caso de Di Cavalcanti, a imagem de conquistador mão-aberta e romântico é apenas parcialmente verdadeira. Tinha seus momentos de melancolia, quando preferia a bebedeira na companhia dos amigos homens.

Valorização Em função de tanta boemia, nos anos 60 Di Cavalcanti começou a sofrer um declínio acentuado na saúde. Seus problemas no fígado e no coração complicaram-se ainda mais no começo dos anos 70, quando foi operado de varizes no esôfago. Conta-se que, enquanto teve forças para segurar os pincéis, Di Cavalcanti exerceu seu ofício. No final da vida, vigiado de perto pela filha Elizabeth, ele pintava escondido, guardava os quadros debaixo da cama e presenteava os amigos com essas telas. Morreu, vítima de complicações causadas pela cirrose, em 1976. Seu velório foi documentado por Glauber Rocha, num filme de dezessete minutos cuja proibição foi determinada pela Justiça a pedido de sua filha. Ela julgou que a exibição de closes do cadáver de Di, com o nariz entupido de algodões, seria dolorosa para a família e danosa para a imagem do pai. Errou. O filme é uma homenagem belíssima.

De uns três anos para cá, Di Cavalcanti é o pintor brasileiro cujas cotações mais subiram no mercado de arte. Suas melhores telas, dos anos 20 e 30, chegam a valer perto de 700.000 reais. Além do magnata argentino Eduardo Costantini, que no ano passado arrematou num leilão nova-iorquino uma tela do pintor por 650.000 dólares, uma legião de ricaços brasileiros, do banqueiro Júlio Bozano ao empresário Luis Antonio de Almeida Braga, adquiriu obras do artista. A subida de Di Cavalcanti no mercado pode ser explicada, em parte, pela estabilização da economia e pela onda de auto-estima verde-amarela vinda depois do Plano Real, que fez do hábito de quadros de temática brasileira na parede a última moda. Outro fator importante para a valorização é a própria biografia do artista. Quem leva um Di Cavalcanti para casa se imagina também dono de uma existência repleta de peripécias.

Um moderno parado no meio do caminho


Moleque e Samba: emoção do pitoresco e tratamento sutil das formas e cores esmaecidas


Fotos: Vicente de Mello

É difícil não se render de imediato aos encantos da pintura de Di Cavalcanti. São mulheres opulentas envoltas por céus azulados, frutas e casarios coloniais. Também não há no Brasil artista cuja pintura seja tão facilmente desvendada pelo espectador. Acontece que tal facilidade acaba se tornando o maior dos problemas de Di Cavalcanti. Em seus melhores momentos, nos quadros dos anos 20 e 30, Di emociona pela pungência de seus caboclos e morenas, justamente por conceder-lhes um tratamento sutil e elegante nas formas e cores. Já dos anos 40 em diante ele é apenas "o pintor das mulatas", enjoativo e redundante, um arremedo de si mesmo.

Um dos promotores da Semana de Arte Moderna de 1922, Di Cavalcanti fez, na época, uma corajosa e inovadora afirmação da brasilidade. Ao lado de Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, foi um dos pontas-de-lança da primeira geração de pintores modernistas. Somem-se a isso um sensualismo cálido, um domínio vigoroso do desenho, além do uso elegante e vigoroso da cor. Eis aí o melhor Di Cavalcanti: aquele que pintou Samba (1925) e Cinco Moças de Guaratinguetá (1930), ambos expostos no Museu de Arte Moderna.

Apesar de haver um intervalo de cinco anos na criação dessas telas, em ambas o pintor trata com algum requinte os temas recorrentes de sua obra. Na melhor das versões de Samba, datada de 1925, há uma geometrização sutil das formas das seis figuras, resultando numa integração harmoniosa do conjunto de sambistas. É notável ainda a habilidade com que Di Cavalcanti trabalha as cores esmaecidas. Quem vê o quadro conclui que a mulata de seios parcialmente desnudos é a protagonista da história. Perto dela, os demais sambistas nenhum pintado de corpo inteiro mais parecem uma extensão do fundo do quadro. A predileção do artista pelo então chamado sexo frágil se torna ainda mais evidente em Cinco Moças de Guaratinguetá. O quadro marca a utilização mais arrojada e vigorosa das cores. Ainda assim, seus vermelhos e verdes estão aprisionados pelas linhas do desenho das figuras, cujos traços estilizados traem a origem do pintor como cartunista de jornal. Como se sabe, Di Cavalcanti, um autodidata convicto, entrou no mundo da arte pela porta de serviço, desenhando para jornais. Seu aprendizado consistiu numa breve passagem pelo ateliê do pintor impressionista Elpons, que foi também professor de Tarsila do Amaral.

Mas, se a empatia é a primeira virtude do artista, é também aí, na facilidade maneirista com que resolvia suas questões pictóricas, que começam as limitações da pintura de Di Cavalcanti. Ao final dos anos 20, ele havia estudado e assimilado a técnica da chamada Escola de Paris, sobretudo em Picasso, Léger e Matisse, além de Cézanne. Já exibia então pleno domínio da linguagem modernista. Entretanto, Di não conseguiu ir além do sensualismo lírico, e algo canhestro, de seus sambistas e prostitutas tristonhas do interior. Um bom exemplo da incursão do artista pela pintura pitoresca é o gracioso e um tanto quanto comovente Moleque (1932), pintado em óleo sobre cartão e um dos mais bem resolvidos do artista em pequenos formatos.

Independência Faltou a Di Cavalcanti a radicalidade da melhor Tarsila do Amaral, que em seus quadros antropofágicos, do qual o Abaporu é o mais célebre, realizou um surpreendente cruzamento entre o surrealismo e uma apropriação moderna da mitologia nativa brasileira. Perdido no meio do caminho do modernismo brasileiro, Di foi muito mais um desbravador de caminhos do que um grande pintor. Ironicamente, tal como acontece com Portinari, seu desafeto público, a fama de Di Cavalcanti acabou suplantando em muito o valor artístico de sua obra. É justamente o contrário de Alberto da Veiga Guignard e Oswaldo Goeldi, dois mestres do modernismo, mas donos de uma existência humilde e solitária.

Ao longo da vida, tal como Jorge Amado nas letras, Di Cavalcanti produziu uma obra vasta, folclórica e redundante. A favor do pintor, diga-se que, mesmo tendo sido membro do Partido Comunista, Di Cavalcanti jamais produziu algum panfleto pintado. Já Jorge Amado, como se sabe, a mando do Partidão escreveu pelo menos dois de seus piores romances e se rebaixou a ponto de desonrar companheiros de viagem apenas porque assim se tornaria mais querido nas fileiras do PCB. De qualquer modo, em ambos se nota um apego frenético ao ofício. Estima-se que em mais de cinco décadas de trabalho Di Cavalcanti tenha produzido cerca de 5 000 obras, entre telas, desenhos e esboços.

Aos poucos, a natureza inovadora de suas primeiras tintas converte-se numa pintura esquemática e progressivamente realista, de caráter decorativo, sob medida para um consumo turístico. Nascia "o pintor das mulatas", dos marinheiros e camponeses, transformados em estereótipos grosseiros. O conjunto de seus retratos no CCBB é um testemunho do esgotamento de sua pintura, sobretudo a partir dos anos 40. Como demonstra o artista e historiador da arte Carlos Zilio, autor de uma análise esclarecedora sobre o pintor, Di Cavalcanti substituiu, gradativamente, a investigação formal pela habilidade técnica. Zilio observa: "O pintor acabou cedendo a um nacionalismo superficial, restrito a uma iconografia anedótica, e não mais a partir dos elementos formadores de seu estilo, que nos melhores momentos chegou a atingir aspectos determinantes da cultura brasileira".




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