Dez anos atrás,
Violência Gratuita, de Michael Haneke, era uma experiência
devastadora. Agora, o diretor refez seu filme cena por cena. Por que ele não
provoca o mesmo choque?
Uma década atrás,
antes de ser cultuado por filmes como A Professora de Piano,Código Desconhecido e Cachê, o
austríaco Michael Haneke deu um passo decisivo
do tipo positivo e também do negativo com Violência
Gratuita. O filme mostrava uma família rica
pai, mãe e filho pequeno chegando à sua
casa de campo à beira de um lago. Haneke tem um traço
profundo de perversidade na maneira como trata a platéia.
É, por assim dizer, um Alfred Hitchcock que trabalha
além do limite do suportável: ou seja, quando
ele focaliza sem nenhuma pressa atividades tão prosaicas
quanto um homem descarregando o carro e uma mulher desempacotando
os ingredientes do jantar, não é só porque
elas são prelúdio de algum desenvolvimento inesperado;
é porque esse desenvolvimento vai aniquilar tudo o
que existe de prosaico na vida dessas pessoas. O prosaico
e o inocente só existem como intervalo entre o caos
e o horror, é o que ele parece argumentar, filme após
filme.
Assim, enquanto
corta bifes e fofoca ao telefone, a mulher de Violência Gratuita
ouve alguém batendo à porta. Trata-se de um rapaz vestido de branco,
como quem vai jogar tênis. Ele diz que é hóspede da vizinha,
e pede ovos emprestados. Derruba os ovos, e pede outros. E os derruba de novo,
e pede mais outros, no que o mal-estar já se instalou. E se tornará
aflitivo quando seu amigo, outro "hóspede" da vizinha, também
vestido de branco, chega para aumentar a pressão. Logo a dupla conduz uma
seqüência de atos bárbaros contra a família. Nada pessoal:
eles querem apenas quebrar o tédio e se divertir. Iludem o público
hipotético de suas ações falando com a câmera, e proporcionam
a ele um grande momento de catarse só para depois voltar o filme, como
num aparelho de DVD, e negar-lhe a satisfação. O primeiro Violência
Gratuita, estrelado por alguns estupendos atores de língua alemã,
como Ulrich Mühe (de A Vida dos Outros), Susanne Lothar e Arno Frisch,
era uma experiência da qual não se saía inteiro. O segundo
(Funny Games U.S., Estados Unidos/França/Áustria, 2007),
que estréia nesta sexta-feira no país e que Haneke reproduz cena
por cena com alguns excelentes atores de língua inglesa, como Tim Roth,
Naomi Watts e Michael Pitt, é em tudo idêntico ao original
exceto pelo fato de ser uma experiência totalmente diversa, que provoca
muito mais cinismo do que choque.
Como podem dois filmes iguais,
dos cenários aos diálogos e à montagem,
resultar tão diferentes? Haneke, um provocador por excelência,
quer que a resposta a essa pergunta seja a síntese do
recado que o novo Violência Gratuita tem a dar:
o que mudou não é o seu filme, diz ele, é
quem o vê. Dez anos atrás, a platéia desviava
o olhar da brutalidade que transcorria na tela. Agora, responde
a ela até com um quê de enfado. Para quem não
o conhece, Haneke poderia muito bem ser só mais um de
tantos diretores que, à cata de uns trocados, exploram
de forma titilante e sensacionalista a violência. O interessante,
aqui, é um cineasta se colocar deliberamente nessa posição
para cravar um argumento um argumento beligerante e um
bocado antipático, como em toda a sua obra, mas nem por
isso menos pertinente.