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Edição 2078

17 de setembro de 2008
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Cinema
Nos olhos de quem vê

Dez anos atrás, Violência Gratuita, de Michael Haneke, era
uma experiência devastadora. Agora, o diretor refez seu filme
cena por cena. Por que ele não provoca o mesmo choque?


Isabela Boscov

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Uma década atrás, antes de ser cultuado por filmes como A Professora de Piano, Código Desconhecido e Cachê, o austríaco Michael Haneke deu um passo decisivo – do tipo positivo e também do negativo – com Violência Gratuita. O filme mostrava uma família rica – pai, mãe e filho pequeno – chegando à sua casa de campo à beira de um lago. Haneke tem um traço profundo de perversidade na maneira como trata a platéia. É, por assim dizer, um Alfred Hitchcock que trabalha além do limite do suportável: ou seja, quando ele focaliza sem nenhuma pressa atividades tão prosaicas quanto um homem descarregando o carro e uma mulher desempacotando os ingredientes do jantar, não é só porque elas são prelúdio de algum desenvolvimento inesperado; é porque esse desenvolvimento vai aniquilar tudo o que existe de prosaico na vida dessas pessoas. O prosaico e o inocente só existem como intervalo entre o caos e o horror, é o que ele parece argumentar, filme após filme.

Assim, enquanto corta bifes e fofoca ao telefone, a mulher de Violência Gratuita ouve alguém batendo à porta. Trata-se de um rapaz vestido de branco, como quem vai jogar tênis. Ele diz que é hóspede da vizinha, e pede ovos emprestados. Derruba os ovos, e pede outros. E os derruba de novo, e pede mais outros, no que o mal-estar já se instalou. E se tornará aflitivo quando seu amigo, outro "hóspede" da vizinha, também vestido de branco, chega para aumentar a pressão. Logo a dupla conduz uma seqüência de atos bárbaros contra a família. Nada pessoal: eles querem apenas quebrar o tédio e se divertir. Iludem o público hipotético de suas ações falando com a câmera, e proporcionam a ele um grande momento de catarse só para depois voltar o filme, como num aparelho de DVD, e negar-lhe a satisfação. O primeiro Violência Gratuita, estrelado por alguns estupendos atores de língua alemã, como Ulrich Mühe (de A Vida dos Outros), Susanne Lothar e Arno Frisch, era uma experiência da qual não se saía inteiro. O segundo (Funny Games U.S., Estados Unidos/França/Áustria, 2007), que estréia nesta sexta-feira no país e que Haneke reproduz cena por cena com alguns excelentes atores de língua inglesa, como Tim Roth, Naomi Watts e Michael Pitt, é em tudo idêntico ao original – exceto pelo fato de ser uma experiência totalmente diversa, que provoca muito mais cinismo do que choque.

Como podem dois filmes iguais, dos cenários aos diálogos e à montagem, resultar tão diferentes? Haneke, um provocador por excelência, quer que a resposta a essa pergunta seja a síntese do recado que o novo Violência Gratuita tem a dar: o que mudou não é o seu filme, diz ele, é quem o vê. Dez anos atrás, a platéia desviava o olhar da brutalidade que transcorria na tela. Agora, responde a ela até com um quê de enfado. Para quem não o conhece, Haneke poderia muito bem ser só mais um de tantos diretores que, à cata de uns trocados, exploram de forma titilante e sensacionalista a violência. O interessante, aqui, é um cineasta se colocar deliberamente nessa posição para cravar um argumento – um argumento beligerante e um bocado antipático, como em toda a sua obra, mas nem por isso menos pertinente.

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