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Edição 2078

17 de setembro de 2008
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Comportamento
A menina mais bonita do mundo

Aos 5 anos, a loirinha Natália, vencedora de um concurso
internacional de miss, brinca com bonecas e leva a vida
quase como toda criança – quer dizer, com viagens, batom
e uns retoques no cabelo


Sandra Brasil

Fotos Lailson Santos e Álbum de Família
BARBIES E BELEZURA
Natália faz pose: ela vai bem na escola e adora brincadeiras; também distribui autógrafos e encara a passarela, como na foto à direita, no Equador, de vestido longo, faixa e coroa

Natália Stangherlin faz luzes no cabelo, só sai de casa maquiada e tem uma coleção de vestidos de festa. Em viagens profissionais, leva cabeleireiro e maquiador próprios. Natália tem 5 anos e dois segredos que serão revelados ao fim desta reportagem – mas, se todo mundo for ler primeiro, perderá a graça. Ela acaba de ser eleita a menina mais bonita do mundo, em concurso de miss em que venceu 22 outras pequenas mas aguerridas concorrentes, da América Latina e do Caribe. O título bordado na faixa, em inglês, foi abiscoitado no concurso Miss Niña Mundo em Guaiaquil, no Equador. Sob os aplausos ansiosos da mãe, Daniela, e dos assessores estéticos, a miss de 1,20 metro desfilou de maiô, traje típico, fantasia para show de talentos e traje de gala – este, um longo azul bordado com 8 000 cristais. Nos vinte dias que antecederam o desfile, preparou-se com uma maratona de oitenta horas de ensaio que teve aconselhamento inclusive de Evandro Hazzy, administrador de empresas gaúcho que se especializou em concursos de beleza e hoje se intitula "missólogo" (veja quadro). "Natália aprendeu a cativar os juízes olhando nos olhos deles e jogando beijinhos", diz Daniela, 32, que desenvolveu uma linguagem em códigos para aprimorar a presença da filha na passarela. "Quando ela passa por mim e eu digo ‘borboletinha da mamãe’, é para sorrir. Se eu falo ‘princesa da mamãe’, é para encolher a barriga e arrumar a postura", explica. No Equador, a técnica foi infalível. "Os jurados gostaram da simpatia e da elegância dela", afirma o equatoriano Cesar Montece, organizador do Niña Mundo. O tipo de comentário que Natália recebe com a mesma superior naturalidade com que distribui aos fãs cartões em que aparece em poses de modelo, sorrindo e fazendo biquinho com a boca.

Natália desfila em concursos de beleza infantil desde os 2 anos e meio e acumula meia dúzia de títulos. Só de vestidos longos estilo princesa tem doze, guardados num armário feito especialmente para eles. Seu patrocinador é o pai, Fabiano Stangherlin, 29, dono de uma rede de supermercados em Santa Maria, tradicional pólo de imigrantes italianos. A vidinha no circuito da beleza infantil é exigente. Para chegar em primeiro lugar no concurso do Equador, Natália ficou em segundo no Mini Miss Rio Grande do Sul no fim do ano passado, mudou de saltinho e bagagem para o Mini Miss Santa Catarina; ganhou, concorreu no Mini Miss Brasil em Salvador em julho, ganhou e, de lá, partiu para a glória em Guaiaquil. "Já devo ter gastado uns 70.000 reais nesses desfiles", calcula Stangherlin. "Mas vale a pena. Nossa filha fica feliz e a Dani, realizada." Confirmando plenamente o clichê, a mãe concretiza na filha os próprios sonhos, sem a menor tentativa de disfarçar a projeção. Quando criança, Daniela cobiçava uma vaga de paquita no programa de Xuxa. Na adolescência, fez alguns trabalhos como modelo e tentou ser miss Santa Maria, mas só chegou a Rainha das Piscinas. Atualmente, estuda marketing, trabalha com o marido e disputa corridas de carro – além, claro, de ver e fazer Natália brilhar. "Como toda mãe acha a filha linda, recorri ao Evandro, que é especialista em misses, para saber se deveria investir na beleza da minha. A resposta foi animadora, segui em frente e o resultado está aí. Ela é a minha Barbie tamanho grande", diz.

Em Santa Maria, Natália brinca e vai à escola como qualquer criança de sua idade. Louca por bonecas, assiste a desenho animado, faz balé clássico e está na 1ª série do ensino fundamental. "Ela é cativante, participativa, está alfabetizada e só não tem ainda fluência na leitura. Quando falta, damos aula de reforço", elogia a diretora, Silvia Teixeira. Come tudo que criança gosta, principalmente se for pizza de mussarela, e tem uma babá exclusiva – há outra na casa para cuidar do irmão, Mateus, 2. É, claro, vaidosíssima. "Ela mesma pede para refazer as luzes no cabelo quando a raiz mais escura aparece", informa a mãe, que a leva ao cabeleireiro desde os 2 anos. Também usa apliques para aumentar o volume, tanto de cabelo solto quanto de rabo-de-cavalo. Em matéria de maquiagem, prefere marcas francesas, como Lancôme e Dior. Sabe passar batom, mas pede ajuda no resto. Na infalível bolsinha, carrega um celular cor-de-rosa, um vidrinho de perfume, gloss para os lábios e um grampo. Grampo? "É para prender na roupa a faixa de miss", explica.

Concursos infantis de beleza são uma novidade relativamente recente no Brasil e estão se tornando populares, em especial na Região Sul, onde existem ao menos dez competições, dirigidas a meninas de 3 a 13 anos. "Temos um cadastro com 2 000 nomes", diz a empresária Daniela D’Avila, de Curitiba, responsável pela organização de seis concursos infantis nacionais e por levar candidatas brasileiras a competições internacionais. "O Niña Mundo, que a Natália ganhou, está na lista dos doze mais importantes." A psicanalista Isabel Khan Marin, professora da faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, faz alguns alertas. "A criança pode passar a acreditar que é a melhor em tudo e ser excluída do grupo em que convive", diz. Além disso, a miss em potencial "só vai encarar como brincadeira, como deve, se seus pais fizerem o mesmo, o que raramente acontece". Não é preciso ser especialista para perceber os riscos emocionais que uma criança corre ao ser submetida a julgamentos por critérios estéticos. Contrariando os clichês, no entanto, Natália parece uma menina perfeitamente feliz. É a mãe, Daniela, que demonstra certa dor no coração ao admitir que agora a menina chegou "ao ponto máximo" e está na hora de "dar um tempo nos concursos" – o pai ouve e sorri com o jeito de quem não acredita numa palavra. A própria Natália, à clássica pergunta sobre o que quer ser quando crescer, responde: "Quero ser igual a minha mãe e trabalhar no supermercado". E, quando o sono chega, pede: "Mãe, dá meu b-i-c-o". Ela acha que, soletrando, pessoas estranhas não vão entender que quer a chupeta – seu primeiro segredo. O segundo é que ainda toma mamadeira. Amparada por ambos, dorme como um anjinho.

 

Plástica, regime e inglês

Mauricio Gomes

PROFISSÃO MISSÓLOGO
Hazzy: "Tem sempre de fazer uma coisinha, um retoque"


As competições de beleza para crianças são uma variante dos tradicionais concursos de miss, que ressurgiram do que parecia a noite dos tempos com renovado apelo, de público e – que outra palavra poderia ser usada? – de "mídia". Para alegria, pessoal e profissional, do gaúcho Evandro Hazzy, 39 anos, 22 como "missólogo", incluindo seis meses de especialização na Venezuela, a meca universal do ramo. De sua lista de ex-alunas constam cinco detentoras do título de miss Brasil, entre elas a atual, Natália Anderle, a quem atendeu rapidamente já no caminho para o Miss Universo. Sobre a modesta performance dela, dá um veredicto definitivo: perdeu porque não fala inglês. Além do idioma, na lista de obrigatoriedades de Hazzy para a candidata a miss está a correção de todas as imperfeições possíveis e imagináveis – mas só depois dos 15 anos, quando a menina tem certeza do que quer. "Não existe mulher que nasça perfeita", afirma. "Tem sempre de fazer uma coisinha, um retoque. Graças aos avanços da tecnologia na área estética, a gente consegue atingir o ideal." Ele fala de cátedra: submeteu-se a doze procedimentos estéticos nos últimos dez anos. "Comecei afilando o nariz e, entre outras coisas, aumentei as maçãs do rosto e o queixo", conta. No momento, o missólogo cuida da formação de 35 jovens de 15 a 18 anos que planejam disputar concursos de miss no Brasil. Mais da metade gaúchas, porque "o Rio Grande do Sul é um celeiro de mulheres bonitas". Para passar no crivo de Hazzy, a candidata deve ter no mínimo 1,70 metro de altura, sempre precisa perder peso e não escapa de dois anos de aprimoramento visual e treinamento a cargo de uma equipe multidisciplinar. Não é necessário se chamar Natália, mas ajuda. Os custos variam de 15 000 a 400 000 reais só para chegar a miss Brasil. Generoso, Hazzy ensina alguns truques simples para mulheres comuns que queiram enfrentar com garbo a câmera digital. São eles: 1) descubra no espelho o lado do rosto que a favorece e esteja com ele sempre virado para a câmera ("Ninguém fica bem numa foto tirada de frente"); 2) tenha a boca ligeiramente entreaberta, como se tivesse acabado de morder um lápis, "para que o rosto fique mais harmonioso"; e 3) olhe diretamente para o centro da lente, "com sensualidade, mas sem ser vulgar". Fazer isso tudo, e ainda por cima mordendo o tal lápis imaginário, pode parecer difícil no começo, mas, qualquer erro, é só apagar.

 



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