Brasil
GUERREIROS DAS SOMBRAS
Além de grampearem
o presidente do Supremo e
autoridades federais, arapongas da Abin vigiaram
jornalistas que buscavam informações sobre o
caso

Diego Escosteguy
Orlando
Brito
 |
|
VERSÃO
MUTANTE
O diretor afastado
da Abin, Paulo Lacerda, e seu superior
imediato, o ministro Jorge Felix: a colaboração
"informal"
já chegou a 52 agentes
|
À medida
que vêm à tona detalhes da participação
dos espiões da Agência Brasileira de Inteligência
na chamada Operação Satiagraha, fica cada vez
mais evidente que esteve em curso uma ação secreta,
descontrolada e clandestina patrocinada e desenvolvida por
agentes do estado, cujos objetivos ainda não foram
devidamente esclarecidos. Há duas semanas, VEJA revelou
que conversas do presidente do Supremo Tribunal Federal, o
ministro Gilmar Mendes, foram ilegalmente interceptadas por
espiões a serviço da Abin. O diretor da agência,
Paulo Lacerda, foi afastado pelo presidente Lula, embora jurasse
que a cooperação de seus arapongas com a Polícia
Federal se limitasse a uma inocente consulta a cadastros e
banco de dados, análises de documentos e apoio logístico
aos policiais tudo informalmente. Na semana passada,
soube-se que a tal participação "informal"
empregou um contingente de 52 agentes, que custaram 250 000
reais em verbas secretas. Soube-se, também, que, além
de grampos ilegais contra autoridades do Legislativo, Executivo
e Judiciário, os arapongas tiveram acesso a dados sigilosos
da investigação e até seguiram, fotografaram
e filmaram os passos de jornalistas que estavam em busca de
informações sobre o caso.
Dida
Sampaio/AE
 |
VALE TUDO
O delegado Protógenes
Queiroz exibiu conversa
de uma jornalista gravada clandestinamente |
Os delegados da
Polícia Federal que investigam os grampos clandestinos
e as ações ilegais ocorridas ao longo da operação
já têm a lista de todos os agentes da Abin convocados
para a missão. Eles estão tentando descobrir,
por exemplo, quem entre eles foi o responsável por
uma gravação de áudio entre uma jornalista
da Folha de S. Paulo e um interlocutor não identificado.
A gravação foi exibida pelo delegado Protógenes
Queiroz, no fim do mês de maio passado, ao delegado
Paulo de Tarso Teixeira, diretor da Divisão de Combate
a Crimes Financeiros. Na fita aparece a jornalista conversando
sobre a Operação Satiagraha. Protógenes
era o chefe da operação, juntamente com o diretor
da Abin, Paulo Lacerda. De acordo com as informações
do próprio delegado Protógenes, a gravação
teria sido feita pelo pessoal da agência de inteligência
e serviria para provar que havia uma conspiração
contra ele. Os arapongas do governo já estavam "informalmente"
integrados ao caso e, ao que parece, também grampeando
tudo e todos já que não havia autorização
judicial nenhuma para ouvir conversas de jornalistas. Teixeira
não ficou com cópia da gravação,
nem soube informar se ela foi feita a partir de uma escuta
ambiental, o que é mais provável, ou de um grampo
telefônico clandestino. Qualquer que tenha sido o método,
porém, foi mais uma ilegalidade.
 |
SEM GRAMPOS
O agente Francisco Ambrósio
confirmou a participação na operação,
mas disse que apenas analisou documentos |
Não será
fácil aos policiais identificar os agentes responsáveis
pelos grampos dos telefones das autoridades em Brasília.
Desde que o caso veio a público, além de negar
o envolvimento de seu pessoal e patinar em sucessivas contradições,
a agência de inteligência também se esforça
para confundir as investigações. Na semana passada,
a revista IstoÉ apontou o araponga aposentado
Francisco Ambrósio do Nascimento como o autor das interceptações
telefônicas contra as autoridades. O espião foi
contratado para trabalhar na Operação Satiagraha,
segundo ele, para analisar documentos. Pelo menos foi isso
o que disse aos delegados que investigam o caso. Em depoimento
à CPI dos Grampos, o chefe afastado do setor de contra-inteligência
da Abin, Paulo Maurício Fortunato, afirmou que conhecia
Ambrósio, mas que não falava com ele fazia mais
de dez anos. Era mentira. Maurício havia se reunido
com Ambrósio cinco dias antes. Propôs ao agente
que, se fosse procurado pela polícia, contasse uma
versão que não comprometesse a Abin. Disse também
que a agência já tinha pistas sobre quem havia
vazado os grampos clandestinos e chegou a mostrar alguns suspeitos.
Foi também do ex-chefe a revelação de
que não eram oito, como se dizia, mas sim 52 o número
de arapongas convocados para atuar em conjunto com a Polícia
Federal. Em entrevista, Ambrósio garantiu que nada
entendia de grampos, que seu trabalho foi exclusivamente analisar
mensagens eletrônicas apreendidas pelos investigadores,
que desempenhou suas tarefas no prédio da Polícia
Federal e que foi contratado por 9.000 reais diretamente pelo
delegado Protógenes. Nada, portanto, a ver com a Abin.